Introdução:
Olá a todos. Estou de férias e na tarefa
de disciplinar meu tempo. Voltei a me exercitar e a ler a bíblia. Este
será meu foco por enquanto: manter a disciplina do tempo. Para além
disso, não tenho muito o que acrescentar ao que já disse na introdução
anterior. Hoje venho falar sobre o tema da violência. Sempre foi muito
importante pra mim saber conceituar a violência, porém, sempre tive
muita dificuldade. Porém, pensando no conceito de desejo que
anteriormente eu escrevi, lembrei de umas ideias antigas que eu tinha
acerca de liberdade e consegui desenvolver um conceito de violência que
me pareceu satisfatório. Portanto, quem quiser continuar, pode acessar o
link anterior para ler esse conceito de desejo e a partir dele eu
seguirei. Segue link:
http://barnabasspenser.blogspot.com/2021/04/campo-de-desejos-e-isolamento.html
Acordos normalizadores da realidade:
No texto anterior, comentei que desejo é escolher uma dentre um campo
de possibilidades. Também foi comentado acerca dos fatores da realidade,
que moldam este campo de possibilidades a depender de com qual
realidade cada indivíduo está mais próximo. Há, porém, os acordos
normalizadores da realidade. O que eu quero dizer com isto é que os
indivíduos se organizam em sociedade fazendo acordos voluntários ou
compulsórios. O efeito destes acordos é que eles também alteram o campo
de possibilidade de cada indivíduo ao associar certos desejos à
recompensas e/ou outros à punições. Estes acordos surgem em diversos
níveis, começando do acordo entre indivíduos, através de um casamento,
por exemplo, ao acordo entre uma sociedade inteira, formando o estado.
Assim, através deste entendimento, consegue-se a base necessária para a
conceituação de violência.
Conceituando a violência:
Supondo que há um conjunto de indivíduos cujo campo de possibilidade é
total. Ao conviverem, logo percebem que este campo de possibilidade
total é algo prejudicial, pois dificulta a organização social. Assim,
criam as regras sociais e, portanto, seus desejam precisam se adaptar a
isto. Em outras palavras: o campo de possibilidades é alterado. Porém,
ele ser alterado não significa que ele seja finito. Ele continua sendo
infinito, porém, de diferentes formas. Assim, os indivíduos têm
infinitas possibilidades, embora que moldadas por certos limites, no
qual podem utilizar para desenvolverem e realizarem seus desejos. É
neste cenário que é possível conceituar violência como qualquer
realização de desejo que, de alguma forma, viole estes limites
combinados socialmente. Este conceito, portanto, me agrada, pois ele não
somente prevê a violência física como também violências mais
sofisticadas, além de ser adequável às diversas formas de cultura ou
política.
Consequências da estrutura dinâmica da realidade:
Naturalmente, a realidade é dinâmica. Para poder construir minha
argumentação, vou supor que os acordos são estáticos. Neste cenário, a
natureza estática dos acordos se contrapõe diretamente com a natureza
dinâmica da realidade. O resultado disto é direto: a violência torna-se
inevitável. Afinal, ao se construir acordos estáticos, assume-se que
todas as partes participantes estão de acordo. Porém, através da
natureza dinâmica da realidade, o que antes era confortável para todos,
torna-se desconfortável para alguns e mais confortável para outros. Isto
faz com que aqueles que sentiram-se desconfortáveis desejem alterar o
acordo, e esta alteração necessariamente virá por meio da violência.
Porém, é possível fazer uma suposição mais fraca: os acordos são
razoavelmente estáticos, possuindo mecanismos para eles mesmos se
modificarem através do tempo. Isto seria o exemplo de uma constituição
federal, por exemplo, que permite que aqueles que vivem sobre seu efeito
possam alterá-la, a partir de certas regras. Isto é um caminho para
evitar a violência. Porém, ainda nestes casos, é preciso levar em
consideração que a velocidade de mudança deste acordo pode ser menor que
a velocidade de mudança da própria realidade, o que, ainda sim, pode,
por efeito, levar ao primeiro cenário aonde a parte incomodada não
consegue mais se satisfazer com o acordo e parte para a violência.
Acordos estáticos são acordos racionalizados, isto porque eles
precisam conter uma forma bem definida para adquirir este fim. Porém, ao
considerar o grande peso das forças inconscientes que atuam no ser
humano, observa-se que estes acordos tendem a ser minoria. Assim, os
acordos culturais, ou seja, de costume, podem ser observados com maior
ênfase no conviver diário. Nestes casos, a violência tendem a ser
voláteis. Assim, por exemplo, um ato praticado por uma pessoa pode ser
violento e este mesmo ato praticado por outra pessoa não, e não sabe-se
exatamente o porquê. Além disso, ambientes sem acordos bem definidos de
convivência podem ser ambientes ainda em construção em que os indivíduos
ainda estão descobrindo como acomodar seus desejos em relação aos
demais e vice-versa. Neste caso, este conceito de violência não é
aplicável, afinal, não há acordo para ser violentado, a exceção do
próprio corpo físico daqueles que constituem a negociação.
Conclusão inevitável:
Ao deparamo-nos com a inegável observação de que a realidade é
dinâmica, chega-se também inevitável conclusão: todos nós, em algum
momento de nossas vidas, aplicaremos violência. Isto é demonstrado
justamente pelo raciocínio do paragrafo anterior, afinal, independente
de qual tipo de acordo somos introduzidos por nossos genitores, nós não
somos iguais aos nossos genitores, o que implica que haverá este acordo
precisará ser, de alguma forma, modificado. E mesmo que neste acordo
seja previsto sua própria modificação, esta modificação não
necessariamente compreende as nossas necessidades, pois somos novos, de
tal forma que ainda sim não nos sentiríamos satisfeitos. Ou seja: em
algum momento todos nós aplicaremos alguma violência, mesmo que seja
violência em um nível muito sofisticado. Há casos, porém, em que ela
poderá chegar ao nível físico, como, por exemplo, em grandes eventos
históricos aonde a organização constitucional de um país não mais se
sustenta.
Consequências da violência:
Esta
conclusão pode ser um pouco assustadora para alguns. Porém, ao
analisá-la, entende-se que ela é apenas uma constatação da dinâmica da
realidade. Portanto, para lidar com isto de maneira sóbria, é possível
refletir acerca das consequências ou significado da aplicação da
violência. De maneira mais sofisticada, a violência implica na
reformulação de um acordo de maneira não prevista. De maneira mais
bruta, a violência implica na violação de um corpo humano. Em ambos os
casos, deseja-se a mesma coisa: estabelecer acordos para que as partes
consigam conviver. Esta conclusão implica no outro porque não existe
convívio se não há o outro ou, em outras palavras, o ser humano será
reduzido ao seu instinto animalesco se não houver um acordo de
convivência. De qualquer forma, a violência estabelece acordos, que a
partir de então serão seguidos até que a parte mais fraca busque reunir
forças para aplicar violência e reformular este acordo.
O
grande questionamento, portanto, é o seguinte: como vamos violentar o
outro? Isto porque, se a violência significa mudar a forma de tratar o
outro de uma maneira não acordada, esta mudança tem o objetivo de
estabelecer o convívio entre as partes. A outra parte, porém, poderá
reagir a esta violência, então este convívio poderá transformar-se em
guerra, que não é desejável às porque a guerra, na sua forma em que as
pessoas literalmente se matam, é a forma mais visceral de violência.
Assim, o desejável é uma forma de violência que leve à transformação,
mas não à guerra. Se desejamos guerrear com o outro, o outro também
desejará guerrear conosco. Porém, se a violência que aplicamos ao outro
for justa, o outro não buscará aplicar uma violência injusta a nós,
porque certamente, para a parte injustiçada, a guerra é melhor que a
injustiça, enquanto que para a parte que está aplicando a injustiça, o
melhor é continuar como está. Neste caso, a injustiça seria a própria
violência injustiça, que busca justamente corrigir uma situação que não
está mais confortável, o que é seu direito, porém, não o faz de maneira
justa.
O Estado surge neste contexto como aquele detentor do
monopólio legal da violência. Ele é, afinal, o acordo de todas as partes
envolvidas, mas não um acordo assumido por livre arbítrio, porém,
imposto, uma vez que aquele discordante terá de enfrentar o próprio
monopólio legal da violência para discordar do Estado. Porém, o Estado
não nasce, neste contexto, para ser justo, embora haja no nele condições
para aplicar justiça. Ele nasce justamente para pôr fim a cadeia de
violência que surge da imperfeição humana. No entanto, o próprio povo
pode não suportar tamanha injustiça do Estado ao ponto de estar disposto
a sacrificar a vida em pró de um processo de revolução ou refundação do
Estado. Assim, não é possível afirmar que o Estado seja onipotente.
Ele é, afinal, o resultante do equilíbrio da violência de um
determinado território, sendo seu objetivo dar estabilidade suficiente
para que este território se desenvolva para além da violência. Em outras
palavras, dar aos indivíduos a capacidade de desenvolver planos de
construção, e não somente de destruição apenas.
Violência na perspectiva cristã:
O esperado é que as partes negociem mutuamente até encontrarem um
ponto justo para ambas as partes, sem necessidade de recorrer à guerra.
Porém, natureza caída do ser humano torna esta tarefa ideal muito
improvável, ou mesmo impossível. Assim, termos como justiça se tornam
imprecisos, porque o ser humano, em sua natureza pecadora, é injusto.
Portanto, para o cristão, encontrar uma forma de aplicar a violência de
maneira justa parece ser contraditório. Assim, se é inevitável que todos
nós apliquemos a justiça, como um cristão, que tem em si a natureza
justa de Deus, aplicará a violência? A resposta que eu chego para isto é
a própria imagem de Cristo na cruz: o cristão sacrifica a si mesmo,
aplicando a violência em si, para mostrar ao mundo o seu pecado, ou
seja, aquilo que os torna injustos, de modo a justificá-los e alterar a
natureza deles para algo mais próximo a natureza santa de Deus.
Assim, através do próprio exemplo, que é ser capaz de aplicar a
violência em si mesmo, ou seja, mudar algo em si que não estava acordado
e que não é justo para evitar uma guerra, transformar o outro,
fazendo-o querer ter sua natureza também transformada ao mudar a si
mesmo para que ele também não precise chegar ao ponto de desejar a
guerra. Isto parece ser bastante duro e injusto ao ponto de nos
perguntarmos se o nosso próprio sacrifício realmente converterá o
coração dos pecadores. Porém, é preciso lembrar que não fazemos isto
apenas para convencer o pecador, fazemos isto para seguir os passos de
Cristo e agradar ao Pai. O espírito santo é quem convencerá e guiar.
Além disso, o que Cristo fez foi plantar a semente, assim como o que nós
faremos através da aplicação da violência em nós mesmos é plantar uma
semente. Esta semente certamente crescerá e impactará o mundo dos
homens, fazendo que eles enxerguem a própria injustiça a transformando a
realidade deles. Ou seja: os próprios não convertidos ao verem tamanho
milagre, embora não acreditem em Cristo, certamente terão plantado em
seus corações a consciência de que a injustiça precisa ser corrigida,
pois um justo foi sacrificado.
Por fim, é preciso lembrar que
quem nos capacita para o autossacrifício é o próprio espírito santo. É
decisão nossa aceitar o convite, mas não é decisão nossa fazer criar ou
fazer o convite, também não é decisão nossa fazer com que o sacrifício
aconteça. Tudo isto é preparado por Deus, assim como Deus preparou a
vinda de Cristo para a terra. Portanto, nós, como cristãos, podemos
seguir vivendo nossas vidas, buscando seguir os acordos e adorando a
Deus e declarando nossa fé em Cristo e, mediante a graça os planos do
Senhor, o chamado virá ou não para nós. Lembremo-nos também que a recusa
do convite não nos tirará a salvação, pois somos falhos, Cristo nos
perdoará e Deus certamente conseguirá realizar seus planos de outra
maneira (e aqui eu sei que há certa imprecisão teológica, mas vou seguir
em frente), porém, creio que com isto deixaremos de receber certas
honrarias, os galardões, que receberíamos ao encontrar com o Pai quando
encontramo-nos com Ele ou quando o Filho vier.
A violência de Cristo
Inevitavelmente todos nós seremos violentos,
Pois o violentar é um ato da existência humana.
Cristo obedeceu a boa e perfeita vontade do Pai,
Sendo assim, aonde estaria a violência de Cristo?
Cristo violentou as autoridades político-religiosas,
Cristo violentou sua própria humanidade na cruz.
Não violentou, porém, sua natureza divina,
Que se cumpriu através do seu sacrifício.
Façamos, pois, como Cristo, ressurreto em nós.
Violentemos aquilo que não cumpre a vontade do Pai,
Violentemos nossa carne para que Ele viva em nós,
Não através da nossa força, mas da graça de Deus.
Conclusão:
Comecei este texto e passei umas boas semanas com ele parado. Gosto
desta construção conceitual, se adéqua bem as demais coisas que estou
construído, mas foi uma surpresa eu ter finalizado com o cristianismo.
Afinal, a conclusão, sem o Cristianismo, é que o ser humano usaria a
violência como forma de buscar a justiça mas, para mim enquanto cristão,
isto claramente não o levará para a justiça, mas sim para a guerra ou,
na melhor das hipóteses, para um estado que evite a guerra através de
aplicações esporádicas de justiça, porém, ainda injusto. Se bem que não é
de bom tom misturar a justiça enquanto conceito que guia a conduta
humana com a justiça definida na constituição federal. Imagino que na
tradição filosófica estes termos devam já ser bem explorados. Assim me
despeço de todos. Abraços.
Princípios da Verdade
Seguir leis sem saber o porquê de sua existência ou significado é uma ignorância que pode levar a burrice ou perda de pontos estratégicos. Por isso, sigo apenas as minhas próprias regras. Por: Leandro Moura
sábado, 10 de julho de 2021
Conceituando a violência
quinta-feira, 29 de abril de 2021
Campo de desejos e isolamento
Introdução:
Olá a todos. Meu objetivo sempre foi
conseguir manter uma rotina equilibrada, porém, por desequilíbrios
anteriores maiores que eu, tomei decisões ruins, e matriculei-me em
cinco cadeiras pesadas na faculdade. O resultado disto é que este último
mês foi bastante peculiar, pois eu encontrei-me numa situação que eu
muito temia, que era a de não ter tempo para nada. No entanto,
tranquilizou-me saber que isto não necessariamente foi uma escolha
consciente. Foi um acidente, na verdade. Isto, no entanto, me inspirou a
pensar bastante na solidão, pois eu aproveitei para voluntariamente
acentuar um processo de isolamento que sempre me acompanhou. Com isto,
escrevo algumas reflexões sobre o tema, que eu quero amadurecer tanto
quanto possível.
Desejo e solidão:
Neste blog, em alguma postagem, já devo ter escrito acerca do conceito
de desejo. Vai ser alguma mais ou menos equivalente com esta que
apresentarei agora e, a partir da qual, construirei minha linha de
raciocínio: desejo é a escolha de uma possibilidade dentro de um campo
de possibilidades. Encontrei este conceito em alguma corrente de
psicologia ou filosofia por ai, creio que em Foucault, e gosto por sua
simplicidade e por sua força. Neste sentido, desejamos, e quando a
escolha é concretizada, provavelmente nos sentimo-nos realizados,
através de reações químicas. Duas coisas são notórias neste conceito; a
primeira é a escolha: o porquê escolhe-se o que escolhe? A segunda é o
campo de possibilidades: o porquê o campo das possibilidades define-se
como tal?
Neste primeiro questionamento, noto que fatores
internos motivaram-me a escolher a solidão, o isolamento. Portanto,
busquei desestimular os impulsos das escolhas que me levariam ao
envolvimento. O desestimulo é feito através de cadeias de pensamento que
levam a entender que determinada escolha é infrutífera, não produzindo
efeitos maiores que ela mesma, desnecessária. Ao mesmo tempo, busquei
estimular os impulsos que me levassem à solidão, entendendo que, no meu
contexto, este é o caminho correto que me levará aos meus desejos de
longo prazo. Naturalmente, estou fazendo comigo mesmo um acordo em que
eu substituo o curto prazo pelo longo prazo, sendo necessário, para
tanto, uma dose de fé e autossacrifício, pois não existem mecanismos que
garantam que os desejos de longo prazo sejam satisfeitos. Se não forem,
isto é um problema que eu resolverei lá, no futuro. No agora faço o
melhor que eu posso e, assim, sigo neste processo de isolamento.
Portanto, este é o cenário: meu campo de escolhas levam-me a desejar
coisas que posso fazer sozinho. Estudar, entreter-me, trabalhar,
alimentar-me. Ao realizar estas coisas, sinto-me realizado, permito-me
relaxar, descansar. Assim continuo neste ciclo, buscando desestimular
todos os impulsos que me levem ao outro por qualquer outro motivo que
não aspectos objetivos relacionados às escolhas que me levam ao
isolamento. Posso cometer algumas falhas neste processo, mas estou
razoavelmente bem-sucedido e estável, creio eu. Portanto, o
questionamento que eu faço é: se estou obtendo uma estabilidade que me
permita avançar em um processo isolado, quais as consequências de
assumir este posicionamento de vida? Faço esta pergunta porque eu sei
que a vida em comunidade é necessária, e parece que minha vida em
comunidade restringe-se essencialmente ao que é necessário. Isto, no
entanto, não me parece uma vida em comunidade, pois não há nenhum desejo
em comum além do básico.
Universo dos campos de escolhas:
Para aprofundar um pouco mais nesta afirmação de vida em comunidade
ser necessária, é necessário, para mim, entender o universo dos campos
das escolhas. Este universo é, afinal, a própria realidade em comum de
um grupo de pessoas, que afetam-nas e moldam a realidade delas de
maneira semelhante, fazendo com que o campo de possibilidade delas
tenham pontos em comuns - talvez eu deva encontrar melhor nomenclatura
-. Por exemplo: numa cidade há alguns times de futebol. Portanto, o
universo nesta cidade para se torcer pelos times de futebol são estes
times. Há outras opções, como a de não torcer ou da torcer por um time
imaginário. As possibilidades continuam sendo infinitas, porém, elas são
reestruturadas para contemplar a existência daquele fator naquela
realidade. Assim, é possível perceber com maior probabilidade que os
indivíduos daquela comunidade torcem para o time A, B ou C que fazem
parte do conjunto de times daquela realidade, mas com menos
probabilidade que eles torçam para o time D, de uma outra comunidade, ou
pelo time E, inventado por alguém como parte de alguma obra ficcional.
Portanto, torcer por um time é um ato coletivo, porque existe um fator
que está moldando os vários campos de escolhas para aquela escolha.
Assim, a vitória do time constituirá na realização do desejo de muitas
pessoas. Também, a derrota deste time constituirá na frustração das
mesmas, já que as expectativas não são alcançadas e não há justificativa
para a recompensa química. Entender isto é importante para entender
quando eu digo que eu estou rumo ao isolamento, pois quero dizer que
estou me afastando desta realidade em comum e indo para uma realidade em
particular, ligando-me à realidade comum apenas fins de sustentação,
através do trabalho, do estudo. De alguma forma, também considero esta
realidade para qual estou caminhando um pouco perdidas, explico:
os elementos que utilizo para me entreter são, geralmente, coisas
produzidas pela sociedade em uma realidade muito distante da minha, seja
pelo espaço – geralmente Norte-Americana ou Europeia - como pelo tempo –
geralmente antigas, com dois ou três anos de atraso, pelo menos -, à
exemplo, filmes ou jogos de videogame. Portanto, estou sempre me
relacionado com objetos de desejo que já foram relevantes algum dia e
hoje são apenas vestígios. Isto, para mim, faz com que eu me relacione
com uma realidade distante da minha não tão diferente de uma realidade inventada.
Consequências do isolamento:
Uma das consequências já foi dita imediatamente no paragrafo anterior.
Ela, entretanto, não é a que eu considero como mais importante. Diria
até mesmo que ela é apenas um sintoma. A principal consequência do
isolamento é a falta de capacidade de lidar com a realidade comum da
comunidade. Isto traz algumas consequências. A primeira delas é que o
desligamento da realidade comum da comunidade faz com que o indivíduo
que está desligado se torne mais susceptível à mudanças bruscas da
realidade. Por exemplo, se o indivíduo se liga o mínimo possível com
alguma comunidade, e de repente há alguma mudança sociopolítica nesta
comunidade, ele provavelmente terá um tempo de reação muito maior para
responder adequadamente a isto, de modo que sua própria ligação,
pequena, pode se interrompida ou sofrer graves danos, o que mudará toda a
estrutura de vida isolada que ele tem. A segunda é que se o indivíduo,
por algum motivo, quiser ligar-se à sua comunidade, sofrerá bastante,
porque o campo de possibilidades à qual ele está habituado será
completamente diferente do campo de possibilidades daquela comunidade.
Quanto à primeira possibilidade, não preocupo-me tanto, pois já vivemos
numa sociedade individualista e estou atento à política, de alguma
forma. A segunda, no entanto, é uma preocupação minha.
Explico: parte dos meus projetos de longo prazo envolve, de um jeito ou
outro, reintegração à alguma comunidade. Não entendo como saudável
viver uma vida separado, porque entendo que a situação política e
cultural do nosso país está desmoronando e aceitar viver isolado é dizer
que não se importa com isto. Na verdade, eu me importo, e busco
compreender qual o problema está ocorrendo no nosso país, talvez até no
mundo, para que seja possível construir uma cultura ou política que
volte a trazer desenvolvimento e harmonia para nosso povo. Parte deste
problema, creio eu, é o individualismo. Porém, encontrar modos de não
ser individualista é extremamente complicado. Afinal, envolve fatores da
realidade que estão para além do nosso controle enquanto indivíduos.
Talvez seja algo que o próprio espírito da realidade, algo que eu já
citei no meu texto de filosofia dos organismos sociais, se encarregue de
fazer. Creio que já estamos chegando ao fim do individualismo, porém,
não sei o que virá a seguir. De uma forma ou outra, estou buscando
descobrir, pois posso fazer parte desse processo. Se eu não conseguir
fazer, paciência. Sei que estou em paz comigo mesmo pois busco, na graça
de Deus, forças para continuar.
Encerramento:
Estou me sentindo de férias, ainda que falte uma cadeira para finalizar
o período. Passando em todas, o que creio que vai acontecer, estarei
livre das eletivas, faltando apenas trabalho de graduação, projetão e
estágio para finalizar a faculdade. Durante todo este período que passei
sem escrever, senti falta. Talvez escrever faça parte da minha
identidade e eu tive a oportunidade de reconhecer isto neste período.
Porém, continuo buscando estudar e entrar em contato com filosofia,
teologia, mesmo que de maneira muito menos frequente que outrora já fui,
mas sei que tudo o que eu escrevo, de alguma forma, não é novidade. No
máximo, talvez eu consiga arrumar uma forma diferente de dizer algo que
já foi dito. Mesmo assim, continuo, talvez na esperança de conseguir
encontrar a forma certa de dizer o que já foi dito, mas também como um
exercício para mim mesmo de dizer. Com esta breve reflexão, despeço-me.
Abraço à todos.