quinta-feira, 28 de julho de 2016

Se rouba é por escolha: nada tem haver com oportunidades

Um pensamento comum é o de que quando uma pessoa comete um crime, ela o faz por escolha. Nada tem haver com o ambiente externo: é dela a escolha de ser bom ou mal. Ainda mais, há pessoas que usam a si próprias, ou conhecidos, como exemplo de histórias de pessoas que passaram dificuldades e tiveram até a chance de ir pra criminalidade, mas não o fizeram e conseguiram uma forma de manter seu sustento honesto.

O Devir Social gostaria de atacar a fundamentação desse pensamento para descobrir se ele é realmente válido ou apenas uma forma das pessoas fugirem da responsabilidade social que é inerente a todos nós, de cuidarmos do que é nosso e proporcionar uma vida melhor ao próximo.

Vejamos a seguinte linha de raciocínio: uma pessoa que diz que cometer ou não um crime é escolha própria alega fundamentalmente que fazer ou não a coisa errada também o é, já que cometer crime é algo errado. Ora, então ele está dizendo que nunca fez nada que sabia ser errado.

Se este for o caso, ela é um exemplo muito raro de pessoa: basicamente ela está dizendo que sempre teve sabedoria para manter todos os aspectos conhecidos da vida dele sobre controle, inclusive seus familiares. Afinal, ela nunca precisou mentir, nunca foi rude ou ignorante, nunca traiu a confiança de alguém, isto porque estamos usando uma visão simplista e determinística sobre o erro.

Porém, é interessante analisarmos a hipótese dela ter cometido algo que sabia que era errado, mesmo que esse erro não seja tão grave a ponto de ser punido pelo código penal. Já para iniciar já podemos considerá-la mentirosa, por ter dito que nunca errou sabendo que era errado, e semelhante ao criminoso, pois ambos erraram, só que o erro de um foi grave enquanto que o do outro não.

Contudo, o interessante a se observar é a justificativa que ela pode usar ao ter cometido tal erro: se ela disser que o cometeu somente porque escolheu, ela está afirmando que errar ou não é uma característica intrinsecamente individual. Isto o faz entrar em contradição novamente, pois por que ela reclamaria ou mostraria exemplos de quem acerta a quem erra se aquela pessoa está destinada a errar de todo jeito? Afinal, errar ou não é uma característica individual e nada externo irá afetar o resultado. A melhor coisa a se fazer neste caso seria simplesmente aceitar e aplicar as punições cabíveis, qualquer outra coisa seria perca de tempo.

Caso contrário, se o ambiente tiver levado ele a errar mesmo sabendo que era errado, então existe sim fatores externos que influenciaram no erro. Deste modo, alguém ter cometido um erro pode ter sido sim parte da característica individual dela, mas existem fatores ambientais que colaboram para a manifestação ou não destes fatores e cabe a nós fazer o melhor que podemos fazer para que melhorar o ambiente ao nosso redor, diminuindo as chances de tais manifestações acontecerem. Deste modo, concluímos que a afirmação primária dela é falsa: cometer ou não um crime não é somente uma escolha.

Sendo falsa ou não a frase a cima, o Devir Social considera que sua enunciação é algo desnecessário. Se a pessoa acredita que a frase é verdadeira, não tem pra que anunciá-la e ficar dando exemplos. Caso seja falso, a pessoa está cometendo um erro ao ficar discursando ele e também não está fazendo nada para melhorar a sociedade além de falar, e inclusive está desencorajando a quem deseja tentar quando usa os exemplos como forma de recriminação e segregação ao invés de inspiração.

Entender o porquê alguém cometeu algum crime não é uma coisa simples. Uma frase simples e generalista normalmente tende a estar errada, principalmente quando aplicada sobre seres humanos. Se, ainda, levássemos em consideração a relativização do erro, entraríamos num campo ainda mais complicado de analise cultural, pois o que é errado para uns pode ser certo para outros dependendo do contexto. Nestes casos o diálogo e negociação é mais que necessário para a prevenção ou reparo dos erros: é essencial.

Com esta análise o Devir Social espera ter contribuído com a discussão sobre o que é ser humano e com nossa responsabilidade com o ambiente que vivemos.