quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Caracterização da força evolutiva

 

    Olá a todos, bem vindos a mais uma artigo. Desta vez, falaremos sobre a “força evolutiva” e suas caracterizações. Antes de continuar, gostaria de avisar que este é um assunto um pouco mais abstrato, e o que me leva a falar dele aqui no blog é a percepção de que este entendimento torna o ser humano capaz de compreender tanto características macro quanto micro da evolução. Força evolutiva, no contexto deste artigo, é a forma que a vida encontra para continuar através das tecnologias que provém sua adaptação sua iteração com a realidade. Esta observação será feita visualizando como as sociedades civis se organizam e a relação com a força da evolução, que de algum modo também está relacionada com o modo que os animais encontraram para prosseguir durante o processo de evolução e eu buscarei traçar essas analogias.

     A primeira forma da organização da força evolutiva é a uniforme. Nela, toda sociedade está unida por um só interesse e/ou está de acordo com a tecnologia usada para alcançar este interesse. Não há nenhuma grande briga interna, pois a esmagadora quantia de recursos é direcionada para atingir o objetivo estabelecido socialmente. Este objetivo pode ser a expansão, a sobrevivência ou a caracterização diante outras sociedades, e o desejo de alcançá-lo é forte o suficiente para fazer a sociedade abrir mãos dos conflitos e interesses internos, assumindo formas objetivas de resolver as coisas. Analogamente, esta força uniforme pode ser vista como a força fundamental da vida organizada para sobreviver, quando sobreviver era um aspecto importante, não básico. Este estágio aconteceu no inicio da vida na terra.

    A segunda forma é a organização bipolar. Quando a sobrevivência é alcançada e não existe nenhum interesse externo forte o suficiente para fazer as pessoas de uma sociedade esquecerem de seus próprios interesses, parte do recurso que antes era destinado a um único objetivo passa a ser investido para selecionar internamente quem irá liderar socialmente. De modo análogo, as espécies que conseguiam sobreviver naturalmente desenvolveram uma estrutura sexual polarizada em feminino e masculino, de modo a desenvolver uma forma interna de seleção natural, além da externa, acelerando o processo de evolução, e este processo tem exatamente este objetivo na polarização social: selecionar as tecnologias e as pessoas mais qualificadas para continuar a sociedade.

    Contudo, esta forma de organização da força é animalesco, selvagem. Formam-se “times”, onde um está disposto a fazer tudo para vencer o outro, inclusive coisas que prejudiquem a própria espécie como um todo. É daí que surge a terceira força, o que faz a força evolutiva entrar em um estado de evolução “equilibrada”. Isto porque, se uma das forças tenderem demais à selvageria, as outras duas vão se unir, assim voltando para o estado anterior. Portanto, a evolução sempre acaba por tentar encontrar formas de manter o equilíbrio da competição eterna, para que este processo não entre em um estado de selvageria autodestrutivo, mas sim construtivo.

    Na natureza, o que equilibra o feminino e o masculino é o ambiente. Quando, contudo, o ser humano conseguiu se emancipar do ambiente, através do desenvolvimento das tecnologias que permitiu seus costumes a se desenvolverem por meios artificiais, a força feminina e masculina perdeu sua referência ambiental. Contudo, a mesma inteligência que conseguiu desenvolver formas abstratas de viver, também desenvolveu uma força abstrata de evolução, que é a força divina. Deste modo, o equilíbrio entre o feminino e o masculino consegue ser reestabelecido através da força divina, que se materializa na forma de costumes, escolhas e através da concepção do ser humano como algo eterno.

    Esta concepção de “eternidade” se mostrou de fundamental importância, afinal, se o ser humano agir somente em reação ao presente, ele entrará em costumes autodestrutivos. Atualmente, é fácil perceber as pessoas que não enxergam o ser humano como algo eterno se polarizando, seja entre divergências tecnológicas ou pela própria divergência sexual, fazendo coisas que, ao invés de contribuir com o ser humano, o destrói. É fácil perceber isto quando vemos, por exemplo, um grupo de homens formulando táticas para pegar mais mulheres, mesmo que estas táticas passem pela mentira, ou quando uma tecnologia precisa gastar recursos desenvolvendo desnecessariamente formas de defesa contra um inimigo que não reconhece sua derrota. De fato, um pouco de selvageria faz parte do processo de seleção natural, mas quando é demais, de alguma força a terceira força surge.

    A força divina, entretanto, se concretizou demais se tornando uma força uniforme, de modo a não permitir que o novo surgisse. Para isto, foi necessário desenvolver uma estrutura social que organiza a força que mantém a sociedade continuando através do conceito de pesos e contramedidas. É assim que surgem os três poderes, legislativo, executivo e judiciário. Estes três poderes organizam diferentes formas que o poder pode interagir com a realidade, e põe um agente controlando o outro. Assim, nenhuma força é soberana e uniforme, ela tem sempre seu par. Também, é preciso pensar racionalmente em quais medidas tomar para reorganizar as forças sempre que o equilíbrio dos três poderes está se quebrando, que é quando a sociedade começa a voltar para o estágio de selvageria e de vale tudo. Separar a força evolutiva em três e manter este equilíbrio é uma forma de garantir a competição saudável em certos aspectos da vida.

     Quando começamos a pensar em mais que três forças, entramos em um estado de selva. Afinal, qual seria a função única da quarta força, se uma é para sobreviver, duas é para reproduzir, três é para frear a competição autodestrutiva? Se existe uma quarta força, pode existir uma quinta, uma sexta, uma sétima... Um verdadeiro estado de selva, com várias espécies se aproveitando de diferentes aspectos tecnológicos e geográficos. É isto o que explica a existência de vários países, vários estados, várias espécies de animais, equilibradas numa ecológico alcançado através do tempo. Socialmente falando, o que antes era ambiente, agora se torna a atuação do estado. Seguindo esta interpretação, quanto mais saudável é o estado, melhor ele consegue direcionar a energia que ele recebe do sol para gerar vida. Comparem o deserto do Saara, que tem vida, mas é um ambiente difícil, com a floresta amazônica, que tem a maior biodiversidade do planeta.

    É interessante notar que, de tempos em tempos, a força evolutiva pode alterar sua caracterização. Dois exemplos já foram dados, quando o equilíbrio dos três poderes começa a se quebrar e quando uma ameaça externa surge, unificando todos os ameaçados em uma só força. Outra interessante conversão de características acontece quando, dentro de uma “selva”, surge uma tecnologia forte o suficiente para alterar completamente o equilíbrio da selva, dividindo, deste modo, a sociedade em uma situação binária: sua implementação ou não. Deste modo, as diversas forças se organizam em dois “times”, os que são a favor, que vão ser beneficiados, e os que são contra, que vão ser prejudicados. Neste momento, até aqueles que vão ser pouco prejudicados ou beneficiados por esta implementação ou não se sentem pressionados escolherem um lado, pois se o lado que ela estiver vencer, eles vão se beneficiar mais pela própria vitória em si do que pela implementação, além de se protegerem contra as enormes forças que vão se aglomerar em torno de um objetivo. Felizmente, a democracia foi inventada para tentar resolver este tipo de conflito sem o uso direto da força física.

    Finalizando esta analise, pode até ser que exista uma função para uma quarta força, mas se existir eu ainda desconheço. Há quem diga que o ministério público e o tribunal de contas são forças equiparadas aos três poderes, mas eu preciso discordar, pois caso fossem, a polícia e o exercito também o seriam. Afinal, já aconteceu em vários lugares no mundo a força militar se tornar forte o suficiente a ponto de impor sua soberania na sociedade. No máximo, o MP e o TC são materializadores da vontade popular, mas o que eles fazem deveria ser feito pelo próprio cidadão, pois o risco é que eles se desconectem da sociedade e façam coisas transvestidos da vontade popular, mesmo que sem nenhuma intenção maldosa por traz. Espero que esta postagem tenha sido interessante para todos e mostrado a importância de entender sobre os aspectos “abstratos” da evolução. Um abraço a todos.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Privação de relacionamento como violência pura


Nestes dias eu tenho pensado na privação de relacionamento como uma interessante concepção de violência. Ora, se o sexo é abstraído para a continuação do ser, mecanismo máximo de reprodução social, a privação de relacionamento seria o impedimento máximo da continuidade do ser tal como ele é. Uma pessoa que se recusasse interagir com outra estaria, afinal de contas, violentando-a da maneira mais sublime e abstrata possível, pois ela está diretamente impedindo a existência da outra pessoa enquanto ser.

Se toda violência for uma oposição de forças, há a força de quem deseja relacionar e há a força de quem deseja privar-se do relacionamento.  Se aquele que não quer se relacionar for forte o suficiente para, através de sua privação, mudar a outra pessoa, então a violência foi forte o suficiente para alcançar seu objetivo. Caso contrário, cabe à própria pessoa repensar sobre sua relação com seu alvo de violência, pois talvez ela viva num mundo de ilusões, cabendo então sua própria readaptação a realidade. Afinal, toda iteração humana se dá através de relações, e se uma relação não vale nada para outra pessoa, por que se relacionar com ela?

 Quaisquer outras formas de violência alteram outras áreas, que não o ser no seu sentido mais puro. Por exemplo, violência física degrada diretamente as funções vitais do ser. Privação econômica tem efeito parecido, principalmente se essa privação for ao nível de corte na manutenção do corpo que vive, contudo, em algumas ocasiões, a privação de relacionamento também implica numa privação econômica.  Qualquer sistema social devidamente evoluído tem seus próprios mecanismos de adaptação, sendo estes os meios pelos quais aquele que deseja a mudança pode alcançá-lo, não precisando, portanto, recorrer à violência. Em uma sociedade parcialmente evoluída, a violência das leis já é algo grave o suficiente. Portanto, qual outra violência existirá, senão a privação do relacionamento?

Um homem na cadeia sofre a maior violência que ele pode sofrer, afinal. Preso, tendo comida e bebida, mas sendo privado do seu relacionamento com outros seres humanos e mesmo com a própria liberdade. Este castigo pode ser o suficiente para levar alguns homens à loucura, e para que tal não aconteça, é mesmo permitido que eles se relacionam entre eles mesmo dentro da cadeia. No entanto, há aqueles ainda que, mesmo dentro da própria cadeia, não entendem o suficiente sua realidade para alterá-la pelos devidos meios legais, fazendo-o ir ao que se chama de “solitária”. Algumas semanas na solitária e é possível ver um ser humano indo à loucura.

Acredito que qualquer sociedade que clame por outro tipo de violência que não a privação de relacionamento não está devidamente adaptada ao ser enquanto aquele que atua e se relaciona, não ao que é físico. Afinal, é possível matar fisicamente um ladrão, um mentiroso, um estuprador ou qualquer outro tipo de humano não socialmente aceito, mas não é possível matar aquilo que forma seu ser senão através de outras formas de se relacionar. A sociedade que criou um ladrão, que foi morto fisicamente, continuará criando novos ladrões se achar que apenas a morte física é o suficiente, e continuará matando se não alterar fundamentalmente o que ela é e seu comportamento.

Para matar realmente o ladrão, o mentiroso, o estuprador ou quem quer que seja, é preciso desenvolver formas de lidar com a vontade maldosa daqueles que a desenvolvem antes delas serem capazes de se materializar. Através da prevenção, com a psicologia e com uma sociedade justa, através da defesa, com mecanismos capazes de filtrar os agentes que desejam fazer o mal a um menor número, com o ataque, buscando formas de usar o que se tem para identificar quem atua, e com inovação, desenvolvendo novas formas de prevenção, defesa ou ataque, utilizando a experiência de quem, inclusive, cometeu tais crimes. Tudo isto apenas para garantir que aquele que erre receba sua punição: a privação de se relacionar-se com os outros.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Sobre o adornamento

"O adorno causa uma confusão no nosso cérebro. Se ele é adicionado a algo bom, esta confusão será resolvida para causar beleza. Se for adicionado a algo ruim, esta confusão será resolvida para causar feiura. Se o adorno por si só já trazer consigo uma carga de associatividade, então haverá interferências na resolução do caso que podem, inclusive, levar ao engano."

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Uma análise da família através do processo de continuação

 

      Bem vindos. Hoje iremos analisar a processo familiar de acordo com o processo de continuação. O conceito de continuidade surgiu através da observação da evolução, que tudo é continuidade de alguma coisa, adaptando-se de acordo com as necessidades e capacidades. Sendo assim, o interesse desta postagem será analisar a estrutura familiar de acordo com os preceitos da evolução, olhando através das gerações. Também utilizaremos as noções de forças sexuais, aonde o feminino e masculino são forças opostas e complementares que precisam de recursos e tempo para atingir seu ápice funcional. Afinal, a geração de vida passa pela negociação destas forças quando falamos em seres sexuados. Sendo assim, vamos dar inicio a postagem.

    A família tradicional inicia-se com um homem e uma mulher, exercendo as funções de masculino e feminino, respectivamente. Tradicionalmente o masculino gasta a maioria dos seus recursos para manter contatos e ferramentas de produção. Ele adotou esta posição graças às características corporais que os hormônios masculinos atribuem ao homem, como mais agressividade e força, e no processo familiar ele entra como aquele que provém à maioria dos recursos. Já o feminino, por sua vez, acumula os recursos para si, embelezando-se para servir de recompensa para o masculino, como também utiliza sua força para trabalhos mais específicos, próprios de quem cuida do lar e das crias. A recompensa dela está contida nela mesma, mas ela precisa dos recursos providos pelo masculino para alcança-la.

    Imaginemos que esta é uma família sem grandes inovações, que precisam competir na sociedade para prover e administrar os recursos. Dito isto, assumiremos que o casal teve condições de ter dois filhos, um menino e uma menina, de modo a dar prosseguimento ao processo de continuidade. O menino irá assumir o papel do pai, e a menina o papel da mãe, ambos vão se casar com filhos de outra família, de modo a dar variedade ao convívio familiar, mas, para nosso estudo, esta outra família será do mesmo tamanho, de modo a manter o número de pessoas no mundo constante. Assumimos também que não há acidentes. Estas hipóteses são importantes por causa da característica hereditária dos recursos familiares, que são parte importante da continuidade das características de uma família.

    O menino, por precisar assumir o papel do pai em um futuro um pouco distante, começa a acompanhá-lo por tudo quanto é canto para aprender e desenvolver relações com os outros meninos, que acompanham e serão substitutos de seus pais em seus respectivos trabalhos, assim como desenvolver relações confiança, conhecimentos e contatos necessários ao trabalho. As meninas, em contrapartida, ficam em casa, para aprender seu trabalho específico de dona do lar, assim como aprender a como administrar bem os recursos para embelezar-se. É interessante perceber que neste exemplo, o feminino e o masculino são copiados com pouca variação, afinal, estamos num cenário de mundo estável, sem grandes mudanças tecnologias ou de paradigma social.

    Durante a adolescência, inicia-se a fase de reprodução. Ambos os filhos do casal precisam utilizar parte do seu tempo para conhecer novos parceiros e dar inicio ao processo de formação de uma nova família. É preciso notar as diferenças de comportamento que o exercício tradicional das forças sexuais implica a cada gênero adolescente: o masculino tenderá a correr atrás, porque ele quer a recompensa. O feminino tenderá a esperar, por ela ser a recompensa. O masculino desenvolve formas de ataque pra conquistar o feminino, enquanto que o feminino precisará desenvolver formas de defesa para a integridade dos seus recursos manterem-se sólidos para serem quebradas apenas por um masculino forte e que tenha reais intenções de manter família com ela.

    Este processo tradicional de reprodução foi atingido após várias e várias gerações de testes e de transição de conhecimento. Ele se baseia tanto na força do masculino de conseguir conquistar o feminino, através de seus conhecimentos de competição aprendidos por seu pai e direcionados pra menina certa através dos conhecimentos de feminilidade da mãe, quanto na força do feminino de defender seu acumulo de recursos, recebido do seu pai e formatado por sua mãe, para esperar o masculino que realmente queira formar família com ela. É uma espécie de negociação, que testa a força e a integridade dos recursos do parceiro que se pretende formar a família, para então dar prosseguimento ao processo de continuidade. O masculino que não conseguir atacar e o feminino que não conseguir se defender é deixado de lado neste processo, se reproduzindo tardiamente ou mesmo não conseguindo se reproduzir, ficando para “titia”, como dizem popularmente.

     No nosso mundo hipotético, aonde cada casal tem apenas dois filhos, este comportamento de não conseguir se reproduzir significaria uma constante baixa na quantidade populacional, de modo que em algum momento a população seria reduzida a zero. Ou, caso forcemos que cada pessoa encontre seu par, teríamos uma situação de castas sociais. Isto porque, a cada geração, os casais irão se dividir em dois: os que tiveram sucesso em reproduzir-se, de modo que o masculino conseguiu atacar e o feminino defender tempo o suficiente para que eles desenvolvam um processo de formação familiar firme, e os que falharam, de modo que ou o masculino não conseguiu atacar, ou o feminino não conseguiu se defender. A falha na reprodução também significa uma falha na produção.  Um pai ou mãe que falha não tem condições de ensinar sucesso ao filho ou filha, de modo que quem teve sucesso vai tender a continuar tendo através das gerações. É desta forma que duas castas irão surgir: aquelas que continuam o sucesso e aquelas que continuam o fracasso.

    Obviamente, a realidade é bem mais complexa e rica de mecanismos. Porém, ainda dentro desta realidade, podemos explorar mais alguns conceitos. Para esta exploração, adicionaremos a possibilidade de “acidente”, que pode ser tanto negativo, de modo a incapacitar um pai ou mãe de transitar seu conhecimento com sucesso para seu filho ou filha, ou positivo, de modo a dar uma vantagem de ataque e de defesa para o filho ou filha, independente do conhecimento e recursos já estabelecidos. Como há a possibilidade de acidentes, é preciso também aumentar a taxa de reprodução para a população se manter constante, pois haverá pessoas que não vão conseguir se reproduzir, por serem fruto de algum acidente, e outras que irão reproduzir até por demais para compensar.

    Com a adição dos acidentes, fica um pouco mais fácil imaginar como um processo de continuidade pode ser interrompido ou incrementado de maneira misteriosa e, às vezes, desequilibrada. Imaginemos uma família que por várias gerações tenha sucesso. Por um acidente, contudo, aquela família de sucesso experimenta a falta de capacidade de transmitir o sucesso aos seus filhos, como um pai ou mãe morto por exemplo. Metade do conhecimento, recursos e valores que faziam aquela família ir bem deixam de ser transmitidos, e os filhos vão experimentar a difícil tarefa de competirem sem esta metade. Podem conseguir ou não, tudo depende do tamanho do dano que aquele acidente representa. Ou, por outro lado, uma família fracassada pode experimentar um acidente benigno, de modo a dar vantagens de reprodução a ela. Neste ponto, é preciso que ela aproveite a chance para adaptar seu estilo de vida para aproveitar bem esta oportunidade.

    Adicionaremos agora a violência. Com a adição deste recurso, cada indivíduo terá de ter mais algumas características: a sua capacidade de violentar, a sua capacidade de defender-se, e o quanto ele acredita no que ele faz a ponto de aguentar o sofrimento. Caso ele chegue ao máximo de sofrimento que ele consegue aguentar, inicia-se um processo de revolução da continuidade: não há modelo fixo para resolver. A pessoa pode decidir matar alguém, matar a si próprio, fugir de casa e não voltar, aceitar casar-se com a primeira pessoa que aparecer, dentre tantas e tantas outras possibilidades. Todas elas, contudo, altera abruptamente o processo de continuidade que estava sendo estabelecido por aquela família. Com a adição da violência, é também preciso pensar nas possibilidades de roubo, de mentira, de agressão física, etc. Vamos agora analisar alguns casos de continuação de uma família através com a adição da violência.

    Sabemos que, no modelo tradicional, o pai é o responsável por prover recursos para a família. A mãe, por administrar e cuidar do lar. Com a adição da violência, a mãe pode mentir, o pai pode bater. Os filhos podem ser violentados por outras pessoas, de modo a se voltarem contra seus pais. Por exemplo: um filho ou filha encontra um modo de vida que parece ser mais fácil que o do seu pai ou mãe, mas estes, por saber a violência que há no mundo, tentam, a qualquer custo, desestimular que seu filho ou filha vá por esse caminho. Muitas vezes essa tentativa passa pelo crivo da violência física. A questão que a violência física desestimula até certo ponto, mas se o filho ou filha realmente acreditarem naquilo, esta violência não os impedirá. Uma tragédia, portanto, pode acontecer, pois sempre é possível agredir um pouco mais e não existe nenhum mecanismo de aviso de parada a agressão.

    A violência física pode ser o suficiente para desestimular a aquela pessoa que deseja fugir de algum determinado processo de continuidade a prosseguir ao ponto de dar tempo o suficiente dela perceber que, aquele caminho que parecia mais fácil, na verdade, era algum tipo de armadilha, como roubo. No entanto, pode ocorrer que aquele sentimento de vida mais fácil seja realmente verdadeiro, afinal, existe os “acidentes” positivos, como anteriormente já mencionado. É preciso que haja bastante equilíbrio por parte dos responsáveis pelo processo de continuação para que a violência seja bem aplicada. De preferência, que não haja violência física, mas sim muita negociação e, no máximo, privação de relacionamento, que, por si só, já deveria ser uma violência forte o suficiente para fazer qualquer pessoa relacionada ao processo de continuidade repensar no seu caminho, caso este processo seja realmente saudável.

    Por exemplo: se um filho ou filha decidir ir por determinado caminho e o pai ou mãe decidir privar-se de relacionar-se com ele, após tentar todos os mecanismos de negociação possível, essa próxima geração estará deixando de receber uma boa parte dos recursos e grande parte dos conhecimentos e valores que seus familiares podem dar a eles. Isto abre espaço para um processo de renovação ou de recuperação. Se a privação de relacionamento não funcionar, é porque aquele que está se privando do relacionamento tem pouco ou nenhum efeito sobre a vida daquela pessoa, então é preciso repensar sobre a função deste relacionamento em si, sobre as possibilidades de readequação e atuar de forma diferente, para fazer diferente se assim desejar ou buscar relacionar-se com quem sente a diferença com a relação.

     No começo do texto atribuímos a função masculina ao homem e a feminina a mulher, justamente pelas características físicas de cada um, que permite que eles desempenhem uma função maximizada em determinados papeis. Porém, com o avanço da sociedade, surgiram trabalhos que se utiliza pouca força física, assim como, através dos métodos anticoncepcionais, parte da “integridade” feminina, de ser capaz de esperar pelo parceiro certo para então iniciar os procedimentos de reprodução, passa a ser redundante. Desta forma, a função tradicional do feminino e masculino perde suas características de fixação, e estas características passam a flutuar através de abstrações de comportamento mais modernas. Deste modo, um homem, heterossexual, pode exercer o papel tradicional da característica feminina, enquanto que uma mulher, também heterossexual, pode exercer o papel tradicional da característica masculina. Desta forma, a própria definição de masculino e feminino se abstrai para, simplesmente, forças opostas e complementares cuja negociação gera vida.

    Com esta incrível quantidade de elementos que podem variar o processo de continuação, e ainda com a abstração das forças sexuais explicadas no parágrafo anterior, como lidar com tanta variação de comportamento? Esta é uma pergunta muito importante, pois é muito fácil as pessoas se esquecerem de que o mais importante da vida é encontrar meios de continuar vivendo. Há muitos que negam o processo de continuação por tão confuso que ele se tornou, ao não desejarem ter filhos. Há outros que querem cristalizar o processo de continuação no modelo tradicional, e outros que querem quebrar completamente tudo o que possa parecer com tal modelo. Há, inclusive, os que resolvem se suicidar, ou quebrar completamente qualquer lógica de continuação através da prostituição ou do roubo.

    Ora, é preciso que cada um de nós pense que continuação somos, como fomos gerados, como nossos pais foram gerados, e o que vamos passar para as próximas gerações. O que acreditamos ser, de modo a aguentar o sofrimento e prosseguir. Cada ação é atrelada a um valor e a um recurso, e, quando pensamos nesta ação ao infinito, é que entendemos o que ela significa para o processo de continuidade, é quando vamos saber se realmente acreditamos e queremos dar continuidade ao que somos. Ou, caso não, remodelar-se, buscar ser diferente, recuperar-se, transformar-se, abrir-se ao novo. Deixar que acidentes aconteçam na vida, se agarrar aos bons e consertar os ruins, e assim reconstruir a continuação com respeito à vida. Abraço a todos.

PS: Existem dois exercícios o autor deste texto gostaria que o leitor fizesse.

O primeiro se refere na afirmação, "mas ela[feminino] precisa dos recursos providos pelo masculino para alcança-la[a recompensa contida no próprio feminino]". Que masculino é este que provem os recursos? Acaso pode haver, a depender do modelo, o feminino e o masculino dentro de um mesmo corpo?

O segundo se refere ao modelo básico de continuidade familiar, aonde cada casal tem dois filhos, um menino e uma menina. Como seria a política de habitação entre as gerações?