sábado, 25 de janeiro de 2020

Poder implícito e explícito


Introdução:
    Olá a todos. Faz mais de um ano que eu não escrevo para este blog. Devo admitir que foi um período de bastante amadurecimento e de reavaliação sobre todo meu trabalho intelectual exercido através deste blog e sua relevância. Ainda não sou capaz de assumir um posicionamento firme acerca de várias questões, no entanto, sei que escrever e continuar a desenvolver meus pensamentos fazem parte do processo de amadurecimento. Em especial, torna-se cada vez mais clara a necessidade de me abrir num processo de construção mutua para que, através disto, aquilo que eu fale tenha um significado para as pessoas. Encerrado esta pequena explicação, vamos à postagem de hoje, que se trata de uma conceituação importante para a estrutura do meu pensamento aonde eu analiso diferentes estruturas de poder e sua relação com a política.

Resumo:
    A ideia principal desta postagem é estruturar duas formas de poder: o poder explícito e o poder implícito. O primeiro relaciona-se com o poder obtido através do místico ou do sobrenatural, podendo estes dois serem ou não fatores integrantes da realidade ou apenas mecanismos desconhecidos para a maioria das pessoas. Já o segundo relaciona-se com o poder obtido através do acordado e do racionalizado, no qual há um método bem estabelecido e aceito por todos que se submetem à ele. Através da conceituação destes dois tipos de poder, é possível relacioná-los como uma posição natural da esquerda e da direita política. Visto que nunca defini no meu blog o que eu penso ser esquerda ou direita para a política, também farei isto nesta postagem. A seguir, buscarei argumentar que não existe um sistema que funcione somente através de um tipo de poder, concluindo que para que a sociedade seja saudável é necessário haja uma mescla entre eles, pois em ambos há pontos negativos e positivos para determinado contexto histórico e tecnológico.

Poder:
    Antes de falar acerca dos tipos de poderes, será necessário definir poder. Aqui entendo poder como a capacidade de decidir, entre todas as possibilidades da realidade, aquela desejada. Esta definição eu li uma vez em um artigo do qual eu lembro pouco, mas lembro-me que ela foi cunhada pelo Foucalt. Não sei se estou sendo preciso, mas esta definição me satisfaz, uma vez que aquele que detém o poder tem o direito de decidir, enquanto que aquele que não detém o poder se torna submisso ao decidido. Obviamente, todos tem algum grau de poder se levarmos em consideração até mesmo o ato de alimentar-se é uma escolha. No entanto, torna-se óbvio que alguns são mais poderosos que outros dado que as decisões deles impossibilitam as decisões de outros.

Poder implícito:
    O poder implícito é definido como aquele que é construído através do místico ou do sobrenatural. Em outras palavras, este tipo de poder não tem interesse em buscar as explicações naturais ou racionais para sua existência, seja por não acreditar ser capaz de encontrar explicação além da sobrenatural, seja por falta de interesse, ou mesmo porque se satisfaça com as coisas sendo como são. Este tipo de poder precisa ser construído através de relações dinâmicas, visto que, uma vez que ele não é explicitado e determinado em nenhum lugar, ele é volátil. Assim, observa-se este tipo de poder em relações familiares, por exemplo, na qual os anciões transmitem sua “benção” e, portanto, a capacidade, ou ensinam, através da prática, a como efetivar seu poder. Portanto, todos aqueles alcançados pela benção ou que tiverem um convívio prático entendem, mesmo que de maneira sobrenatural ou inconsciente, como exercer aquele poder. Aqueles que, por outro lado, não são expostos a tais vivências, apresentam dificuldade ou mesmo tornam-se incapazes de exercê-lo.

Poder explícito:
    O poder explícito é definido como aquele que é construído através do acordado, do racionalizado. Assim, para exercer este tipo de poder é necessário que haja um acordo prévio, uma racionalização, que define os termos do contrato da relação do poder. Uma vez estabelecido tais termos, então as relações de poder estarão bem definidas, já cada parte do acordo compreende o poder que corresponde ou não a si. Desta forma, a própria noção de poder é limitada pelo acordo, uma vez que tudo é explicitado. Assim, observa-se que este tipo de poder tem uma relação mais estática, uma vez que ele só pode ser modificado por situações em que ele mesmo prevê sua própria modificação. Além disto, este tipo de poder também preza pela documentação, já que seu objetivo é validar o acordo perante à todos. Portanto, observa-se que este poder tende a ser construído através da impessoalidade.

Esquerda e Direita:
    Sabe-se que essa nomenclatura vem desde a revolução francesa. Também não lembro com precisão acerca deste conceito, mas lembro-me que quem desejava um estado que tomasse decisões que privilegiassem a população em detrimento da elite sentavam-se à esquerda, já quem desejava que o estado tomasse decisões que privilegiassem a elite em detrimento à população sentava-se a direita. Afinal, por que é sempre necessário que o estado privilegie uma classe em detrimento da outra? Porque a matéria é limitada e, portanto, ou se concentra toda matéria em alguns ou se distribui a matéria para muitos. Para os que recebiam a concentração antes, se distribuir, eles perdem. E para os que recebiam a distribuição antes, estes perdem. Portanto, sempre alguém ganha ou perde a depender de qual escolha o estado estabelece. É preciso observar, portanto, que só faz sentindo falar de esquerda ou direita quando falamos do estado, que obtém seus recursos através dos impostos e gasta-os de acordo com seu planejamento político e suas leis.

Estado como uma estrutura explícita:
    O último passo para relacionar estes tipo de poder com as políticas de estado é justamente entender o estado. Em um dos meus textos eu já defini o estado em termos da linguagem dos organismos sociais. Para este texto, basta saber que o estado é uma estrutura explícita de poder. Portanto, necessariamente ele parte de um acordo, normalmente as constituições federais dos respectivos países, e limita naturalmente o poder de seus indivíduos. No entanto, embora seja uma estrutura explícita, isto não significa que não haja espaço para o poder implícito na estrutura do estado. No entanto, este poder é limitado pelo estado, ou seja, há tanto poder implícito quanto o estado permitir. Há ainda de se observar que se o estado é uma estrutura explícita, o não-estado é uma estrutura implícita. Portanto, sistemas sociais que não são algum tipo de estado são estruturas de poder implícita. Acredito ser possível exemplificar o monarquismo após uma reflexão superficial.

Poder implícito como natural da direita:
    Visto que o poder implícito é mais dinâmico, isto é, responde mais rápido às mudanças uma vez que não necessita de formalizar seu processo de atuação através de acordos, é natural que a direita seja melhor acomoda por ele. Afinal, se há um tipo de produção ao qual uma elite é responsável, e não toda a população, então é desejo desta elite que o estado não se interfira em suas responsabilidades para que ela continue sendo elite. Portanto, é possível afirmar que o poder implícito tem um caráter elitizante ou mesmo excludente, afinal, se todos tivessem acesso à tal poder, ele seria explícito, mesmo que inconsciente. Além disto, o poder implícito tem outra característica interessante que também é compartilhado pela direita: ele está mais perto da natureza animal do ser humano que o poder explícito. Isto porque não é necessário explicar aquilo que é implícito, sendo a fonte de tal explicação a própria natureza.

Poder explícito como natural da esquerda:
    Visto que o poder explícito é mais estático, ou seja, é necessário que seja produzido acordos para a sua efetivação, então é natural que a esquerda seja melhor acomodada por ele. Diferente da direita, que deseja construir uma elite, a esquerda deseja construir um povo. No entanto, mover um povo é mais difícil que mover uma elite e, além disto, todo este povo precisa estar orientado da mesma forma, pois do contrário a unidade é quebrada e o que antes era pra ser um todo, agora torna-se parte e, portanto, pode ou não haver um processo de elitização. Para, no entanto, haver a construção de uma unidade, é preciso um acordo, ou seja, a explicitação de algo. É através desta linha de raciocínio que eu afirmo que o poder explícito é natural à esquerda. É interessante observar que, mesmo que no acordo explicitado possa ter pessoas com diferentes responsabilidades, no geral, se todos envolvidos no processo concordam com ele é porque o processo tende a ser benéfico a todos. Assim a visão da esquerda acaba sendo mais inclusivo, pois ela busca conceber uma concepção de realidade para atender o maior número de pessoas, incluindo-as neste acordo e tornando o acordo mais forte como consequência.

Estado de extrema direita:
    O perigo de haver um estado excessivamente de direita são dois: o primeiro é um poder implícito qualquer se tornar tão poderoso quanto o estado, ao ponto do próprio estado ser uma ameaça para este poder. Assim, há o perigo deste poder querer ele mesmo tornar-se um estado, o que é uma contradição, e isto implica em estados corruptos. O segundo é o de que haja tantos poderes implícitos atuando num estado que o estado em si não consiga organizar os poderes e orientá-los à um objetivo benéfico a todos. As consequências disto é que mesmo que um grupo de poderes se unam e se chamem de estado, este estado não pode contribuir em nada para estes poderes individualmente, não podendo, portanto, articulá-los para proteger de inimigos externos ou mesmo para impedir que o primeiro caso aconteça. Em outras palavras, se construirá um estado sem soberania, a mercê dos estados fortes que o colonizam.

Estado de extrema esquerda:
    O perigo de haver um estado excessivamente de esquerda são dois: o primeiro é geopolítico, pois como tudo é explicitado, as questões sensíveis como planejamento econômico podem se tornar muito expostas, dando oportunidade aos outros países de montarem estratégia para minar um possível crescimento de um país concorrente. Além disto, também por este mesmo motivo, as decisões acabam por ser mais lentas, fazendo o país responder mais devagar as questões geopolíticas. O segundo trata-se acerca de acordos que são feitos, mas não são respeitados. Desta forma, combina-se uma coisa, mas se faz outra, e, portanto, o resultado alcançado não acontece de acordo com o planejado pelos autores daquele acordo, trazendo, como consequência, privilégios para uns, obstáculos para outros. Além disto, também gasta-se recursos ensinando os acordos explicitados para as próximas gerações, e quando isto falha, também há o cenário em que os acordos não são respeitados.

O yin-yang dos poderes:
    O poder explícito e implícito comportam-se como yin-yang. Ou seja: é impossível haver um deles puramente. Sempre que há um, há outro. Provo: se o poder implícito precisa comunicar qualquer coisa ao próximo, ele faz uso da linguagem. No entanto, a linguagem é a explicitação de algo, e, portanto, no implícito há o explícito, mesmo que esse explícito seja restringido à algumas pessoas. Já no explícito, é preciso considerar que a realidade não é estática, ela transforma-se através do tempo. Portanto, toda nova transformação que não foi coberta por uma linguagem ou por um acordo torna-se necessariamente algo implícito. Com o tempo, deste implícito pode nascer um poder, que também será implícito. Naturalmente, é possível considerar que aqueles que fazem acordo ou constroem a linguagem não estão o tempo todo atualizando-se para cada transformação, portanto, a tendencia é sempre haver algo implícito em qualquer realidade. Assim, há sempre algo implícito em todo poder explícito. Através desta linha de raciocínio, conceber uma sociedade construída apenas por um tipo de poder torna-se impossível.

Conclusão:
    O objetivo deste texto foi lançar as bases teóricas para a análise dos tipos de poderes que atuam em uma sociedade. Esta base teórica é importante para, além de conseguir explicar o o que acontece, construir um conjunto de significados que, uma vez aceitos como verdadeiros, impeçam a construção de outro conjunto de significados que não tenham sentido ou sejam paradoxais. Acredito que através da consciência sobre quais poderes constituem uma sociedade, quem exerce qual e a relação pessoal de cada indivíduo com cada um desses poderes pode ser um fator importante para a coerência de uma nação. Assim, uma nação mais coerente é também uma nação mais soberana, pois será capaz de organizar suas relações internas e externas para construir algo de valor em nosso planeta.