Na discussão sobre a modelagem da realidade, quanto mais preciso o modelo, mais complexo é de torná-lo ainda mais preciso, de forma que a certo ponto este custo explode exponencialmente. Ainda mais: prever exatamente tudo o que irá acontecer é impossível, pois para tanto seria preciso compreender todo o universo. Isto nos leva a fatídica conclusão de que, independente do modelo, ao aplicá-lo na realidade, haverá imprecisões. Estas imprecisões são previstas e calculadas de modo a se tornarem insignificantes em processos mecânicos, como indústrias. Um acidente, seja lá por qual motivo for, se torna um interessante caso de estudo para os especialistas e gera aperfeiçoamentos na modelagem para que não ocorra novamente. Entretanto, na modelagem de comportamentos humanos, a coisa se torna um tanto mais complexa.
Isto porque cada humano é por si só único. Desta forma, só ai, imaginar um modelo capaz de prever o comportamento de algumas centenas de humano já se torna complexo o suficiente para explodir se quisermos alguma razoável capacidade de prever o futuro. Portanto, isto seria o suficiente para assumir que qualquer tipo de modelagem humana tende a ser um desperdício de tempo se não fosse pelo fato de que cada ser humano é capaz de se adaptar às suas circunstancias, de acordo com o que ele acredita. É justamente este último fato que torna não somente possível, mas objeto de estudo de vários pensadores, a modelagem do comportamento humano. Porém, percebam esta curiosa colocação que eu utilizei para explicar o mecanismo que viabiliza a modelagem do ser humano, “acreditar”.
Antes de explicar esta colocação, faremos uma breve reflexão sobre algumas considerações sobre o desenvolvimento de modelos num contexto humano. Um modelo preciso demais implica em bons resultados, mas também num gasto maior. Na realidade humana, este gasto é de tempo para a adaptação das pessoas ao modelo ou de recursos para transmitir a informação e verificar se ela foi bem executada. De modo que, embora os resultados sejam altos, o gasto para mantê-lo também o é, visto que seres humanos sempre se renovam através das gerações. Por outro lado, um modelo simples demais tem um baixo custo de execução, mas pode se tornar bastante instável devido à variação abrupta de resultados. Ainda, devemos lembrar que variação de resultados abruptos numa realidade humana pode ser o suficiente para causar revoltas, mortes ou mesmo revoluções.
Deste modo, fica fácil perceber o processo de calibragem que todo modelo de comportamento humano passa. Por um lado, é preciso que o modelo seja simples o suficiente para que as pessoas consigam compreendê-lo e executá-lo, e que o custo de fazer as pessoas entender ele seja baixo, por outro, é preciso um modelo que seja preciso o suficiente para que a variação de resultados seja precisa o suficiente de modo a não estressar a sociedade ao ponto de interromper o seu processo de continuidade. Portanto, coube aqui a palavra “acreditar”, pois quanto mais uma população acredita no modelo social ao qual ela é submetida, maior é a sua capacidade de suportar o estresse, se adaptar e esperar que uma nova onda de resultados venha de modo a permitir a continuidade da sociedade.
Manter, contudo, a credulidade de um sistema não é uma tarefa simples, tão pouco determinística. Em outras palavras, não é possível desenvolver um modelo para modelar como fazer um modelo ter um alto índice de credulidade. Isto porque, uma vez que um modelo de fazer a população acreditar em determinado modelo seja desacreditado, devido ao continuo fracasso dos modelos em questão, o modelo também perde sua credibilidade e eficácia. Isto, em tempos de globalização, em que informações de diversos modelos sociais são comparadas e verificadas a cada instante, é um processo que se torna muito veloz.
É interessante perceber que a falta de credulidade de um modelo, inclusive, é um fator que aumenta em muito a instabilidade do modelo. Por exemplo: se a pessoa não acredita naquele modelo, o que fará ela ter o esforço de fazer o que for preciso para tornar sua realidade, o que aquele modelo prevê de modo a fazê-lo funcionar bem? Ela simplesmente vai ignorá-lo, reorganizar sua realidade como bem querer, o que irá influenciar também a organização da realidade das pessoas próximas a ela. O resultado desta influência, que pode ser desarmônica ou não com o modelo de um modo geral, pode ser uma incógnita. Mas a probabilidade de um comportamento desenvolvimento sem pensar no modelo total ser harmônico com o modelo é bastante baixa, o que, de modo geral, vai gerar ainda mais instabilidade no modelo.
O contrário também é válido: uma pessoa que, ao perceber que ela pode fazer um pouco mais para reorganizar sua realidade de modo a alinhar-se com o modelo, influenciará positivamente com os resultados que o modelo prevê para a sociedade. Além disto, ela pode contribuir para que outras pessoas entendam e encontrem maneiras para se adequar ao modelo. Aqui, ainda, cabe invocar a responsabilidade que cada cidadão assume ao pertencer a um determinado modelo social. Ele pode, ou não, atender a essa responsabilidade, mas ai é uma escolha dele e é dele as consequências para os resultados. Afinal, se ele não contribui positivamente para o modelo, ele está contribuindo para sua possível degeneração.
Existem ainda muitas outras situações decorrentes dos processos de adaptação, de transição entre as gerações, de renovação de um modelo social, da tentativa de se manter certo modelo artificialmente por determinados setores sociais e saturação, mas isto será deixado para uma próxima oportunidade. Para concluir, percebam o quão importante é a noção de credulidade no desenvolvimento de um modelo social. Este efeito emerge principalmente através da capacidade das pessoas de sentir sua cultura e formatá-la de modo simples e preciso, de modo a permitir sua reprodução e sobrevivência através das gerações, além, como todo modelo, seu aperfeiçoamento e calibragem.


