segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Comentários: fé cristã e ação política

Comentários Fé cristã e ação política:

- citações: uma das citações sobre o livro relata sobre o desejo de ter até partidos políticos cristãos. Isto, inicialmente, me assustou, mas a depender de como for feito pode até ser possível, talvez? Melhor ler o livro antes de ir com abordagens preconceituosas.
- Pág 23: é interessante essa reflexão de que só existe uma forma secular de organizar a sociedade em resposta à uma forma religiosa. Isto também me leva a pensar acerca das minhas reflexões sobre ética e estética estatal. Quais valores, além dos divinos, são poderosos o suficiente para impor um consenso de ética e estética à um estado? Isto explica prq os estados eram em grande parte religiosos, mas também me faz pensar se temos condições de construir algo diferente. Se não, muito do meu esforço pode ser desconsiderado e/ou redirecionado.
- Pág 25: o autor comenta que anão distinção masculino/feminino pode ser um possível sinal de falta de amadurecimento. Isto, ao meu ver, é um juízo de valor, porém é relevante. Quanto a isto eu digo que a secularização permitiu mais formas energéticas para além do masculino e feminino, mas concordo que a diferenciação entre ambos é um sinal de maturidade, mas maturidade sob o ponto de vista da tradição cristã e não no sentido absoluto. Isto harmoniza essa expressão linguística com as outras vivências religiosas, mesmo que sejam religiões não transcendentais.
- Pág 26: essa análises históricas são por demais ricas. e demonstram o ponto de Doowyeerd com precisão.
- Pág 34: Esta caracterização do pobre é bem interessante. Concordo que a visão do evangelho que é por demais politizada também é por demais material, fugindo do espírito de Cristo, que é trazer a redenção à humanidade através do próprio sacrifício. Foge porque eles querem a estrutura material para sacrificar o outro, o rico, em favor do pobre, que não é ele, ou mesmo pode ser. à imagem de Deus; pessoas em rebelião; encarnação de Cristo; o favorito de Deus; almas perdidas;
- Pág 37: o autor afirmou que a teologia protestante tem mais condições de fornecer os parâmetros de justiça distributiva para uma nova configuração social porque a sociedade tem raízes culturais no cristianismo. Para mim, está é uma afirmação muito pesada. Estou a esperar para ver o que ele quis falar com isto.
- Pág 38: aqui o autor evocou um sentimento de injustiça inato ao leitor. Não é possível demonstrar que todo leitor terá este mesmo sentimento de injustiça inata. Parte dessa argumentação, portanto, pode ser questionável. Ainda sim, mesmo com essas imprecisões, a visão teológica construída é boa.
- Pág 39: o autor traz a citação de que somente Deus sabe distribuir corretamente a totalidade dos bens da humanidade. Isto me é uma conclusão agradável.
- Pág 43: o autor traz uma sugestão de que a harmonia de conceitos antagônicos, como progressismo e conservadorismo, é atingida através da estética. Isto pode ser um ponto que eu posso trabalhar futuramente dentro de mim mesmo, a questão estética da minha filosofia.
- Pág 43: uma interessante visão quanto a dicotomia de todo X partes: o todo ultrapassa a soma das partes, mas as partes tbm não são limitadas pelo todo.
- Pág 50: na página anterior, fala-se no religioso como cura do modernismo. Na página em questão, fala-se sobre na incapacidade de um grupo de religiosos em julgar o que é melhor para todos. Estou a começar a compreender o que se prega aqui: que cada autoridade, como eles dizem, ou organismo social, que eu digo, começa a compreender sua identidade em Deus e, com isso, exercer corretamente todas as outras soberanias. Isto é algo parecido com o que eu penso acerca do que seria uma possível vinda de Cristo: quando todas as autoridades - política e científica, por exemplo - se prostrariam diante dEle, mas somente dEle, não de seus representantes, isto é, autoridades da igreja. Isto traria equilíbrio ao mundo, de modo que poderíamos viver uma nova realidade. Indiretamente creio que o autor esteja falando disto.
- Pág 53: Não entendi o que ele quis dizer por "natureza" e "mundo". Este mesmo parágrafo é todo discutível e confuso.
- Pág 55: "um acordo entre autoridades plurais e reciprocamente responsáveis poderia honrar honrar a convicção de que a soberania absoluta pertencia somente a Deus".
- Pág 56: interessante o exemplo do bispo, trazendo a luz da vida até as questões mais intimas da igreja, pelo o que eu entendi. Um exemplo bonito de comunidade cristã, que talvez esteja próximo ao que Cristo fala em alguns momentos. Parece que nossa cultura não está preparada para isto.
- Pág 62: o autor explícita o prq ele considera o cristianismo como a religião central para o ocidente. Admiro a posição dele, pois desenvolvi minha filosofia com o mesmo pensamento, porém, ele tem a coragem de explicita-lo, enquanto eu mantenho implícito, embora não o esconda. Talvez o tenha feito por não ter as justificativa historico-social que o autor traz consigo. Essa argumentação sobre esfera público-privada é bem forte. Além de coragem, tbm sofisticação
- Pág 71: é interessante essa reflexão acerca do corpo político. Minha filosofia de organismo social está longe de chegar em tais conclusões, e a conclusão parece ser forte: a de que teremos que fazer mudanças comportamentais através da vida nua. No entanto, eu preciso entender o que isto realmente significa quando contraposto com o passado ou contemporâneo. De algum modo creio que signifique que não adianta mais tentarmos mudar as coisas através da imposição, prq tudo é dominado pela política, e de que não temos condições de negar isto, mas somente de aceitar e transformar através da nossa própria transformação.
- Pág 72: essa comparação entre os rituais de dispensação da gloria é a mídia foi excelente. Inclusive, tenho a impressão que a mídia do pós-modernismo está esgotada. Parece que não há mais o que se produzir, se produz mais do mesmo. Universo de super-heróis e filmes cada vez mais apelativos ao institutos humanos. Idem as séries. Raro ver algo inovador. Mas isto pode ser apenas uma impressão minha. Mas, se não for, indica claramente uma saturação da pós modernidade.
- Pág 77: aqui o autor aponta para a necessidade de diminuir-se a politização. Isto, no entanto, parece-me entrar em contradição com a conclusão anterior de biopolitica. Se a conclusão é que, a parte da biopolitica, chegamos num ponto sem volta do corpo ocidental, então não há como não politizar tais questões no ocidente. Ou diminuir a importância delas. Diminuir a importância delas é diminuir o poder da biopolítica. Como cristão, estou inclinado a aceitar que a biopolítica tem menos poder, uma vez que o verdadeiro valor está em Cristo. Como pensador político, penso que as estruturas sociais que formam a política são bem fortes na nossa modernidade, não é trivial convencer as pessoas a desistirem de suas pautas de luta. Todos temos uma proposta contra o capital bruto, mas o cristianismo me faz crer que não existe resposta organizacional capaz de lutar contra isso que não a volta de Cristo. O que é a volta de Cristo? Não sei. Sei que o cristianismo é o lugar para onde todo aquele que entende que um sistema econômico plenamente justo só é possível nEle e, mesmo assim, sacrificam-se para viver em Cristo e demonstrar a bondade de Deus aqui na terra, como sinal para o que há de vir. Neste sentido, ainda espero, do autor, saber qual vai ser a proposta de ação para este pensamento político. Ainda acho que é algo semelhante ao já mencionado anteriormente. Um pensamento me ocorreu agora: a glória de Cristo deve ser algo que transforma o ser humano. Um ritual cristão, se não for transformador, então pode ser convertido simplesmente a algo secular, realizado para manter o prestígio social da estrutura social em torno dele. Essa estrutura, se não for instituída por Deus, provavelmente utiliza-se de violência para se manter. Assim, podemos analisar os rituais das sociedades e entender quais violências elas comentem. O ritual do consumo, por exemplo, deixa a mercê milhares de pessoas fora dele, e pra isso se instrumentaliza através da biopolítica para decidir quais grupos vão ascender ao consumo ou não. O estado chinês, por sua vez, ao que me parece, está tendo bastante sucesso na prosperidade, mas tbm comete violência através do controle extremo. Porém, justificar que a violência do controle chinês é responsabilidade do estado e as mortes que ocorrem no brasil por falta de estado não são responsabilidades do estado brasileiro, então ele está sendo incoerente.
- Pág 83: novamente o autor parece criticar todas as formas de ser política: nacionalismo, liberalismo, socialismo, etc... Porém, volto sempre a pergunta: como ele irá resolver isto? Creio que seja através do ensinamento de que não podemos usar essas ideologias como depósito da nossa fé, mas tão somente como instrumentos políticos. Novamente lembro-me da relação que fiz anteriormente com a violência: será o tipo de violência que cada um desses sistemas estão dispostos a fazer algum tipo de representação ou tipologia dos sacrifícios que fazia-se, no antigo testamento? Ou seja: a violência do comunismo é contra o capitalista e vice-versa. A violência do nacionalista é contra o estrangeiro. A violência do anarquismo é contra qualquer forma de estado. Etc... Cristo aponta uma solução pra isto uma vez que ele é o sacrifico que redimiu a humanidade, demonstrando como todas essas ideologias estão distorcidas e atrasadas.
- Pág 87: o "livre de ideologia" me preocupa, pois se Dooyweerd argumenta que na filosofia não há união prq não se consegue partir do mesmo lugar no pré-teorico, eu argumento que isto tbm acontece na fé cristã. Inclusive, a depender da vertente de teologia, há o próprio anticristo que está a solta por aí. Então para mim estas coisas não são tão triviais. Ou seja: não será simples este projeto de livrar-se da ideologia, ou mesmo impossível. Mas isto não significa que não devemos fazer nosso melhor para tentar. Tal como o processo de santificação. Neste ponto, ser capaz de quebrar os ídolos é necessário. E os santos vão ser capazes de quebrar um a um, até que sobre somente Cristo.
- Pág 88: lembro-me de alguma menção a isso anteriormente. De que, embora tenhamos "eliminando" o consumismo da nossa teoria - forma de racionalizar as percepções da vida - ainda vivemos na prática, o que não deixa de ser idolatria.
- Pág 92: o que o autor está descrevendo é o que eu descrevo na minha filosofia como a polarização da jornada do herói.
- Pág 94: nessa citação se toca em dois temas importantes: assimilação cultural e moral. Pelo jeito o autor está usando, como moral, o que eu chamo de ética de estado. Sendo assim, não consigo compreender bem o que ele quer dizer valor moral igual. O que significa uma moral ser igual a outra ou melhor ou pior que outra?
- Pág 95: este parágrafo continua sendo um mistério para mim. Não entendo onde ele quer chegar. E tbm não me parece adequado que ele queria criticar um movimento intelectual de pessoas cuja revelação em Cristo ainda não chegou. De fato, eles pensam que estão em guerra. Nós já vencemos essa guerra com a vitória de Cristo. Não será tão simples resolver. Acredito que o autor saiba disso, portanto essa menção ao evento intelectual foi apenas desnecessária ou exemplificadora. No entanto, é preciso levar em consideração que a ideia de estado democrático de direito está caindo por terra. Então pode ser uma menção não tão desnecessária assim.
- Pág 98: essa bandeira da educação é perigosa, uma vez que nenhum conhecimento é desprovido de política. Parece um apelo a apolítica, ou seja, que existem estruturas técnicas capazes de responder de maneira objetiva e material o que é melhor para todo mundo. Isto é um assunto complicadíssimo. Entretanto, defendo que todo cristão tenha o direito de expressar sua opinião política.
- Pág 103: nessa página o autor revela um pouco mais concretamente que ele espera que o melhor entendimento de como a sociedade funciona através da soberania das esferas nos leve a uma melhor discussão política. Nisto concordo. Discordo, porém, quando o autor diz que a separação entre esquerda e direita será diluída através do "ser cristão". Diante da minha perspectiva, não irá. Isto não significa que todo este trabalho está perdido, ele só não é tão forte quanto se imagina. Ainda sim, é forte o suficiente para nos trazer importantes avanços.
- Pág 107: o autor faz um expressivo ataque a ideologia de gênero. A tirar a negar a dissociação da matéria com a alma que a ideologia de gênero costuma fazer, que não é aceitável para um cristão como sendo natural, não entendo o prq tanta força neste ataque. No entanto, na página anterior, a descrição sobre como a uniformização destrói a vida foi muito bonita.
- Pág 109: o autor fala que devemos impedir líderes de igreja que abusam emocionalmente de seus fiéis. Mas não ficou claro como.
- Pág 112: ser julgada de acordo com qual perspectiva? De acordo com quais compromissos? Tbm não entendi, na página anterior, o que significa esse financiamento independente da abordagem confessional. Achei bastante estranho. Ele trata sobre tratar os corpos com justiça, mas que justiça? A justiça de Deus? Do estado? Do mercado? Isto ficou bastante vago. Entendo que o autor, ao falar do multiculturalismo, precisa ser bastante cauteloso devido a carga de preconceito que a cultura cristã deve ter. Muito bonita essa reflexão final sobre atividade e passividade.
- Pág 114: normatizar como? Determinar como? Como aplicar a justiça de Deus na materialidade das coisas?
- Pág 115: o autor parece estar batendo em fantasmas visto que não é pauta de nenhum pacote ideológico que eu conheça a defesa da pedofelia ou neonazismo. Pelo menos não um legitimado em lei e com instituições bem formadas. Tais absurdos tbm não podem ser veiculados em rede pública de comunicação. Pra piorar, ele diz que não é papel do estado não opinar no formato das famílias, mas não esclarece, novamente, como ele pretende estabelecer isso no estado como premissa. E tbm parece confundir a afirmação do tal filósofo brasileiro da função dos intelectuais numa revolução com a função do governo. Sem contar que se ele quer dizer que os indivíduos sabem o que fazem para justificar um estado não grande, então ele tá falando sobre seres humanos pecadores e está indo além do confessional, uma vez que a maioria das pessoas se dizem cristãs mas mal lêem a bíblia. Enfim, estou achando esse posicionamento fraco. O autor tbm elogia o afastamento do Chaplin e fala sobre equilíbrio. Novamente: equilibro sobre que ponto de vista teórico? Tudo isto me parece ser dito do ponto de vista cristão, o que é bom, porém não creio que seja filosofia de estado. Repreensão como? Incentivo como?
- Pág 117: o autor dá o que possivelemente um exemplo dessa pratica de incentivo do estado. Isto me preocupa, pois uma vez que há incentivo do estado p entididades religiosas, e uma vez sendo o cristianismo uma das únicas religiões capaz de suportar a modernidade, então será o cristianismo o único beneficiado?
- Pág 120: a crítica do autor foi boa, mas quem garante que ele tbm não está sob alguma ótica ideológica? Isto não ficou claro. Mas ele segue com uma pergunta fundamental: qual a confissão do estado? Estou muito tentado a dizer que é a própria sobrevivência.
- Pág 121: o autor reconhece importantes atributos do estado, e a não ser como os cristãos que querem dominar o estado por interesse próprio. Porém, esse estado do qual ele fala pra mim parece inalcançável. Só na volta de Cristo. Não fica claro, novamente, tudo isto na prática, embora eu já esteja achando estranho algumas afirmações que na boca de um cristão é ok, mas não na boca de um estado. Ou seja: ele não é está produzindo um estado verdadeiramente secular, e eu não acredito que nossa sociedade seja capaz de aceitar um estado não secular. Para mim, cristaos devem ser fortes o suficiente para até mesmo influenciar o estado secular através do voto e da opinião. Mas para isto é preciso muita maturidade.
- Pág 129: parece-me que o autor não tem ideia de onde ele está se metendo ou eu não entendi o que ele quer dizer. Cristianismo meter-se nessa briga de progressistas X conservadores? Como? O autor falou sobre meta-argumentação, mas até agora não vi nada de concreto do autor, apenas argumentações em nível abstrato. O autor crítica que autores que, como ele, vieram da mesma tradição. Porém, não estou enxergando nenhum posicionamento prático até agora.
- Pág 131: o autor não define o conceito de verdade em momento algum. Com isso, ataca o tipo de verdade que quer. Em específico, ataca a verdade política como sendo inexistente porque toda verdade por trás da verdade política é um compromisso religioso. Isto, para mim, também é um tipo de absolutismo, porém um absolutismo insuperável. Autoridades políticas sempre vão absolutizar a realidade para a política, enqunato que autoridades religiosas sempre irão absolutizar a realidade para a religião e a ciência idem. Neste ponto começo a discordar do livro e vejo alguns erros de compreensão. Os cristãos devem sim afirmar um estado, mas um estado laico, porque os impostos são feito em cima de pessoas não por critérios religiosos, mas por critérios políticos. Se a afirmação de um estado passar pela afirmação religiosa, haverá problemas. O autor ainda não está claro no que ele está falando e parece-me que ele está ganhando um tom mais agressivo no final deste livro o que, pra mim, parece desequilibrado.
- Pág 132: um exemplo claro está na sexualidade. Como o autor pretende fazer com que a visão cristã opere na sexualidade? Como vamos impor ou fazer isto acontecer? Ensinando as crianças, por meio do estado, de que homossexualismo é errado? Com base em que? Temos nossas igrejas pra fazer isto, certo? Além disso, parece que a influência que leva uma pessoa a um caminho ou outro é puramente racional, e não o espírito santo. Não entendo o que este autor está falando, volto a insistir.
- Pág 138: exemplo interessante. O autor parece-me um pouco desequilibrado ao chamar uma iniciativa de "lamentável". Acaso ele é o dono da verdade para saber se não existem planos ou motivos que ele desconhece? Principalmente se tratando de irmãos em Cristo? Para mim isto é uma coisa muito confusa.
- Pág 140: neste ponto o autor anuncia que vai entrar no aspecto litúrgico. Desde que a liturgia tenha como objetivo a formação da virtude, e que seja sempre este o critério prioritário para a adoção ou não de uma liturgia, não me oponho. Mas é preciso tomar cuidado porque a liturgia pode ganhar outras dimensões não desejáveis, que talvez sejam inevitáveis, mas nunca podem se tornar prioritárias. Isto lembra o Tao Te Ching.
- Pág 143: o autor aumenta o conceito de liturgia. Entretanto, não fica claro o que é liturgia para o autor.
- Pág 145: o autor volta a ter um ar balanceado. Talvez seja a minha a falta de balanço por não entender precisamente ao que o autor crítica. De qualquer forma, venho pensando acerca do que ele disse por: "transpolitico". Isto significa que há áreas da religião que afetam a vida humana e que não tem dimensão política, pelo o que eu entendi. Se for isto, tbm é possível assumir o "transreligioso", ou seja, áreas da política que não tem dimensão religiosa? É preciso definir bem o que é política e o que é religião para não recair em erros de linguagem. O autor parece-me estar muito no campo do abstrato e por vezes tenho dificuldade de traduzir suas abstrações para a prática. Esse texto do Lewis é excelente.
- Pág 148: uma vez que eu tive uma formação cristã muito atípica, tenho imensas dificuldades em enxergar a liturgia como elemento de formação cristã. Por outro lado, entendo que há um vazio na existência humana, em minha própria, que deve ser preenchido. Como preencher? Liturgia certamente pode ser uma resposta. Mas, como dito anteriormente, se a liturgia tiver outros propósitos, como apresentados pelo autor, de nada valem. Mas como, por outro lado, garantir que a liturgia tenha os propósitos corretos? Daí encontra-se a habilidade ou a revelação do ministro. Neste sentido, o ministro é o ponto chave para administração da boa liturgia. Mas como garantir boa formação de ministros? Nosso primeiro ministro é Cristo. Ele nos ministra com sua vida. Através de Cristo, ministros são formados. Estes ministros levam Cristo a outras pessoas. Toda liturgia, portanto, nada mais é que levar Cristo para as pessoas, para que através disso elas tenham a revelação de Cristo. Parece-me inocente falar sobre liturgia com propósito de desenvolver virtudes. O que isto significa? Que nossos jovens vão ter a revelação de Cristo ao aprenderem, mecanicamente, a serem pacientes? Ao aprenderem, mecanicamente, que precisam colocar sua esperança de vida em Cristo? Para mim isto não está claro. Os jovens aprendem, por outro lado, quando há um ministro de Cristo levando Cristo a eles. Mas e se não há um ministro de Cristo levando Cristo a eles, significa que não há chance dos jovens aprenderem? Não creio nisso, pois creio que o próprio espírito santo encontre maneiras de ministrar a aqueles que o buscam. Ele é pai dos órfãos. Talvez eu simplesmente esteja fazendo uma leitura errada do que o autor quer dizer. Mas me preocupa o autor depositar esperança no mecanismo da igreja para geração de jovens virtuosos. O problema de decidir se um jovem é virtuoso não é determinístico. Não existe mecanismo satisfatório para tanto. Somente aqueles cujo coração está iluminado pelo espírito santo pode, talvez, conseguir julgar com mais assertividade, pois mesmo estes podem falhar por engano do inimigo. Entendo a preocupação do autor e acho válida, só faço estas correções ou considerações.
- Pág 148: o autor, para mim, comete um erro grave ao afirmar que ideologia nenhuma resiste numa comunidade que adora a Cristo. Isto significa que as comunidades cristãs que dizem adorar a cristão e que, segundo a visão do autor, tbm servem a alguma ideologia, como as comunidades cristãs que tem viés humanista ou viés liberal, não são comunidades cristãs? Como o autor julga o que é ou não é de Cristo? Através da escritura? Então ele aponta para uma comunidade e diz: vc não é de Cristo prq em vc há ideologia? Isto é extremamente complicado. Não me agrada essa abordagem. Além disto, como ele pode dizer que a comunidade cristã é a única capaz de produzir virtudes humanas? Isto tbm é uma afirmação extremamente perigosa. Aceita quem quer e isto será uma afirmação de fé, mas há quem possa discordar. Mas posso ter entendido errado tbm.
- Pág 152: parece-me aqui ficou um pouco mais concreto os conceitos que ele anteriormente falava: conseguir influenciar o coração de pessoas importantes na sociedade com o evangelho para que, através disso, essas pessoas importantes transformem a sociedade de dentro pra fora. Lembro-me do exemplo já dado do cara que desistiu da carreira política dele com o intuito de não "negociar seus princípios". Por outro lado, pede-se que pessoas que trabalhem em instituições falidas se convertam, e transformem tais instituições prq, naturalmente, elas não vão negociar princípios para trabalhar nestas instituições. Isto pode dar certo? Para mim, parece contraditório ou o exemplo só foi ilustrativo, não normativo. De qualquer forma, se o exemplo for ilustrativo, significa que pessoas vão se converter ao evangelho, mas se defrontar com uma realidade de pecado tão pesada que nada podem fazer ou, se puderem, no máximo, vai ser desistir de suas carreiras de maneira autosacrificial. Ou seja: ainda sim as instituições vão continuar pecaminosas. Há ainda a possibilidade de elas conseguirem transformar, através do tempo, de pouco a pouco, através de pequenos vários sacrifícios, aquela instituição. O que é o cenário mais realístico. Neste caso, ela precisará saber conviver com o pecado, negociar, ter sabedoria para saber quando é o momento de dizer sim e não, ter o espírito santo para saber quando recuar e quando avançar em busca do seu propósito. Isto, porém, traz uma consequência que o autor parece não estar consciente: a atuação cristã acontecerá de maneira não ideal e não avaliável. Isto pode ser um problema para o autor, uma vez que ele parece criticar igrejas que posturas híbridas e de negociação com ideologias para alcançar fieis. Para mim, isso é um erro teológico, ficar reclamando desse tipo de coisa, pois ele não reconhece que mais importante de tudo é a palavra de Cristo chegar. Se ele assume que existe uma forma perfeita para essa palavra chegar e critica o outro para que isso aconteça, ele tá assumindo uma posição que não é confortável para mim, pois o que eu desejo é que ele mesmo seja a mudança que ele espera para o mundo ao invés de ficar fazendo pressão por argumentos racionais e teológicos que o outro mude.
- Pág 157: o que o autor tanto critica parece-me natural à escolha de alguns por quantidade ao invés de qualidade. Em alguns momentos da história, os evangelistas escolheram a quantidade. Mas prq, fundamentalmente, isto é errado? Prq não existe um corpo teórico para justificar as práticas? Posso ter entendido errado, mas acredito que o autor falou isto deste caso em tom de reprovação. Ou seja: perdeu-se o caráter familiar, desejável, da comunidade cristã, para um caráter industrial. Concordo com ele, mas não vejo isto nem como bom ou como ruim, só como algo que aconteceu na época. A pergunta é: o que queremos para nossa época? O que queremos para agora? E como construir isto? O autor deu uma pequena pista. Novamente ele começa a bater nas igrejas brasileiras, por outro lado, defendendo alguns pastores que eu chamo de anticristo que tiveram a coragem de ir à público defender de maneira completamente inadequada pautas que o autor considera cristãs. O que eu vejo? Muita crítica, muita argumentação abstrata, e pouca prática, até agora. Eu estava esperando algo mais prático. Estou sendo crítico agora, e talvez nem eu mesmo tenha essa prática. No fim da página o autor diz: o Brasil não mudará. A pergunta que fica é: mudar de onde pra onde? Com qual propósito? Ainda não está claro pra mim.,
- Pág 158: o autor evoca que a prática da catequese deve retornar, como uma forma de instruir nossas crianças desde cedo. Mas se essa prática é tão boa assim, prq ela foi abandona, a começo de conversa? O que eu digo é que esta prática pode ser boa ou pode ser ruim, a depender de quem a ministra. Se aquele que a ministra não a faz com o coração em Cristo, ele pode buscar catequizar apenas como modo de manter a fidelidade da igreja ao longo das gerações. Isto não é algo trivial de ser feito da maneira correta.
- Pág 159: o que eu não entendo é o prq o autor fica falando sobre sociedades voluntárias X orgânicas. Será que ele acredita que se incutir na cabeça das pessoas que igrejas são orgânicas, ou seja, devem ser relações mais profundas, isso vai ser o suficiente para expurgar a cultura liberal das pessoas? Para piorar, ele não parece estar colocando isto de maneira razoável. O que isto significa? Que se minha igreja fizer coisa errada, se eu não estiver me sentindo bem, ainda sim eu devo insistir no meu relacionamento com a igreja? Até quando? Quais limites? E se eu falar e ninguém me escutar? Não existe procedimentos estabelecidos que ditam qual é a correta cultura de relacionamento de igreja? A discussão não deveria ser simplesmente tipificar o tipo de igreja, mas sim quais são os processos que fazem com que a igreja seja um organismo ao invés de uma associação voluntária. No estado bem sabemos quais são estes mecanismos, a saber o corpo jurídico. Na família, tbm, que são os laços de sangue. Mas e na igreja? Além disso, espera-se que aceitemos tais mecanismos prq os reconhecemos a luz da bíblia e através da revelação do espírito santo, e por nenhum outro motivo. Não é uma argumentação racional mas sim uma revelação do espírito santo que nos faz querer nos submetermos a autoridade da igreja. Isto precisa ser mais explanado, e talvez o autor faça isso melhor em outro livro ou futuramente no livro.
- Pág 160: os evangélicos estão crescendo cada vez mais no país. Isto, provavelmente, devido a estas práticas de massificar o evangelho. Porém, o autor parece não gostar disso, querendo um evangelho mais lento, porém forte. Será que o autor quer um evangelho melhor dos dois mundos? Ou por ele, seria melhor os evangelhos crescerem muito lentamente, mas com qualidade?
- Pág 162: essa conceituação de igreja invisível e igreja visível é muito bonita. Seria interessante arrumar nomes mais apropriados para isto. Não sei quais. De qualquer forma, é muito bonita. No fim da página, o autor novamente fala sobre igreja cristã sem Cristo. Isto, como já dito, é preocupante para mim, visto que até as igrejas anticristo eu considero cristã.
- Pág 164: o autor finaliza lembrando da importância de irmos a igreja local, pelo o que eu entendi, e que a igreja local vai demonstrar a cidade dos homens a força da cidade de Deus. No entanto, ainda não continua claro. Ele só tem a conclusão para esclarecer muita coisa, não tenho tanta esperança que ele irá conseguir. A ver.
- Pág 169: será que existem pastores que realmente estão de acordo de que seja simplesmente o objetivo do cristianismo manter as pessoas entre quatro paredes? Será que eles fazem isto realmente acreditando que é assim que deva ser? Pra mim a coisa é um pouco mais complicada pois, ou eles sabem que está errado e estão buscando amadurecer o seu povo ou eles sabem que isto é errado e mesmo assim continuam fazendo. Um ou outro, a crítica do autor me parece desnecessária. Entretanto, é bastante bonito essa analogia de trabalho-festival e Plantação-colheita. É, pensando bem pode haver casos de pastores que simplesmente não percebem que isto é ruim. Embora eu ache que seja casos raros.
- Pág 169: talvez a formação de um discípulo de Cristo requeira simplesmente Cristo. A questão é como a igreja de Cristo vai se manifestar para nos ajudar a confortar o vazio de nossos corações e demonstrar a bondade de Deus enquanto não alcançamos a glória
- Pág 171: o que separa essa visão da visão da imanetizacao? Não está claro pra mim a diferença entre uma coisa ou outra. Temos que desfrutar desse mundo? Pra mim isso é bem estranho. Penso que temos que ser gratos por Cristo, que nos resgatou do pecado, adorarmos a Deus e demonstrarmos sua bondade aqui na terra. Se, por ventura, tivermos a graça de ter uma vida boa, então é graças a Deus. Se, por outro lado, tivermos uma vida sofrida, que seja graças a Deus tbm. De um jeito o outro, que cada um de nós sirva a Deus de todo coração em busca de seus galardões, e que nos encontremos no céu, ao lado de Cristo, onde será nossa morada eterna. Acredito que este ponto de vista é um pouco diferente do que o autor fala. Pensando bem, não existe padrão nos homens de fé de Deus. Alguns tiveram vida boa, outros tiveram começo bom, e final ruim, outros tiveram começo ruim e final bom. O que importa é que cada um deles serviu a Deus e ajudou a revelar Cristo na terra. Então essas conclusões sobre como a vida de um cristão deve ser me soam mal.
- Pág 172: o autor crítica outras formas de teologia, mas me parece que ele está se esforçando demais pra estabelecer a teologia dele. Além disso, esse conceito de onde começa a teologia não é muito fácil de ser averiguado. Parece um conceito abstrato que não encontra formas de se materializar.
- Pág 174: pelo o que eu entendi, para o autor, há o reino dos céus e o reino do homem. O que eu entendi é que quando o homem se converte, ele converte tbm o reino, pois só assim se alcança a visão de viver Deus em todas as esferas da vida. Entretanto, essa visão não me é muito agradável. Prefiro a anterior, de que o mundo jaz no pecado. Sei que o autor se incomoda com isso prq leva ao pensamento de que, uma vez que o mundo jaz no pecado, não tem prq tentarmos transformá-lo. Mas isso é facilmente combatido quando lembramos da nossa missão de mostrar o amor de Deus ao mundo e de que Deus recompensará de maneiras diferentes as diferentes pessoas, os galardões revelados por Paulo. Só acredito na remissão da matéria quando Cristo voltar. Mais ainda: não nós enganemos ao achar que o mundo não faz parte de nós. Faz. E adoramos coisas do mundo. E Cristo nos perdoa por isso. De fato, sempre que adoramos algo do mundo o fazemos por fraqueza, é uma vergonha para nós. Mas assim fazemos prq nosso corpo caído quer se sentir bem agora, quer ser alimentado agora, e nos falta fé para que nosso único alimento seja Cristo e a esperança de seu reino. Mas isso nada mas é que o processo de maturidade. Nascemos adorando a matéria, crescemos e temos a revelação de Cristo, a partir daí nossa matéria decai, de modo a nos ajudar a adorar cada vez menos a ela, embora isto não seja determinante, para que adoremos cada vez mais a Cristo, até que morremos e temos nosso corpo glorificado. O céu nos é garantido desde quando reconhecemos Cristo como salvador, mas quanto maior nossa adoração a Cristo, maior será nosso galardão.
- Pág 176: uma importante observação, que vivamos não de acordo com a força de nossos braços, mas com a graça de Deus em nós
- Pág 179: o autor afirma que a árvore é o que é prq ela é natural. No entanto, nessa analogia com a sociedade, o que significaria "natural"? Há algo na nossa economia que é natural? Para ele, enquanto concordante com o princípio da autonomia das esferas sociais, deve ser fácil imaginar que determinada esfera social tenha uma autonomia natural. Porém, ainda sim, o "natural" não significa da natureza, mas sim "designada por Deus" nesse contexto. Portanto, essa é uma visão claramente teológica. Tenho dificuldade em ver a academia aceitando algo como isso.
- Pág 180: o autor traz uma construção completamente enviesada de sociedade e a coloca como se ela fosse autoevidente. Pior: não estrutura e nem explica como tal visão é alcançada, como se tudo isso fosse alcançado simplesmente quando todos os indivíduos tiverem um bom relacionamento com Deus. Se assim o for, o que ele está descrevendo é a volta de Cristo. Se não for, está faltando ele explicar o que ele vai fazer com aqueles que desejam a maçã que vai fazer essa sociedade se desequilibrar. Vão fazer como os antigos, e eliminar o mau do meio do povo? Não é está claro. Em seguida o autor deixa claro que isto é uma utopia que regência o trabalho deles. Isto, pelo menos, faz mais sentido, embora os questionamentos que eu fiz ainda não estejam claros. Provavelmente são questões que vão ser resolvidas no fazer, não na teoria.
- Pág 182: novamente, o autor fala como se fosse um aspecto autoevidente o que significa obedecer e se submeter à vontade de Deus. Inclusive, lembro que Guilherme de Carvalho usava o termo "contrarevolucionário". O autor parece ter traduzido esse termo para "antirevolucionário", o que pode perder um pouco da ideia original de não ser, em si, contra a revolução, mas buscar uma forma não violenta e obediente à Deus de revolução. O autor pede para que deixemos a arrogância revolucionária de lado. Acredito que já fiz uma crítica semelhante a essa que farei: se o público a quem ele pede isto for um público não cristão, não adianta prq esse público não tem a revelação de Cristo. Se for cristão e ainda sim ter uma arrogância revolucionária, ou é prq ele quer usar o nome de Cristo para o projeto socio-político dele, e daí entende-se que ele é um anticristo, ou que usa o nome de Cristo através de uma má índole, e neste caso não adianta pedir, ou ele realmente não sabe sobre Cristo. Neste último caso, existe a chance dele ser cristão, só não ter tido a revelação específica desse caso, então este aviso seria útil para este público, ou ele, ao descobrir sobre Cristo, tbm descobre-se não cristão. Enfim, estou um pouco crítico prq estou questionando a necessidade de tal afirmações. Porém, sei que devo respeitar o autor pela caminhada cristã e de estudo dele.
- Pág 184: o autor, assim como eu, parece estar produzindo um conteúdo para o seu "eu mais jovem". Afinal, minha filosofia tbm é construída para um "eu mais jovem". Então começo a compreender melhor o autor, porém só peço um pouco mais de cuidado com a forma como ele coloca o texto. Porém, tbm preciso ver se eu tenho esse cuidado. Ademais, tbm me preocupa o fato dessa visão "naturalizada" do shalom seja usada por anticristos. Neste sentido, é fundamental a igreja produzir algo para combater esta visão. Esta produção, naturalmente, virá através da graça de Deus e não pelo esforço ou merecimento da igreja. Em última instância, o que a igreja deve fazer é continuar a buscar Cristo prq nele certamente já vencemos.
- Pág 188: é perigoso o autor afirmar que existe uma incoerência em um movimento. Há uma incoerência sob o ponto de vista dele. Contudo, o movimento em si pode achar a si próprio coerente, e realmente sê-lo, bastando que adapte-se o conjunto de significado da sua linguagem à sua ação. A linguagem não é de maneira nenhuma estática. A criação de um novo movimento social indica a criação de novas formas de produção, as novas formas de produção não tem nome e, portanto, são nomeadas por aqueles que as cria, que são autoridades sobre a criação. Dizer que há incoerência interna em um movimento qualquer é algo extremamente perigoso, pois é impor a própria linguagem e forma de ver o mundo sobre o outro.
- Pág 189: ele criticou, mas não apresentou nenhum posicionamento prático alternativo.
- Pág 191: esta finalização é um convite para que deixemos a discussão pública, porém superficial, para olharmos para dentro e descobrirmos acerca de nós mesmos, mas não sob nossa própria ótica, prq somos potencialmente infinitos, mas sob a ótica de Deus. Isto me parece bastante razoável, assim como é razoável todo o final desta leitura. O autor comete algumas coisas que eu consideraria imprecisões, mas não estou na pele do autor para entender suas motivações. Também ele não deixa claro acerca das práticas ou acerca de como construir, mas o convite inicial já é forte o suficiente para motivar uma mudança para aquele pequeno público que está confuso quanto a relação cristão-político. Sim, acredito ser um público pequeno. A maioria que tenta fazer esta mistura o faz por desejo de poder, o que, pra mim, são anticristos. Tbm creio em uma pequena parcela que usa se mistura com essas ideologias para alcançar mais pessoas. A diferença entre essas pessoas e quem usa o nome de Cristo de maneira indevida como projeto de poder é que elas, pouco a pouco, vão substituindo a adoração pela ideologia para a adoração de Cristo. Porém, estou falando isso em um recorte teórico, pois não conheço ninguém que, de fato, faça isso - assim como não conheço quem misture ideologia de esquerda com cristianismo, de uma maneira geral, como o autor tanto criticou em determinado momento. Ficou bem claro tbm a crítica que o autor faz ao liberalismo cego. Este convite à reflexão é, pelo menos, um inicio necessário para que possamos construir uma força que atua na política de maneira correta. Agora resta-nos conhecer os próximos passos, que tenho fé que virão, pela graça de Deus.

Fé Cristã E Ação Política | Pedro Dulci

sábado, 30 de janeiro de 2021

Elucidações do conceito de filosofia na visão dos organismos sociais

Introdução:
    Olá a todos. Neste blog já escrevi três parágrafos acerca de filosofia. Um no meio ensaio filosófico dos organismos sociais e outro, em texto avulso, falando também acerca da filosofia para os organismos sociais. Ambos os textos pareceram-me complementares, entretanto, acredito que seja possível fazer alguns esclarecimentos, correções, e adicionar mais alguns detalhes. Meu objetivo, como sempre, é criar um conceito que não seja muito complicado, mas que seja preciso o suficiente. Esta precisão ainda não foi alcançada nestes três parágrafos, e também eu amadureci bastante alguns pensamentos após escutar algumas palestras de um forte filósofo cristão chamado Dooyeweerd. Embora eu não concorde com todo pensamento dele, atentou-me para a necessidade de definir um tipo específico de filosofia que não somente busca expressar uma linguagem sobre o mundo, mas também uma finalidade. Para mim, é importante diferenciar filosofias que expressam linguagem e também as filosofias que expressam finalidades, pois elas refletem em diferentes atitudes do filósofo diante da sua realidade. Segue o link dos dos textos citados acima e sigamos:
https://barnabasspenser.blogspot.com/2020/04/complemento-visao-dos-organismos.html
https://barnabasspenser.blogspot.com/2021/01/ensaio-visao-dos-organismos-sociais.html

Correção do primeiro texto: a filosofia como reflexão:
    No primeiro texto, afirmei que a filosofia é um meta-processo: a produção que ocorre sobre a produção, a linguagem que ocorre sobre a linguagem, e que todos tem autoridade para filosofar. No entanto, para mim, atualmente, não torna-se claro o que é “produção que ocorre sobre a produção”. Afinal, como determinar que o caráter da produção que ocorre sobre a produção é diferente da própria produção? A filosofia seria essa produção que ocorre sobre a produção, mas também ela é a linguagem que ocorre sobre a linguagem. Portanto, filosofia é, ao mesmo tempo, produção e linguagem e, portanto, torna esta definição imprecisa. Lembra-me, ainda, o estado, que eu defino de maneira semelhante. Isto não é por acaso: à época, eu cometi o engano de supor que a linguagem que estrutura o estado é a filosofia. Atualmente, no entanto, sei que cometi um equívoco, pois claramente a linguagem do estado, pelo menos do estado de direito, é a constituição e suas esferas jurídicas. Assim sendo, como eu defino a filosofia, de maneira mais precisa, para os organismos sociais?

Academias de filosofia:
    Como no segundo texto foi dito, o encontro do indivíduo com sua própria realidade está diretamente no seu pensar. Isto é uma clara referência à Descartes e ao seu “penso, logo existo”. Assim, a filosofia é a reflexão do indivíduo acerca da sua própria realidade. A produção do ato de filosofar é a filosofia. Portanto, a filosofia é a linguagem e a própria produção, como dito anteriormente. Isto implica também que não é possível montar organismos sociais em cima da filosofia, do ato de filosofar, reduzindo, este ato, ao ato que define o indivíduo como tal. Porém, o que significaria uma academia ou um instituto de filosofia, por exemplo? Para mim, seria um organismo social cuja função é manter determinado pensamento filosófico vivo e atuante. Assim sendo, há exercícios como: o que tal pensador diria acerca deste assunto? Há, portanto, um conjunto de pessoas que se debruçam na filosofia daquele autor para, a partir dali, inferir o que é dito. Neste sentido é que há organismos sociais cuja produção também é filosofia, mas uma filosofia acadêmica e não puramente filosofia.

Acerca do certo e errado na filosofia:
    Um conjunto de pessoas reunidas para construir, a parte de qualquer método, um conhecimento ou pensamento acerca de alguma coisa deve ter mais relevância social que um indivíduo. Portanto, se qualquer organismo social, como o estado, igreja, ou empresa, precisa refletir acerca das suas próprias atividades ou existência, uma natural fonte de consulta seria a academia de filosofia. Lá, há várias formas de pensamentos que sobreviveram ao tempo, e, portanto, são fortes, que podem dar direcionamento para um pensamento mais estruturado, mais forte. Este conceito de força é mencionado no segundo texto, pois, para mim, a filosofia não pode ser tida como certa ou errada, pois não há, dentro do campo da matéria, nenhuma referência legítima para constatar o certo ou o errado além da própria reflexão humana. O aceitável, no entanto, é que tal filosofia é errada em tal ponto do ponto sob outro ponto de vista também filosófico. Mas para mim, se qualquer filósofo usa a definição de certo ou errado em absoluto, ou em referência à verdade ou a realidade, ele mesmo comete um erro ou produz uma filosofia fraca, pois ele está se considerado como referência da reflexão ou da realidade humana.

Filosofias linguísticas e teleológicas:
    Para mim, a lógica e a matemática são campos da linguagem. Se há uma correta correspondência entre a linguagem e a produção, as conclusões feitas em cima do raciocínio da linguagem também é verdadeiro na produção. É, no entanto, necessário uma autoridade para fazer estas correspondências. A filosofia, portanto, também pode ser uma linguagem, uma forma de visualizar e comunicar o mundo. Se assim for, não deve existir, para esta filosofia, o certo e o errado, mas sim uma forma de expressar o mundo e através desta expressão, raciocinar. O raciocínio pode estar correto ou incorreto. Por outro lado, também há filosofias que expressam o certo e o errado, o bom e o ruim. Estas são as filosofias que possuem expressam uma finalidade, ou, o que eu acredito ser o termo acadêmico para isto, teleologia. Para mim, enquanto cristão, é importante esta diferenciação, pois toda filosofia como linguagem é interessante e útil, mas toda filosofia enquanto finalidade é, de algum modo, uma idolatria, como diria o Dooyeweerd. Naturalmente, é possível extrair das filosofias teleológicas uma linguagem, mas é preciso ter sabedoria ao lidar com elas para que não se cometa idolatria.

Ética e estética:
    Diferentes linguagens pode ser útil porque há produções ou raciocínios que são mais facilmente expressos ou feitos em uma linguagem que outra. Na matemática, por exemplo, algumas operações são trivialmente executadas em algumas áreas enquanto que, em outras, são necessários muitos cálculos. Neste sentido, é possível construir uma linguagem com uma intenção, e aqui intenção significa uma finalidade intermediaria, não-final. Neste caso, quando eu construo a visão dos organismos sociais, eu tenho uma intenção, que é a de construir um meio de campo comum para possamos desenvolver uma forma de enxergar a modernidade sem partir para os absolutismos, seja o do individualismo, seja o do coletivismo, ou mesmo do racionalismo ou dogmatismo. Contudo, eu não determino nenhuma finalidade última, pois, para mim, quem tem que afirmar isso são os próprios organismos sociais através das suas produções. Dito apenas o que eu acredito ser a finalidade de determinados organismos sociais, como o científico ou o religioso. Isto me leva a ver uma certa lacuna no meio pensamento, pois eu não dizer, por exemplo, o que seria uma ética ou estética de estado, embora eu saiba, como cristão, qual é a ética ou estética que eu sigo enquanto cristão. Isto, no entanto, certamente não é algo que deve ser determinado pela visão dos organismos sociais, mas sim pela cultura política da sociedade vigente. No meu caso, tenho uma certa queda pelo nacionalismo desenvolvimentista civilizatório.

Matéria, alma e espírito:
    Para o cristianismo, a finalidade da existência humana está em adorar a Deus por meio de Cristo e, portanto, qualquer outra finalidade é uma idolatria. Esta característica de finalidade é muitas vezes encontrada em estruturas religiosas, não é a toa que filosofias que possuem finalidade muitas vezes são comparadas a religiões uma vez que elas mesmas acabam tendo estrutura de religião, como a identificação de inimigo ou a necessidade da evangelização. Ora, quando a matéria reflete sobre a própria matéria, origina-se a filosofia. Neste sentido, nenhuma matéria tem um ponto de vista absoluto pois toda matéria é parte, e não todo. Também chamo esta camada de existência de alma, que são as coisas do indivíduo, aquela matéria em específico, que só ele tem acesso e o que leva a chegar a aquela conclusão, como posicionamento social, experiências de vida, aspectos biológicos e etc. Uma a alma toma consciência da sua infimidade e ascende seu pensamento ao infinito, é possível que ela se abra à revelações divinas. Neste ponto é quando a alma recebe informações do espírito, torna-se também espiritual e não apenas material.

Filosofia e teologia:
    De alguma maneira é possível argumentar que todo ser humano ascendeu ao infinito, mesmo quando for para pensar acerca da sua própria morte, que, do ponto de vista da matéria, é uma consequência que durará a eternidade, que é um tipo de infinito. Assim, afirmo que todo ser humano tem alma. Alguns usam esta alma para olhar somente para a matéria, outros para negar o espiritual, e outros buscam o espiritual. Acredito ser possível também haver construções espirituais que não são teleológicas, como algumas orientais, mas não as conheço o suficiente para ter certeza disto. Se assim o forem, imagino que elas tenham uma estrutura um pouco diferente do cristianismo e das filosofias que contém teleologia. Mas, uma vez que se recebe informações do espírito, o ser humano passa a ter um ponto de referência não mais material, mas sim espiritual e, portanto, consegue fazer afirmações acerca do certo e errado de acordo com sua revelação e isto não é um erro, mas também não é filosofia inicial, mas sim um tipo específico de filosofia, tal como a acadêmica, chamado teologia. A teologia, segundo o que eu entendi do senso comum, é o estudo sistemático acerca das revelações sagradas. Ou seja: ela busca sistematizar o que se conhece e também o que não se conhece acerca das revelações. Para a teologia cristã de uma maneira geral, a fonte comum das revelações divinas é a bíblia.

Consequências da filosofia:
    Se a produção da filosofia é a própria filosofia, qual a utilidade ou a consequência da filosofia nos organismos sociais? Para mim, sempre que um organismo social entra em contato com alguma filosofia, é possível que haja mudanças nele, pois uma nova maneira de enxergar a realidade foi produzida. Portanto, ele pode fazer alterações na sua linguagem ou na sua produção enquanto autoridade mediante a luz de alguma reflexão filosófica. Portanto, a filosofia traz consequências para os organismos sociais e, portanto, para a existência humana. Assim sendo, segundo minha opinião, o trabalho de um filósofo é fazer filosofia. Se aquela filosofia vai ter algum impacto ou não, ai já não é com ele. Contudo, provavelmente, o espírito filosófico ou alma que há dentro dele provavelmente o guiará para questões que são relevantes para seu tempo histórico, que precisam ser melhor mapeadas através de uma linguagem ou cuja as consequências precisam ser raciocinadas, para identificar possíveis contradições naquilo que as autoridades anunciam como verdade ou nas atividades dos organismos sociais.

Conclusão:
    Estou satisfeito com a construção deste texto. Elucidou melhor algumas coisas que me deixou insatisfeito nos textos anteriores, embora eu não vá mudá-los. Também, faz um tempo que eu gostaria de escrever um texto falando da relação entre filosofia como linguagem do estado, mas este texto simplesmente não saia. Hoje percebo, como já dito, que isto foi fruto de um equívoco, de uma imprecisão na minha própria linguagem. Na verdade, filosofias tem força para moldar estados, e era isto o que eu queria expressar neste texto que eu gostaria de construir. Ou seja: ela tem força para moldar, mas ela não é, em si, a linguagem do estado. Estou um pouco cansado de escrever, estou numa fase que gostaria que meu texto fosse apreciado por alguém, mas ainda não encontro quem. Quero escrever um pouco mais sobre teologia baseada na filosofia dos organismos sociais, mas vou esperar um pouco mais para fazer isto, pois também preciso cuidar de outras coisas e vai ser bom se eu conseguir algum retorno dos textos, pois sei que o que posso estar fazendo é um trabalho redundante. Com isto, amigos, me despeço. Um abraço para todos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Ensaio: visão dos organismos sociais

Introdução:
Bem-vindos ao ensaio “visão dos organismos sociais”. Aqui vou buscar construir as bases para uma filosofia capaz de lidar com muito dos problemas que estamos lidando nesta pós-modernidade ao mesmo tempo que busque ser simples e intuitiva. Ela está planejada para doze capítulos, sendo os primeiros, inicialização a ideia de organismos sociais, os quatro seguintes falando sobre as implicações filosóficas que a visão dos organismos sociais trazem e, por fim, mais quatro capítulos falando dos indivíduos segundo esta visão. Ou seja, este ensaio busca compreender os aspectos básicos da vida do ser humano e do viver em sociedade. Naturalmente, isto não será possível em detalhes concretos, no entanto, desenvolver a abstração para tal é necessário para que nossa forma de raciocinar seja revolucionada e possamos nos adequar a este novo século e sua abundância de formas e informações. 

Temas:

01) Inicialização dos organismos sociais
02) Estado e corrupção
03) Ética e moral
04) Desejo e inimigo

05) Verdade e suas formas
06) Impossibilidade do monopólio da verdade
07) Arte e filosofia
08) Consenso como forma de espírito

09) Indivíduo e suas formas de conhecimento
10) Jornada do herói: da infância à vida adulta
11) Formas enérgicas e suas relações
12) Modelo tradicional de cultura

Inicialização dos organismos sociais:
Organismos sociais basicamente são constituídos de três coisas: autoridade, linguagem e produção. Definir exatamente o que é cada uma destas três coisas é uma tarefa inoportuna para este momento, para não dizer impossível. Portanto, confiarei na capacidade do leitor de, ao se deparar com estes três termos, que são a base de conhecimento desta filosofia, consiga, ao enxergar seu mundo, identificar o que é linguagem, o que é produção e o que é autoridade através do consenso linguístico acerca destes termos. Acredito que estes termos sejam gerais o suficiente nas sociedades para serem traduzidos para outras línguas sem maior prejuízo, também.

Ora, o que esta definição nos diz? Que tudo o que é constituído por essas três primitivas é um organismo social. Seja o estado, seja uma instituição, sejam grupos religiosos, sejam empresas privadas. Não importa: havendo autoridade, linguagem e produção, então há um organismo social. Uma vez que um indivíduo participe de um organismo social, significa que ele está concordando em fazer parte da hierarquia de comando produtivo daquele organismo. Ou seja: possivelmente há alguém que tenha autoridade sobre ele, possivelmente ele tem autoridade sobre alguém e ele tem a responsabilidade de usar a linguagem dele para produzir algo para aquele organismo. Esta produção, que individualmente seria impossível, torna-se possível através da união de diferentes saberes e diferentes estruturas de produção unidas em torno do objetivo em comum daquele organismo.

Isto é o que faz os indivíduos se unirem em torno de organismos sociais: serem capazes de produzir aquilo que, individualmente, seria impossível. Organismos sociais, embora feitos de indivíduos, ganham certa autonomia, de certa forma. Tornam-se também “indivíduos” capazes de desejar ou com interesses específicos, como um corpo. Porém, a diferença entre os organismos sociais e um ser humano é que o ser humano é a unidade fundamental da vida, enquanto que um organismo social é uma estrutura que dá suporte à vida, mas em última instância, não é algo vivo em si, podendo ser destruído e reconstruído à mercê das necessidades dos indivíduos, embora isto, na prática, possa ser complicado.

Estado e corrupção:
O estado é a autoridade das autoridades, a linguagem das linguagens, a produção das produções. Em outras palavras, o estado é o organismo social cuja função é controlar os demais organismos sociais em seu território. Seu surgimento histórico é natural e necessário, pois dado que os seres humanos começam a se organizar em torno de organismos sociais, se não houvesse um capaz organismo social legítimo capaz de coordenar os outros, certamente haveria instabilidade social ou estabilidade ilegítima, ou seja, um organismo social utilizando métodos espúrios para controlar os demais. O estado é, portanto, o organismo social que regula o crescimento e o convívio entre todos os organismos sociais de uma dada sociedade para harmonizá-los e estabelecer uma relação saudável dentro de um território geográfico. Para tanto, ele deve ser capaz de ter ferramentas para trazer justiça quando algo não está de acordo com seu entendimento, e é por isto que, modernamente, entende-se que o estado é o único que tem o monopólio legítimo da violência.

Segundo a visão dos organismos sociais, é impossível haver um segundo estado dentro de um território. Por isso, há um consenso global de qual estado faz parte de qual território. Quando não há um estado em um território, há o que se chama de processo abstrato, onde qualquer coisa pode acontecer, afinal, não há quem tenha legitimidade para aplicar leis. No entanto, uma vez definido um estado, este estado encontra seus meios para ser aceito pela geopolítica e, portanto, ele quem regula aquele território. O surgimento de outro estado, para este ensaio, é o termo mais preciso de corrupção que nossa sociedade pode usar, pois implica em um conjunto de indivíduos, ou seja, um organismo social, construindo poder para comandar outros organismos sociais, seja através de recompensas ou punições, independente do estado vigente. Ora, mas havendo dois organismos sociais querendo mandar em um terceiro organismo social, a quem aquele terceiro vai obedecer? Trata-se, logicamente, de um jogo obscuro às leis do estado que regula esta relação e que trará prejuízo aos honestos. Portanto, é interesse do estado, para sua própria sobrevivência, inclusive, acabar com esquemas corruptos. Pois nunca se sabe se a corrupção vai ser forte o suficiente a ponto de tornar-se o próprio estado.

Ética e moral:
A língua pode ser entendida como tendo duas partes: a significativa ou simbólica e a gramatical. A significativa ou simbólica trata-se da ligação entre o signo e o significado, e seu mapeamento. Um dicionário, portanto, lida com esta relação, buscando fazer uma relação entre signo e significado. Já a gramática, por sua vez, regula as construções da linguagem para que elas tenham significado coerente com os signos individuais das palavras. Assim, a gramática pode rejeitar ou aceitar uma construção. Esta linguagem, para os organismos sociais, embora não tenha sido definida, pode ter estas mesmas duas dimensões: a simbólica e a gramatical. A simbólica, neste caso, trata-se com o objeto da realidade com que aquele organismo lida. Por exemplo: um organismo cuja produção é carro vai ter como simbólico todo o conjunto de peças e procedimentos para fazer um carro. Já a dimensão gramatical na linguagem, por sua vez, é o que pode ser entendido como ética.

Ou seja, para os organismos sociais, a ética nada mais é que a gramática da linguagem dos organismos sociais. Um comportamento é antiético sempre que as autoridades do organismo social entende que aquele comportamento trazem prejuízo ao corpo. Um comportamento é ético quando as autoridades do organismo social entendem que aquele comportamento é o que traz saúde ao corpo. Assim, toda ética é relativa a um corpo, e é preciso uma autoridade para decidir se um comportamento é ético ou não. O que alguns filósofos chamam de moral, que seriam o conjunto de comportamentos que é válido em quase todas as sociedades, como “matar é errado”, aqui entende-se como ética de estado. O estado, neste contexto, é entendido como o organismo social básico a qual todo indivíduo pertence, querendo ou não, por herança de constituição social. Ou seja, a carta constituinte daquele país define que quem nascer naquele país, é daquela nacionalidade e, portanto, terá os direitos e deveres daquela nacionalidade.

Quanto à moral, este ensaio entende que é a relação entre autoridade, linguagem e produção. Ora, quando uma autoridade emite uma linguagem que se converte em produção, quanto mais eficaz for esta conversão, maior será a moral desta autoridade. Desta forma, a moral pode ser entendido como o quão um organismo social está ligado, acoplado, relacionado, firmado em sua própria realidade. Há também os comportamentos imorais, que são quando um organismo declara que não fará uma coisa, mas faz. A exemplo, em um casamento, quando um organismo diz que será fiel ao outro, seu conjunge, mas o traí. Isto é um exemplo de imoralidade, pois houve a emissão de linguagem de que uma produção nunca seria feita, mas foi. Outros exemplos se estendem à área profissional ou a organismos cuja produção é prever o futuro.

Desejo e inimigo:
Para entender o que motiva os organismos sociais a interagirem-se entre si, este ensaio utilizará o seguinte conceito de desejo: desejo é a expectativa que um cenário se concretize em um campo de possibilidades. Esta conceituação é necessária para informar o seguinte: o ser humano tende a não desejar cenários fácil demais a ponto de serem banais, triviais ou se realizarem frequentemente, mas também não deseja cenários difíceis demais a ponto de serem impossíveis, complexos demais ou nunca terem acontecido. Isto é o que torna importante, muitas vezes, o exemplo, para demonstrar que algo é possível, e também explica a constante necessidade de evolução do ser humano. Sempre é necessário que enfrentemos algo desafiador, onde há chances de sucesso ou fracasso, pois se o sucesso é garantido, não há recompensa, mas se o fracasso é garantido, não há estímulo.

Esta característica humana é, de certa forma, herdada pelos organismos sociais. Portanto, os organismos sociais desejam, e ao realizarem o que objetivam, todo o corpo tende a se alegrar. A exemplo de quando um país vence um torneio internacional esportivo, ou quando uma empresa consegue uma grande parceria. Todo o organismo se alegra, pelo menos assim deveria ser em organismos sociais saudáveis, pois indica uma evolução ou um marco significativo daquele organismo. Há também, neste aspecto, os ambientes competitivos, onde há a existência do adversário ou inimigo. Ora, no decorrer da existência humana e dos próprios organismos, escolher o que desejar é algo que, as vezes, não é trivial. Dentre tantas e tantas possibilidades de escolha, escolhe-se aquela que representa um desafio sobre outro organismo social. Portanto, não é incomum que indivíduos ou mesmos organismos sociais escolham elaborem inimigos sobre os quais desejam triunfar.

Há momentos em que isto é saudável. Há momentos em que não. Há momentos em que o inimigo torna-se o próprio estado, pois assim como um jogador que se resolva contra as regras do jogo quando está perdendo, há organismos que acreditam que o motivo deles não estarem satisfeitos como gostariam é o estado. As vezes pode até ser, mas o estado é a última autoridade que separa os organismos sociais da anarquia. Portanto, é preciso proceder corretamente se for preciso alterá-lo, do contrário, há possibilidades de perca de legitimidade, o que leva a um estado fraco e, sem capacidade de organizar e coordenar o país ou, em última instância, sem soberania e colonizado por outros países. Neste sentido, a visão dos organismos sociais é nacionalista, visto que cada organismo que cuide de si. Mas também é possível imaginar organizações globais para cuidar de estados que necessitam de ajuda. Isto, porém, ainda parece está um pouco longe da maturidade da maioria dos nossos países, que ainda parecem exigir um inimigo externo para dar um desejo em comum para sua população, desviando o foco de si.

Verdade e suas formas:
A parte macro da visão dos organismos sociais foi apresentada nestes quatro tópicos anteriores. Agora, portanto, partiremos para as consequências filosóficas desta formulação. Algumas já foram apresentadas, como um conceito próprio de ética e moral. Estes próximos quatro capítulos tratarão melhor sobre estas consequências filosóficas antes de entrarmos no indivíduo.

O leitor mais atento já pode ter percebido como a visão dos organismos sociais enxerga a verdade, mas aqui está a enunciação completa: a verdade é o efeito da relação entre autoridade, linguagem e produção. Em outras palavras, o indivíduo ou organismo social que mais tiver moral em um dado contexto é o que mais provavelmente se aproxima da realidade. Isto também significa que a realidade é algo externo ao indivíduo e aos organismos sociais, e que nos aproximamos dela através dos métodos que nos leva a produzir e que são canonizados através da linguagem e aplicados através das autoridades. Ou seja: por construção conceitual não há verdade absoluta. Há sim uma realidade, mas nós não temos acesso direto a ela. Construímos este acesso através da nossa vivência enquanto indivíduos e através da nossa evolução enquanto organismos sociais.

Há de se observar que, portanto, para cada organismo, há uma forma dele enxergar a realidade, que é a sua verdade. Esta forma é o que realmente importa para ele, sendo as demais secundárias, apenas partes necessárias para seu relacionamento com os demais organismos sociais. Se alguém buscar tentar convencer a este organismo de que esta verdade não é verdadeira, falhará. Afinal, há uma autoridade que, ao emitir uma linguagem, obtém alguma produção. É possível, no entanto, demonstrar verdades ainda mais fortes ou profundas, ou seja, formas mais eficientes de produzir algo desejável para o organismo. Neste sentido, o organismo acumula experiência através dos anos e vai se especializando cada vez mais naquilo que ele faz, podendo este conhecimento ser passado através de muitas gerações.

Neste sentido destaco três tipos de verdades principais da nossa sociedade contemporânea. A científica, a religiosa e a política. A científica deriva diretamente do método científico, que consiste em demonstrar modelos capazes de afirmar coisas acerca da realidade com algum grau de precisão, mas nada além disto. Isto significa que a ciência só consegue responder acerca de seu modelo, que é uma representação controlada da realidade, mas dele estrutura-se a realidade para obter resultados desejáveis, como produzir tecnologia. Já a verdade religiosa surge através de livros sagrados, que são o acumulado de experiências passadas e validadas através de gerações, e sua produção é a capacidade de dar finalidade ao indivíduo, levando-o ao estado de adoração. Este tipo de verdade não costuma falar sobre algum ponto específico da realidade no aqui e agora, mas sim da realidade eterna. Ou seja: há declarações em livros sagrados que são eternas para aqueles que creem. A ciência, por outro lado, enxerga aquilo que os seus modelos indicam. Se o modelo mudar, o que se enxerga também mudará.

Já a política, por sua vez, é o conjunto de experiências humanas que resultou na construção do estado. Atualmente estamos no estado democrático representativo de direito, e isto significa que a principal forma de participação política do cidadão comum é através do voto. Assim sendo, para o político, sua principal forma de verdade é conseguir votos, pois é isto o que interessa a ele. Utiliza-se, portanto, da ciência, da religião ou de outros meios para tanto. Uma vez obtido os votos e elegendo-se, parte então a conseguir mais votos e assim construir sua carreira política. Neste modelo político, a construção da sociedade em si é algo secundário, embora importante, pois não necessariamente uma boa política de construção social implica numa reeleição, já que há muitos interesses e narrativas políticas envolvidas. Inclusive, existe a própria dificuldade em conceituar o que significaria “uma boa política de construção social”, de qualquer forma, pois cada indivíduo ou organismo social definiria à sua própria maneira.

Nota-se que cada indivíduo faz parte de ao menos um organismo social, que é o estado, mas que pode fazer parte de mais, como instituições religiosas, centros acadêmicos, partidos políticos, entre outros. Uma boa forma de enxergar isto tudo é através de um diagrama de Venn, onde há pessoas que vivem com muita intensidade determinado tipo de verdade, enquanto que há outras que vive com intensidade moderada de diferentes tipos de verdades, sendo possível todas as combinações possíveis. Geralmente quem está no topo de hierárquico dos organismos sociais vivem mais a verdade daquele organismo, pois tem maior responsabilidade pela produção da sua linguagem. Ou seja: enquanto que alguém no topo da hierarquia precisa organizar a linguagem para coordenar a produção, quem recebe o comando para produzir, embaixo, absorverá a linguagem e executará o comando. Naturalmente sempre pode haver comunicação nos dois sentidos, mas a maior tendência, em um organismo hierarquizado, é que a linguagem venha de cima pra baixo A base da hierarquia, por sua vez, tem responsabilidade pela produção material em si.

Impossibilidade do monopólio da verdade:
São inúmeras as formas de verdade que os organismos sociais podem encontrar. Citei anteriormente três, as principais da nossa sociedade contemporânea, mas deve ser possível existir outras a partir do momento que nossa sociedade for se tornando mais complexa. Afinal, o método científico, por exemplo, é uma invenção moderna. Há, ainda, a interpretação de que só existem estes três tipos de verdade, e que todas as demais verdades derivam delas. Isto é algo que não vou buscar definir neste ensaio, pois para isto eu quero conversar bastante com as pessoas para saber como elas se sentem em relação a esta construção conceitual. Independente da forma como se conceitua quais são as formas de verdade, é inegável que exista mais de uma forma de se efetivar a verdade. No entanto, conceituá-la desta maneira tem uma implicação muito importante: é impossível ter uma autoridade capaz de obter o monopólio da verdade.

Isto resulta diretamente de que não há verdade absoluta, pois se a verdade é a relação autoridade, linguagem e produção, é impossível que uma autoridade saiba tudo, faça tudo e seja capaz de comunicar tudo. Portanto, certos domínios da realidade vão sempre estar contidos em determinadas autoridades, sendo papel do estado organizar essa realidade base, material, para que os organismos sociais consigam conviver em harmonia. Se, por ventura, supormos que há uma autoridade que seja capaz de fazer tudo, isto implicaria em graves problemas, porque há limites na linguagem. Conter esta autoridade em alguma linguagem seria impossível, pois sempre haveria de faltar algo a comunicar sobre ela. Afinal, ela é capaz de fazer tudo e, para tanto, seria necessário uma linguagem ou infinita ou capaz de assumir contradições aparentes para derivar tudo dela e saber o que é verdadeiro ou falso a depender do contexto, no qual necessitaria de alguma autoridade para discernir acerca deste contexto de verdadeiro ou falso. Assim, se tal autoridade existisse, ela não seria um organismo social, pois não teria linguagem, ou sua linguagem não seria completamente acessível aos seres humanos em um sistema lógico formal.

Filosofia e arte:
O encontro do indivíduo com sua própria realidade está diretamente no seu pensar. A partir do momento que um indivíduo volta seu pensamento a pensar seu próprio conjunto de saberes, expressos ou não em sua linguagem e/ou seu contexto e finalidade de vida, este indivíduo está filosofando. Para a visão dos organismos sociais, todos os indivíduos são capazes de fazer filosofia, embora alguns façam filosofias interessantes e outros não. Neste sentido, filosofia apresenta-se com uma força, a qual este ensaio chama força de vida, pois a filosofia não busca a finalidade, como a religião, nem busca a explicação de um evento através de um modelo bem definido, que é o que faz a ciência, mas busca questionar e explorar os limites do que cada modelo ou finalidade sugere para apreciar se aquilo faz sentido dentro da visão de cada indivíduo, ajudando-o a tomar melhores decisões. A visão dos organismos sociais, em si, é uma filosofia, e traz consigo esta força, que só se averiguará fraca ou forte em seu poder de fazer sentido a medida que ela for divulgada para as pessoas. Mais nada pode se dizer acerca da filosofia. Afinal, seu intuito não é ser falseável, como é a ciência, ou fazer as pessoas buscarem por um estado de adoração, como faz a religião.

Para este ensaio, a arte é definida como a busca de trazer para material o estado de adoração, para que assim mais pessoas possam ter acesso, pelo menos de maneira parcial, a este estado acessado por alguém. Portanto, é preciso explicar melhor o que é adoração. Este ensaio entende que adoração é quando o ser humano encontra a finalidade. Em outras palavras, tudo que o ser humano considera como finalidade, é algo a ser adorável. O relacionamento com Deus, para alguns, a capacidade de consumir, para outros. Existem inúmeras coisas que podem se tornar a finalidade do ser humano, e para todas estas coisas, é possível existir uma expressão artística que represente isto. Mesmo a filosofia pode se tornar alvo de finalidade, havendo, portanto, artes cujo objetivo é representar pensamentos filosóficos. Enfim, cada ser humano é livre para buscar a finalidade da sua vida, desde que ele encontre condições e forças para tanto, pois . Isto será melhor explicado quando for falado acerca do indivíduo e da jornada do herói.

Consenso como forma de espírito:
Todo indivíduo pode ser um organismo social, porque todo indivíduo pode ser uma autoridade que produz sua própria linguagem para abstrair sua própria produção. Portanto, o que impede que os seres humanos comecem a se individualizar ao ponto de não haver organismos sociais maiores que o próprio indivíduo? Para a visão dos organismos sociais, isto não acontece por causa do “espírito” dos tempos, que seria o que o conjunto de tecnologias, práticas, conhecimentos e cultura de um povo permite em seu tempo. Para exemplificar isto, supomos que em determinado tempo, um grupo de pessoas entendem que, para conseguir determinado objetivo, como vencer uma guerra, o importante é se unirem, treinar táticas militares e separar parte do grupo para fabricar armamentos, pois assim alcançarão a vitória desejada. Ou seja: há um desejo em comum, trazido por este “espírito” e possibilitado a partir de um organismo social maior que o indivíduo.

Aqui denomina-se “espírito” porque é impossível, para este ensaio, prever como vai se configurar esse consenso. Isto é algo que depende do tempo histórico, da própria natureza da realidade dinâmica e complexa. É importante ressaltar que este “espírito” aqui citado é um espírito filosófico, em particular o espírito filosófico entendido por este ensaio, e, portanto, pode ou não ter haver com espíritos de cunho sobrenatural, religioso, etc, a depender da interpretação. Ora, se este espírito muda através do tempo histórico, algumas formas de verdade que são adequadas para certos momentos, em outros são claramente inadequadas. Perceber estas sutilezas pode ser algo bastante determinador no sucesso ou fracasso ao buscar construir ou reformar as práticas de um organismo social. Quanto maior a posição na hierarquia de um organismo social, e quanto maior este organismo social for, maior a responsabilidade, o risco de danos, mas também o potencial transformador.

Os organismos sociais são, portanto, consensos que reagem a esse “espírito”, construindo assim suas próprias verdades, que é a forma como elas se relacionam com esta natureza da realidade desconhecida. É importante, para nossos tempos atuais, entender a importância dos consensos. O estado é construído através de um consenso, definido por cartas constitucionais. A ciência também o é, assim como as religiões. Em todo organismo social há uma foram de consenso, construído através da relação entre as autoridades, linguagem e produção. Este consenso pode se alterar através da forma como esse “espírito” do tempo muda. Todo indivíduo que faz parte de um organismo social acaba por concordar com este consenso ou, se discordar, busca demonstrar, através da sua autoridade, produção ou linguagem, aos demais, de que há uma verdade mais forte por trás daquele tempo, que guiará melhor aquele organismo. Assim é possível que indivíduos transformem seus próprios organismos através de suas descobertas. Isto, porém, demonstra-se não ser um processo simples, e como já citado anteriormente, será abordado melhor na jornada do herói.

Indivíduo e suas formas de conhecimento:
Inicia-se aqui os quatro últimos temas deste ensaio, que tratarão sobre o indivíduo. O objetivo deste ensaio não é trazer uma visão profunda sobre o indivíduo porque, para isto, há matérias de filosofia da psicologia bem mais competentes, mas tão somente elaborar um indivíduo complexo o suficiente para explicar sua participação nos organismos sociais. Entendemos aqui o ser humano como um ser capaz de adquirir informações da realidade através de seus sentidos, processá-los e transformá-los ou em mais informações ou em conhecimento. Entende-se aqui informação como qualquer coisa que possa se transformar em axioma num sistema lógico formal, e o processo de raciocínio como sendo, ou indutivo, ou seja, capaz de generalizar dos casos individuais para abstrações, ou dedutivo, capaz de extrair informações de axiomas para elaborar novos axiomas, verdadeiros se os axiomas já existentes assim o forem. Entende-se aqui como conhecimento qualquer informação capaz de levar o ser humano a alguma verdade, ou seja, a alguma relação entre autoridade, linguagem e produção.

Portanto, para este ensaio, parte do conhecimento vem dos indivíduos vem de sua capacidade de sentir o meio ambiente ao qual ele está inserido com os seus sentidos. Outra parte vem do seu processo de raciocínio, reflexão. Afinal, grande parte do conhecimento nada mais é que a elaboração da realidade em uma linguagem mais precisa para que se consiga raciocinar com mais exatidão. Em outras palavras: como raciocinar sem dar nome as coisas, por exemplo? Ou sem agrupar coisas semelhantes, desconsiderando seus aspectos individuais, para chegar a conclusões mais ou menos precisas, mas capazes de produzir resultados desejáveis? Para este ensaio, o ato de nomear, de abstrair, são atos que uma autoridade faz, e somente uma autoridade é capaz de determinar quando ele é válido ou não. Isto porque, já que a realidade tem um “espírito” único à seu tempo, ou é uma forma de energia, cada aspecto da realidade pode ser considerado único e, portanto, digno de um único nome. No entanto, as vezes é necessário desconsiderar pequenas diferenças entre essas formas da realidade para generalizá-las e assim, por exemplo, conseguir conceber a “espécie humanos”.

Porém, isto também não significa que cada ser humano nasce e adquire conhecimentos a partir de seus sentidos, mas sempre novamente. Há, através dos organismos sociais, um processo de transmitir conhecimentos acumulados para as próximas gerações. Isto acontece no processo de educação, por exemplo, em que se instruí crianças com o conhecimento histórico-científico acerca do nosso tempo, ou quando uma organização religiosa consegue inicializar uma adolescente em suas afirmações de fé, apresentando-lhe seu livro sagrado, que contém informações, muitas vezes milenares, e são atestadas como verdadeiras através das afirmações de fé e, através disto, trazendo transformações ao modo de enxergar a realidade daquele ser humano. Todas estas formas de conhecimento devem ser levadas em consideração ao enxergar o ser humano, pois todas estas formas de conhecimento são, de uma forma ou outra, atuantes nos organismos sociais, e enxergar o ser humano sem enxergar estas formas de conhecimento é uma forma incompleta, segundo o que considera este ensaio.

Jornada do herói: da infância à vida adulta:
Para este ensaio, a infância é a fase na qual o indivíduo é incapaz de se responsabilizar por suas verdades ou, em outros termos, de ser uma autoridade, possuir uma linguagem e ser suficiente para uma produção. Portanto, adulto seria o contrário disto: capaz de se responsabilizar por suas verdades ou, em outros termos, de ser uma autoridade, possuir uma linguagem e ser suficiente para uma produção. Isto é natural, pois uma criança ainda está iniciando seu contato com realidade, testando e aprendendo o que funciona ou não, adquirindo sua carga de conhecimento herdada de seus familiares e por aqueles que seus familiares permitirem. No entanto, para este ensaio, fica um pouco vago, no ponto de vista filosófica, como se dá esta passagem da infância para a vida a adulta. Além disto, se falou algumas vezes acerca da relação entre força exercida pelo organismo social para que o indivíduo se converta e se adéque as verdades fornecidas por ele, num possível processo de crescimento ou perpetuação por exemplo, versos a força exercida pelo indivíduo para convencer o organismo social para que ele se converta e se adéque as verdades fornecidas pelo indivíduo, num possível processo de renovação ou de justiça por exemplo.

Para explicar este processo de passagem, este ensaio se utilizará de um conjunto de conhecimentos filosóficos chamados de Jornada do Herói, inicialmente concebida por Joseph Campbell, mas será usado o modelo de Christopher Vlogger, que tem doze estágios. A jornada do herói não diz, no ponto de vista prático, em como se dá o crescimento, mas sim do ponto de vista abstrato. Portanto, ele pode se adequar a qualquer realidade desde que se busque a devida interpretação para tanto. Além disto, ele formula um conceito interessante que será posteriormente utilizado em temas posteriores deste ensaio sobre a maturidade das formas energéticas. Entende-se, neste ensaio, que um indivíduo chega a sua maturidade quando ele passa por sua jornada heroica, ascendendo, assim, à sua forma adulta e também a sua forma masculina, feminina, sagrada, ou uma mistura disto ou mesmo de outras formas, a depender de como se enxerga essas questões, como será explicado posteriormente. Se, portanto, o indivíduo tem um processo a passar para se transmutar da infância à vida adulta, o que acontece se ele parar no meio? Este ensaio entende que é uma forma menos proveitosa de ser, que ainda é, mas não é com todo seu potencial e, portanto, haverá agonia ou descontentamento nela. Assim sendo, segue um pequeno resumo da jornada do herói.

Estes são as doze etapas da jornada do herói:1) mundo comum, 2) chamada à aventura, 3) recusa do chamado, 4) encontro com o mentor, 5) travessia do primeiro limiar, 6) testes, aliados e inimigos, 7) aproximação da caverna oculta, 8) provação, 9) recompensa - apanhando a espada, 10) caminho de volta, 11) ressurreição, 12) retorno com o elixir.

No mundo comum o herói vive sua vida rotineira, porém, internamente ele se sente incompleto. Até que um evento acontece, que é a chamada à aventura, que de alguma maneira quebra este ciclo rotineiro do herói e propõe algo novo a ele onde há um mal a ser combatido. Porém, o herói não se sente pronto ou seguro o suficiente, e recusa este chamado. As coisas se acalmam e aparentemente podem até retornar ao normal, mas então acontece o encontro com o mentor, que impulsiona o herói a este novo mundo, preparando-o para enfrentar este mal. O herói, agora confiante, faz sua primeira travessia, que é quando ele enfrenta algum desafio que rompe definitivamente com a normalidade da sua rotina. Neste novo mundo, ele é convidado a testar suas habilidades, aprendendo mais sobre si e sobre este mundo, assim como conquista aliados e inimigos no processo. O herói sente, é convidado ou é forçado à combater este mal maior, e para isto, ele faz a aproximação da caverna oculta, que é o primeiro momento neste novo mundo que ele sente o medo da morte. Dentro desta caverna, ele tem sua primeira provação, sua primeira batalha real contra o mal, em que quase encontra a morte. Mas saí vitorioso e com isto recebe sua recompensa, que é algum poder que o tornará mais forte, como uma espada especial. O herói sente necessidade, é convidado ou é forçado à retornar para sua casa, para levar o bem conquistado para seu cotidiano, e com isto inicia seu caminho de volta. Porém, descobre que o mal que ele enfrentou ainda não acabara, mas, pelo contrário, reuniu todas as suas forças para fazer um último ataque suicida ao herói, em que o herói novamente é posto à prova se decididamente está disposto a sacrificar sua própria vida para acabar com este mal. Este herói decide que sim, e enfrenta, arriscando sua própria vida este mal, vencendo-o completamente, mas podendo sair gravemente ferido ou até mesmo quase morto ou morto. Neste ponto, acontece algum milagre, ou ele é resgatado por forças poderosas ou amigas, que cuidam dele e garantem a ele o seu retorno para casa. Em casa, ele retorna com o elixir, que é a recompensa conquistada neste mundo novo, que faz com que seu cotidiano nunca mais seja o mesmo, porém melhor, e o sentimento de incompletude que anteriormente o possuía é substituído por um sentimento de completude por ter vivido sua jornada heroica e ter contribuído para tornar seu mundo melhor.

Este pequeno resumo trazido neste ensaio pode ter diversas variações. Alguns autores utilizam este resumo como protótipo em suas histórias, para torná-las mais humanas e/ou atraentes ao público, podendo fazer alterações de ordem, ocultar etapas, além das diversas estratégias para fazer com que o público se identifique com o herói e obtenha clímax narrativos, de modo que o próprio público consiga sentir esse sentimento de morte e ressurreição vivido pelo herói, e possam trazer também para o seu mundo aquilo que o herói trouxe para o dele. De algum modo este ensaio enxerga que o indivíduo passa, em sua vida, por processos semelhantes. O resultado deste processo, que as vezes pode até custar a vida do indivíduo, e aqui pode-se entender vida de vários modos, como vida social ou vida naquele organismo social em específico, pode ser a renovação, a criação ou o ajustiçamento de algum organismo social. Assim, portanto, chega-se a conclusão de que há forças que fazem o indivíduo se conformar com seu organismo social, e um organismo social pode ficar doente, velho ou injusto, de modo a trazer grande sofrimento para parte de seus membros enquanto grande fortuna para outra parte, como também há forças que partem do indivíduo para o organismo social. Não há uma fórmula para dizer o que é certo, errado, justo, injusto. É necessário viver e buscar dentro de si e nos conhecimentos acumulados da vida as respostas para saber o que fazer.

A jornada do herói também permite a criação de dois conceitos importantes para este ensaio, são eles: a virtualização e a polarização da jornada do herói. Quanto a virtualização, trata-se da construção de ambientes virtuais que simulam uma jornada do herói, para apresentá-los de maneira segura ao indivíduo, preparando-o, de maneira pedagógica, para que ele tenha maiores chances de sair bem-sucedido quando iniciar sua própria jornada. A maneira mais elementar de se virtualizar uma jornada do herói é através da narração de histórias por via oral. No entanto, através da tecnologia, como escrita, captação de imagens, ou mesmo videogames, a virtualização da jornada do herói tem alcançado patamar cada vez mais sofisticados. Há, na visão deste ensaio, certa problemática com a virtualização da jornada do herói quando esta perde sua função pedagógica e passa a exercer uma função de entretenimento. Isto porque, invés de ter a função de preparar o indivíduo para encarar a vida adulta, torna-se um objeto de consumo, prendendo o indivíduo a uma sensação virtual de recompensa que potencialmente o afasta dos desafios que ele precisará lidar no seu processo de amadurecimento. Portanto, como consequência, uma sociedade altamente virtualizada apresenta jovens que demoram mais para amadurecer e, portanto, pode sofrer consequências do ponto de vista social.

Quanto a polarização, para entender este conceito, é necessário tomar consciência de que todo aquele convidado a uma jornada heroica precisa encontrar formas materiais para tanto. Alguns conseguem encontrar formas individuais para fazer sua jornada, enquanto que outros encontram formas sociais. Quanto a estas formas sociais, alguma delas pode ser para melhorar algum organismo social ou para criar um novo, ou mesmo pode ser formas doentias de jornadas heroicas, como a criação de uma quadrilha criminosa ou mesmo de um organismo que pretende corromper o estado. De qualquer forma, nestas formas sociais, há o que se pode chamar de polarização da jornada do herói, que é quando cada indivíduo transfere parte do seu poder para alguma figura específica, que se torna o “polo”, e esta figura consegue coordenar mudanças na sociedade. Isto é uma forma de polarização porque cada indivíduo, à sua própria jornada do herói, ajuda o ponto focal do polo a exercer a função que aquele grupo, que acaba tornando-se um organismo, acredita ser necessário para o bom andamento da sociedade ou, no mínimo, para eles mesmos. Para quem estuda história sabe que algumas polarizações foram bem desastrosas, pois criaram lideres que buscavam eliminar a existência de todos aqueles que fossem diferentes deles. Claramente se vê uma forma doentia da jornada do herói em que o sacrifício do herói não representa um bem para a humanidade, mas tão somente um bem para si mesmo. Aliás, nestes casos, pode-se argumentar que o herói, ou vilão no caso, não busca nem sacrificar a si mesmo pelo bem do outro, mas sacrificar o outro, neste caso o diferente, para o seu próprio bem.

Formas energéticas e suas relações:
Apresentado o indivíduo e os conceitos de maturação, agora será tratado acerca das formas energéticas. Este tema é delicado porque aqui também haverá conceituações que podem variar de acordo com a interpretação. Vou apresentar uma dessas conceituações e, em seguida, comentar um pouco acerca das variações. A conceituação que partiremos como base é a de que há três formas energéticas: o masculino, o feminino e o sagrado. Isto significa que o processo de maturação de um indivíduo acontece para uma dessas formas. Ou seja: ele, quando criança, energeticamente é só uma criança, mas a partir do momento que se desenvolve, assume ou uma forma mais masculina, ou uma forma mas feminina, ou uma forma mais sagrada. Inclusive, é possível assumir que cada indivíduo tem as três formas dentro de si, manifestando-se mais aquela que ele mais nutre. Por questões hormonais ou culturais, para um corpo masculino, é mais fácil nutrir as formas energéticas masculinas. Já para o corpo feminino, é mais fácil nutrir as formas energéticas femininas. O sagrado pode surgir em ambos os corpos e pode se manifestar de tal forma que, para o indivíduo, não faz sentido se complementar com outro corpo, ou seja, ele escolhe o celibato.

A origem destas três formas energéticas vem da própria biologia. Na natureza, o mais comum é haver dois sexos, o masculino e o feminino. Há, no entanto, casos de animais com mais de dois sexos, pois entende-se aqui sexo como interface de troca de informação para a perpetuação da espécie. Há também casos de espécies com apenas um sexo, ocorrendo o processo de mutação entre as gerações por processos outros que não a relação sexuada. Como a origem desta conceituação vem da própria biologia, é dela própria que entendemos o porquê as formas energéticas se diferenciam desta forma. Há informações no masculino que o feminino não consegue ter acesso enquanto que há informações no feminino que o masculino não consegue ter acesso. Estas informações vem desde o biológico, o espermatozoide, no caso masculino, e o óvulo, no caso feminino, até questão de cultura e comportamental. Isto também significa que, como há um desconhecido no outro lado sexual, há também um elemento de desejo. Daqui tiramos que quanto maior a distância entre o desenvolvimento de masculino e feminino entre dois indivíduos, maior tende a ser sua tensão sexual, pois maior é o desconhecido e a recompensa de informações ao haver o encontro entre ambos, caso ocorra com sucesso.

Entretanto, a relação masculino e feminino visa apenas o encontro, não a perpetuação. Porém, nossa sociedade entende a necessidade da perpetuação, pois é necessário que ambos, masculino e feminino, auxiliem o desenvolvimento do filho. Através disto é que vem o sagrado, que é a força que estabiliza a união do masculino e do feminino visando a perpetuação. Se não houvesse o sagrado, mas ainda sim houvesse a tentativa de unir o masculino e o feminino, a tendência é que, ou a tensão sexual, antes grande, fosse anulada, já que ambas as forças teriam se desnudado durante a relação, ou então que esta tensão, antes de atração, começasse a se tornar uma força de inimizade ou mesmo adversária, inimiga, onde o masculino vê no feminino uma ameaça e/ou vice-versa, e então um ambiente estável não seria possível. Isto porque o sagrado provê os valores necessários para estabilizar o feminino e o masculino numa zona de desejo saudável para ambos. Do contrário, o masculino ou o feminino, em seu anseio por realizar cada vez mais desejos, cada vez exigiria mais e mais do parceiro, e alguma forma de desequilíbrio surgiria. Isto impossibilitaria a criação de um filho ou filha de maneira saudável, pois os exemplos de masculino e/ou feminino seriam ruins. O sagrado, neste sentido, também se ocupa em preocupar-se com as questões eternas e de harmonização, enquanto que o masculino e o feminino se preocupam com questões localizadas e de fortalecimento de seu campo em específico, ou seja: o feminino deseja investir em si mesmo para tornar-se forte naquele que se considera feminino, o masculino igualmente.

O que este ensaio acredita ser seguro falar sobre o masculino, feminino e sagrado são estas coisas. As variações disto são diversas. A primeira variação é o questionamento sobre a necessidade de perpetuação, que implica na necessidade do não casamento entre indivíduos. A segunda variação é se só existem três energéticas, pois, teoricamente, podem existir mais de três. Afinal, se inspirarmo-nos na natureza para dizer que há duas, e adicionamos uma terceira, por que não adicionar uma quarta? Há como supor que o sagrado é uma abstração do meio ambiente, mas isto é apenas mais uma interpretação. A terceira é: em todo o indivíduo há todas as formas energéticas? Ou seja: num masculino há um pouco de feminino e vice-versa e em ambos há um pouco de sagrado? A quarta é: os corpos biológicos e a cultura tem influência acerca da escolha que de qual tipo de energia um indivíduo escolherá para si? Por fim, a quinta: o masculino, o feminino e o sagrado tem sempre um formado pré-moldados, ou seus papéis e funções mudam através da história? Para este ensaio, estas são escolhas filosóficas, não havendo certo ou errado do ponto de vista da filosofia.

Em particular, este ensaio prefere assumir que só há três formas energéticas, as já mencionadas, e que todo indivíduo tem um pouco de cada, mas desenvolve mais a que seu corpo biológico e sua cultura o influencia a desenvolver, mas também como há uma decisão pessoal no processo sobre o que nutrir. Quanto ao que significa um masculino ou um feminino forte, deixo isto a cargo do leitor interpretar através da observação da sua própria realidade. Afinal, isto acaba sendo mais uma questão de percepção comparativa daqueles que sentem as formas energéticas do que uma questão conceitual. Sobre o masculino, o feminino e o sagrado terem sempre um papel definido durante a história, também acredito que isto seja mais um processo cultural, ou seja, estes papéis podem se alterar. No entanto, as relações de masculino, feminino e sagrado sempre tenderão a ter estas características de desconhecido e estabilização afirmadas neste ensaio. Em suma, o conjunto destes conhecimentos é importante para o indivíduo, pois isto o permitirá tomar decisões acerca do que investir para encontrar seu equilíbrio interno e do que deseja perpetuar. Afinal, uma cultura, no contexto humano, significa cultura de um conjunto de valores, normalmente indicados pelo sagrado, que são perpetuados ou não através das decisões dos indivíduos, seja de maneira consciente ou inconsciente.

Modelo tradicional de cultura:
Para finalizar este ensaio, gostaria de tratar acerca do modelo tradicional de cultura. Este modelo é chamado de “tradicional” porque, dentro da visão do autor deste ensaio, é o modelo que mais tende a se repetir nas culturas humanas. Naturalmente, esta informação é extremamente imprecisa, mas o objetivo deste tema é trazer a consciência elementos importantes para a construção de um modelo de cultura envolvendo os conceitos aqui formulados, assim como para ter-se uma base para fazer variações, críticas, ou mesmo inspiração para pautar novos modelos de cultura. Naturalmente, este ensaio, por se tratar de uma filosofia, permite que cada um faça as escolhas que deseja e enxergue o mundo como quiser, e tem como esperança ter disponibilizado conceitos que para ajudar o entendimento acerca de questões da vida, do estado e do desenvolvimento humano. Dito isto, vamos para o modelo tradicional.

Partindo da família, entende-se como tradicional um masculino ativo, provedor, enquanto que o feminino é passivo, mantenedor. Atividade e passividade aqui se diz quanto a atividade social, pois o masculino é quem exerce as atividades sociais mais perigosas ou arriscadas, enquanto que o feminino preserva-se exercendo atividades envolvendo o lar. Isto acontece porque o custo de educação e formação do masculino costuma ser menor do que o do feminino, principalmente para casamentos, já que o feminino precisa de maior investimento por parte dos familiares para conseguir um bom marido. Este casal tem filho e filha, que tenderão a reproduzir a cultura de seus pais. O menino começará a aprender com o pai a como ser masculino, e a menina aprenderá com a mãe a como ser feminina. Ambos, o pai e a mãe, tem a tarefa de escolher uma esposa e um esposo para seus respectivos filhos. Esta escolha é feita quando ambos estão em idade de casamento. Esta idade ocorre quando o menino já consegue exercer as atividades do pai, ou seja, consegue exercer atividades sociais que provisionem uma família, enquanto, na menina, ocorre quando ela já tem um feminino bem desenvolvido, ou seja, boas vestimentas e bons costumes, além de saber todo o necessário para manter a casa em ordem.

A escolha da noiva e do noivo para os filhos é feito tanto em vista de interesses econômicos quanto culturais. Afinal, escolhe-se, dentre os pretendentes, aqueles que também possuem cultura sagrada parecida, ou seja, o mesmo conjunto de deuses ou autoridades religiosas, e situação econômica parecida ou melhor ou que, pelo menos, seja uma família honrada. No entanto, é importante que esta escolha seja entre diferentes famílias, pois isto implica em uma maior troca de influências entre as famílias e as ajuda sobreviver as transformações da sociedade. A honra de uma família decorre no seu bom nome na sociedade, que vem através do seu serviço prestado à liderança política daquela região, seja em guerra, seja em serviços prestados. Afinal, toda sociedade, de tempos em tempos, se reúne para lutar contra um inimigo em comum e externo a eles. Lutam, para que alcancem uma melhor qualidade de vida e renovar a sociedade. Assim, todos eles, como um só organismo, seja no treinamento militar, seja no desenvolvimento tecnológico, desejando vencer uma batalha, encontram motivos para esquecer suas pequenas diferenças e rivalidades e unirem-se em torno do seu território. Ao obterem vitória, festejam, com suas tradições e símbolos e encontram nas artes formas de se alegrar e gozar a vida. Se fracassem, no entanto, precisam arcar com o preço da derrota, e mesmo submeterem-se como escravos de outros territórios.

Neste modelo foram usados conceitos de masculino, feminino, sagrado, desejo, inimigo, transição de gerações, desenvolvimento dos organismos sociais através tanto da questão cultural, quanto visto pelo ponto de vista militar, como também pelo ponto de vista tecnológico, quando visto pelo ponto de vista para fazer armas para defender-se, assim como um pouco de estética, já que, ao obter vitória, as pessoas utilizam a arte para se alegrarem e para simbolizarem os elementos que fazem parte do seu cotidiano e da sua constituição cultural. Um outro lado deste modelo de cultura não foi mostrado, que é o lado obscuro, corrupto. Porém, há inúmeras formas de ser corrupto, e, portanto, não vale a pena explorá-las. Apenas sabe-se que, quanto mais corrupto um organismo social for, maiores as chances dele perder uma guerra. Formas corruptas de cultura podem estar relacionadas com jornadas do herói mal desenvolvidas e/ou doentias, e com isto ligados este modelo de cultura tradicional com mais um dos conceitos apresentados neste ensaio.

Concordo que este modelo pode parecer um pouco antiquado para nossos padrões modernos. Porém, é possível adaptá-lo para apresentar nossos padrões modernos. A primeira adaptação se faz acerca do inimigo. Modernamente não temos inimigos, pois o senso de nacionalismo não existe mais e, por consequência, o objetivo maior das pessoas é o consumo. Os estados, portanto, precisam se virar para manter as pessoas consumindo e produzindo, para assim obter os impostos para sua própria manutenção em atrair capital para que as pessoas continuem no ciclo de consumo. O capital entra como força internacionalizante que impõe os padrões de consumo, e os países que não conseguem atingir este padrão de consumo são mais insatisfeitos com seus governos e tendem a um maior grau de corrupção. As relações tornam-se mais fluídas, pois a ideia de adulto é diluída cada vez mais já que, uma vez que o objetivo último é o consumo, não faz sentido falar em maturidade ou responsabilidade, mas apenas se há ou não capacidade de produzir e consumir. A vida humana se dramatiza buscando como inimigo todos aqueles que não permitem o consumo ou a produção, ou seja, pai/mãe, cônjuges, amigos, etc. Tradições são esquecidas e não existe mais cultura para a escolha do parceiro. Portanto, a sociedade se torna mais caótica e sem sentido. Isto, para este ensaio, parece ser o niilismo em que modernamente nos metemos.

Naturalmente, é preciso falar das vantagens. Afinal, a guerra atualmente acontece no nível econômico, o que é positivo, visto a capacidade de destruição alcançada pela tecnologia de alguns países. Além disto, as pessoas alcançam a liberdade para escolher o que é melhor para si. Esta liberdade, no modelo tradicional, algumas vezes é suprimida, pois quem escolhe são os pais ou a autoridade política ou religiosa. No entanto, liberdade demais acaba por não construir um organismo social forte, pois não existe nada que oriente o desejo da sociedade para o bem comum, o país torna-se fraco e também não fica claro a distinção entre um adulto de um não-adulto. Outro problema da modernidade é que qualquer um tem acesso a uma poderosa estrutura de comunicação, que é a internet e suas redes sociais. Isto gera alguma confusão, pois estruturas de comunicação devem ser fruto do poder daqueles que o conquistaram através da sua conexão com a realidade, através de bons resultados. Uma vez que qualquer um tenha acesso a uma estrutura de comunicação, a voz de um especialista que estudou muito se equaliza com a de um conspiracionaista. Além disto, a voz do conspiracionista serve como instrumento polarizador para mentes que antes conspirariam a seu próprio modo de maneira aleatória de modo a não conseguir se organizar em torno de um organismo social. A vantagem, por outro lado, é que este fluxo de informação permite que pessoas sadias também se comuniquem e se organizem para atingir objetivos saudáveis para a sociedade.

Conclusão:
É neste cenário de liberdade que nos encontramos. Esta é liberdade que fez eu publicar este texto em algum meio de comunicação e passar para os demais. Espero que os conceitos aqui abordados nos ajudem a entender melhor a modernidade e a conseguir nos comunicar de maneira mais precisa, clara, objetiva, de modo que nosso pensamento consigamos especular melhor sobre quais elementos nos farão ir para uma condição melhor de existência enquanto sociedade. Afinal, este modelo de consumo está se esgotando, visto que nosso planeta não aguenta sustentá-lo. Se o individualismo continuar a imperar, a ideia do ganho próprio sempre se sobressaíra ao bem comum e nós não teremos controle acerca daquilo que nos torna seres humanos melhores, para que possamos cuidar melhor do nosso território e, por consequência, do nosso planeta. Comecemos a cuidar da nossa própria casa, para então cuidar da rua, do bairro, município, estado, país, planeta. Não há outro caminho que não nos reinventarmos enquanto cidadãos e inventar um novo estado, pois esta democracia representativa de direito parece não estar dando conta da complexidade que nossa modernidade nos apresenta. Agradeço a todos que chegaram até aqui e com isto finalizo este ensaio. Abraços.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Disputas da Realidade

Imagem que os extremos do espectro usem de versões modificadas, extremadas e/ou mitificadas da realidade para disputar o poder. Esta disputa é destrutiva, uma vez que eles não tem preocupação com a realidade. Apenas querem vencer.

Durante este evento o centro também é disputado. Hora vai para um lado, hora vai para outro, até que, preocupado com a destruição que está ocorrendo, resolve levantar-se diante dos extremos e colocá-los em seus lugares. O que vai acontecer é a união dos extremos pra derrotar o centro, para então continuar suas respectivas disputas.

A única forma do centro vencer é, diferente dos extremos, ter uma visão realmente conectada com a realidade. Isto porque somente assim ele conseguirá ter a força para combater os extremos e estabelecer um governo baseado em construções alicerçadas na realidade. Do contrário, certamente perderá, pois se for uma disputa longe da realidade, os extremos tem a vantagem.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Comentários de "Uma introdução à filosofia Cristã" de Gordon H. Clark

Aqui segue comentários acerca do livro "Uma introdução à filosofia Cristã", do autor Gordon H. Clark para deixar como acervo. Minha principal área de interesse se encontrou na terceira parte do livro, onde se há maior concentração de comentários. Naturalmente, foi uma leitura superficial, tanto por minha falta de conhecimento na área de filosofia, já que não tenho graduação nesta área, apenas algumas introduções, quanto também pelo caráter introdutório do livro ao pensamento de Gordon. Erros podem estar por toda parte. Por fim, aquele que se aventurar por estes comentários poderá conhecer um pouco mais sobre meu modo de pensar. Um abraço a todos.

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Páginas anteriores: muitos ataques à antigos filósofos. Seria bom ver as formas de defesa, se houverem.

Pág 45: a ciência não pode ter conhecimento cognitivo. O que é conhecimento para o autor?

Pág 49: o autor afirma que o comunismo se divertiu matando pessoas de fome. De onde ele tirou isto?

Pág 54: e você será preso por isso. Não vejo problema nenhum neste tipo de argumentação. Um verdadeiro Cristão revelaria que sua vida é Cristo. Embora que, de alguma forma, isto está relacionado com o estado moderno: cada pessoa busca o que quer, individualmente. Neste sentido, o desafio é desenvolver uma filosofia que consiga conciliar o organismo e o indivíduo.

Pág 57: está no original a menção à rocinha? Está no original esta visão de que o povo se acomoda com programas assistencialistas e logo o governo tende a uma ditadura? De onde ele tirou isto?

Pág 58: agora batendo no existencialismo. Pode ele propor algo poderoso o suficiente para preencher a vida das pessoas? O Cristianismo que ele prega será forte o suficiente para isto? Vide a quantidade de cristãos depressivos ou decaídos que encontra-se por ai.

Pág 65: há um abuso de linguagem. Se arsênio é definido como algo que é venenoso, uma vez ele não sendo, ele deixa de ser arsênio. Aqui entra-se no dilema da identidade.

Pág 66: "A ideia de uma verdade isenta de preconceitos foi obviamente tomada emprestada da ciência, onde ela reinava suprema". Para mim, o método científico, em si, não pode ser considerado preconceituoso. No entanto, o é as escolhas humanas sobre como usar o método científico e a forma de divulgá-lo. A exemplo: prq investir tanto dinheiro na indústria eletrônica? Porque é dela que vem os maiores lucros. Mas há de ser dela que virá o maior desenvolvimento humano, em outro sentido que não o do consumo?

Pág 68: Uma introdução ao que futuramente eu poderei usar: axioma da revelação

Pág 69: "Os axiomas devem ser julgados pelos sistemas que produzem" parece-me uma visão utilitarista da questão axiomática. Como atribuir juízo de valor a um axioma? Com outros axiomas, naturalmente. Para mim tal avaliação é desnecessária.

Pág 76: Ora, se nem todo arsênio pode ser venenoso, porque as propriedades da natureza precisam ser como Deus determinou? E deus não programar de outra maneira, à seu tempo? Então quer dizer que o autor se satisfaz com a constante da natureza se esta for provida por Deus, e somente por isto. Parece-me estranho.

Pág 76: o autor fala sobre verdade, mas não especifica o que é verdade. Será que isto é um conhecimento comum para a academia filosófica? Ademais, suponho que o autor deva ser capaz de construir sua própria definição de verdade para esclarecer seus leitores.

Pág 82: "Sustentamos que a bíblia expressa a mente de Deus", ora, sustenta-se através de uma revelação. Tal qual os liberais sustentam, pelo o que eu entendi, que a bíblia é apenas um documento histórico e interpretativo da presença de Deus na terra. Como, portanto, impor uma revelação sobre outra? Através da argumentação? Através da lógica? Através da violência? A axioma da revelação parece ser ela mesma não revelativa, mas impositiva.

Pág 89: primeira menção do autor sobre governo civil como obrigação bíblica. Ele coloca isto no mesmo pacote que "adoração pública e ministração aos enfermos e desafortunados". Há de se salientar que o autor usou a palavra "dever" para adoração. No sentido de obrigação ou no sentido de suposição?

Pág 90: O autor afirma que o raciocínio lógico é importante para compreender a queda do homem e a ressurreição de Cristo. É importante, mas não suficiente, eu reiteraria.

Pág 93: O autor afirma que da analogia não é possível reter nenhum tipo de conhecimento. No entanto, parece-me um ponto criticável. Alguma informação traz uma analogia. Não uma informação objetiva, metodológica, mas sugestiva, poética. Nos corações de quem tem a revelação de Deus, uma analogia pode refletir perfeitamente acerca de Deus. Nos corações de quem não tem a revelação de Deus, uma analogia pode nada informar. Parece-me que o autor quer construir um sistema axiomático lógico e poderoso afirmando a existência de Deus, no entanto, assumindo que as axiomas são auto-evidentes e seu desenrolar é não contraditório. Isto parece-me uma ilusão.

Pág 106: o autor parece resumir seu argumento: o único axioma do cristianismo é que a bíblia é a palavra de Deus. Mas ainda sim me parece simplista. Da palavra de Deus pode-se derivar inúmeras interpretações. A questão revelacional é mais complexa do que parece enunciar o autor.

Pág 108: o autor admite que, embora a revelação não seja completa, ela é ampla. De tal modo, sendo ampla, e não completa, ela é ampla e não completa da mesma maneira para todos?

Pág 112: o autor começa a bater na história. Segundo ele, conhecimento histórico é impossível. Aliás, qualquer tipo de conhecimento que não venha da bíblia é impossível. Pois bem, ainda não definiu o que é conhecimento. O que significa esse tipo de afirmação? Qual o propósito para tal questionamento? Imagino que elevar o conhecimento bíblico acima de todos os outros. No entanto, estaria ele ignorando o valor dos outros conhecimentos ou seja lá o que for que ele queira chamar o que seja esses outros? Acaso o conhecimento de história não surge efeito para este mundo? Pergunta-se a um historiador e a todos aqueles que fazem uso da história para tomar decisões na sua vida o que eles acham acerca disto. O autor certamente pode afirmar: estas decisões, baseadas em história, são piores que as decisões baseadas nos conhecimentos bíblicos. Afirmo ao autor: as decisões médicas serão melhores embasadas em que? O autor, nisto tudo, parece-me querer sair do ciclo corrompido deste mundo. Ou, de outra forma, lavá-lo, pondo literalmente no centro do nosso mundo material Cristo. Receio que isto não é possível. Qualquer linguagem transforma-se em estado, que é matéria, e decaí. Cristo é espírito, vivo, pessoal e revelacional. Ainda nesta página, o autor afirma que algum conhecimento é possível. Parece-me que eu perdi alguma coisa na leitura. Erro meu. Pelo o que eu entendi, conhecimentos a posteriori são dados pela revelação. Ou seja, botânica e história russa tem haver com o axioma da revelação, pois dele vem todo o conhecimento. Mas enquanto que o conhecimento primário, o da revelação, seja contido na bíblia, os demais são derivados por dedução. Acredito que a explicação seja esta. A próxima palestra parece responder a essas questões.

Pág 116: o autor conclui que a epistemologia da revelação exclui outras formas epistemológicos, como empirismo, positivismo e instrumentalismo. Isto parece ser adequado, pois o autor tbm adverte que esta epistemologia não traz a onisciência, ou seja, não é capaz de responder tudo. No entanto, parece dizer que as filosofias seculares não são capazes de responder nada. Ainda, diz que ela será capaz de dar base para importantes questões intelectuais a ver.

Pág 117: o autor cita outro autor, que classifica os conhecimentos do universo em quinze. Isto aqui já me parece uma epistemologia auxiliar para o postulado da revelação. Porque devo aceitar essa forma em específico? Ainda, o autor comete a audácia de aceitar que existe uma ordem de complexidade. Como ele define complexidade? É preciso analisar o autor de origem para entender tais questões, provavelmente. Mas este penduricalho não me parece agradável.

Pág 118: ele comenta que as quinze ciências irredutíveis são estabelecidas de forma empírica, e que podem haver mais. Ora, como ele está usando o empirismo como auxílio da epistemologia da revelação?

Pág 121: o autor ataca a classificação ontológica na base, no conceito se tempo. Pois o autor afirma que organizou as ciências irredutíveis por tempo-cosmico, mas isto é de difícil definição. Uma correção: aqui está uma ontologia que define 15 campos epistemológicos.

Pág 124: toda essa discussão parece-me improdutiva pois ela não leva em consideração a questão a relação entre organismos sociais através dos conceitos. Ora, se um considerar estar se comunicando com um organismo social com tais características e outro, com outras características, as conclusões podem ser diferentes. Ademais, essa discussão inteira parece improdutiva pois é possível somente afirmar que o tempo é uma revelação, uma axioma, um fato autoevidente a todo organismo que reside nesta realidade. Não sei porque o autor está perdendo tempo nisto. A descobrir.

Pág 126: o autor citado pelo autor fala muito sobre o tempo. A intenção é criar duas formas de tempo, sendo a supratemporal o local aonde coisas como a Gênesis existiu. O autor acha isso absurdo, pois se for o caso, torna-se impossível saber onde ocorreu o que na bíblia. Se no tempo histórico ou no tempo supratemporal.

Pág 131: como assim historiadores usarem o axioma da revelação? Parece que o autor quer que a história seja tal como a bíblia, dando sentido aos seus eventos. Parece-me absurdo pois isto não é papel da história. É papel bíblico prq ela faz isso no sentido religioso. Dar um sentido pra história é fazer uma escolha e escolher é um ato arbitrário. Não entendo o que o autor quer dizer.

Pág 134: para o autor, o conhecimento da história parece não fazer sentido e não ter importância, dado que o axioma da revelação revela a todos que a história que importa é a que revelou a Cristo. Esta é a conclusão que faço da leitura. Não sei se correta. Ainda nesta página, autor afirma que a revelação da Bíblia certamente é a favor de uns esquemas políticos e averso a outros. Deste modo eu pergunto: segundo a revelação de quem? Isto não estaria a depender daqueles que lerem a bíblia terem tal revelação? Já adianto: qualquer que seja o sistema que a bíblia diz ser correto segundo esse autor, se ele falar em violência, ele está errado. Se existe um modo certo de se governar através de Cristo a política humana, este modo deve ser autosacrificial e não ao sacrifício do outro. Em outras palavras, este poder deve vir sem o uso da violência. Pelo menos não a violência no outro. Talvez consenso? Lembrando que na pág 130 o autor coloca os comunistas chineses como algo repudiável. Anteriormente ele tbm já fez isto.

Pág 135: o autor não faz diferença entre monarquia ou democracia, pra ele toda forma de governo é uns indivíduos coagindo outros indivíduos. Isto está de acordo com a teoria de estado moderno aonde diz que o estado exerce o monopólio da violência legal. Que direito o governo tem, o autor pergunta. Parece óbvia a resposta que é o direito constituído por constituição. Se pra ele não faz diferença entre democracia ou monarquia, porque ele reclama da China e não fala mal do seu próprio estado?

Pág 136: o autor faz menção a uma configuração de mistura entre estado e religião, no qual fez um estado exilar ou executar todos que não aderirem a sua religião oficial. Ainda o autor utiliza-se da doutrina da depravação total para justificar a incapacidade humana de empreender governos. Isto parece-me um erro, pois as autoridades foram constituídas por Deus. Como ele sabe se um governo não foi instituído através da graça, e, portanto, plenamente capaz de operar segundo a boa, perfeita e agradável vontade de Deus?

Pág 136: o autor chama um juiz da suprema corte de fascista. Cita uma frase que fala sobre soberano. Em que contexto isto foi citado? Parece-me ser algo tirado de contexto. De fato, o estado é soberano, mas a soberania é construída através de processos democráticos. Ademais, aquele que não concordar, que se rebele contra a soberania do estado e arque com as consequências, tal como Cristo fez. A atitude de Cristo em entregar-se ao estado, para mim, demonstra que quem era soberano sobre ele era ele mesmo, já que a forma do estado impor sua soberania é através da punição. Cristo, por outro lado, demonstrou sua soberania através do  sacrifício, do amor, do sacrifício amoroso, e não rebelou-se a punir o estado em uma guerra com violência. Do contrário, se igualaria a ele

Pág 137: o argumento do consentimento dos governados parece-me razoável. De fato, antes da constituição de qualquer estado, há um abstrato em que qualquer coisa pode acontecer, inclusive a violência. A partir da constituição deste estado, então opera o estado, um acordo social transmitido através de hereditariedade geográfica, e aquele que desejar rebelar-se deve arcar com as consequências.

Pág 138: o autor afirma que existe uma teoria básica de governo derivada das escrituras. A descobrir.

Pág 139: o autor quer mesmo que importarmos leis de outros tempos-historicos diretamente para o nosso? A menção ao rei Acabe parece ser uma menção contra o imposto. Também falou-se sobre o comunismo. Tão ligeiramente que não dá nem para notar. O autor sabe o que é comunismo? E como rebate-o? Não está explícito, visto que até a teoria comunista é extensa e diversa. Ele parece estar batendo em espantalhos. No mais, já conheci um comunista cristão. Pode haver mais. A depender da revelação. Lembrei-me de outro, Flávio Dino. Acaso o autor vai dizer que a revelação deles é errada ou que não leram a bíblia? Ou se leram, a entenderam errado? Ou são, por assim dizer, mal caráter mesmo, já que o autor claramente classifica o comunismo como mau?

Pág 140: é interessante a observação do autor sobre ser o pai quem deve ajudar o filho e não vice-versa. Mas, de modo geral, pareceu ser um argumento contra a previdência social. Acaso o autor esquece-se que está lidando com uma massa de não cristãos? Muitos deles abandonam os pais ao asilo. Parece-me ser conclusões complicadas a serem generalizadas a nível de estado, embora perfeitamente boas para serem usadas a nível individual. Também, fala sobre a não perseguição dos cristãos. Ora, prq não estender isso a não perseguição de qualquer crença religiosa? Parece ser uma questão óbvia também, inclusive endossada pela própria história.

Pág 140: Platão era comunista? Isto parece ser uma anacronismo. Não existia conceito de comunismo naquela época. Não sei o que o autor quis dizer com isto. O autor fala que o direito individual é uma exigência. Como ele faz questão dessa exigência? Parece que as coisas não mudaram muito desde o tempo do autor até hoje, a exceção de que a China passará dos EUA economicamente. Não me parece que o direito individual e a propriedade privada esteja tão em risco assim. No mais, a ver.

Pág 141: para o autor, totalitarismo e anarquia parecem ser males piores. Ou seja, ele não é anarquista. Só não ficou bem respondido como agir em casos de governos quererem infligir aquilo que a revelação revela ao autor sobre como deve ser o estado.

Pág 144: o autor afirma que a escritura dá a base moral e muitos conselhos para edificar o homem ao passo que a filosofia secular não. Isto me parece meio estranho, uma vez que é possível ver filósofos ou outras religiões trazendo doutrinas morais. No entanto, segundo a revelação, apenas a cristã é verdadeira. O resto é incompleta ou errada. Mas o autor parece forçar a barra nessa argumentação. Eu diria que a única força capaz de tornar o homem moral e justo é a graça de Deus vindo pela revelação de Cristo, não tendo haver com o sistema ético ensinado na bíblia. Final, ética é uma coisa relativa a cultura e ao tempo histórico, segundo meu entendimento. O que não é dependente disto é a revelação de Cristo. A graça de Deus quem forma que tipo de sociedade temos ou não, de modo que a bíblia sempre tem a nos ensinar.

Pág 146: o autor parece entrar na discussão de minigraça ou supergraça. Ainda nesta página, o autor afirma que a axioma da revelação salva vários campos do conhecimento do cetisimo infernal. O que os salva é a presença de Jesus nesses campos.

Pág 149: o autor começa a bater no tipo de religião que é não-doutrinal e não-intelectual. Isto me parece estranho, uma vez que tanto a doutrina quanto o intelecto dependem da revelação. Ora, o problema então não é do intelecto e da doutrina, mas dá revelação que as pessoas tem de Cristo. Acaso essas pessoas não lêem a bíblia? Suponho que sim, mas ainda sim elas tem uma revelação não-doutrinaria e não-intelectual acerca de Cristo. O que o autor pode fazer além de reclamar e dizer que é errado? Que seja a palavra do autor o poder do espírito santo para o convencimento. No entanto, creio que isto acontece prq a igreja ainda não está preparada para ter uma doutrina capaz de lidar com nosso tempo histórico. Ainda não tem, pois pelo o que percebi esse texto deve ter uns 40 anos. Portanto, a forma como Cristo encontra para alcançar as pessoas é esta. E que assim seja, pois seu nome é adorado e seu amor é levado as pessoas. Não há mal nisso, desde que não paremos de buscar de nos aprofundar mais e mais nos conhecimentos do senhor para que sejamos capazes de trazer respostas através da graça de Deus.

Pág 150: para mim a bíblia é incompleta, e a revelação a completa. E a depender da revelação, a forma de completa-la vai ser diferente, o que explica as diferentes denominações e doutrinas. Porém, numa coisa concordo com o autor: a bíblia nunca deve ser alterada, pois ela é fonte da identidade do povo, e ninguém deste povo tem legitimidade para alterar a identidade do povo. Assim, embora a bíblia possa ser incompleta, ou inconsistente, para alguns, não há como cogitar na correção da Bíblia. Em outras palavras, ela é infalível, embora seja incompleta. Por infalível, quero dizer que não contém falhas, pois o destino de toda falha é ser consertada.

Pág 154: eu trocaria facilmente por: a revelação de Cristo... Se criamos uma nação munida tão somente pela axioma da revelação, essa nação poderá até ser suficiente e satisfeita, mas em nada será capaz de impactar o mundo secular. Não concordo que seja necessário criar um sistema de verdade alternativo ao deste mundo, e rejeitar este mundo. Conciliar contradições através da revelação é o que podemos fazer. Converter o que é secular aos olhos de Deus também. Temos este poder. Portanto, Clark é rejeitado por ser extremista e isolacionista, segundo o que eu percebi. Não é possível pedir que o mundo esqueça sua identidade para ascender ao cristianismo por nossa própria força, mas tão somente na volta de Cristo. Enquanto isso não acontece, que sejamos o sal e a luz do mundo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Efeitos da adoração

    Imaginem um esqueitista executando uma manobra: naquele momento todos os sentidos do seu corpo estão focados naquele momento. Não há pensamento, há apenas um fluxo de entrada e saída que talvez fará com que ele consiga executar uma nova manobra desejada. Ao alcançar este feito, um sentimento de satisfação o acometerá. Ele alcançou um novo degrau em seu esporte.

   Neste momento, quando o ser humano consegue sair de si em um processo de relacionamento com alguma outra coisa ou alguém, é quando deparamo-nos com um verdadeiro processo de relação. Afinal, aquele algo com o qual ele está se relacionando está trazendo informações novas para ele, as quais ele deve estar atento e responder corretamente, para então alcançar algo desejado.

   Deus criou o ser humano para relacionar-se com ele. A cada dia Deus descia ao Éden para ter relação com o ser humano. Para Deus, esta relação significa amor. Para o homem, além de amor, também era um amadurecimento cada vez mais profundo em toda sabedoria que Deus tinha a dar. Afinal, Deus sempre tem coisas novas a ensinar. Um degrau por dia, assim desejava Deus para que o ser humano reinasse em paz no Éden.

   Mas o pecado do humano foi não querer relacionar-se. Pelo contrário, quis fazer tudo por sua própria conta, através de fórmulas milagrosas oferecidas pela serpente, rápido e fácil. Descobriu, no entanto, que aquilo que desejara não é o que traria felicidade. Reinou sobre um mundo caído, mas sem a capacidade de relacionar-se com Deus. Uma vida vazia em que os desejos descontrolados os faziam pecar. Reis e sacerdotes, todos corruptos. Os profetas, mortos.

   Chegou então o cordeiro, o leão, que verdadeiramente se relacionou com Deus, pois era Deus, para então nos dar acesso a este relacionamento com Deus através do auxílio do seu santo nome e espírito. Hoje vivemos o Éden aqui na terra. Hoje vivemos a oportunidade de nos relacionar um pouco a cada dia, para que não pequemos, mas para que Deus nos ensine algo e demonstre seu amor por nós, através de nós, a todos aqueles que ainda estão perdidos.

   Ao não confiar em Deus pecamos, buscando nossa própria solução. Ao confiar em Deus o adoramos e assim todos os nossos sentidos estão focados naquilo que ele tem para nos ensinar através do relacionamento. Hora ele pedirá para que esperemos, hora ele pedirá que avancemos. Tudo suportaremos e realizaremos de acordo com sua graça, que nos trouxe seu próprio filho, Jesus Cristo, para nos ensinar acerca desse amor.