domingo, 13 de setembro de 2020

A incorporação da jornada do herói à visão dos organismos sociais

Introdução:
    Olá a todos. Hoje venho para uma postagem que venho pensando faz algum tempo, mas estive esperando terminar a leitura de uns capítulos de um livro para iniciá-la. Trata-se da incorporação da jornada do herói à visão dos organismos sociais. Para mim, isto é muito importante, pois encontrei na jornada do herói os elementos necessários para fechar uma lacuna que havia na visão dos organismos sociais, que é a questão do indivíduo. Explicando melhor, a visão iniciou-se através de um olhar macro, onde busca-se enxergar as grandes estruturas de uma sociedade, o que elas produzem, como elas se relacionam e funcionam. Por isso, sempre tive uma grande dificuldade em explicar o indivíduo, resumindo-o a aquele fazer parte de um ou mais desses organismos. Através da jornada do herói, é possível trazer uma abordagem mais completa sobre o indivíduo, desejável para completar essa visão filosófica que busco construir.

A jornada do herói:
    Trata-se de uma metalinguagem que busca estruturar as formas como as narrativas mitológicas são estruturadas para, assim, poder extrair o máximo de informações e ensinamentos delas. Desta forma, pode servir como ferramenta para auxiliar quem busca construir ou compreender narrativas, seja para si mesmo como também para a sociedade. Iniciou-se com Joseph Campbell, que rascunhou algumas etapas nas quais a maioria das narrativas tendem a passar, mas aqui estou trabalhando com uma simplificação trazida por Christopher Vogler. Para mim, em especial, a jornada do herói tipifica as fases de evolução que cada indivíduo tende a passar em busca de si mesmo baseando-se na observação de centenas de anos e histórias. No entanto, é preciso ressaltar que eu não trato a jornada do herói como uma estrutura que mapeia de maneira precisa e definitiva o desenvolvimento humano. Portanto, trata-se apenas de uma referência que tem bastante relevância e significância para mim, pois pode ser observada até mesmo nas mitologias.

   Explicando um pouco da jornada do herói em si: ela é composta, segundo o que é definido por Vogler, por dose estágios, sendo cinco do primeiro ato, quatro do segundo e três do terceiro. Os estágios são os seguintes: 1) Mundo comum, 2) Chamado à aventura, 3) Recusa do Chamado, 4) Encontro com o mentor, 5) Travessia do primeiro limiar, 6) Testes, aliados, inimigos, 7) Aproximação da caverna oculta, 8) Provação, 9) Recompensa (Apanhando a espada), 10) Caminho de volta, 11) Ressurreição,12) Retorno com o Elixir. De um modo geral, entendo que essa estrutura narra a forma como um indivíduo saí do seu mundo comum para embarcar numa aventura no “mundo especial”. Lá, ele passará por desafios tão grandes ao ponto de arriscar sua vida. Se conseguir passar vivo por estes desafios, conquistará um prêmio. Então ele poderá retornar como seu prêmio para o mundo comum e isto fará este um lugar melhor. Existem muitas formas de interpretar esta estrutura, podendo ser ela literal, metafórica, espiritual, uma mistura destas coisas, todas elas sendo igualmente válidas. Também não necessariamente encontra-se todos os elementos nesta ordem ou presentes.

Incorporação à visão dos organismos sociais:
    No segundo texto foi dado três exemplos de importantes organismos sociais para a atualidade. Um deles era a religião, cuja principal produção é a adoração. Lá também foi explicado que adoração é tudo aquilo que traz paz interna, satisfação. Em outro texto, há a generalização de que adoração é qualquer coisa que tem finalidade em si mesma. Portanto, observa-se a definição de adoração, que é a produção da religião, é definido apenas abstratamente. Assim surge a pergunta: o que é algo adorável? Respondo: adorável é a recompensa da jornada do herói. Portanto, é esta pergunta e esta resposta incorporação da jornada do herói à visão dos organismos sociais. É perceptível, no entanto, que a resposta continua sendo a nível abstrato. Uma resposta concreta disto seria um sistema de crenças e percepções específico, deixando de lado todas as demais, e assim se perderia a generalização desejada neste conceito. No entanto, é preciso explicar melhor o seguinte: o objetivo desta ser um critério para classificar o que é adorável ou não. Até porque isto é possível, já que a jornada pode ser subjetiva, assim como a recompensa. Seu objetivo, no entanto, é fornecer uma fonte de informação genérica para aqueles que desejam investigar melhor o que pode ser adorável e buscar sua própria percepção do porquê disto.

A importância da incorporação:
    Para entender a importância desta incorporação, serão ressaltadas duas coisas que foram ditas no resumo da jornada: a primeira é que o herói precisa pôr em risco sua própria vida; a segunda é que o herói retornará, se sobreviver, com sua recompensa para mundo comum, e isto tornará o mundo comum um lugar melhor. Esta segunda parte indica claramente que todo herói traz algo que beneficia os organismos de alguma maneira. Uma nova tecnologia, uma nova identidade, uma forma correta de proceder na sociedade. Sempre há um aprendizado na jornada do herói ou algo concreto que é aproveitado por todos. Portanto, esta é a fonte da inovação dos organismos sociais. Em períodos em que algum organismo social esteja falindo, são atitudes heroicas que podem trazer sobrevida ou mesmo iniciar um novo organismo social de modo que os indivíduos consigam seguir seu curso. A primeira parte indica que isto sempre será uma atividade arriscada. Este risco, na jornada, é de morte, mas essa morte pode ser interpretada de diversas maneiras, mas sempre significa algo muito custoso para o indivíduo que inicia a jornada de busca pela renovação.

Recompensa como herança:
    É possível pensar que há indivíduos que passem a vida sem precisar fazer algo muito arriscado para conseguir seu objeto de adoração. Em outras palavras, eles não precisam passar pela jornada para ter a recompensa. Ou, se precisam passar por alguma jornada, os riscos são menores. Ou seja: em vez de arriscar a própria vida, literalmente, arrisca-se uma posição de prestígio na sociedade ou algo equivalente. É possível argumentar que todo ser humano necessita passar pela jornada do herói para alcançar sua recompensa. Suponho não ser possível afirmar nem que sim e nem que não sobre isto. No entanto, acredito ser claro que seres humanos possuem mecanismos de heranças, de diversos tipos. Portanto, a afirmação de que a recompensa pode ser transmitida como herança parece ser aceitável e é mesmo reafirmada por um ou outro texto sagrado e até mesmo pelos sistemas jurídicos.

Recompensa como beneficiadora do mundo comum:

    Para compreender bem esta afirmação, é preciso lembrar que estamos falando não de uma recompensa qualquer, mas de uma recompensa digna de ser considerada como algo adorável, para então ser institucionalizada e tornar-se um organismo social ou encontrar alguma outra maneira de romper a barreira do indivíduo. É possível que haja recompensas que beneficiem somente o indivíduo e, portanto, não ao mundo comum. No entanto, não considero saudável nomear tais recompensas como heroicas e sugiro, portanto, classificá-las como psicóticas ou neuróticas. Isto porque ela é somente aplicável à aquele indivíduo em específico, com aquela neurose ou psicose em específico. É possível também que um conjunto de pessoas se reúnam em torno de alguma recompensa que não faça bem ao mundo comum, mas somente a elas. Neste caso, o mundo comum buscará meios de rejeitar esta recompensa, rejeitando-as também, por consequência. Ironicamente, pode existir recompensas que faça bem ao mundo comum, mas ele, ainda sim, rejeitá-la. Aqui é exemplo onde observa-se os riscos da jornada do herói.

Cristianismo e jornada do herói:

    Como já foi dito em outro texto, construo a visão dos organismos sociais genérica o suficiente para se adequar a outras religiões, mas específica o suficiente para conter o cristianismo. Portanto, este paragrafo faz parte deste contexto um pouco mais pessoal, e não necessariamente possa ser do interesse de quem deseja conhecer a jornada do herói ou a visão dos organismos sociais. Quando iniciei meus estudos logo surgiu-me a pergunta: qual a relação entre o cristianismo e a jornada do herói? A resposta ficou clara logo que eu percebi que a recompensa da jornada do herói nem sempre pode ser saudável. Isto implica na seguinte pergunta: o que faz um recompensa e sua jornada serem saudáveis ou não? Logo me veio duas coisas: a primeira é o compreender sua recompensa a segunda é ele estar satisfeito com ela. A jornada do herói está ai para ser trilhada por todo aquele que está insatisfeito. Portanto, é escolha de cada um segui-la ou não. Porém, o que dizer das pessoas que satisfazem com suas neuroses ou psicoses?

    Naturalmente é possível recomendar-lhes um psicólogo. No entanto, nós, cristãos, acreditamos que conhecer a bíblia e a Cristo pode fazer com que o indivíduo tenha uma consciência mais expandida e, portanto, maior capacidade de percepção que aquele que não conhece. Afinal, basta ler a bíblia para se ter relatos de toda a fragilidade ou horror que o ser humano pode alcançar, mas também dos exemplos heroicos de fé que alguns personagens bíblicos têm. Isto tudo também colabora para que tenhamos um grau de satisfação mais sofisticado para a recompensa, não aceitando, portanto, as neuroses ou psicoses, mas buscando, através da graça de Cristo, até que alcancemos uma recompensa verdadeiramente heroica. Assim sendo, ser cristão não nos isenta de termos nossa própria jornada, nossa própria cruz, de buscarmos no “mundo especial”, que para o cristianismo é o visualizamos através da inspiração de Deus, a recompensa para dar a este mundo comum, pecador, um pouco mais de evidências da bondade de Deus e auxiliá-lo na espera pela volta de Cristo. Ainda, o sacrifício de Cristo nos protege de qualquer tipo de pensamento não saudável, pois é através da graça que faremos a jornada, e se não conseguirmos, mas estarmos de consciência limpa de que fizemos o que foi possível dentro de nossos limites enquanto pecadores, então não há condenação, estamos salvos.

Conclusão:
    Ler sobre a jornada do herói foi bastante enriquecedor. Também sinto-me bastante gratificado por ter preenchido esta lacuna que havia na visão dos organismos sociais, além de registrar a relação entre a lenda do herói com o cristianismo. Aqui notei duas correções oportunas que posso fazer futuramente na visão, a primeira é que indivíduos não precisam ser organismos sociais, a segunda é que eu dei duas definições de adoração, mas nesse texto consegui fazer meio que uma arrumação nisso. Mas, talvez, um dia eu vá precisar organizar isso com mais seriedade. No mais, continuo seguindo minha vida. Estagiando, na faculdade, na igreja. Deixo abaixo os links nos quais eu cito sobre adoração. Abraço a todos e até a próxima postagem.

http://devirsocial.blogspot.com/2018/08/analise-das-autoridades-segundo.html
https://barnabasspenser.blogspot.com/2020/08/a-hierarquia-da-adoracao.html