sexta-feira, 31 de julho de 2015

Resposta à pergunta do Pedro Torres: como a discussão do que é ser humano pode ser reduzida a discussão do que é uma maçã

Pedro, vc lembra sobre a série de perguntas que vc fez a mim para identificar o que é uma maçã? Bem, tenho quase certeza que sim, mas vou expô-las aqui para quem mais tiver curiosidade em saber: o que é uma maçã? Uma maçã mordida continua sendo uma maçã? Uma maçã pequena continua sendo uma maçã? Metade de uma maçã é uma maçã? Ou seja, todas estas perguntas estão fazendo referência a uma "maçã" ideal. Contudo, quem idealiza essa maçã é o ser consciente, e essa idealização é feita através do uso que será feito daquela maçã. Porém, é preciso implementar a maçã na realidade, e a partir de então constrói-se um modelo. Alguns modelos vão aceitar uma maçã mordida como maçã, outros não. Alguns modelos vão aceitar uma maçã pequena sendo uma maçã, outros não. Da mesma forma, o ser humano.

O que é um ser humano? Um ser humano sem braço, continua sendo um ser humano? Um ser humano com braço robótico, continua sendo um ser humano? Um ser humano com síndrome de down, continua sendo um ser humano? Novamente, depende do modelo. Para alguns modelos sim, para outros, estes são humanos "especiais", e ainda, há outros que mesmo deixa de considerá-los. Chegamos então aos modelos, e parece-me haver aqui a referência de um modelo real, e os demais modelos implementados. Fazemos a pergunta que modela o modelo real? Será ele um modelo platônico, que existe antes mesmo do objeto em si existir? Talvez passamos aqui para o estudo da memética.

De onde vem a "maçã" ideal? Ou, ainda, voltando a nossa conversa, Pedro, de onde vem o significado do número? Do ser consciente, oras! Concordamos, nós dois, que se um dia todos os matemáticos do universo morressem, a matemática morreria junto. O mesmo vale para a maçã. O mesmo vale para o ser humano. Portanto, o mesmo que irá validar o que é o significado de um número, irá validar o que é uma maçã, e também irá validar o que é ser humano: a concordância entre os seres conscientes envolvidos.

Se estamos falando de um modelo, seja ele ideal ou implementado, estamos falando também da necessidade que o ser consciente tem de interagir com a realidade. Se houver apenas um ser consciente e a realidade, o modelo ideal será exatamente aquilo que esse ser consciente idealizar, afinal, só existe ele com capacidade de dar identidade aos fenômenos da realidade. Contudo, se estamos falando de um modelo entre mais de um ser consciente, o modelo ideal será a negociação que ocorre entre todos estes seres e o que eles aceitam. Desta forma, a pergunta: "quanto pesa uma maçã ideal?" se torna extremamente complexa de ser respondida, porque a resposta envolve o consenso de todos aqueles que lidam com modelos envolvendo maçãs implementadas. Podemos, para a finalidade de encontrar uma resposta objetiva a esta pergunta, assumir que o peso da maçã ideal será a média aritmética de todos os modelos de maçãs ideais que existem entre os seres conscientes que lidam com maçãs implementadas. Contudo, nem todo mundo que lida com maçã implementada explícita o quanto sua maçã ideal pesa. Aliás, isto nos leva a uma questão interessante: o quanto o algo ideal é definido? Novamente, acho que a memética trata sobre isso. Seguindo.

Vejamos o exemplo das unidades de meda, o quilo por exemplo. O quilo ideal pesa exatamente um quilo. O mais próximo que temos do quilo ideal é o quilo encontrado em um cofre protegido por autoridades internacionais e é usado como referência para o comércio e indústria global como uma forma de acordo e harmonia (desculpem-me a falta de precisão neste dado, procurem na web que acharão). Para ser mais preciso, o quilo ideal foi definido, em acordo uns séculos atrás como sendo este objeto, mas sabe-se que ele está perdendo peso devido suas propriedades físicas (como decaimento químico) e por isso ele está se afastando do que foi definido como o "ideal" para a indústria e comércio. Li isso rapidamente agora e parece-me que vão substituir objeto por um mais preciso, com menos decaimento.

Voltamos, então, a discussão, "o que é ser humano?" E através da linha de raciocínio anterior reduzimos discussão a "o que é uma maçã?". A forma de obter a resposta, para as duas perguntas, é a mesma. Através da negociação do modelo ideal daqueles que lidam com essas implementações. Em alguns casos pode ser impossível definir. Mas isto nos leva a seguinte pergunta: quem implementa? Não, não é o ser humano, pois o ser humano não pode ser ao mesmo tempo aquele que define e aquele que é definido, pois isto seria paradoxal. Afinal, afirmamos que ser humano é aquele que define, como Pedro mencionou através do princípio dos universalistas, seria dizer que todo ser que é capaz de definir, é ser humano, e sabemos que isto não é verdade. A resposta para esta pergunta, pelo menos para mim e para meu modelo, está numa entidade que eu chamo de ser consciente evolutivo. Este ser, e o ser humano é uma implementação deste ser, é aquele que é capaz de definir. O ser humano também o é por transitividade.

Então, precisamos encontrar uma definição do ser consciente para o ser humano ideal. Para mim, a definição que a biologia desenvolveu através da Cladística, e aqui agradeço o link do Gabriel, é o suficiente para mim, enquanto ser consciente, para definir o ser humano ideal. Agora, quanto as implementações do ser humano, cabe a cada modelo que o implementa definir o que é ser humano para ele, e se essa modelagem é o suficiente para alcançar tudo o que o seres conscientes que participam deste modelo esperam.

Desculpem-me pelo texto longo, mas quis deixar tudo claro quanto a redução da definição do ser humano à definição de uma maçã e depois explicar, segundo o que eu percebo, como essas definição são feitas e suas classificações quanto ao seu grau de existência, pois eu imagino que isto serão questões que chegaremos ao decorrer dessa conversa. Abraço a todos.


Iana, exatamente por isso eu disse: "Não estou falando da representação do tempo, mas do tempo em si, como entidade." e "seja lá como vc queira sentir o tempo passando pela sua existência". Se vc sente o tempo passando através do movimento, que assim seja, vc tem o direito de definir o tempo como quiser prq vc é um ser consciente. Porém, não acho das definições, essa a mais correta, porque pela teoria da relatividade eu posso definir um ponto de referência inercial, e para esse ponto, ele nunca vai se mover, contudo, ainda sim, o tempo passa pra ele.

A menos que vc diga que o tempo está passando pra ele através do movimento interno dos seus átomos, e ai vem uma questão complicada: como fazer o átomo parar de se mover? E se conseguirmos, isto implica que o tempo também irá parar para aquele átomo? Talvez. Nesse caso, o tempo é movimento. Como parar o movimento? Se existir um como, então esta será a resposta para a pergunta: "como parar o tempo". Ou seja, podem ser coisas equivalentes.

Mas ainda sim há outro problema. Se definirmos o tempo como o movimento, e assumirmos como ponto de referência a entidade menos complexa do universo, o verdadeiro "átomo" universal, e se este átomo tiver uma natureza sem movimento, isto implica que para ele, o tempo não existe, já que ele não se movimenta. Se este "átomo" não tem movimento, e, portanto, o tempo para ele não existe, e se dele são compostas todas as matérias do universo, conceituar o tempo como movimento não me parece apropriado, a menos que seja o conceito de movimento a partir de certa complexidade de matéria. Mas que complexidade seria esta? Estamos estudando a natureza da física, afinal.

Então, ficamos com a pergunta: o que é o tempo? Eu respondo isto dizendo que nunca poderemos compreender totalmente o tempo, apenas ter um razoável modelo sobre o que ele significa. Afinal, ele, pra psicologia evolutiva, é a entidade consciente axiomática. Uma vez que vc o entenda, sobre qualquer forma, ele já vai ter mudado, e assim nunca seremos capaz de entendê-lo instantaneamente. Então você, como entidade consciente, será apenas capaz de senti-lo ou de desenvolver algum modelo que, no máximo, corresponda a realidade com certa imprecisão ou atraso.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A ideia de um ser perfeitamente evoluído é absurda ou divina

Segue-se os motivos:

Assumimos que um ser evoluí, em ultima instância, em resposta ao seu ambiente.

Assumimos que o ambiente tal como conhecemos nunca será estático. Ele sempre estará em constante mudança.

Assumimos que se um ser é perfeitamente evoluído, ele não tem mais como evoluir. Ou seja: ele está perfeitamente adaptado a realidade do seu ambiente.

Contudo, se assumirmos que a afirmação 3 é verdadeira, então entraremos em contradição, porque se o ser é perfeitamente evoluído implica que seu ambiente é perfeitamente estático, o que é falso de acordo com a afirmação dois.

Porém, podemos adaptar a terceira afirmação para que ela não torne o sistema contraditório caso seja verdadeira. Segue a adaptação:

Assumimos que se um ser é perfeitamente evoluído, ele não tem mais como evoluir, e ele necessariamente tem de ser onipresente, onipotente e onisciente em relação ao seu ambiente.

Conclusão: o único ser perfeitamente evoluído que poderia existir seria a própria definição de Deus.