quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Resumo: Projeto nacional: o dever da esperança, por Ciro Gomes.

Ciro Gomes livro Projeto Nacional Dever da Esperança

Este é um resumo bem informal, feito para uns amigos, que resolvi compartilhar aqui para posterioridade. É apenas um ponto de vista pessoal do que foi lido, pode conter erros, imprecisões, etc. A introdução do livro se dá por um lembrete de que ele foi escrito às vésperas de uma pandemia, e toda analise que se faz nele se torna crítica por causa deste fator. O prefácio é escrito por Mangabeira Uber, que anuncia que Ciro é um intelectual que dedicou a vida para conhecer novo povo e também que não podemos brincar, pois o desenvolvimento do nosso estado-nação é o único caminho real de emancipação do nosso povo. Em seguida, Ciro introduz uma análise histórica acerca do Brasil. Revelou que o Brasil já teve um projeto de país, liderado por Getúlio Vargas e seguido por outros nomes, como Juscelino Kubitschek, mas que foi interrompido pelas forças armadas. Não que as forças armadas não deram continuidade ao projeto de país, mas o fez através de financiamento externo ao invés de fazer as reformas para dar a estrutura econômica necessária para nosso país. Isto significou, portanto, um desenvolvimento sim, mas com sérios problemas sociais e uma dívida em dólar. Esta dívida, devido à mudança de política dos EUA, quando ele aumentou a taxa de juros, fez quebrar vários países latino-americanos, Brasil incluso. Foi neste período que começou a hiperinflação.

Ciro relata que sua geração venceu todas: conseguiram redemocratizar o país, conseguiram vencer a hiperinflação. No entanto, Ciro alerta: a hiperinflação brasileira não é somente uma doença da moeda, é um projeto de poder, pois perdurou 30 anos, algo não visto em outro lugar do mundo, pois conseguiu estabelecer um esquema que suga o poder de compra da maioria pobre brasileira enquanto corrige a poupança daqueles que conseguiam acumular dinheiro no banco. Ou seja: foi um mecanismo de transferência de capital, dos mais pobres para os mais ricos. Isto foi vencido, porém, foi preciso abrir mão de algumas coisas para estabilizar o país. Queimou-se reserva internacional e também fixou-se uma taxa de juros exorbitante, que devia ser temporada, mas acabou não sendo, pois a elite podre brasileira encontrou nisto o mecanismo de transferência de capital que tivera perdido anteriormente com o fim da hiperinflação. Foi demonstrado que o Brasil é um dos dez países mais desiguais do mundo, e a depender do método de avaliação, o primeiro. Ainda, essa desigualdade só piora nos governos Temer e Bolsonaro e será ainda mais agravada pela pandemia.

Isto fez o Ciro decepcionar-se com o partido que ele ajudou a criar, também fez ele sair do governo. O fez até perder a esperança na vida pública, seguindo a carreira privada e acadêmica temporariamente. Nisto tudo ele aponta o PT que, ao entrar no poder, ao invés de buscar as reformas reestruturantes necessárias para acabar com as desigualdades do país e permitir o crescimento de uma indústria forte, acabou por escolher o caminho mais fácil de negociar com o capital e continuar financiando o rentismo. O resultado disto foi que o grande capital e os pobres sentiram alívio, mas a classe média foi onerada. Por fim: o PT cooptou os líderes políticos da maioria dos partidos sociais, o que desestruturou toda a luta social durante 16 anos, e por isto o povo se tornou incapaz de organizar em torno de interesses maiores que não o próprio. Isto foi um processo despolitização promovido pelo PT enquanto estava no poder para não precisar lidar com as contradições das suas atitudes. Ciro relata isto com tristeza, e afirma nisto a nossa falta de capacidade de lidar com o bolsonarismo.

O bolsonarismo, por sua vez, continua o processo de sabotar quaisquer reformas necessárias para corrigir a grave situação do Brasil. Pelo contrário, a pretexto do neoliberalismo de goela do Paulo Guedes, que pouco conhece do Brasil e demonstra não saber o que está fazendo nesta pandemia, sendo o real uma das grandes moedas com maior desvalorização no mundo, vende nossas empresas estatais estratégicas à pretexto que de que a iniciativa privada é melhor em tudo o que faz. Esquece-se, porém, de princípios importantes como o do mercado para que isto seja verdadeiro, e, portanto, coloca pontos estratégicos da infraestrutura brasileira na mão de desconhecidos. Um exemplo disto é que o EUA não permitiu que uma das suas grandes empresas privadas de tecnologia fosse vendida para China enquanto que o Brasil permite vender a Embraer, que tem muito investimento do governo, seja vendida para o EUA. A Embraer é uma pérola nacional, pois conseguiu desenvolver boas tecnologias com pouca coisa e se destaca no mundo da aviação. Toda tecnologia seria transferida para o EUA, neste caso.

Ele então anuncia o projeto de país dele. Trata-se de baratear tudo quanto possível através do trabalho e da inteligência do povo brasileiro, enquanto buscamos aprimorar o que de melhor nós temos, e ainda buscando uma presença soberana no equilíbrio de poderes nacional, dando uma grande atenção às forças armadas. Falou-se, portanto, de 4 grandes setores: o médico, o do petro-quimico, o de defesa e o agronegócio. Também citou da necessidade de incentivar a inovação e reestruturar a construção civil. Por fim, deu sua opinião sobre as necessárias reformas tributária, educacional, previdenciária e política, demonstrando através de exemplos, dados e estudos que suas propostas são praticáveis no que há de mais moderno no mundo. Citou a necessidade do nosso povo compreender que nosso estado não é grande em áreas chaves, como saúde e educação, como os liberaróides anunciam com orgulho, mas que possuí um enorme peso na sustentação do rentismo. Também citou a necessidade de re-espiritualizarmos nosso povo, ou transformar nossos valores culturais, de um consumismo fútil e insustentável para a existência do planeta para um processo de consumo e produção responsável, que não somente se preocupa com o ato de consumo, mas com o ato político e ecológico do consumo.
 
A importância de cada setor é explicada: o médico, pois 80% dos medicamentos comprados pelo Brasil são importados que já possuem patente vencida. Isto significa que uma equipe de engenharia reversa poderia conseguir produzir no Brasil tais medicamentos, diminuindo a necessidade e a dependência do externo e valorizando nosso povo. A petro-químico: a Petrobrás é uma grande expoente tecnológica no mundo e, no entanto, vendemos petróleo para comprar seus refinados. Isto é um absurdo quando há refinarias brasileiras paradas podendo fazer este trabalho. O da defesa: é inconcebível que tecnologias chaves para defesa nacional estejam na mão de outros países. Nosso país precisa ter capacidade de dizer não para potências externas, e para isto é preciso se defender. Isto é um princípio de soberania. Lembrou dos casos de espionagem americana ao Brasil denunciados por Snowden e Julian Assange. E, por fim, o agronegócio: é o único destaque do Brasil atualmente, no entanto, está sofrendo. É preciso um forte investimento no estado orientado à fortalecer o que já é forte, pois grande parte dos insumos do agronegócio ainda hoje são importados e o governo Bolsonaro parece fazer pouco caso do agronegócio brasileiro quando faz acordos com o trumpismo puramente baseado em subserviência.

Durante todo o livro Ciro demonstra que ele não conhece estas coisas somente da boca pra fora, mas sim por uma busca profunda por respostas. Também mostra que dedicou sua vida à vida pública, e que por isto tem moral para falar sobre o que precisa ser feito. Demonstra resultados positivos nas diversas oportunidades que ele teve de agir como executor, os excelentes índices de saúde, educação e finanças públicas de Sobral. Também agradece a todos aqueles do campo acadêmico que o ajudaram a construir seu pensamento e também agradece aos seus pais, servidores públicos de baixo-clero, mas que o ensinaram a amar o país e a entender o quão revolucionário é um estado bem desenvolvido, a sua esposa, filhos, etc. Por fim reflete: se ele quisesse ser presidente do Brasil, como um dos governadores mais jovens, como aquele que ajudou o plano real, dentre diversos outros feitos políticos, ele certamente já teria o feito, porém, recusa-se, pois deseja somente ser presidente do Brasil quando o país estiver pronto para fazer as reformas necessárias para encontrar seu caminho de soberania e de processo civilizatório que será capaz de dar exemplo ao mundo e, quando isto chegar, estará pronto para dar sua vida para tanto.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Impureza e linguagem religiosa e a produção de consenso

 Introdução:
    Olá a todos. Hoje vou escrever um pouco sobre algumas peculiaridades sobre a forma como eu vejo as linguagens religiosas. Escrevo com um certo cansaço, pois atualmente estou num processo bastante quanto à questão profissional. Estou terminando uma faculdade de tecnologia, mas não consigo me enxergar trabalhando na área, embora eu esteja consigo terminar todas as cadeiras da faculdade. Acredito que isto tenha mais haver com a falta de capacidade de projetar uma identidade. De qualquer forma, creio que o próprio tempo se encarregará de resolver isto, bastando a mim ter equilíbrio suficiente para passar por isto. Portanto, todo este processo me deixa cansado até para escrever sobre minhas ideias referentes a filosofia. Mas, aproveitando um dia desocupado, vamos escrever, ressaltando porém que boa parte da experiência que eu estou usando para produzir estes textos advém do Cristianismo e sua história, porém, acredito que eles são generalizáveis.

Impureza:
    Acredito ser possível afirmar que é comum em linguagens religiosas haver a figura do “impuro”. Ou seja: são elementos, práticas, símbolos, objetos, cuja propriedade é tirar a pureza daquilo com o qual eles entram em contato. Pureza neste contexto acaba tendo um valor implícito, pois uma vez que algo é puro significa que todo o seu ser é bom, enquanto que algo impuro significa que embora aquele ser tente demonstrar somente sua bondade, há algo de mal nele. Em outras palavras, em uma sociedade é comum que as pessoas busquem demonstrar sua melhor face, enquanto que a melhor face de alguém pura representa ela toda, e é boa, a melhor face de alguém impura representa apenas parte dela, sendo a outra face, portanto, oculta e má. Assim entende-se o porquê da pureza ser valorizada em algumas culturas e também o porquê de buscar-se não misturar-se com coisas impuras.

    Entendido isto, podemos passar então para a análise do impuro. Imaginemos que existe alguma comida que, uma vez que se coma, a pessoa passe mal. Numa dada sociedade onde existe esta comida, não se sabe o porquê ela provoca este mal, só se sabe que ela faz mal. Sabe-se isto através da experimentação. Portanto, é provável que as autoridades religiosas dessa sociedade ou comidade taxará esta comida como impura. No entanto, este exemplo da comida é muito simples, pois a ciência trouxe para nós capacidade o suficiente não somente para entender o motivo desta “impureza” como também para modificá-la, se necessário, fazendo com que aquele alimento que fazia mal deixe de fazer mal. Isto seria uma espécie de processo de purificação caso alguém daquele tempo tivesse descoberto isto por acaso. Contudo, este mesmo princípio observado na comida também pode ser vista em coisas mais complexas, inclusive no comportamento.

    Quando a impureza está no plano da matéria, como, por exemplo, este da alimentação, é fácil para a ciência desvendar o porquê isto fazia mal e propor como melhorar. No entanto, é preciso lembrar que a linguagem religiosa muitas vezes é usada para construir a identidade de uma comunidade e, sendo assim, a própria linguagem religiosa é quem determina algumas funções comportamentais. Ora, como então entender o que é impuro para determinada linguagem religiosa se esta impureza está relacionada com o comportamento? Para tanto, é preciso entender o próprio espírito desta comunidade para entender o porquê ela considera determinado comportamento impuro, ou seja, maléficos para os seus membros. Ouso dizer, no entanto, que isto pode ser impossível para o método científico, pois envolve um profundo processo de relacionamento e mesmo de identificação para ser possível.

    Por fim, é necessário ressaltar que é possível encontrar este princípio da impureza em toda comunidade humana. Porém, modernamente, este termo entrou em desuso, então as pessoas simplesmente entendem comportamentos impuros como “ruins” ou “não desejáveis”, mas não conseguem construir um pensamento sistemático e objetivo para definir o porquê assim o são. Em outras palavras, a impureza existe na linguagem não dita, no conjunto de comportamentos que as pessoas eticamente sabem que é errado, mas não existe nenhuma sistematização da comunidade para oficializar aquilo como não eticamente desejável. Provavelmente isto ocorre porque se existisse, uma linguagem religiosa começaria a ser produzida e estas comunidades são construídas eticamente já para evitar a linguagem religiosa por traumas do passado. Então eles ficam neste limbo do contraditório.

Linguagem religiosa e a produção de consenso:
    Uma comunidade religiosa existe através do consenso. Seus membros concordam com o que a autoridade religiosa diz. Naturalmente, é possível imaginar que em todo consenso possa existir algum grau de dissenso, mas este dissenso nasce da diferença aleatória que cada indivíduo e tem entre si e não é o suficiente para se organizar e ir contra a verdade produzida por aquela linguagem religiosa. Também, a tendência é quanto mais tempo se passe numa comunidade religiosa, maior seja a concordância entre as partes, já que os elementos aleatórios que separam as partes se tornam cada vez menos importantes através do tempo. Esta mesma relação pode ser vista sob o ponto de vista das escrituras.

    Uma vez que um documento é escrito, há um processo de acomodação para saber se este documento será ou não aprovado pela comunidade. Isto pode demorar algumas gerações, inclusive. Porém, uma vez aprovado e o consenso assumir este documento como verdadeiro, ele fará parte da identidade da comunidade. Assim, as próximas gerações passaram a conhecê-lo como elemento normalizador da sua linguagem religiosa. Estou falando deste processo pois ele lembra-me bastante uma tecnologia chamada blockchain. Trata-se da principal tecnologia hoje em dia usada para produzir moedas virtuais e consiste de uma série de protocolos de tal modo que, uma vez que uma “verdade”, que neste contexto é uma transição econômica, seja consolidado pela rede blockchain, ou seja, por todos aqueles que colaboram na verificação se uma transição foi verdadeira, então isto nunca mais sairá da rede.

    Também é possível que aconteça alguma coisa na realidade daquele grupo que faça com que o dissenso, antes aleatório, torne-se ordenado. Neste caso, provavelmente pode ocorrer uma cisão neste grupo, fazendo existir duas correntes religiosas vindas do mesmo tronco comum. Neste caso, uma das correntes pode descobrir falsa ou simplesmente não suportar o peso da realidade, ou então pode ser que, de fato, dali surjam duas vertentes que podem se reconhecer como irmãs de fé ou podem seguir caminhos durante o tempo. No entanto, é necessário ressaltar que haverá um tronco em comum entre as duas, a menos que uma delas decida abandonar aquela tradição. Neste caso, também estará abandonado parte da sua identidade. O mesmo vale para edição: qualquer alteração no tronco comum também significa uma alteração de identidade. Por isto é tão sério adulterar qualquer texto religioso: ao se fazer isto, está se adulterando o artefato normalizador da linguagem religiosa de um povo.

Encerramento:
    Com encerro mais um texto. Hoje eu também estava pensando em escrever sobre a importância da filosofia para a formação do estado. No entanto, acho por bem encerrar esta postagem por aqui, pois estes dois temas têm a ver com religião. Numa próxima postagem abordo essa questão. Também estive pensando em escrever um texto sobre o ato do voto. Ultimamente tenho achado bem confuso votar. Quais critérios são bons ou ruins? Está tudo uma confusão e nossas autoridades parecem achar tudo isto normal. A sensação que eu tenho é que nosso país está perdendo sua capacidade de se comunicar, e com isto de produzir qualquer tipo de consenso que nos leve a algum lugar. Enfim, amigos, um abraço a todos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O povo de dois reinos e o reino de Deus

    Era uma vez uma região com um povo dividido em dois reinos. Estes reinos, pouco a pouco, começaram a odiar um ao outro e muitas brigas começaram a ocorrer. Certo dia este povo resolveu fazer o seguinte acordo: cada reino vai treinar um guerreiro seu e, em certo momento da vida destes guerreiros, eles iriam duela até a morte, e o perdedor teria seu reino escravizado pelo reino do vencedor. Isto deve acontecer a cada geração, mas o reino escravizado deve ter o direito de treinar seu próprio guerreiro. Assim, ambos começaram a treinar seus guerreiros desde crianças, para que eles tornam-se o mais fortes possíveis. Desde criança estas crianças entendiam que suas vidas só tinha um único propósito: vencer este duelo. Assim, o dia do grande duelo chegou e um dos guerreiros foi vitorioso em relação ao outro.

    Esta tradição perdurou algumas gerações até que as pessoas começaram a indagar: por que um duelo até a morte? Isto é bárbaro! Que o duelo não seja até a morte. Então assim foi feito. No entanto, algo curioso aconteceu: os guerreiros, após a derrota, não aguentavam uma vida sem propósito e em um patamar inferior de existência, a de um escravizado. Portanto, seja entregando-se aos vícios ou diretamente, suicidavam-se. Após algumas gerações, estes suicídios entristeceram a Deus. Então ele interveio surgindo para um dos perdedores e disse: a partir de hoje você não é mais derrotado, pois servirá a mim, e isto lhe trará a honra necessária para viver. Então este guerreiro, a partir de então serviu a Deus, e começou a falar do nome de Deus para o seu reino. Geração após geração este reino continuava a perder, mas eles convenciam-se mais da existência de Deus, até que um dia, um dos guerreiros venceu e bradou: esta vitória será em honra de Deus.

    Agora o outro reino passava a ser escravizado. Este reino, que ainda não conhecia a Deus, se viu escravizado por pessoas que proclamavam o seu nome. Logo perguntavam-se: o que é Deus? Mas a partir de seus primeiros guerreiros derrotados, Deus revelou-se a eles. Agora aquele outro reino começava a entender de qual Deus estava sendo falado pelo outro reino, que os escravizava. Assim ambos os reinos batalhavam em nome de Deus, mas desejando escravizar ao outro. Uns venciam, outros perdiam. Mas não havia mais suicídios. Um dia Deus falou a todos: escutem-me, acabem com este ódio, acabem com este desejo de escravizar ao outro. Sejam livres. Porém, a única fonte de alegria que aquele povo conhecia era escravizar o outro. Portanto, não deram ouvidos a Deus e continuaram com sua tradição.

    Entristecido com isto, Deus, novamente, interveio. Desta vez, porém, falou a todo povo: vocês que alegram-se em escravizar ao outro, abandonem isto alegrem-se em tornar-se meus escravos, pois em mim vocês encontrarão liberdade. Mas, a vocês que desejam continuar alegrando-se na escravização do outro, eu decido que cada um de vocês receberão leis a seguir. A cada geração descerei para julgá-los e o reino que menos seguir minhas leis se tornará escravo do outro. Portanto, está acabada esta tradição de eleição de guerreiros para o duelo. Assim a história seguiu: alguns preferindo continuar no seu reino para tornar-se escravizador, mas aceitando quando Deus os julgava a serem escravizados e outros preferindo se desvincular do seu próprio reino para submeter-se a Deus.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Buscando um herdeiro

Durante sua vida, um homem produziu uma grande fortuna. Estando perto da morte, ele não queria que esta fortuna se perdesse. Ele teve dois filhos, porém um deles morreu e o outro lidava com a vida de maneira superficial. Ao que sobrou, ele deu apenas a superfície da sua fortuna. Preocupado, falou: Oh Deus! O que farei com esta grande fortuna? Não quero que ela se perca, mas não tenho a quem delegá-la. Então Deus disse: vá até a cidade e busque por um órfão, mas não qualquer um. Busque aquele que me busca e que não se satisfaz até me encontrar. Então o homem foi a cidade em busca dos órfãos. Lá anunciou: escutem, sou enviado por Deus para saciar aqueles que o buscam. Quem tiver o vazio em seus corações apresentem-se a mim, pois eu irei saciá-los. Logo muitos homens ajuntaram-se e a cada deles este homem deu uma pequena porção da sua fortuna, que para eles já era muito. Então os homens pararam de olhar para aquele que deu e começaram a olhar para a fortuna. Alguns a guardaram satisfeitos, outros pensavam em como obter mais e outros logo começaram a usufruí-las. No entanto, um deles indagou: você é mesmo enviado de Deus? Pois se for, responda-me, o que farei com esta fortuna? Isto aqui não saciará minha alma, pois o que busco de verdade é o Deus da vida. Foi assim que aquele que buscava um herdeiro o encontrou.

sábado, 10 de outubro de 2020

Exortação político-religiosa

A relação entre igreja e política partidária é uma das coisas mais prostituídas que há atualmente. A igreja deve ser mantida pela graça, pelo espírito santo, que se revela à nós através da leitura da bíblia, enquanto que o estado deve ser mantido através do monopólio da violência garantida pela constituição federal. Uma coisa é completamente contrária à outra. Misturá-las é uma promiscuidade que certamente envergonha o verdadeiro evangelho. É bem mais digno andar entre aqueles que, não conhecendo a Deus, buscam fazer o bem, embora falhem, que andar entre aqueles que, conhecendo a Deus, cedem ao desejo pecaminoso de suas almas pela segurança garantida pelo estado. Esta segurança, que deveria ser provida por Deus, enfraquece a fé e faz com que os templos se tornem obras humanas. Logo, para eles, a obra não será mais a do espírito, e sim das suas próprias mãos, recaindo em um sistema religioso, no mal sentido da palavra, de recompensas e punições, que não oferece salvação, mas sim uma prisão. Se o povo não tem mais onde se salvar, o que fará? Este é o início do fim, pois nada do que é de Deus se sustenta através da vontade pecaminosa da humanidade. Mas sabemos que Cristo renasceu e que sua vitória é certa, que a salvação está nele, e não nas palavras dos líderes religiosos. Alegremo-nos, portanto, nas aflições, e vivamos o verdadeiro evangelho.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna

Capítulo 1:
Introdução ao livro. Alguns princípios de observação para relação instituição comunidade foram instaladas. A primeira e a segunda dizem, respectivamente, que tanto a instituição influencia a comunidade quanto a comunidade influencia a instituição, no sentido que a primeira define os atores, regras, poderes, personagens da segunda e a segunda, através das suas escolhas, definem o contexto social que permite ou não a existência da primeira. Depois, foi discutido as formas como a instituição modifica a comunidade. Três formas foram destacadas: a constitucionalista, ou projeto institucional, que enfatiza o poder do projeto institucional como forma de moldar uma comunidade. A segunda é os fatores socioeconômicos como principias moldadores, vindo da tradição de Aristóteles, em que o bem estar social e econômico são predominantes. O terceiro, o sociocultural como principais moldadores, vindo da tradição de Platão, em que os governos variam de acordo com a disposição de seus cidadãos. Por fim, anunciou-se os métodos de investigação e as áreas da Itália que serão destacadas para o estudo.

Capítulo 2:
Criar uma nova instituição não significa criar um novo governo. Como se diz na França, "Vinho velho em garrafa nova". O processo de regionalização na Itália iniciou-se, mas precisa demonstrar sua consolidação. No começo, havia uma forte polarização política entre os partidos e eleitores, mas o processo de implementar políticas regionais fez com que partes opostas tivessem que governar juntas, o que diminuiu o índice de polarização. O norte, que tinha uma tradição mais de esquerda, conseguiu se adaptar melhor ao governo regional que o sul, com tradição mais de direita. Isto é constatado pelas pesquisas, que diz que os cidadãos acham o governo regional melhor que o central, embora rejeite a ambos, e que o sul é menos entusiasmada com o governo regional que o norte, embora ainda queira que ele funcione. É nítido, no entanto, que os governos regionais conseguiram ganhar força e autonomia, segundo conceitos mostrados no livro.

Capítulo 3:
No capítulo 3 são introduzidos alguns indicadores de eficiência governamental. Além disto, investiga-se várias causas do porquê os governos do norte apresentam desempenho superior aos do sul. Entre diversas hipóteses testadas, a mais promissora é que o povo do norte tem um espírito cívico mais acentuado que o sul. Hipóteses como educação ou consenso demonstraram não ter muita relevância na eficiência do governo. Vários parágrafos são utilizados para explicar o que é uma comunidade cívica e quais evidências levam a considerar que o norte apresenta tal caracterização. Estas evidências vão desde perfil de votação, à participação em atividades associativas e consumo de informações sobre o local. O sul, por outro lado, demonstrou evidências de ter relações clientelistas. Isto é, as pessoas associam-se verticalmente e com interesses próprios em relações mais pessoais do que institucionais.

Capítulo 4:
Neste capítulo o autor se dedica a definir o que é uma comunidade cívica. Após, começa a verificar no Norte da Itália os elementos que permitem demonstrar que existe indícios de formação de comunidades cívicas na Itália. Também demonstra que outros fatores que possivelmente poderiam colaborar para uma boa democracia, como educação, riqueza ou consenso político não são de fato significantes para este objetivo, acentuando que o fator predominante para a explicação dos bons governos é a comunidade cívica. À grosso modo, uma comunidade cívica é aquela em que seus cidadãos prezam pelas instituições como forma de apoio mútuo em contraste com o pensamento clientelista, onde as relações são construídas em torno do ganho pessoal. Além disso, também foi verificado que, embora sejam cívicas, a comunidade não deixa de ser politizada e que também o clientelismo consegue subsistir em meio a instituições formais como a democracia.

Capítulo 5:
É notório a diferença cultural entre o norte e o sul. Para explicar isto, este capítulo mergulha na história medieval da Itália. Nela, descobre-se que o sul da Itália foi reinada por um dos mais modernos estados monárquicos da época, altamente verticalizado, enquanto que o norte organizou-se em comunidades independentes e mais horizontais, pois havia uma cultura dos semelhantes se ajudarem. A partir daí, nota-se que o sul havia chegado no seu limite de crescimento, enquanto que o norte encontrava caminhos para crescer mais e mais, até a chegada das pestes na Europa, assim como outras instabilidades, que fizeram o norte fragmentar-se enquanto que o sul resistia, embora tendo a influência de outros países. Porém, a ética cívica do norte sobreviveu à isto e, após a unificação e democratização da Itália, o norte conseguiu ascender rapidamente enquanto que o sul, que também manteve suas relações servis e agora chamadas de clientelistas, teve dificuldades em construir governos eficientes. É preciso salientar que, embora não seja possível afirmar que apenas uma comunidade cívica seja suficiente para construir uma boa economia, é a experiência Italiana afirma que a comunidade cívica é um fator muito forte para tanto e que uma boa economia não implica em uma comunidade cívica.

Capítulo 6:
Entendido as origens da diferenciação entre norte e sul, este capítulo dedica-se a compreender o porquê tais diferenças persistem. Para isso, utilizou-se da teoria de jogos, principalmente do dilema do prisioneiro, para demonstrar que a solução ótima de um grupo em que não haja confiança prévia é desertar. Também utilizou a formulação de estado de Hobbies para afirmar que o estado é uma solução subótima à deserção do dilema do prisioneiro, pois ele age como uma terceira parte que evita a deserção. No entanto, também o estado se torna inconfiável neste cenário. Assim, a solução ótima é a comunidade cívica, onde cria-se o que foi chamado de "capital social", que é a capacidade que as pessoas tem de confiarem umas nas outras que irão cumprir os contratos sociais estabelecidos. Por outro lado, culturas que não hajam espaço para a produção de capital social tendem a não construí-lo e, portanto, a desconfiança é continuada. Assim, compreende-se que o norte conseguiu alcançar este estágio de capital social e se estabilizar nesta solução ótima enquanto que o sul não conseguiu e se estabilizou na solução subótima. Por fim, o autor lembrou que, através da introdução de um novo regime político, foi possível alterar o perfil das pessoas e, portanto, há esperança, mas que, provavelmente, também é preciso que haja uma mudança de dentro para fora para que a melhor solução para a democracia seja atingida.

domingo, 4 de outubro de 2020

Polarização e virtualização da jornada do herói

Introdução:
    Boa tarde a todos. Na última postagem eu trouxe uma importante incorporação a minha filosofia, que é a jornada do herói. Através disto tenho condições de falar de maneira genérica certos conceitos que, de outro modo, eu não conseguia expressar com exatidão. Um deles é adoração, o qual pretendo escrever um pouco mais na próxima postagem, mas também a jornada do herói permite fazer outras análises como no campo da política, por exemplo. Hoje trago dois importantes conceitos observados por mim, que é a polarização e a virtualização da jornada do herói. Provavelmente a academia já consiga identificar estes dois conceitos e expressá-los de outra maneira, ou mesmo através da jornada do herói. No entanto, por não conhecer e por querer deixar esses conceitos registrados no meu blog, vou escrever sobre eles. Para quem quiser acessar a última postagem, o link encontra-se no fim deste texto. No mais, estou lendo um livro interessante sobre o processo de democracia na Itália. Vamos ao primeiro conceito.

Polarização da jornada do herói
    Todo indivíduo, de alguma forma, relaciona-se com uma jornada do herói. Para aqueles que já não possuem a recompensa, eles são convidados a iniciar sua jornada em busca dela, já outros a recebem por herança. Porém, embora seja falado da jornada do herói de uma maneira abstrata, isto precisa encontrar um meio de materializar-se. A depender do que cada indivíduo constrói dentro de si, ele pode encontrar diferentes formas de materializar o mundo especial. Assim, alguns podem encontrar seu mundo especial de uma forma absolutamente particular e única, outros podem encontrá-la de maneira particular, mas que se repetem várias vezes na sociedade ou, ainda, outros podem encontrá-la de maneira coletiva. Quando um mundo especial é construído de maneira coletiva é que eu chamo de um “polo” da jornada do herói. Estas polaridades não necessariamente precisam ser duais, ou seja, se há um polo norte, há outro sul, se há um positivo, há outro negativo, mas também não é incomum que seja. É possível também que dois polos se destaquem e recrutem os demais para um determinado fim.

    Isto significa que um conjunto de indivíduos acessam um mundo especial no qual eles precisam completar uma missão de maneira coletiva e, para isto, eles utilizam técnicas coletivas para alcançar este fim. Muitas vezes este polo aponta para algum indivíduo em específico como aquele que vai completar a tarefa, e todos os outros indivíduos que participam indiretamente desta jornada estão para auxiliar este indivíduo principal a completar a sua tarefa, embora cada um deles, de maneira particular, terá que fazer sua própria jornada para alcançar este fim. Ou seja: não é que os indivíduos não precisem fazer a jornada, mas a recompensa que eles conquistam é utilizada por outro, na jornada do outro, para atingir um objetivo maior que irá ser a recompensa de todo aquele grupo. De certa forma, este líder também projeta valores e aspirações que cada indivíduo utiliza na sua própria jornada como forma de buscar a sua recompensa, e isto costuma ser o critério inconsciente que faz o centro deste polo ser este líder. Isto é muito visível em movimentos políticos que tem como principal técnica de coesão o populismo.

Virtualização da jornada do herói:
    A virtualização, por sua vez, é quando se constrói um ambiente virtual que simule uma jornada do herói para que quem estiver neste ambiente possa viver a jornada sem precisar arriscar-se de maneira real. Um bom exemplo disto são os videogames, no entanto, não se limita ai, pois livros, filmes ou músicas também podem ser considerados dispositivos de virtualização da jornada. Embora uma pessoa não viva a jornada de maneira real, a experiência que ela obtém no mundo virtual pode ser aproveitável numa futura jornada real. É como se houvesse uma pessoa mais velha ensinando a uma mais nova os perigos do mundo, e, portanto, este processo de virtualizar a jornada do herói não é algo dos nossos tempos. Porém, com o avanço da tecnologia das mídias, estamos alcançando níveis de virtualização que podem ser prejudiciais à sociedade, uma vez que se transforma este processo num produto a ser consumido e não numa pedagogia a amadurecer aquele por quem passa. Afinal, numa pedagogia, aplica-se virtualizações cada vez mais próxima da realidade, até que o aluno esteja pronto para superar o mestre e enfrentar a própria realidade.

    Algo interessante a ser observado é que o próprio processo de criar virtualizações pode ser, em si, uma jornada. Quando, por exemplo, um autor precisa sair do seu mundo comum, que é cotidiano, porém insatisfatório, para embarcar no mundo especial de construir uma história, onde ele passa por muitos dramas, pensamentos de desistir, busca amigos para ajudá-lo a completar a tarefa e as pessoas do mundo comum pode não entender o porquê ele está se desgastando tanto, para então ter uma narrativa concluída e impactante para sua comunidade, então este autor passou pelas etapas da própria jornada. Isto é, inclusive, abordado no livro de Vloger. Portanto, é possível observar casos heroicos na própria indústria do entretenimento, o que, de certa forma, mesmo essa indústria tendo como principal interesse o lucro, ela precisa da matéria-prima para contar algo de verdadeiro para as pessoas, do contrário as pessoas não se interessariam. Essa matéria-prima é possivelmente a recompensa da jornada heroica de alguém ou de um grupo de pessoas.

Conclusão:
    Como foi falado na postagem anterior, se uma pessoa é chamada para determinada jornada do herói, é porque há algo ali para ser aprendido. Assim, tanto no processo de virtualização quanto no processo de polarização, há um conjunto de valores ali para ser aprendido por uma ou mais pessoas, para que, através desse aprendizado, eles se tornem pessoas melhores para a sociedade. No entanto, como falado também na postagem anterior, nem toda jornada do herói é saudável. Aqui é possível ressaltar que tanto a polarização quanto a virtualização tornam-se nocivas à sociedade quando elas tornam as pessoas distantes da realidade, seja por estarem lutando contra um outro polo de maneira autodestrutiva. Quanto a este último tópico, também pretendo escrever um dia, pois ai entra a questão do sagrado. Enfim, amigos, com isto termino mais esta postagem. Abraços a todos.

https://barnabasspenser.blogspot.com/2020/09/a-incorporacao-da-jornada-do-heroi.html

domingo, 13 de setembro de 2020

A incorporação da jornada do herói à visão dos organismos sociais

Introdução:
    Olá a todos. Hoje venho para uma postagem que venho pensando faz algum tempo, mas estive esperando terminar a leitura de uns capítulos de um livro para iniciá-la. Trata-se da incorporação da jornada do herói à visão dos organismos sociais. Para mim, isto é muito importante, pois encontrei na jornada do herói os elementos necessários para fechar uma lacuna que havia na visão dos organismos sociais, que é a questão do indivíduo. Explicando melhor, a visão iniciou-se através de um olhar macro, onde busca-se enxergar as grandes estruturas de uma sociedade, o que elas produzem, como elas se relacionam e funcionam. Por isso, sempre tive uma grande dificuldade em explicar o indivíduo, resumindo-o a aquele fazer parte de um ou mais desses organismos. Através da jornada do herói, é possível trazer uma abordagem mais completa sobre o indivíduo, desejável para completar essa visão filosófica que busco construir.

A jornada do herói:
    Trata-se de uma metalinguagem que busca estruturar as formas como as narrativas mitológicas são estruturadas para, assim, poder extrair o máximo de informações e ensinamentos delas. Desta forma, pode servir como ferramenta para auxiliar quem busca construir ou compreender narrativas, seja para si mesmo como também para a sociedade. Iniciou-se com Joseph Campbell, que rascunhou algumas etapas nas quais a maioria das narrativas tendem a passar, mas aqui estou trabalhando com uma simplificação trazida por Christopher Vogler. Para mim, em especial, a jornada do herói tipifica as fases de evolução que cada indivíduo tende a passar em busca de si mesmo baseando-se na observação de centenas de anos e histórias. No entanto, é preciso ressaltar que eu não trato a jornada do herói como uma estrutura que mapeia de maneira precisa e definitiva o desenvolvimento humano. Portanto, trata-se apenas de uma referência que tem bastante relevância e significância para mim, pois pode ser observada até mesmo nas mitologias.

   Explicando um pouco da jornada do herói em si: ela é composta, segundo o que é definido por Vogler, por dose estágios, sendo cinco do primeiro ato, quatro do segundo e três do terceiro. Os estágios são os seguintes: 1) Mundo comum, 2) Chamado à aventura, 3) Recusa do Chamado, 4) Encontro com o mentor, 5) Travessia do primeiro limiar, 6) Testes, aliados, inimigos, 7) Aproximação da caverna oculta, 8) Provação, 9) Recompensa (Apanhando a espada), 10) Caminho de volta, 11) Ressurreição,12) Retorno com o Elixir. De um modo geral, entendo que essa estrutura narra a forma como um indivíduo saí do seu mundo comum para embarcar numa aventura no “mundo especial”. Lá, ele passará por desafios tão grandes ao ponto de arriscar sua vida. Se conseguir passar vivo por estes desafios, conquistará um prêmio. Então ele poderá retornar como seu prêmio para o mundo comum e isto fará este um lugar melhor. Existem muitas formas de interpretar esta estrutura, podendo ser ela literal, metafórica, espiritual, uma mistura destas coisas, todas elas sendo igualmente válidas. Também não necessariamente encontra-se todos os elementos nesta ordem ou presentes.

Incorporação à visão dos organismos sociais:
    No segundo texto foi dado três exemplos de importantes organismos sociais para a atualidade. Um deles era a religião, cuja principal produção é a adoração. Lá também foi explicado que adoração é tudo aquilo que traz paz interna, satisfação. Em outro texto, há a generalização de que adoração é qualquer coisa que tem finalidade em si mesma. Portanto, observa-se a definição de adoração, que é a produção da religião, é definido apenas abstratamente. Assim surge a pergunta: o que é algo adorável? Respondo: adorável é a recompensa da jornada do herói. Portanto, é esta pergunta e esta resposta incorporação da jornada do herói à visão dos organismos sociais. É perceptível, no entanto, que a resposta continua sendo a nível abstrato. Uma resposta concreta disto seria um sistema de crenças e percepções específico, deixando de lado todas as demais, e assim se perderia a generalização desejada neste conceito. No entanto, é preciso explicar melhor o seguinte: o objetivo desta ser um critério para classificar o que é adorável ou não. Até porque isto é possível, já que a jornada pode ser subjetiva, assim como a recompensa. Seu objetivo, no entanto, é fornecer uma fonte de informação genérica para aqueles que desejam investigar melhor o que pode ser adorável e buscar sua própria percepção do porquê disto.

A importância da incorporação:
    Para entender a importância desta incorporação, serão ressaltadas duas coisas que foram ditas no resumo da jornada: a primeira é que o herói precisa pôr em risco sua própria vida; a segunda é que o herói retornará, se sobreviver, com sua recompensa para mundo comum, e isto tornará o mundo comum um lugar melhor. Esta segunda parte indica claramente que todo herói traz algo que beneficia os organismos de alguma maneira. Uma nova tecnologia, uma nova identidade, uma forma correta de proceder na sociedade. Sempre há um aprendizado na jornada do herói ou algo concreto que é aproveitado por todos. Portanto, esta é a fonte da inovação dos organismos sociais. Em períodos em que algum organismo social esteja falindo, são atitudes heroicas que podem trazer sobrevida ou mesmo iniciar um novo organismo social de modo que os indivíduos consigam seguir seu curso. A primeira parte indica que isto sempre será uma atividade arriscada. Este risco, na jornada, é de morte, mas essa morte pode ser interpretada de diversas maneiras, mas sempre significa algo muito custoso para o indivíduo que inicia a jornada de busca pela renovação.

Recompensa como herança:
    É possível pensar que há indivíduos que passem a vida sem precisar fazer algo muito arriscado para conseguir seu objeto de adoração. Em outras palavras, eles não precisam passar pela jornada para ter a recompensa. Ou, se precisam passar por alguma jornada, os riscos são menores. Ou seja: em vez de arriscar a própria vida, literalmente, arrisca-se uma posição de prestígio na sociedade ou algo equivalente. É possível argumentar que todo ser humano necessita passar pela jornada do herói para alcançar sua recompensa. Suponho não ser possível afirmar nem que sim e nem que não sobre isto. No entanto, acredito ser claro que seres humanos possuem mecanismos de heranças, de diversos tipos. Portanto, a afirmação de que a recompensa pode ser transmitida como herança parece ser aceitável e é mesmo reafirmada por um ou outro texto sagrado e até mesmo pelos sistemas jurídicos.

Recompensa como beneficiadora do mundo comum:

    Para compreender bem esta afirmação, é preciso lembrar que estamos falando não de uma recompensa qualquer, mas de uma recompensa digna de ser considerada como algo adorável, para então ser institucionalizada e tornar-se um organismo social ou encontrar alguma outra maneira de romper a barreira do indivíduo. É possível que haja recompensas que beneficiem somente o indivíduo e, portanto, não ao mundo comum. No entanto, não considero saudável nomear tais recompensas como heroicas e sugiro, portanto, classificá-las como psicóticas ou neuróticas. Isto porque ela é somente aplicável à aquele indivíduo em específico, com aquela neurose ou psicose em específico. É possível também que um conjunto de pessoas se reúnam em torno de alguma recompensa que não faça bem ao mundo comum, mas somente a elas. Neste caso, o mundo comum buscará meios de rejeitar esta recompensa, rejeitando-as também, por consequência. Ironicamente, pode existir recompensas que faça bem ao mundo comum, mas ele, ainda sim, rejeitá-la. Aqui é exemplo onde observa-se os riscos da jornada do herói.

Cristianismo e jornada do herói:

    Como já foi dito em outro texto, construo a visão dos organismos sociais genérica o suficiente para se adequar a outras religiões, mas específica o suficiente para conter o cristianismo. Portanto, este paragrafo faz parte deste contexto um pouco mais pessoal, e não necessariamente possa ser do interesse de quem deseja conhecer a jornada do herói ou a visão dos organismos sociais. Quando iniciei meus estudos logo surgiu-me a pergunta: qual a relação entre o cristianismo e a jornada do herói? A resposta ficou clara logo que eu percebi que a recompensa da jornada do herói nem sempre pode ser saudável. Isto implica na seguinte pergunta: o que faz um recompensa e sua jornada serem saudáveis ou não? Logo me veio duas coisas: a primeira é o compreender sua recompensa a segunda é ele estar satisfeito com ela. A jornada do herói está ai para ser trilhada por todo aquele que está insatisfeito. Portanto, é escolha de cada um segui-la ou não. Porém, o que dizer das pessoas que satisfazem com suas neuroses ou psicoses?

    Naturalmente é possível recomendar-lhes um psicólogo. No entanto, nós, cristãos, acreditamos que conhecer a bíblia e a Cristo pode fazer com que o indivíduo tenha uma consciência mais expandida e, portanto, maior capacidade de percepção que aquele que não conhece. Afinal, basta ler a bíblia para se ter relatos de toda a fragilidade ou horror que o ser humano pode alcançar, mas também dos exemplos heroicos de fé que alguns personagens bíblicos têm. Isto tudo também colabora para que tenhamos um grau de satisfação mais sofisticado para a recompensa, não aceitando, portanto, as neuroses ou psicoses, mas buscando, através da graça de Cristo, até que alcancemos uma recompensa verdadeiramente heroica. Assim sendo, ser cristão não nos isenta de termos nossa própria jornada, nossa própria cruz, de buscarmos no “mundo especial”, que para o cristianismo é o visualizamos através da inspiração de Deus, a recompensa para dar a este mundo comum, pecador, um pouco mais de evidências da bondade de Deus e auxiliá-lo na espera pela volta de Cristo. Ainda, o sacrifício de Cristo nos protege de qualquer tipo de pensamento não saudável, pois é através da graça que faremos a jornada, e se não conseguirmos, mas estarmos de consciência limpa de que fizemos o que foi possível dentro de nossos limites enquanto pecadores, então não há condenação, estamos salvos.

Conclusão:
    Ler sobre a jornada do herói foi bastante enriquecedor. Também sinto-me bastante gratificado por ter preenchido esta lacuna que havia na visão dos organismos sociais, além de registrar a relação entre a lenda do herói com o cristianismo. Aqui notei duas correções oportunas que posso fazer futuramente na visão, a primeira é que indivíduos não precisam ser organismos sociais, a segunda é que eu dei duas definições de adoração, mas nesse texto consegui fazer meio que uma arrumação nisso. Mas, talvez, um dia eu vá precisar organizar isso com mais seriedade. No mais, continuo seguindo minha vida. Estagiando, na faculdade, na igreja. Deixo abaixo os links nos quais eu cito sobre adoração. Abraço a todos e até a próxima postagem.

http://devirsocial.blogspot.com/2018/08/analise-das-autoridades-segundo.html
https://barnabasspenser.blogspot.com/2020/08/a-hierarquia-da-adoracao.html

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

A hierarquia da adoração

Introdução:
Olá amigos. Hoje escrevo com pouca motivação. Parece-me que o objetivo principal desse blog, que era simplesmente ser um acervo de pensamentos, tem se tornado fraco, pois eu ultimamente estou sentindo a necessidade de outros objetivos para escrever. No entanto, cá estou hoje fazendo um esforço para escrever acerca de algo que há tempos venho pensando: hierarquia da adoração. Sei que este assunto pode ser meio complicado, mas vou adicioná-lo, pois ele é uma consequência direta do meu conceito de adoração que eu adoto na minha filosofia da visão dos organismos sociais. Portanto, hoje dedicarei algum tempo para formalizar um pouco melhor o sentido de adoração e sua hierarquia na visão dos organismos sociais, bem como vou fazer alguns comentários adicionais aplicados ao contexto cristão.

Adoração:
Adoração é qualquer coisa cuja finalidade é si mesma. Esta definição tem uma consequência direta: é necessário ter seres humanos para dar sentido de finalidade. Portanto, adoração assim definido é algo que está diretamente ligado ao contexto humano, podendo tomar uma grande incontável quantidade de formas, podendo ser apresentada de maneira objetiva ou subjetiva, intencional ou inconsciente. Assim sendo, por exemplo, é possível que o comer se torne um ato de adoração, quando a alimentação não se restringe ao propósito dela ao corpo, mas o saborear a comida torna-se o objetivo final. Idem para andar em um carro luxuoso, por exemplo, ou exercer as diversas formas de artes.

Aplicar este conceito ao contexto cristão pode ser problemático para algumas doutrinas. No entanto, facilita-se quando assume-se a premissa de que todo ser humano nasce pecador. Isto significa que sua adoração está voltada à matéria, ele não teve o despertar espiritual para ser capaz de a Deus. Portanto, a história de amadurecimento espiritual do ser humano é a trajetória do adorar à matéria para o adorar ao espírito, que, para os cristãos, é Deus. Assim faz sentido falar de outras adorações, e em específico uma hierarquia de adorações, pois o ser humano, enquanto matéria, sempre terá a tendência de adorar a matéria, portanto, independente do quão maturo espiritualmente ele seja, ainda sim ele adorará a matéria de alguma maneira. Isto só mudará quando ele deixar de ser matéria e passar a ser espírito, então sua própria natureza mudará e ele se tornará completamente capaz de adorar a Deus.

Porém, é preciso deixar claro que, embora seja a tendência humana adorar a matéria, ainda sim isto é pecado. Porém, para mim, isto não é problema, pois Cristo sabe que somos pecadores, e, portanto, sua graça nos alcança. Quando aceitamos a Cristo, ascendemos ao seu reino, mas também cremos em seu nome como salvador e, portanto, sentaremos no trono do Pai quando deixarmos a matéria. Isto claramente está de acordo com o que foi dito acima. Naturalmente, o quanto cada ser humano puder fazer para não pecar e amadurecer, através da graça do espírito santo, o seu espírito para adorar cada vez menos às coisas materiais e cada vez mais as coisas espirituais é escolha dele fazer. Deus tem seu justo julgamento sobre todas as coisas.

Hierarquia das adorações:
A medida que existem várias formas de adoração, existem várias formas de organizá-las. Meu intuito ao falar sobre a “hierarquia das adorações” é trazer à consciência algo que já ocorre naturalmente, e talvez com o objetivo de tentar melhorar este processo e torná mais eficaz seu funcionamento e sua comunicação. Ora, se adoração é a finalidade em si mesmo, categorizar adorações por sua finalidade parece-me não ter propósito, a menos que seja no contexto religioso para classificar o que é pecado ou não. Porém, quando observa-se o contexto em que aquela adoração é produzida, daí então é possível categorizá-las de alguma maneira.

Segundo minhas observações, há algumas adorações importantes à serem mencionadas: as adorações relacionadas ao corpo, a descoberta dos sentidos. As adorações relacionadas à origem, como as festas tradicionais. As adorações relacionadas ao poder, ao status quo. As adorações relacionadas aos conhecimentos da matéria, os que detém os métodos do conhecer. As adorações relacionadas à religião, a religação com o eterno. Estas são algumas categorias que eu penso agora por cabeça, mas a importância dessa categorização, neste momento, não está em si na categoria, mas para trazer a tona a seguinte consciência: a depender da posição do indivíduo na sociedade, ele tenderá a adorar mais ou menos a alguma coisa.

Isto quer dizer que, se por exemplo, o indivíduo estiver numa posição em que seu trabalho esteja relacionado, por exemplo, a produzir sensações aos sentidos, como um cozinheiro, ou um músico, sua adoração estará na muito mais próxima dos sentidos do que uma pessoa que trabalha, por exemplo, com o desenvolvimento do conhecimento humano nas academias científicas. No entanto, há de se observar que as adorações podem se entrelaçar, quando, por exemplo, através de uma comida regional, um cozinheiro ao mesmo tempo em que está adorando ao sabor também está adorando à origem da sua terra.

Neste caso, aonde está a adoração: no sabor? Na origem? Não se sabe, o que se sabe é que o ato de saborear aquela comida é uma adoração, pois a comida está servido para além do seu objetivo fisiológico, que é nutrir. Isto leva a outra consequência: ou algo serve para adorar, ou algo serve para dar condições do ser humano adorar. Afinal, o que significa o ato da alimentação, se este ato não for um ato de adoração? Este ato significará que o ser humano está se alimentando para ter energia e assim adorar. O mesmo relaciona-se ao trabalho, ao transportar-se, à qualquer outra coisa.

No contexto cristão, isto significa que pode ser mais fácil para uma pessoa que vive no contexto de igreja ter uma vida de adoração a Deus, pois ela está no centro social desta atividade. No entanto, como sabemos que, para uma pessoa ser salva, basta que ela creia que Jesus é o salvador, significa que mesmo aquela que está longe do núcleo de adoração a Deus, por ter de adorar a outras coisas por causa do seu contexto social, ainda sim ela é salva. Cabe a ela encontrar, para seu próprio amadurecimento e através da ajuda do espírito santo, uma forma de converter aquela adoração a uma adoração a Deus, ou exercer aquela atividade não como um ato de adoração, mas como um ato de existência.

Aqui vai um lembrete: mesmo que externamente uma pessoa aparente adorar a Deus, este ato pode ser, na verdade, apenas algo que a leve para sua verdadeira adoração. Exemplo: uma pessoa que se curva para Deus, mas seu objetivo é conquistar fiéis para ganhar poder, sua verdadeira adoração.

Encerramento:
Meu objetivo ao criar um conceito de adoração tão genérico foi conseguir lidar com as religiões também de uma maneira genérica, mas conseguindo trazer as especificações necessárias para conseguir contemplar de maneira bastante precisa o cristianismo. Penso que essa conceituação pode ser importante no futuro também para que haja algum tipo de combate contra as práticas de aculturação que algumas lideranças tendem a fazer. Ou seja: para implementar o cristianismo, é preciso tirar as raízes culturais de um povo. Para mim isto não é nada razoável. Espero que um dia as religiões consigam conversar de maneira bastante tranquila entendendo a questão da hierarquia, sabendo que, no núcleo de toda religião está a busca a Deus. Afinal, imagino que seja certo o encontro de tipologias de Cristo em outras religiões. Em breve também pretendo escrever sobre dois conceitos que eu tenho visto como importantes: “a virtualização da jornada do herói” e “a polarização da jornada do herói”. Neste caso, vale até mesmo pensar em como a jornada do herói pode se encaixar com minha visão sobre os organismos sociais. Esta pode ser uma tarefa difícil, mas que talvez amadureça bastante uma coisa ou outra. Por fim, agradeço aos que chegaram aqui. Até a próxima postagem.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

A origem do herói e do vilão

Do mesmo lugar que vem os vilões também surgem os heróis. A diferença entre um e outro é que o vilão reconhece a si mesmo em seus erros, enquanto que o herói, ao cometê-los, sabe que sua verdadeira identidade está guardada por Deus, que é pai. Portanto, em sua jornada para alcançá-la, o herói não se deixa entregar por sentimentos ruins ou baixos, mas sempre olha pra cima. Independente dos monstros que o que ronda, de suas derrotas temporárias, ele busca forças para levantar-se no pai e pergunta a ele qual o caminho. O vilão, por sua vez, tenta domesticar estes monstros para usá-los, e em vez de perguntar ao pai, traça seus objetivos de acordo com sua força, que é apenas no que confia. Acha-se maior que o herói, e muitas vezes o é. Mas o pai não é o pai a toa, e sim porque sua autoridade excede a do vilão, a do herói, a de qualquer outro. O herói conhece a bondade e sabedoria do pai, sabe que seus planos são os melhores. Se preciso for, o herói entregará sua vida para que a vontade do pai seja feita. Já o vilão, por não confiar no pai, nunca conseguirá fazer um ato que não traga benefício para si. A princesa, guardada pelo pai, alegra-se em recompensar o bem. O vilão busca dominá-la através da sua força, e talvez consiga, mas ela nunca se entregará a ele. Já o herói talvez consiga completar sua jornada heroica, então a princesa se entregará a ele com prazer, o pai os abençoará e todos os erros e sofrimentos do herói se tornarão irrelevantes. Não se sabe, pois o heroísmo está justamente em ter coragem de sacrificar a si mesmo, pela vontade do pai, sem saber se a recompensa virá ou não. Mas uma coisa é certa: o vilão cairá no esquecimento enquanto que aqueles que buscam fazer a vontade do pai nunca morrerão, pelo contrário, ressuscitarão, pois é o amor do pai que guarda a verdadeira vida.

terça-feira, 26 de maio de 2020

O verdadeiro inimigo do Cristianismo

O pior inimigo de qualquer ser humano é separar-se de seus próprios princípios. Pois através dos princípios uma comunidade é construída, e, através de uma comunidade, uma nação.

O espírito bolsonarista, para mim, representa o maior inimigo de certa parcela do cristianismo, uma vez que os separa de seus próprios princípios. Aquilo que muito se ouve na igreja, Bolsonaro traí através da sua ignorância e ódio.

No entanto, eles utilizam, para justificar o comportamento do seu líder, subterfúgios de estar lutando contra o verdadeiro inimigo, um mal oculto, que só os iniciados ou iluminados podem enxergar.

Porém, esquecem-se do que representa o cristianismo: o sacrifício para a luz. Ao exporem este inimigo que os persegue à luz, são repudiados. Logo afirmam: estes não sabem a verdade. Apenas nós sabemos e não temos a capacidade revelá-la a eles.

Portanto, ao invés de sacrificar a si mesmos através da luz, escondem-se nas sombras e concentram-se naquele que pode defender sua sobrevivência: aquele que carrega consigo as sombras. Falham, deste modo, no princípio cristão, e tornam-se eles mesmos seus próprios inimigos.

domingo, 12 de abril de 2020

Identidade e símbolo segundo a visão dos organismos sociais

Introdução:
         Olá amigos. Bem vindos à mais um texto meu. Na postagem anterior falei, no final, comentei sobre "identidade". Pois bem, hoje encaro o desafio de escrever sobre identidade. Posterguei este momento porque eu suponho isto ser um conceito complexo, então eu estava esperando uma oportunidade para pensá-lo, mas ela não veio então pensarei enquanto escrevo. Anteriormente, quando eu escrevi sobre linguagem, eu comentei que ela tinha uma dimensão simbólica e outra ética. Naquela época, meu entendimento unia símbolo e identidade numa única coisa. Atualmente, contudo, entendo que ambas são coisas diferentes e que identidade, ética e símbolo não fazem parte da linguagem, mas do organismo. É sobre isto que escrevei hoje e mais algumas questões envolvendo identidade. Portanto, vamos à postagem.
Link da postagem anterior: https://barnabasspenser.blogspot.com/2020/04/complemento-visao-dos-organismos.html

Identidade e símbolo:
      Inicialmente, ao pensar sobre esta questão, eu os via como uma coisa só. No entanto, esta postagem tratará de dividi-los. Símbolo trata-se dos aspectos concretos de um organismo social. Isto significa que a dimensão simbólica de um organismo refere-se a tudo aquilo que ele precisa lidar na sua realidade material para efetivar sua comunicação e produção. Quando eu refiro-me a esta dimensão prática como símbolo, entendo de imediato que faz parte da atividade do organismo sentir sua realidade, abstraí-la através de símbolos para então poder raciocinar e estruturar sua cadeia de produção. A identidade, por outro lado, não refere-se a interação do organismo com a realidade, mas sim da sua interação consigo mesmo e com os demais organismos. Desta forma, a identidade compõe de elementos capazes de diferenciar cada organismo dos demais e definir quem ele é através do tempo e espaço.

Construtores da identidade:
     É possível observar que a construção de identidade parte de alguns elementos. O primeiro deles é a aleatoriedade. A partir do momento que um organismo interage com a realidade, há eventos aleatórios acontecendo o tempo todo. Uma vez que este evento ocorra e, através dele, um organismo é dotado de alguma singularidade, isto pode ser interpretado pelo organismo como algo a ser ignorado ou como algo a ser incorporado à sua identidade. Por exemplo: um organismo trabalha com química e descobriu algum processo que produz uma cor específica, que outros organismos tem dificuldade em acessá-la. Logo, ele tem a ideia de atribuir para si a aquela cor, incorporando-a em sua identidade. Outro exemplo: um organismo descobre uma técnica de produzir estátuas de maneira muito específica, de modo que destaca-se dos demais organismos. Logo, ele busca construir grandes estátuas e inserir aquilo na sua identidade. Naturalmente, ambos os eventos poderiam ter sido ignorados, então o organismo, ao se deparar com estes eventos, consegue incorporá-los através de alguma justificativa que relaciona-os com si.

    O segundo elemento construtor de identidade é a história. Através da história, tais elementos podem construídos através da aleatoriedade podem ser herdados através das gerações de um organismo. Estes elementos podem ser rejeitados ou aceitos pelas próximas gerações. Se rejeitados, significa que aquele organismo está perdendo indivíduos, sendo estes convertidos à algum outro organismo. Se aceitos, significa que haverá uma cultura, uma identidade, que se reproduziu e continuará por mais uma geração. Esta identidade pode ser constituída por diversas coisas, como por exemplo, rituais, sacrifícios, padrões de beleza, moda, comportamentos, etc. A identidade pode se tornar algo muito importante para um organismo, pois é através dela que se cria as condições para que os indivíduos pertencentes à ele possam reproduzir sua ética, identificar-se uns aos outros e se ajudarem mutuamente. No entanto, assim como na natureza, é possível identificar indivíduos mímicos, ou seja, que não pertencem ao organismo social, mas buscam associar-se a alguma identidade para beneficiar-se. Portanto, construir uma identidade não é algo simples. Quanto maior o organismo ou mais visível ele for em sua sociedade, maiores são as pressões que ele sofrerá para manter sua integridade.

Conclusão:
      Enfim amigos, termino mais uma postagem. Tenho a impressão de que quando a identidade torna-se algo muito importante numa sociedade, é possível observar que a rivalidade entre organismos sociais rivais pode chegar ao ponto de materializar-se um conflito físico. No entanto, para escrever sobre isto, eu precisaria de um pouco mais de contexto pra justificar essa sensação. Além do mais, modernamente, temos o estado, cuja função é organizar os organismos para que não haja um conflito a este nível. No entanto, minha preocupação, provavelmente, é acerca das questões internacionais. Não há um estado global e, portanto, um organismo, no caso país, pode exaltar tanto a sua própria identidade a ponto de deteriorar as demais. Penso eu que isto já deva ser assunto de alguma disciplina e, portanto, não discorrerei sobre isto, só deixo claro que é possível chegar a pensamentos como estes através da visão dos organismos sociais. Assim, despeço-me. Um abraço para todos.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

Complemento à visão dos organismos sociais: não iniciados, filosofia e arte.

Introdução:
    Olá a todos. Hoje trago para vocês um complemento da construção que venho fazendo chamada organismos sociais, os conceitos de não-iniciados, filosofia e arte. Acredito que entender como estes elementos são identificados dentro da visão dos organismos sociais pode ser algo bastante esclarecedor e definidor, resultando numa melhor compreensão de sociedade. Além disto, também volta a mostrar a capacidade dessa construção de conceituar grandes temas humanos de maneira consistente, bem definida, e geral o suficiente para se adequar as diversas transformações temporárias que ocorrem nas sociedades. Lembrando da estrutura básica dos organismos sociais, há uma autoridade, que exerce uma linguagem para efetivar uma produção. Aos que desejam obter a leitura inicial dos organismos sociais, aqui estão os links dos três textos que definem a estrutura básica:
http://devirsocial.blogspot.com/2018/08/linguagem-dos-agentes-sociais.html
http://devirsocial.blogspot.com/2018/08/analise-das-autoridades-segundo.html
https://barnabasspenser.blogspot.com/2018/08/a-relacao-do-individuo-com-verdade.html

Não iniciados:
    Aqui entenderemos não iniciados como todos aqueles que não fazem parte de algum organismo social. Isto significa que todos os indivíduos são não iniciados para algum organismo social, pois assumiremos que é impossível um indivíduo fazer parte de todos os organismos sociais ao mesmo tempo. No entanto, é possível que ele seja iniciado em mais de um organismo social ao mesmo tempo, e isto é uma característica importante a ser notada, pois, para mim, para que as futuras sociedades sejam saudáveis elas devem constituir-se de indivíduos que sejam iniciados pelo menos nos três principais organismos sociais citados no texto sobre a análise das autoridades: a política, a ciência e a religião. Entende-se que o processo de iniciação política é pedir votos, o da ciência é produzir algo com o método científico, o da religião é aceitar algum tipo de fé.

    O ser humano nasce não iniciado. Isto significa que é necessário um esforço das autoridades para iniciá-los em seus organismos sociais. Algumas vezes isto acontece de maneira natural, pois os genitores introduzem sua prole ao organismo através de um processo hereditário. No entanto, é uma preocupação válida das autoridades desenvolver formas de alcançar novas pessoas. Neste sentido, a autoridade busca usar todo o potencial da sua linguagem, demonstrando que sua produção é benéfica tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. Desta forma, quanto mais pessoas envolvidas naquele organismo, mais forte e relevante socialmente ele se torna. Isto pode chegar ao ponto de tornar-se uma questão de sobrevivência. Portanto, a noção de que existe os não iniciados implica na importância da autoridade entender da necessidade de tornar sua produção útil para a sociedade.

    Para algumas pessoas pode parecer absurdo algum tipo de organismo social deixar de existir, principalmente tratando-se dos três citados anteriormente. No entanto, sociedades podem reduzir-se à, por exemplo, ignorar a ciência, de modo que seu governo não busque sustentar seus mestres de doutores. Ou, por outro lado, a religião pode ser suprimida ou ignorada, fazendo o estado buscar tomar controle completo dos processos de identidade do povo ou deixar este processo alienado pelo consumo. Ainda, o próprio estado democrático de direito pode morrer, constituindo, portanto, um retrocesso social, uma vez que toda configuração dos organismos sociais de destituí retrocedendo aos modelos sociais já superados. Portanto, é necessário que as autoridades sempre tenham cuidado em tornar sua linguagem acessível, divugável, mas não ao ponto da sua identidade ser descaracterizada, ou seja: sem que sua produção, autoridade ou linguagem sejam perdidas.

Filosofia:
    A visão dos organismos sociais entende a filosofia como um meta processo. Isto significa que ela é um processo que ocorre sobre o processo. Ela é a produção que ocorre sobre a produção, a linguagem que ocorre sobre a linguagem, a autoridade que ocorre sobre a autoridade. Embora seja possível considerar que sua produção, linguagem e autoridade existam, eles meta existem e, portanto, ela não é constituída um organismo social. Por outro lado, todo organismo social possuí alguma filosofia, e as filosofias podem conversar entre si, influenciando-se, alterando-se. Qualquer um pode ser iniciado à filosofia, basta iniciar-se à reflexão. No entanto, nem todos o são e seguem, portanto, o fluxo do ou dos organismos sociais aos quais eles pertencem.

    A própria visão dos organismos sociais é uma filosofia, inclusive este conceito de filosofia. Cada autor filosófico tem o direito de ter seu próprio conceito, ele é autoridade sobre si mesmo e os outros podem ou não aceitar suas premissas e conclusões. Na religião, política, ciência, também há filosofia. De uma maneira geral, filosofias são premissas. O que difere a premissa filosófica da fé é a adoração: a filosofia, por definição da visão filosófica deste texto, não é capaz de produzir adoração. Na política, a premissa constitucional rege a forma como se organiza as leis. Já na ciência, estabelece como o método científico é constituído. Filosofias são estabelecidas através de consenso e sua diversidade é mantida por aqueles que respeitam e admiram as possibilidades de ser humano.

Arte:
    Durante o texto no qual foi analisado as autoridades, foi comentado que a religião tem como produção a adoração. Isto pode ser um pouco confuso, mas é preciso lembrar que, na visão dos organismos sociais, adoração é tudo aquilo que tem finalidade em si mesmo, e a finalidade da religião é conectar o ser humano à dimensão eterna do espírito. Por ser espiritual, esta conexão não pode ter uma produção material, portanto, sua produção é uma produção espiritual. De todas as coisas que são produzidas pelos organismos, a mais não material de todas é a adoração, pois é neste estado que o ser humano contenta-se somente com aquilo que ele pode adorar, e isto não precisa ser algo físico, mas tão somente uma fé.  entanto, é preciso considerar que a análise das autoridades feitas pelo texto é levando em consideração um mundo ideal. Na prática é possível, por exemplo, que políticos sejam adorados, de modo que as pessoas deem suas próprias vidas em nome de figuras com localização no tempo e espaço. Ou seja, em muitos casos presencia-se a adoração de elementos    localizados no tempo e espaço, ou mesmo materiais.

    Isto foi dito porque para a visão dos organismos sociais, a arte é a materialização da adoração. Isto significa que aonde haja adoração, há arte sendo manifesta, de alguma forma. Mesmo que o espírito não seja material, o ser humano o é. E a matéria do ser humano expressa a adoração que ocorre em seu espírito de alguma forma, ele sempre vai encontrar uma maneira. Esta forma é a arte. A arte foi produzida de diversas maneiras durante a história da humanidade, e em todas elas é possível observar algum senso de finalidade em si, constituindo-se, portando, como uma adoração. Toda arte, por ser matéria, tem uma identidade localizada no tempo e no espaço. No entanto, é possível observar elementos de adoração que são transcendentais em algumas delas, nas outras vezes ela traduz o “espírito” daquela época, demonstrando a maturidade, os sentimentos e os valores da humanidade.

Conclusão:
    Pois bem amigos, este curto texto traz três conceitos importantes para a “visão” ou filosofia dos organismos sociais. Sinceramente, estou com vontade de gravar vídeos explicando essa filosofia e divulgar para amigos para ver se consigo mais críticas. Ademais, também vejo como importante eu falar sobre “identidade” um dia, e estruturá-la na tríade da moral e ética. Também quero entender o significado dessas tríades. Parece que minha filosofia é cheia de tríades. Provavelmente escrevei sobre identidade quando escrever sobre estas tais tríades. Ou então também tratarei de entender de maneira mais profunda as implicâncias da identidade numa sociedade, e em como um tipo de identidade (que se relaciona com o organismo social como um todo) afeta outros tipos de identidade. Depois desta enrolação, amigos, finalizo esta postagem. Abraço a todos.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Minha contribuição à Cristo:

    Senhor Deus, tenho caído no engano de que tu tenhas botado algo especial em mim, e, portanto, sinto medo de morrer. Sim, meu Deus, sei que é engano, pois tu, senhor, és dono de todas as coisas, e se tem algo de especial que tu botaste em mim, este algo foi teu filho, Cristo Jesus. Não nego, meu Deus, que tu podes ter colocado algo em mim. Mas se foi isto, quem sou eu para ter medo de morrer? Se tu pusestes em mim, porás em outro, se assim for necessário, para que teu plano de amor para nossa humanidade se concretize.
    Também, meu Deus, busquei te conhecer. Até mesmo cometi pecados, para buscar-te. Pequei, e perguntei: por que isto é pecado, meu Deus? Não compreendo, e ainda não te conheço. Revela-te a mim. E tu te revelaste, e me demonstrasse, cada pecado que eu cometia, cada pequena parte de mim que morria, era algo a mais teu que nascia dentro de mim. Observo outras pessoas, parece-me que algumas aprendem a confiar em ti, entregam-se com mais facilidade à morte, sem precisar pecar contra ti. Não tive ninguém, senhor, em que eu confiasse, e que me ensinasse, mas tenho tua misericórdia, e teu amor, e tua graça, e isto me basta.
    Escrevo estas coisas, meu Senhor, pois talvez sejam elas aquelas que tu puseste dentro de mim, e se assim for, tua vontade foi satisfeita. Ainda se não forem da tua vontade estas coisas que eu escrevo, é da tua vontade que eu honre o nome do teu Filho, reconhecendo-o e declarando-o como meu salvador. Assim estou fazendo, e anunciando para todos que lerem: ele é a vida eterna. Meu Deus, busquei viver muitas coisas, para aprender, para conhecer-te. Hoje, todas elas são sem gosto. Realmente és o sal do mundo, Cristo. És a luz, pois, do contrário, tudo não tem significado. Devo confiar em ti, louvar a ti, adorar a ti, pois só tu és a vida eterna.
    Meu senhor! Tanto percorri pra te conhecer. Parece-me, no entanto, que eu estou no mesmo lugar de onde partir. Parece que minha vida não mudou, continuo com os mesmos medos, mesmos desejos, mas agora sei de uma coisa: eu te conheço, meu Deus, e isto mudará tudo! Que minha alma não se entristeça mais, que eu seja capaz de sentir sabor no teu louvor. Que eu seja forte para esperar o que tens preparado para mim, que eu seja sábio para fazer aquilo que pusestes sobre minha responsabilidade. Oh, sim, meu Deus! Tu me capacitas. Certamente confio na tua capacitação, e temo em não atender às tuas expectativas. Que o meu temor me proteja de perder o que tens de precioso para mim.
    Posso ainda cometer pecados, erros do passados, ou mesmo pensamentos impuros, mas sei que teu perdão me alcança, e tua graça me fortalece. Creio que vai chegar que meus pecados contra ti serão tão pequenos que nunca sairão da minha cabeça, e mesmo um dia que eu não mais pecarei, que será quando eu terei meu corpo eternizado pela glória. No entanto, mesmo sabendo que tu me perdoas, senhor, eu faço meu melhor, pois sei que tu sondas meu coração e que teu julgamento é justo e amoroso. Oh, senhor Deus, que eu seja merecedor de teus galardões grandiosos, pois que recompensa maior eu poderia querer? Sei que são justos e infinitos, pois infinito é teu poder. Tudo nesta terra há de virar pó, mas teu nome é eterno.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Oração de pertencimento à Deus

Meu Deus, faço a ti esta oração como reconhecimento de que és tudo o que eu preciso.
Enquanto eu puder abrir a minha boca e te adorar, oh Senhor, sei que estarei bem.
As ilusões do mundo me atacam, o inimigo tenta me convencer de que não és suficiente,
Mas eu bem sei, meu Deus, que estas coisas são ilusões. Sei que tu és o real.

Tudo o que eu preciso é te adorar, e tudo mais é consequência disto.
Se eu trabalho, trabalho com os dons e recursos que me deste, meu Deus,
E sei que meu trabalho tem como objetivo minha manutenção, minha alimentação,
Para assim eu poder adorar-te, meu Senhor, e renovar minhas forças e minha vida.

Se eu me relaciono com pessoas, faço isto para trocar informações, conhecer mais da vida,
Mas sabendo que a única e verdadeira fonte da vida és Tu, pois todo resto são apenas réplicas.
Muitas pessoas conversas, mas a conversa que eu preciso é a que eu tenho contigo, meu Deus.
Sei que cometo pecados, mas teu perdão me acompanha e tua bondade me guiará ao teu caminho.

Se me caso, meu Deus, é para que meu matrimônio seja um ato de adoração a ti.
Que meu casamento seja um reflexo do teu amor, que se materializa na forma de filhos.
Que meus filhos testemunhem o amor que tenho por ti, e que também façam parte da tua eternidade.
Oh, meu Deus, qualquer problema é tão pequeno perto da tua grandeza. Como é bom fazer parte de ti!

sábado, 25 de janeiro de 2020

Poder implícito e explícito


Introdução:
    Olá a todos. Faz mais de um ano que eu não escrevo para este blog. Devo admitir que foi um período de bastante amadurecimento e de reavaliação sobre todo meu trabalho intelectual exercido através deste blog e sua relevância. Ainda não sou capaz de assumir um posicionamento firme acerca de várias questões, no entanto, sei que escrever e continuar a desenvolver meus pensamentos fazem parte do processo de amadurecimento. Em especial, torna-se cada vez mais clara a necessidade de me abrir num processo de construção mutua para que, através disto, aquilo que eu fale tenha um significado para as pessoas. Encerrado esta pequena explicação, vamos à postagem de hoje, que se trata de uma conceituação importante para a estrutura do meu pensamento aonde eu analiso diferentes estruturas de poder e sua relação com a política.

Resumo:
    A ideia principal desta postagem é estruturar duas formas de poder: o poder explícito e o poder implícito. O primeiro relaciona-se com o poder obtido através do místico ou do sobrenatural, podendo estes dois serem ou não fatores integrantes da realidade ou apenas mecanismos desconhecidos para a maioria das pessoas. Já o segundo relaciona-se com o poder obtido através do acordado e do racionalizado, no qual há um método bem estabelecido e aceito por todos que se submetem à ele. Através da conceituação destes dois tipos de poder, é possível relacioná-los como uma posição natural da esquerda e da direita política. Visto que nunca defini no meu blog o que eu penso ser esquerda ou direita para a política, também farei isto nesta postagem. A seguir, buscarei argumentar que não existe um sistema que funcione somente através de um tipo de poder, concluindo que para que a sociedade seja saudável é necessário haja uma mescla entre eles, pois em ambos há pontos negativos e positivos para determinado contexto histórico e tecnológico.

Poder:
    Antes de falar acerca dos tipos de poderes, será necessário definir poder. Aqui entendo poder como a capacidade de decidir, entre todas as possibilidades da realidade, aquela desejada. Esta definição eu li uma vez em um artigo do qual eu lembro pouco, mas lembro-me que ela foi cunhada pelo Foucalt. Não sei se estou sendo preciso, mas esta definição me satisfaz, uma vez que aquele que detém o poder tem o direito de decidir, enquanto que aquele que não detém o poder se torna submisso ao decidido. Obviamente, todos tem algum grau de poder se levarmos em consideração até mesmo o ato de alimentar-se é uma escolha. No entanto, torna-se óbvio que alguns são mais poderosos que outros dado que as decisões deles impossibilitam as decisões de outros.

Poder implícito:
    O poder implícito é definido como aquele que é construído através do místico ou do sobrenatural. Em outras palavras, este tipo de poder não tem interesse em buscar as explicações naturais ou racionais para sua existência, seja por não acreditar ser capaz de encontrar explicação além da sobrenatural, seja por falta de interesse, ou mesmo porque se satisfaça com as coisas sendo como são. Este tipo de poder precisa ser construído através de relações dinâmicas, visto que, uma vez que ele não é explicitado e determinado em nenhum lugar, ele é volátil. Assim, observa-se este tipo de poder em relações familiares, por exemplo, na qual os anciões transmitem sua “benção” e, portanto, a capacidade, ou ensinam, através da prática, a como efetivar seu poder. Portanto, todos aqueles alcançados pela benção ou que tiverem um convívio prático entendem, mesmo que de maneira sobrenatural ou inconsciente, como exercer aquele poder. Aqueles que, por outro lado, não são expostos a tais vivências, apresentam dificuldade ou mesmo tornam-se incapazes de exercê-lo.

Poder explícito:
    O poder explícito é definido como aquele que é construído através do acordado, do racionalizado. Assim, para exercer este tipo de poder é necessário que haja um acordo prévio, uma racionalização, que define os termos do contrato da relação do poder. Uma vez estabelecido tais termos, então as relações de poder estarão bem definidas, já cada parte do acordo compreende o poder que corresponde ou não a si. Desta forma, a própria noção de poder é limitada pelo acordo, uma vez que tudo é explicitado. Assim, observa-se que este tipo de poder tem uma relação mais estática, uma vez que ele só pode ser modificado por situações em que ele mesmo prevê sua própria modificação. Além disto, este tipo de poder também preza pela documentação, já que seu objetivo é validar o acordo perante à todos. Portanto, observa-se que este poder tende a ser construído através da impessoalidade.

Esquerda e Direita:
    Sabe-se que essa nomenclatura vem desde a revolução francesa. Também não lembro com precisão acerca deste conceito, mas lembro-me que quem desejava um estado que tomasse decisões que privilegiassem a população em detrimento da elite sentavam-se à esquerda, já quem desejava que o estado tomasse decisões que privilegiassem a elite em detrimento à população sentava-se a direita. Afinal, por que é sempre necessário que o estado privilegie uma classe em detrimento da outra? Porque a matéria é limitada e, portanto, ou se concentra toda matéria em alguns ou se distribui a matéria para muitos. Para os que recebiam a concentração antes, se distribuir, eles perdem. E para os que recebiam a distribuição antes, estes perdem. Portanto, sempre alguém ganha ou perde a depender de qual escolha o estado estabelece. É preciso observar, portanto, que só faz sentindo falar de esquerda ou direita quando falamos do estado, que obtém seus recursos através dos impostos e gasta-os de acordo com seu planejamento político e suas leis.

Estado como uma estrutura explícita:
    O último passo para relacionar estes tipo de poder com as políticas de estado é justamente entender o estado. Em um dos meus textos eu já defini o estado em termos da linguagem dos organismos sociais. Para este texto, basta saber que o estado é uma estrutura explícita de poder. Portanto, necessariamente ele parte de um acordo, normalmente as constituições federais dos respectivos países, e limita naturalmente o poder de seus indivíduos. No entanto, embora seja uma estrutura explícita, isto não significa que não haja espaço para o poder implícito na estrutura do estado. No entanto, este poder é limitado pelo estado, ou seja, há tanto poder implícito quanto o estado permitir. Há ainda de se observar que se o estado é uma estrutura explícita, o não-estado é uma estrutura implícita. Portanto, sistemas sociais que não são algum tipo de estado são estruturas de poder implícita. Acredito ser possível exemplificar o monarquismo após uma reflexão superficial.

Poder implícito como natural da direita:
    Visto que o poder implícito é mais dinâmico, isto é, responde mais rápido às mudanças uma vez que não necessita de formalizar seu processo de atuação através de acordos, é natural que a direita seja melhor acomoda por ele. Afinal, se há um tipo de produção ao qual uma elite é responsável, e não toda a população, então é desejo desta elite que o estado não se interfira em suas responsabilidades para que ela continue sendo elite. Portanto, é possível afirmar que o poder implícito tem um caráter elitizante ou mesmo excludente, afinal, se todos tivessem acesso à tal poder, ele seria explícito, mesmo que inconsciente. Além disto, o poder implícito tem outra característica interessante que também é compartilhado pela direita: ele está mais perto da natureza animal do ser humano que o poder explícito. Isto porque não é necessário explicar aquilo que é implícito, sendo a fonte de tal explicação a própria natureza.

Poder explícito como natural da esquerda:
    Visto que o poder explícito é mais estático, ou seja, é necessário que seja produzido acordos para a sua efetivação, então é natural que a esquerda seja melhor acomodada por ele. Diferente da direita, que deseja construir uma elite, a esquerda deseja construir um povo. No entanto, mover um povo é mais difícil que mover uma elite e, além disto, todo este povo precisa estar orientado da mesma forma, pois do contrário a unidade é quebrada e o que antes era pra ser um todo, agora torna-se parte e, portanto, pode ou não haver um processo de elitização. Para, no entanto, haver a construção de uma unidade, é preciso um acordo, ou seja, a explicitação de algo. É através desta linha de raciocínio que eu afirmo que o poder explícito é natural à esquerda. É interessante observar que, mesmo que no acordo explicitado possa ter pessoas com diferentes responsabilidades, no geral, se todos envolvidos no processo concordam com ele é porque o processo tende a ser benéfico a todos. Assim a visão da esquerda acaba sendo mais inclusivo, pois ela busca conceber uma concepção de realidade para atender o maior número de pessoas, incluindo-as neste acordo e tornando o acordo mais forte como consequência.

Estado de extrema direita:
    O perigo de haver um estado excessivamente de direita são dois: o primeiro é um poder implícito qualquer se tornar tão poderoso quanto o estado, ao ponto do próprio estado ser uma ameaça para este poder. Assim, há o perigo deste poder querer ele mesmo tornar-se um estado, o que é uma contradição, e isto implica em estados corruptos. O segundo é o de que haja tantos poderes implícitos atuando num estado que o estado em si não consiga organizar os poderes e orientá-los à um objetivo benéfico a todos. As consequências disto é que mesmo que um grupo de poderes se unam e se chamem de estado, este estado não pode contribuir em nada para estes poderes individualmente, não podendo, portanto, articulá-los para proteger de inimigos externos ou mesmo para impedir que o primeiro caso aconteça. Em outras palavras, se construirá um estado sem soberania, a mercê dos estados fortes que o colonizam.

Estado de extrema esquerda:
    O perigo de haver um estado excessivamente de esquerda são dois: o primeiro é geopolítico, pois como tudo é explicitado, as questões sensíveis como planejamento econômico podem se tornar muito expostas, dando oportunidade aos outros países de montarem estratégia para minar um possível crescimento de um país concorrente. Além disto, também por este mesmo motivo, as decisões acabam por ser mais lentas, fazendo o país responder mais devagar as questões geopolíticas. O segundo trata-se acerca de acordos que são feitos, mas não são respeitados. Desta forma, combina-se uma coisa, mas se faz outra, e, portanto, o resultado alcançado não acontece de acordo com o planejado pelos autores daquele acordo, trazendo, como consequência, privilégios para uns, obstáculos para outros. Além disto, também gasta-se recursos ensinando os acordos explicitados para as próximas gerações, e quando isto falha, também há o cenário em que os acordos não são respeitados.

O yin-yang dos poderes:
    O poder explícito e implícito comportam-se como yin-yang. Ou seja: é impossível haver um deles puramente. Sempre que há um, há outro. Provo: se o poder implícito precisa comunicar qualquer coisa ao próximo, ele faz uso da linguagem. No entanto, a linguagem é a explicitação de algo, e, portanto, no implícito há o explícito, mesmo que esse explícito seja restringido à algumas pessoas. Já no explícito, é preciso considerar que a realidade não é estática, ela transforma-se através do tempo. Portanto, toda nova transformação que não foi coberta por uma linguagem ou por um acordo torna-se necessariamente algo implícito. Com o tempo, deste implícito pode nascer um poder, que também será implícito. Naturalmente, é possível considerar que aqueles que fazem acordo ou constroem a linguagem não estão o tempo todo atualizando-se para cada transformação, portanto, a tendencia é sempre haver algo implícito em qualquer realidade. Assim, há sempre algo implícito em todo poder explícito. Através desta linha de raciocínio, conceber uma sociedade construída apenas por um tipo de poder torna-se impossível.

Conclusão:
    O objetivo deste texto foi lançar as bases teóricas para a análise dos tipos de poderes que atuam em uma sociedade. Esta base teórica é importante para, além de conseguir explicar o o que acontece, construir um conjunto de significados que, uma vez aceitos como verdadeiros, impeçam a construção de outro conjunto de significados que não tenham sentido ou sejam paradoxais. Acredito que através da consciência sobre quais poderes constituem uma sociedade, quem exerce qual e a relação pessoal de cada indivíduo com cada um desses poderes pode ser um fator importante para a coerência de uma nação. Assim, uma nação mais coerente é também uma nação mais soberana, pois será capaz de organizar suas relações internas e externas para construir algo de valor em nosso planeta.