segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Ensaio: visão dos organismos sociais

Introdução:
Bem-vindos ao ensaio “visão dos organismos sociais”. Aqui vou buscar construir as bases para uma filosofia capaz de lidar com muito dos problemas que estamos lidando nesta pós-modernidade ao mesmo tempo que busque ser simples e intuitiva. Ela está planejada para doze capítulos, sendo os primeiros, inicialização a ideia de organismos sociais, os quatro seguintes falando sobre as implicações filosóficas que a visão dos organismos sociais trazem e, por fim, mais quatro capítulos falando dos indivíduos segundo esta visão. Ou seja, este ensaio busca compreender os aspectos básicos da vida do ser humano e do viver em sociedade. Naturalmente, isto não será possível em detalhes concretos, no entanto, desenvolver a abstração para tal é necessário para que nossa forma de raciocinar seja revolucionada e possamos nos adequar a este novo século e sua abundância de formas e informações. 

Temas:

01) Inicialização dos organismos sociais
02) Estado e corrupção
03) Ética e moral
04) Desejo e inimigo

05) Verdade e suas formas
06) Impossibilidade do monopólio da verdade
07) Arte e filosofia
08) Consenso como forma de espírito

09) Indivíduo e suas formas de conhecimento
10) Jornada do herói: da infância à vida adulta
11) Formas enérgicas e suas relações
12) Modelo tradicional de cultura

Inicialização dos organismos sociais:
Organismos sociais basicamente são constituídos de três coisas: autoridade, linguagem e produção. Definir exatamente o que é cada uma destas três coisas é uma tarefa inoportuna para este momento, para não dizer impossível. Portanto, confiarei na capacidade do leitor de, ao se deparar com estes três termos, que são a base de conhecimento desta filosofia, consiga, ao enxergar seu mundo, identificar o que é linguagem, o que é produção e o que é autoridade através do consenso linguístico acerca destes termos. Acredito que estes termos sejam gerais o suficiente nas sociedades para serem traduzidos para outras línguas sem maior prejuízo, também.

Ora, o que esta definição nos diz? Que tudo o que é constituído por essas três primitivas é um organismo social. Seja o estado, seja uma instituição, sejam grupos religiosos, sejam empresas privadas. Não importa: havendo autoridade, linguagem e produção, então há um organismo social. Uma vez que um indivíduo participe de um organismo social, significa que ele está concordando em fazer parte da hierarquia de comando produtivo daquele organismo. Ou seja: possivelmente há alguém que tenha autoridade sobre ele, possivelmente ele tem autoridade sobre alguém e ele tem a responsabilidade de usar a linguagem dele para produzir algo para aquele organismo. Esta produção, que individualmente seria impossível, torna-se possível através da união de diferentes saberes e diferentes estruturas de produção unidas em torno do objetivo em comum daquele organismo.

Isto é o que faz os indivíduos se unirem em torno de organismos sociais: serem capazes de produzir aquilo que, individualmente, seria impossível. Organismos sociais, embora feitos de indivíduos, ganham certa autonomia, de certa forma. Tornam-se também “indivíduos” capazes de desejar ou com interesses específicos, como um corpo. Porém, a diferença entre os organismos sociais e um ser humano é que o ser humano é a unidade fundamental da vida, enquanto que um organismo social é uma estrutura que dá suporte à vida, mas em última instância, não é algo vivo em si, podendo ser destruído e reconstruído à mercê das necessidades dos indivíduos, embora isto, na prática, possa ser complicado.

Estado e corrupção:
O estado é a autoridade das autoridades, a linguagem das linguagens, a produção das produções. Em outras palavras, o estado é o organismo social cuja função é controlar os demais organismos sociais em seu território. Seu surgimento histórico é natural e necessário, pois dado que os seres humanos começam a se organizar em torno de organismos sociais, se não houvesse um capaz organismo social legítimo capaz de coordenar os outros, certamente haveria instabilidade social ou estabilidade ilegítima, ou seja, um organismo social utilizando métodos espúrios para controlar os demais. O estado é, portanto, o organismo social que regula o crescimento e o convívio entre todos os organismos sociais de uma dada sociedade para harmonizá-los e estabelecer uma relação saudável dentro de um território geográfico. Para tanto, ele deve ser capaz de ter ferramentas para trazer justiça quando algo não está de acordo com seu entendimento, e é por isto que, modernamente, entende-se que o estado é o único que tem o monopólio legítimo da violência.

Segundo a visão dos organismos sociais, é impossível haver um segundo estado dentro de um território. Por isso, há um consenso global de qual estado faz parte de qual território. Quando não há um estado em um território, há o que se chama de processo abstrato, onde qualquer coisa pode acontecer, afinal, não há quem tenha legitimidade para aplicar leis. No entanto, uma vez definido um estado, este estado encontra seus meios para ser aceito pela geopolítica e, portanto, ele quem regula aquele território. O surgimento de outro estado, para este ensaio, é o termo mais preciso de corrupção que nossa sociedade pode usar, pois implica em um conjunto de indivíduos, ou seja, um organismo social, construindo poder para comandar outros organismos sociais, seja através de recompensas ou punições, independente do estado vigente. Ora, mas havendo dois organismos sociais querendo mandar em um terceiro organismo social, a quem aquele terceiro vai obedecer? Trata-se, logicamente, de um jogo obscuro às leis do estado que regula esta relação e que trará prejuízo aos honestos. Portanto, é interesse do estado, para sua própria sobrevivência, inclusive, acabar com esquemas corruptos. Pois nunca se sabe se a corrupção vai ser forte o suficiente a ponto de tornar-se o próprio estado.

Ética e moral:
A língua pode ser entendida como tendo duas partes: a significativa ou simbólica e a gramatical. A significativa ou simbólica trata-se da ligação entre o signo e o significado, e seu mapeamento. Um dicionário, portanto, lida com esta relação, buscando fazer uma relação entre signo e significado. Já a gramática, por sua vez, regula as construções da linguagem para que elas tenham significado coerente com os signos individuais das palavras. Assim, a gramática pode rejeitar ou aceitar uma construção. Esta linguagem, para os organismos sociais, embora não tenha sido definida, pode ter estas mesmas duas dimensões: a simbólica e a gramatical. A simbólica, neste caso, trata-se com o objeto da realidade com que aquele organismo lida. Por exemplo: um organismo cuja produção é carro vai ter como simbólico todo o conjunto de peças e procedimentos para fazer um carro. Já a dimensão gramatical na linguagem, por sua vez, é o que pode ser entendido como ética.

Ou seja, para os organismos sociais, a ética nada mais é que a gramática da linguagem dos organismos sociais. Um comportamento é antiético sempre que as autoridades do organismo social entende que aquele comportamento trazem prejuízo ao corpo. Um comportamento é ético quando as autoridades do organismo social entendem que aquele comportamento é o que traz saúde ao corpo. Assim, toda ética é relativa a um corpo, e é preciso uma autoridade para decidir se um comportamento é ético ou não. O que alguns filósofos chamam de moral, que seriam o conjunto de comportamentos que é válido em quase todas as sociedades, como “matar é errado”, aqui entende-se como ética de estado. O estado, neste contexto, é entendido como o organismo social básico a qual todo indivíduo pertence, querendo ou não, por herança de constituição social. Ou seja, a carta constituinte daquele país define que quem nascer naquele país, é daquela nacionalidade e, portanto, terá os direitos e deveres daquela nacionalidade.

Quanto à moral, este ensaio entende que é a relação entre autoridade, linguagem e produção. Ora, quando uma autoridade emite uma linguagem que se converte em produção, quanto mais eficaz for esta conversão, maior será a moral desta autoridade. Desta forma, a moral pode ser entendido como o quão um organismo social está ligado, acoplado, relacionado, firmado em sua própria realidade. Há também os comportamentos imorais, que são quando um organismo declara que não fará uma coisa, mas faz. A exemplo, em um casamento, quando um organismo diz que será fiel ao outro, seu conjunge, mas o traí. Isto é um exemplo de imoralidade, pois houve a emissão de linguagem de que uma produção nunca seria feita, mas foi. Outros exemplos se estendem à área profissional ou a organismos cuja produção é prever o futuro.

Desejo e inimigo:
Para entender o que motiva os organismos sociais a interagirem-se entre si, este ensaio utilizará o seguinte conceito de desejo: desejo é a expectativa que um cenário se concretize em um campo de possibilidades. Esta conceituação é necessária para informar o seguinte: o ser humano tende a não desejar cenários fácil demais a ponto de serem banais, triviais ou se realizarem frequentemente, mas também não deseja cenários difíceis demais a ponto de serem impossíveis, complexos demais ou nunca terem acontecido. Isto é o que torna importante, muitas vezes, o exemplo, para demonstrar que algo é possível, e também explica a constante necessidade de evolução do ser humano. Sempre é necessário que enfrentemos algo desafiador, onde há chances de sucesso ou fracasso, pois se o sucesso é garantido, não há recompensa, mas se o fracasso é garantido, não há estímulo.

Esta característica humana é, de certa forma, herdada pelos organismos sociais. Portanto, os organismos sociais desejam, e ao realizarem o que objetivam, todo o corpo tende a se alegrar. A exemplo de quando um país vence um torneio internacional esportivo, ou quando uma empresa consegue uma grande parceria. Todo o organismo se alegra, pelo menos assim deveria ser em organismos sociais saudáveis, pois indica uma evolução ou um marco significativo daquele organismo. Há também, neste aspecto, os ambientes competitivos, onde há a existência do adversário ou inimigo. Ora, no decorrer da existência humana e dos próprios organismos, escolher o que desejar é algo que, as vezes, não é trivial. Dentre tantas e tantas possibilidades de escolha, escolhe-se aquela que representa um desafio sobre outro organismo social. Portanto, não é incomum que indivíduos ou mesmos organismos sociais escolham elaborem inimigos sobre os quais desejam triunfar.

Há momentos em que isto é saudável. Há momentos em que não. Há momentos em que o inimigo torna-se o próprio estado, pois assim como um jogador que se resolva contra as regras do jogo quando está perdendo, há organismos que acreditam que o motivo deles não estarem satisfeitos como gostariam é o estado. As vezes pode até ser, mas o estado é a última autoridade que separa os organismos sociais da anarquia. Portanto, é preciso proceder corretamente se for preciso alterá-lo, do contrário, há possibilidades de perca de legitimidade, o que leva a um estado fraco e, sem capacidade de organizar e coordenar o país ou, em última instância, sem soberania e colonizado por outros países. Neste sentido, a visão dos organismos sociais é nacionalista, visto que cada organismo que cuide de si. Mas também é possível imaginar organizações globais para cuidar de estados que necessitam de ajuda. Isto, porém, ainda parece está um pouco longe da maturidade da maioria dos nossos países, que ainda parecem exigir um inimigo externo para dar um desejo em comum para sua população, desviando o foco de si.

Verdade e suas formas:
A parte macro da visão dos organismos sociais foi apresentada nestes quatro tópicos anteriores. Agora, portanto, partiremos para as consequências filosóficas desta formulação. Algumas já foram apresentadas, como um conceito próprio de ética e moral. Estes próximos quatro capítulos tratarão melhor sobre estas consequências filosóficas antes de entrarmos no indivíduo.

O leitor mais atento já pode ter percebido como a visão dos organismos sociais enxerga a verdade, mas aqui está a enunciação completa: a verdade é o efeito da relação entre autoridade, linguagem e produção. Em outras palavras, o indivíduo ou organismo social que mais tiver moral em um dado contexto é o que mais provavelmente se aproxima da realidade. Isto também significa que a realidade é algo externo ao indivíduo e aos organismos sociais, e que nos aproximamos dela através dos métodos que nos leva a produzir e que são canonizados através da linguagem e aplicados através das autoridades. Ou seja: por construção conceitual não há verdade absoluta. Há sim uma realidade, mas nós não temos acesso direto a ela. Construímos este acesso através da nossa vivência enquanto indivíduos e através da nossa evolução enquanto organismos sociais.

Há de se observar que, portanto, para cada organismo, há uma forma dele enxergar a realidade, que é a sua verdade. Esta forma é o que realmente importa para ele, sendo as demais secundárias, apenas partes necessárias para seu relacionamento com os demais organismos sociais. Se alguém buscar tentar convencer a este organismo de que esta verdade não é verdadeira, falhará. Afinal, há uma autoridade que, ao emitir uma linguagem, obtém alguma produção. É possível, no entanto, demonstrar verdades ainda mais fortes ou profundas, ou seja, formas mais eficientes de produzir algo desejável para o organismo. Neste sentido, o organismo acumula experiência através dos anos e vai se especializando cada vez mais naquilo que ele faz, podendo este conhecimento ser passado através de muitas gerações.

Neste sentido destaco três tipos de verdades principais da nossa sociedade contemporânea. A científica, a religiosa e a política. A científica deriva diretamente do método científico, que consiste em demonstrar modelos capazes de afirmar coisas acerca da realidade com algum grau de precisão, mas nada além disto. Isto significa que a ciência só consegue responder acerca de seu modelo, que é uma representação controlada da realidade, mas dele estrutura-se a realidade para obter resultados desejáveis, como produzir tecnologia. Já a verdade religiosa surge através de livros sagrados, que são o acumulado de experiências passadas e validadas através de gerações, e sua produção é a capacidade de dar finalidade ao indivíduo, levando-o ao estado de adoração. Este tipo de verdade não costuma falar sobre algum ponto específico da realidade no aqui e agora, mas sim da realidade eterna. Ou seja: há declarações em livros sagrados que são eternas para aqueles que creem. A ciência, por outro lado, enxerga aquilo que os seus modelos indicam. Se o modelo mudar, o que se enxerga também mudará.

Já a política, por sua vez, é o conjunto de experiências humanas que resultou na construção do estado. Atualmente estamos no estado democrático representativo de direito, e isto significa que a principal forma de participação política do cidadão comum é através do voto. Assim sendo, para o político, sua principal forma de verdade é conseguir votos, pois é isto o que interessa a ele. Utiliza-se, portanto, da ciência, da religião ou de outros meios para tanto. Uma vez obtido os votos e elegendo-se, parte então a conseguir mais votos e assim construir sua carreira política. Neste modelo político, a construção da sociedade em si é algo secundário, embora importante, pois não necessariamente uma boa política de construção social implica numa reeleição, já que há muitos interesses e narrativas políticas envolvidas. Inclusive, existe a própria dificuldade em conceituar o que significaria “uma boa política de construção social”, de qualquer forma, pois cada indivíduo ou organismo social definiria à sua própria maneira.

Nota-se que cada indivíduo faz parte de ao menos um organismo social, que é o estado, mas que pode fazer parte de mais, como instituições religiosas, centros acadêmicos, partidos políticos, entre outros. Uma boa forma de enxergar isto tudo é através de um diagrama de Venn, onde há pessoas que vivem com muita intensidade determinado tipo de verdade, enquanto que há outras que vive com intensidade moderada de diferentes tipos de verdades, sendo possível todas as combinações possíveis. Geralmente quem está no topo de hierárquico dos organismos sociais vivem mais a verdade daquele organismo, pois tem maior responsabilidade pela produção da sua linguagem. Ou seja: enquanto que alguém no topo da hierarquia precisa organizar a linguagem para coordenar a produção, quem recebe o comando para produzir, embaixo, absorverá a linguagem e executará o comando. Naturalmente sempre pode haver comunicação nos dois sentidos, mas a maior tendência, em um organismo hierarquizado, é que a linguagem venha de cima pra baixo A base da hierarquia, por sua vez, tem responsabilidade pela produção material em si.

Impossibilidade do monopólio da verdade:
São inúmeras as formas de verdade que os organismos sociais podem encontrar. Citei anteriormente três, as principais da nossa sociedade contemporânea, mas deve ser possível existir outras a partir do momento que nossa sociedade for se tornando mais complexa. Afinal, o método científico, por exemplo, é uma invenção moderna. Há, ainda, a interpretação de que só existem estes três tipos de verdade, e que todas as demais verdades derivam delas. Isto é algo que não vou buscar definir neste ensaio, pois para isto eu quero conversar bastante com as pessoas para saber como elas se sentem em relação a esta construção conceitual. Independente da forma como se conceitua quais são as formas de verdade, é inegável que exista mais de uma forma de se efetivar a verdade. No entanto, conceituá-la desta maneira tem uma implicação muito importante: é impossível ter uma autoridade capaz de obter o monopólio da verdade.

Isto resulta diretamente de que não há verdade absoluta, pois se a verdade é a relação autoridade, linguagem e produção, é impossível que uma autoridade saiba tudo, faça tudo e seja capaz de comunicar tudo. Portanto, certos domínios da realidade vão sempre estar contidos em determinadas autoridades, sendo papel do estado organizar essa realidade base, material, para que os organismos sociais consigam conviver em harmonia. Se, por ventura, supormos que há uma autoridade que seja capaz de fazer tudo, isto implicaria em graves problemas, porque há limites na linguagem. Conter esta autoridade em alguma linguagem seria impossível, pois sempre haveria de faltar algo a comunicar sobre ela. Afinal, ela é capaz de fazer tudo e, para tanto, seria necessário uma linguagem ou infinita ou capaz de assumir contradições aparentes para derivar tudo dela e saber o que é verdadeiro ou falso a depender do contexto, no qual necessitaria de alguma autoridade para discernir acerca deste contexto de verdadeiro ou falso. Assim, se tal autoridade existisse, ela não seria um organismo social, pois não teria linguagem, ou sua linguagem não seria completamente acessível aos seres humanos em um sistema lógico formal.

Filosofia e arte:
O encontro do indivíduo com sua própria realidade está diretamente no seu pensar. A partir do momento que um indivíduo volta seu pensamento a pensar seu próprio conjunto de saberes, expressos ou não em sua linguagem e/ou seu contexto e finalidade de vida, este indivíduo está filosofando. Para a visão dos organismos sociais, todos os indivíduos são capazes de fazer filosofia, embora alguns façam filosofias interessantes e outros não. Neste sentido, filosofia apresenta-se com uma força, a qual este ensaio chama força de vida, pois a filosofia não busca a finalidade, como a religião, nem busca a explicação de um evento através de um modelo bem definido, que é o que faz a ciência, mas busca questionar e explorar os limites do que cada modelo ou finalidade sugere para apreciar se aquilo faz sentido dentro da visão de cada indivíduo, ajudando-o a tomar melhores decisões. A visão dos organismos sociais, em si, é uma filosofia, e traz consigo esta força, que só se averiguará fraca ou forte em seu poder de fazer sentido a medida que ela for divulgada para as pessoas. Mais nada pode se dizer acerca da filosofia. Afinal, seu intuito não é ser falseável, como é a ciência, ou fazer as pessoas buscarem por um estado de adoração, como faz a religião.

Para este ensaio, a arte é definida como a busca de trazer para material o estado de adoração, para que assim mais pessoas possam ter acesso, pelo menos de maneira parcial, a este estado acessado por alguém. Portanto, é preciso explicar melhor o que é adoração. Este ensaio entende que adoração é quando o ser humano encontra a finalidade. Em outras palavras, tudo que o ser humano considera como finalidade, é algo a ser adorável. O relacionamento com Deus, para alguns, a capacidade de consumir, para outros. Existem inúmeras coisas que podem se tornar a finalidade do ser humano, e para todas estas coisas, é possível existir uma expressão artística que represente isto. Mesmo a filosofia pode se tornar alvo de finalidade, havendo, portanto, artes cujo objetivo é representar pensamentos filosóficos. Enfim, cada ser humano é livre para buscar a finalidade da sua vida, desde que ele encontre condições e forças para tanto, pois . Isto será melhor explicado quando for falado acerca do indivíduo e da jornada do herói.

Consenso como forma de espírito:
Todo indivíduo pode ser um organismo social, porque todo indivíduo pode ser uma autoridade que produz sua própria linguagem para abstrair sua própria produção. Portanto, o que impede que os seres humanos comecem a se individualizar ao ponto de não haver organismos sociais maiores que o próprio indivíduo? Para a visão dos organismos sociais, isto não acontece por causa do “espírito” dos tempos, que seria o que o conjunto de tecnologias, práticas, conhecimentos e cultura de um povo permite em seu tempo. Para exemplificar isto, supomos que em determinado tempo, um grupo de pessoas entendem que, para conseguir determinado objetivo, como vencer uma guerra, o importante é se unirem, treinar táticas militares e separar parte do grupo para fabricar armamentos, pois assim alcançarão a vitória desejada. Ou seja: há um desejo em comum, trazido por este “espírito” e possibilitado a partir de um organismo social maior que o indivíduo.

Aqui denomina-se “espírito” porque é impossível, para este ensaio, prever como vai se configurar esse consenso. Isto é algo que depende do tempo histórico, da própria natureza da realidade dinâmica e complexa. É importante ressaltar que este “espírito” aqui citado é um espírito filosófico, em particular o espírito filosófico entendido por este ensaio, e, portanto, pode ou não ter haver com espíritos de cunho sobrenatural, religioso, etc, a depender da interpretação. Ora, se este espírito muda através do tempo histórico, algumas formas de verdade que são adequadas para certos momentos, em outros são claramente inadequadas. Perceber estas sutilezas pode ser algo bastante determinador no sucesso ou fracasso ao buscar construir ou reformar as práticas de um organismo social. Quanto maior a posição na hierarquia de um organismo social, e quanto maior este organismo social for, maior a responsabilidade, o risco de danos, mas também o potencial transformador.

Os organismos sociais são, portanto, consensos que reagem a esse “espírito”, construindo assim suas próprias verdades, que é a forma como elas se relacionam com esta natureza da realidade desconhecida. É importante, para nossos tempos atuais, entender a importância dos consensos. O estado é construído através de um consenso, definido por cartas constitucionais. A ciência também o é, assim como as religiões. Em todo organismo social há uma foram de consenso, construído através da relação entre as autoridades, linguagem e produção. Este consenso pode se alterar através da forma como esse “espírito” do tempo muda. Todo indivíduo que faz parte de um organismo social acaba por concordar com este consenso ou, se discordar, busca demonstrar, através da sua autoridade, produção ou linguagem, aos demais, de que há uma verdade mais forte por trás daquele tempo, que guiará melhor aquele organismo. Assim é possível que indivíduos transformem seus próprios organismos através de suas descobertas. Isto, porém, demonstra-se não ser um processo simples, e como já citado anteriormente, será abordado melhor na jornada do herói.

Indivíduo e suas formas de conhecimento:
Inicia-se aqui os quatro últimos temas deste ensaio, que tratarão sobre o indivíduo. O objetivo deste ensaio não é trazer uma visão profunda sobre o indivíduo porque, para isto, há matérias de filosofia da psicologia bem mais competentes, mas tão somente elaborar um indivíduo complexo o suficiente para explicar sua participação nos organismos sociais. Entendemos aqui o ser humano como um ser capaz de adquirir informações da realidade através de seus sentidos, processá-los e transformá-los ou em mais informações ou em conhecimento. Entende-se aqui informação como qualquer coisa que possa se transformar em axioma num sistema lógico formal, e o processo de raciocínio como sendo, ou indutivo, ou seja, capaz de generalizar dos casos individuais para abstrações, ou dedutivo, capaz de extrair informações de axiomas para elaborar novos axiomas, verdadeiros se os axiomas já existentes assim o forem. Entende-se aqui como conhecimento qualquer informação capaz de levar o ser humano a alguma verdade, ou seja, a alguma relação entre autoridade, linguagem e produção.

Portanto, para este ensaio, parte do conhecimento vem dos indivíduos vem de sua capacidade de sentir o meio ambiente ao qual ele está inserido com os seus sentidos. Outra parte vem do seu processo de raciocínio, reflexão. Afinal, grande parte do conhecimento nada mais é que a elaboração da realidade em uma linguagem mais precisa para que se consiga raciocinar com mais exatidão. Em outras palavras: como raciocinar sem dar nome as coisas, por exemplo? Ou sem agrupar coisas semelhantes, desconsiderando seus aspectos individuais, para chegar a conclusões mais ou menos precisas, mas capazes de produzir resultados desejáveis? Para este ensaio, o ato de nomear, de abstrair, são atos que uma autoridade faz, e somente uma autoridade é capaz de determinar quando ele é válido ou não. Isto porque, já que a realidade tem um “espírito” único à seu tempo, ou é uma forma de energia, cada aspecto da realidade pode ser considerado único e, portanto, digno de um único nome. No entanto, as vezes é necessário desconsiderar pequenas diferenças entre essas formas da realidade para generalizá-las e assim, por exemplo, conseguir conceber a “espécie humanos”.

Porém, isto também não significa que cada ser humano nasce e adquire conhecimentos a partir de seus sentidos, mas sempre novamente. Há, através dos organismos sociais, um processo de transmitir conhecimentos acumulados para as próximas gerações. Isto acontece no processo de educação, por exemplo, em que se instruí crianças com o conhecimento histórico-científico acerca do nosso tempo, ou quando uma organização religiosa consegue inicializar uma adolescente em suas afirmações de fé, apresentando-lhe seu livro sagrado, que contém informações, muitas vezes milenares, e são atestadas como verdadeiras através das afirmações de fé e, através disto, trazendo transformações ao modo de enxergar a realidade daquele ser humano. Todas estas formas de conhecimento devem ser levadas em consideração ao enxergar o ser humano, pois todas estas formas de conhecimento são, de uma forma ou outra, atuantes nos organismos sociais, e enxergar o ser humano sem enxergar estas formas de conhecimento é uma forma incompleta, segundo o que considera este ensaio.

Jornada do herói: da infância à vida adulta:
Para este ensaio, a infância é a fase na qual o indivíduo é incapaz de se responsabilizar por suas verdades ou, em outros termos, de ser uma autoridade, possuir uma linguagem e ser suficiente para uma produção. Portanto, adulto seria o contrário disto: capaz de se responsabilizar por suas verdades ou, em outros termos, de ser uma autoridade, possuir uma linguagem e ser suficiente para uma produção. Isto é natural, pois uma criança ainda está iniciando seu contato com realidade, testando e aprendendo o que funciona ou não, adquirindo sua carga de conhecimento herdada de seus familiares e por aqueles que seus familiares permitirem. No entanto, para este ensaio, fica um pouco vago, no ponto de vista filosófica, como se dá esta passagem da infância para a vida a adulta. Além disto, se falou algumas vezes acerca da relação entre força exercida pelo organismo social para que o indivíduo se converta e se adéque as verdades fornecidas por ele, num possível processo de crescimento ou perpetuação por exemplo, versos a força exercida pelo indivíduo para convencer o organismo social para que ele se converta e se adéque as verdades fornecidas pelo indivíduo, num possível processo de renovação ou de justiça por exemplo.

Para explicar este processo de passagem, este ensaio se utilizará de um conjunto de conhecimentos filosóficos chamados de Jornada do Herói, inicialmente concebida por Joseph Campbell, mas será usado o modelo de Christopher Vlogger, que tem doze estágios. A jornada do herói não diz, no ponto de vista prático, em como se dá o crescimento, mas sim do ponto de vista abstrato. Portanto, ele pode se adequar a qualquer realidade desde que se busque a devida interpretação para tanto. Além disto, ele formula um conceito interessante que será posteriormente utilizado em temas posteriores deste ensaio sobre a maturidade das formas energéticas. Entende-se, neste ensaio, que um indivíduo chega a sua maturidade quando ele passa por sua jornada heroica, ascendendo, assim, à sua forma adulta e também a sua forma masculina, feminina, sagrada, ou uma mistura disto ou mesmo de outras formas, a depender de como se enxerga essas questões, como será explicado posteriormente. Se, portanto, o indivíduo tem um processo a passar para se transmutar da infância à vida adulta, o que acontece se ele parar no meio? Este ensaio entende que é uma forma menos proveitosa de ser, que ainda é, mas não é com todo seu potencial e, portanto, haverá agonia ou descontentamento nela. Assim sendo, segue um pequeno resumo da jornada do herói.

Estes são as doze etapas da jornada do herói:1) mundo comum, 2) chamada à aventura, 3) recusa do chamado, 4) encontro com o mentor, 5) travessia do primeiro limiar, 6) testes, aliados e inimigos, 7) aproximação da caverna oculta, 8) provação, 9) recompensa - apanhando a espada, 10) caminho de volta, 11) ressurreição, 12) retorno com o elixir.

No mundo comum o herói vive sua vida rotineira, porém, internamente ele se sente incompleto. Até que um evento acontece, que é a chamada à aventura, que de alguma maneira quebra este ciclo rotineiro do herói e propõe algo novo a ele onde há um mal a ser combatido. Porém, o herói não se sente pronto ou seguro o suficiente, e recusa este chamado. As coisas se acalmam e aparentemente podem até retornar ao normal, mas então acontece o encontro com o mentor, que impulsiona o herói a este novo mundo, preparando-o para enfrentar este mal. O herói, agora confiante, faz sua primeira travessia, que é quando ele enfrenta algum desafio que rompe definitivamente com a normalidade da sua rotina. Neste novo mundo, ele é convidado a testar suas habilidades, aprendendo mais sobre si e sobre este mundo, assim como conquista aliados e inimigos no processo. O herói sente, é convidado ou é forçado à combater este mal maior, e para isto, ele faz a aproximação da caverna oculta, que é o primeiro momento neste novo mundo que ele sente o medo da morte. Dentro desta caverna, ele tem sua primeira provação, sua primeira batalha real contra o mal, em que quase encontra a morte. Mas saí vitorioso e com isto recebe sua recompensa, que é algum poder que o tornará mais forte, como uma espada especial. O herói sente necessidade, é convidado ou é forçado à retornar para sua casa, para levar o bem conquistado para seu cotidiano, e com isto inicia seu caminho de volta. Porém, descobre que o mal que ele enfrentou ainda não acabara, mas, pelo contrário, reuniu todas as suas forças para fazer um último ataque suicida ao herói, em que o herói novamente é posto à prova se decididamente está disposto a sacrificar sua própria vida para acabar com este mal. Este herói decide que sim, e enfrenta, arriscando sua própria vida este mal, vencendo-o completamente, mas podendo sair gravemente ferido ou até mesmo quase morto ou morto. Neste ponto, acontece algum milagre, ou ele é resgatado por forças poderosas ou amigas, que cuidam dele e garantem a ele o seu retorno para casa. Em casa, ele retorna com o elixir, que é a recompensa conquistada neste mundo novo, que faz com que seu cotidiano nunca mais seja o mesmo, porém melhor, e o sentimento de incompletude que anteriormente o possuía é substituído por um sentimento de completude por ter vivido sua jornada heroica e ter contribuído para tornar seu mundo melhor.

Este pequeno resumo trazido neste ensaio pode ter diversas variações. Alguns autores utilizam este resumo como protótipo em suas histórias, para torná-las mais humanas e/ou atraentes ao público, podendo fazer alterações de ordem, ocultar etapas, além das diversas estratégias para fazer com que o público se identifique com o herói e obtenha clímax narrativos, de modo que o próprio público consiga sentir esse sentimento de morte e ressurreição vivido pelo herói, e possam trazer também para o seu mundo aquilo que o herói trouxe para o dele. De algum modo este ensaio enxerga que o indivíduo passa, em sua vida, por processos semelhantes. O resultado deste processo, que as vezes pode até custar a vida do indivíduo, e aqui pode-se entender vida de vários modos, como vida social ou vida naquele organismo social em específico, pode ser a renovação, a criação ou o ajustiçamento de algum organismo social. Assim, portanto, chega-se a conclusão de que há forças que fazem o indivíduo se conformar com seu organismo social, e um organismo social pode ficar doente, velho ou injusto, de modo a trazer grande sofrimento para parte de seus membros enquanto grande fortuna para outra parte, como também há forças que partem do indivíduo para o organismo social. Não há uma fórmula para dizer o que é certo, errado, justo, injusto. É necessário viver e buscar dentro de si e nos conhecimentos acumulados da vida as respostas para saber o que fazer.

A jornada do herói também permite a criação de dois conceitos importantes para este ensaio, são eles: a virtualização e a polarização da jornada do herói. Quanto a virtualização, trata-se da construção de ambientes virtuais que simulam uma jornada do herói, para apresentá-los de maneira segura ao indivíduo, preparando-o, de maneira pedagógica, para que ele tenha maiores chances de sair bem-sucedido quando iniciar sua própria jornada. A maneira mais elementar de se virtualizar uma jornada do herói é através da narração de histórias por via oral. No entanto, através da tecnologia, como escrita, captação de imagens, ou mesmo videogames, a virtualização da jornada do herói tem alcançado patamar cada vez mais sofisticados. Há, na visão deste ensaio, certa problemática com a virtualização da jornada do herói quando esta perde sua função pedagógica e passa a exercer uma função de entretenimento. Isto porque, invés de ter a função de preparar o indivíduo para encarar a vida adulta, torna-se um objeto de consumo, prendendo o indivíduo a uma sensação virtual de recompensa que potencialmente o afasta dos desafios que ele precisará lidar no seu processo de amadurecimento. Portanto, como consequência, uma sociedade altamente virtualizada apresenta jovens que demoram mais para amadurecer e, portanto, pode sofrer consequências do ponto de vista social.

Quanto a polarização, para entender este conceito, é necessário tomar consciência de que todo aquele convidado a uma jornada heroica precisa encontrar formas materiais para tanto. Alguns conseguem encontrar formas individuais para fazer sua jornada, enquanto que outros encontram formas sociais. Quanto a estas formas sociais, alguma delas pode ser para melhorar algum organismo social ou para criar um novo, ou mesmo pode ser formas doentias de jornadas heroicas, como a criação de uma quadrilha criminosa ou mesmo de um organismo que pretende corromper o estado. De qualquer forma, nestas formas sociais, há o que se pode chamar de polarização da jornada do herói, que é quando cada indivíduo transfere parte do seu poder para alguma figura específica, que se torna o “polo”, e esta figura consegue coordenar mudanças na sociedade. Isto é uma forma de polarização porque cada indivíduo, à sua própria jornada do herói, ajuda o ponto focal do polo a exercer a função que aquele grupo, que acaba tornando-se um organismo, acredita ser necessário para o bom andamento da sociedade ou, no mínimo, para eles mesmos. Para quem estuda história sabe que algumas polarizações foram bem desastrosas, pois criaram lideres que buscavam eliminar a existência de todos aqueles que fossem diferentes deles. Claramente se vê uma forma doentia da jornada do herói em que o sacrifício do herói não representa um bem para a humanidade, mas tão somente um bem para si mesmo. Aliás, nestes casos, pode-se argumentar que o herói, ou vilão no caso, não busca nem sacrificar a si mesmo pelo bem do outro, mas sacrificar o outro, neste caso o diferente, para o seu próprio bem.

Formas energéticas e suas relações:
Apresentado o indivíduo e os conceitos de maturação, agora será tratado acerca das formas energéticas. Este tema é delicado porque aqui também haverá conceituações que podem variar de acordo com a interpretação. Vou apresentar uma dessas conceituações e, em seguida, comentar um pouco acerca das variações. A conceituação que partiremos como base é a de que há três formas energéticas: o masculino, o feminino e o sagrado. Isto significa que o processo de maturação de um indivíduo acontece para uma dessas formas. Ou seja: ele, quando criança, energeticamente é só uma criança, mas a partir do momento que se desenvolve, assume ou uma forma mais masculina, ou uma forma mas feminina, ou uma forma mais sagrada. Inclusive, é possível assumir que cada indivíduo tem as três formas dentro de si, manifestando-se mais aquela que ele mais nutre. Por questões hormonais ou culturais, para um corpo masculino, é mais fácil nutrir as formas energéticas masculinas. Já para o corpo feminino, é mais fácil nutrir as formas energéticas femininas. O sagrado pode surgir em ambos os corpos e pode se manifestar de tal forma que, para o indivíduo, não faz sentido se complementar com outro corpo, ou seja, ele escolhe o celibato.

A origem destas três formas energéticas vem da própria biologia. Na natureza, o mais comum é haver dois sexos, o masculino e o feminino. Há, no entanto, casos de animais com mais de dois sexos, pois entende-se aqui sexo como interface de troca de informação para a perpetuação da espécie. Há também casos de espécies com apenas um sexo, ocorrendo o processo de mutação entre as gerações por processos outros que não a relação sexuada. Como a origem desta conceituação vem da própria biologia, é dela própria que entendemos o porquê as formas energéticas se diferenciam desta forma. Há informações no masculino que o feminino não consegue ter acesso enquanto que há informações no feminino que o masculino não consegue ter acesso. Estas informações vem desde o biológico, o espermatozoide, no caso masculino, e o óvulo, no caso feminino, até questão de cultura e comportamental. Isto também significa que, como há um desconhecido no outro lado sexual, há também um elemento de desejo. Daqui tiramos que quanto maior a distância entre o desenvolvimento de masculino e feminino entre dois indivíduos, maior tende a ser sua tensão sexual, pois maior é o desconhecido e a recompensa de informações ao haver o encontro entre ambos, caso ocorra com sucesso.

Entretanto, a relação masculino e feminino visa apenas o encontro, não a perpetuação. Porém, nossa sociedade entende a necessidade da perpetuação, pois é necessário que ambos, masculino e feminino, auxiliem o desenvolvimento do filho. Através disto é que vem o sagrado, que é a força que estabiliza a união do masculino e do feminino visando a perpetuação. Se não houvesse o sagrado, mas ainda sim houvesse a tentativa de unir o masculino e o feminino, a tendência é que, ou a tensão sexual, antes grande, fosse anulada, já que ambas as forças teriam se desnudado durante a relação, ou então que esta tensão, antes de atração, começasse a se tornar uma força de inimizade ou mesmo adversária, inimiga, onde o masculino vê no feminino uma ameaça e/ou vice-versa, e então um ambiente estável não seria possível. Isto porque o sagrado provê os valores necessários para estabilizar o feminino e o masculino numa zona de desejo saudável para ambos. Do contrário, o masculino ou o feminino, em seu anseio por realizar cada vez mais desejos, cada vez exigiria mais e mais do parceiro, e alguma forma de desequilíbrio surgiria. Isto impossibilitaria a criação de um filho ou filha de maneira saudável, pois os exemplos de masculino e/ou feminino seriam ruins. O sagrado, neste sentido, também se ocupa em preocupar-se com as questões eternas e de harmonização, enquanto que o masculino e o feminino se preocupam com questões localizadas e de fortalecimento de seu campo em específico, ou seja: o feminino deseja investir em si mesmo para tornar-se forte naquele que se considera feminino, o masculino igualmente.

O que este ensaio acredita ser seguro falar sobre o masculino, feminino e sagrado são estas coisas. As variações disto são diversas. A primeira variação é o questionamento sobre a necessidade de perpetuação, que implica na necessidade do não casamento entre indivíduos. A segunda variação é se só existem três energéticas, pois, teoricamente, podem existir mais de três. Afinal, se inspirarmo-nos na natureza para dizer que há duas, e adicionamos uma terceira, por que não adicionar uma quarta? Há como supor que o sagrado é uma abstração do meio ambiente, mas isto é apenas mais uma interpretação. A terceira é: em todo o indivíduo há todas as formas energéticas? Ou seja: num masculino há um pouco de feminino e vice-versa e em ambos há um pouco de sagrado? A quarta é: os corpos biológicos e a cultura tem influência acerca da escolha que de qual tipo de energia um indivíduo escolherá para si? Por fim, a quinta: o masculino, o feminino e o sagrado tem sempre um formado pré-moldados, ou seus papéis e funções mudam através da história? Para este ensaio, estas são escolhas filosóficas, não havendo certo ou errado do ponto de vista da filosofia.

Em particular, este ensaio prefere assumir que só há três formas energéticas, as já mencionadas, e que todo indivíduo tem um pouco de cada, mas desenvolve mais a que seu corpo biológico e sua cultura o influencia a desenvolver, mas também como há uma decisão pessoal no processo sobre o que nutrir. Quanto ao que significa um masculino ou um feminino forte, deixo isto a cargo do leitor interpretar através da observação da sua própria realidade. Afinal, isto acaba sendo mais uma questão de percepção comparativa daqueles que sentem as formas energéticas do que uma questão conceitual. Sobre o masculino, o feminino e o sagrado terem sempre um papel definido durante a história, também acredito que isto seja mais um processo cultural, ou seja, estes papéis podem se alterar. No entanto, as relações de masculino, feminino e sagrado sempre tenderão a ter estas características de desconhecido e estabilização afirmadas neste ensaio. Em suma, o conjunto destes conhecimentos é importante para o indivíduo, pois isto o permitirá tomar decisões acerca do que investir para encontrar seu equilíbrio interno e do que deseja perpetuar. Afinal, uma cultura, no contexto humano, significa cultura de um conjunto de valores, normalmente indicados pelo sagrado, que são perpetuados ou não através das decisões dos indivíduos, seja de maneira consciente ou inconsciente.

Modelo tradicional de cultura:
Para finalizar este ensaio, gostaria de tratar acerca do modelo tradicional de cultura. Este modelo é chamado de “tradicional” porque, dentro da visão do autor deste ensaio, é o modelo que mais tende a se repetir nas culturas humanas. Naturalmente, esta informação é extremamente imprecisa, mas o objetivo deste tema é trazer a consciência elementos importantes para a construção de um modelo de cultura envolvendo os conceitos aqui formulados, assim como para ter-se uma base para fazer variações, críticas, ou mesmo inspiração para pautar novos modelos de cultura. Naturalmente, este ensaio, por se tratar de uma filosofia, permite que cada um faça as escolhas que deseja e enxergue o mundo como quiser, e tem como esperança ter disponibilizado conceitos que para ajudar o entendimento acerca de questões da vida, do estado e do desenvolvimento humano. Dito isto, vamos para o modelo tradicional.

Partindo da família, entende-se como tradicional um masculino ativo, provedor, enquanto que o feminino é passivo, mantenedor. Atividade e passividade aqui se diz quanto a atividade social, pois o masculino é quem exerce as atividades sociais mais perigosas ou arriscadas, enquanto que o feminino preserva-se exercendo atividades envolvendo o lar. Isto acontece porque o custo de educação e formação do masculino costuma ser menor do que o do feminino, principalmente para casamentos, já que o feminino precisa de maior investimento por parte dos familiares para conseguir um bom marido. Este casal tem filho e filha, que tenderão a reproduzir a cultura de seus pais. O menino começará a aprender com o pai a como ser masculino, e a menina aprenderá com a mãe a como ser feminina. Ambos, o pai e a mãe, tem a tarefa de escolher uma esposa e um esposo para seus respectivos filhos. Esta escolha é feita quando ambos estão em idade de casamento. Esta idade ocorre quando o menino já consegue exercer as atividades do pai, ou seja, consegue exercer atividades sociais que provisionem uma família, enquanto, na menina, ocorre quando ela já tem um feminino bem desenvolvido, ou seja, boas vestimentas e bons costumes, além de saber todo o necessário para manter a casa em ordem.

A escolha da noiva e do noivo para os filhos é feito tanto em vista de interesses econômicos quanto culturais. Afinal, escolhe-se, dentre os pretendentes, aqueles que também possuem cultura sagrada parecida, ou seja, o mesmo conjunto de deuses ou autoridades religiosas, e situação econômica parecida ou melhor ou que, pelo menos, seja uma família honrada. No entanto, é importante que esta escolha seja entre diferentes famílias, pois isto implica em uma maior troca de influências entre as famílias e as ajuda sobreviver as transformações da sociedade. A honra de uma família decorre no seu bom nome na sociedade, que vem através do seu serviço prestado à liderança política daquela região, seja em guerra, seja em serviços prestados. Afinal, toda sociedade, de tempos em tempos, se reúne para lutar contra um inimigo em comum e externo a eles. Lutam, para que alcancem uma melhor qualidade de vida e renovar a sociedade. Assim, todos eles, como um só organismo, seja no treinamento militar, seja no desenvolvimento tecnológico, desejando vencer uma batalha, encontram motivos para esquecer suas pequenas diferenças e rivalidades e unirem-se em torno do seu território. Ao obterem vitória, festejam, com suas tradições e símbolos e encontram nas artes formas de se alegrar e gozar a vida. Se fracassem, no entanto, precisam arcar com o preço da derrota, e mesmo submeterem-se como escravos de outros territórios.

Neste modelo foram usados conceitos de masculino, feminino, sagrado, desejo, inimigo, transição de gerações, desenvolvimento dos organismos sociais através tanto da questão cultural, quanto visto pelo ponto de vista militar, como também pelo ponto de vista tecnológico, quando visto pelo ponto de vista para fazer armas para defender-se, assim como um pouco de estética, já que, ao obter vitória, as pessoas utilizam a arte para se alegrarem e para simbolizarem os elementos que fazem parte do seu cotidiano e da sua constituição cultural. Um outro lado deste modelo de cultura não foi mostrado, que é o lado obscuro, corrupto. Porém, há inúmeras formas de ser corrupto, e, portanto, não vale a pena explorá-las. Apenas sabe-se que, quanto mais corrupto um organismo social for, maiores as chances dele perder uma guerra. Formas corruptas de cultura podem estar relacionadas com jornadas do herói mal desenvolvidas e/ou doentias, e com isto ligados este modelo de cultura tradicional com mais um dos conceitos apresentados neste ensaio.

Concordo que este modelo pode parecer um pouco antiquado para nossos padrões modernos. Porém, é possível adaptá-lo para apresentar nossos padrões modernos. A primeira adaptação se faz acerca do inimigo. Modernamente não temos inimigos, pois o senso de nacionalismo não existe mais e, por consequência, o objetivo maior das pessoas é o consumo. Os estados, portanto, precisam se virar para manter as pessoas consumindo e produzindo, para assim obter os impostos para sua própria manutenção em atrair capital para que as pessoas continuem no ciclo de consumo. O capital entra como força internacionalizante que impõe os padrões de consumo, e os países que não conseguem atingir este padrão de consumo são mais insatisfeitos com seus governos e tendem a um maior grau de corrupção. As relações tornam-se mais fluídas, pois a ideia de adulto é diluída cada vez mais já que, uma vez que o objetivo último é o consumo, não faz sentido falar em maturidade ou responsabilidade, mas apenas se há ou não capacidade de produzir e consumir. A vida humana se dramatiza buscando como inimigo todos aqueles que não permitem o consumo ou a produção, ou seja, pai/mãe, cônjuges, amigos, etc. Tradições são esquecidas e não existe mais cultura para a escolha do parceiro. Portanto, a sociedade se torna mais caótica e sem sentido. Isto, para este ensaio, parece ser o niilismo em que modernamente nos metemos.

Naturalmente, é preciso falar das vantagens. Afinal, a guerra atualmente acontece no nível econômico, o que é positivo, visto a capacidade de destruição alcançada pela tecnologia de alguns países. Além disto, as pessoas alcançam a liberdade para escolher o que é melhor para si. Esta liberdade, no modelo tradicional, algumas vezes é suprimida, pois quem escolhe são os pais ou a autoridade política ou religiosa. No entanto, liberdade demais acaba por não construir um organismo social forte, pois não existe nada que oriente o desejo da sociedade para o bem comum, o país torna-se fraco e também não fica claro a distinção entre um adulto de um não-adulto. Outro problema da modernidade é que qualquer um tem acesso a uma poderosa estrutura de comunicação, que é a internet e suas redes sociais. Isto gera alguma confusão, pois estruturas de comunicação devem ser fruto do poder daqueles que o conquistaram através da sua conexão com a realidade, através de bons resultados. Uma vez que qualquer um tenha acesso a uma estrutura de comunicação, a voz de um especialista que estudou muito se equaliza com a de um conspiracionaista. Além disto, a voz do conspiracionista serve como instrumento polarizador para mentes que antes conspirariam a seu próprio modo de maneira aleatória de modo a não conseguir se organizar em torno de um organismo social. A vantagem, por outro lado, é que este fluxo de informação permite que pessoas sadias também se comuniquem e se organizem para atingir objetivos saudáveis para a sociedade.

Conclusão:
É neste cenário de liberdade que nos encontramos. Esta é liberdade que fez eu publicar este texto em algum meio de comunicação e passar para os demais. Espero que os conceitos aqui abordados nos ajudem a entender melhor a modernidade e a conseguir nos comunicar de maneira mais precisa, clara, objetiva, de modo que nosso pensamento consigamos especular melhor sobre quais elementos nos farão ir para uma condição melhor de existência enquanto sociedade. Afinal, este modelo de consumo está se esgotando, visto que nosso planeta não aguenta sustentá-lo. Se o individualismo continuar a imperar, a ideia do ganho próprio sempre se sobressaíra ao bem comum e nós não teremos controle acerca daquilo que nos torna seres humanos melhores, para que possamos cuidar melhor do nosso território e, por consequência, do nosso planeta. Comecemos a cuidar da nossa própria casa, para então cuidar da rua, do bairro, município, estado, país, planeta. Não há outro caminho que não nos reinventarmos enquanto cidadãos e inventar um novo estado, pois esta democracia representativa de direito parece não estar dando conta da complexidade que nossa modernidade nos apresenta. Agradeço a todos que chegaram até aqui e com isto finalizo este ensaio. Abraços.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Disputas da Realidade

Imagem que os extremos do espectro usem de versões modificadas, extremadas e/ou mitificadas da realidade para disputar o poder. Esta disputa é destrutiva, uma vez que eles não tem preocupação com a realidade. Apenas querem vencer.

Durante este evento o centro também é disputado. Hora vai para um lado, hora vai para outro, até que, preocupado com a destruição que está ocorrendo, resolve levantar-se diante dos extremos e colocá-los em seus lugares. O que vai acontecer é a união dos extremos pra derrotar o centro, para então continuar suas respectivas disputas.

A única forma do centro vencer é, diferente dos extremos, ter uma visão realmente conectada com a realidade. Isto porque somente assim ele conseguirá ter a força para combater os extremos e estabelecer um governo baseado em construções alicerçadas na realidade. Do contrário, certamente perderá, pois se for uma disputa longe da realidade, os extremos tem a vantagem.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Comentários de "Uma introdução à filosofia Cristã" de Gordon H. Clark

Aqui segue comentários acerca do livro "Uma introdução à filosofia Cristã", do autor Gordon H. Clark para deixar como acervo. Minha principal área de interesse se encontrou na terceira parte do livro, onde se há maior concentração de comentários. Naturalmente, foi uma leitura superficial, tanto por minha falta de conhecimento na área de filosofia, já que não tenho graduação nesta área, apenas algumas introduções, quanto também pelo caráter introdutório do livro ao pensamento de Gordon. Erros podem estar por toda parte. Por fim, aquele que se aventurar por estes comentários poderá conhecer um pouco mais sobre meu modo de pensar. Um abraço a todos.

Introdução À Filosofia Cristã | Amazon.com.br

Páginas anteriores: muitos ataques à antigos filósofos. Seria bom ver as formas de defesa, se houverem.

Pág 45: a ciência não pode ter conhecimento cognitivo. O que é conhecimento para o autor?

Pág 49: o autor afirma que o comunismo se divertiu matando pessoas de fome. De onde ele tirou isto?

Pág 54: e você será preso por isso. Não vejo problema nenhum neste tipo de argumentação. Um verdadeiro Cristão revelaria que sua vida é Cristo. Embora que, de alguma forma, isto está relacionado com o estado moderno: cada pessoa busca o que quer, individualmente. Neste sentido, o desafio é desenvolver uma filosofia que consiga conciliar o organismo e o indivíduo.

Pág 57: está no original a menção à rocinha? Está no original esta visão de que o povo se acomoda com programas assistencialistas e logo o governo tende a uma ditadura? De onde ele tirou isto?

Pág 58: agora batendo no existencialismo. Pode ele propor algo poderoso o suficiente para preencher a vida das pessoas? O Cristianismo que ele prega será forte o suficiente para isto? Vide a quantidade de cristãos depressivos ou decaídos que encontra-se por ai.

Pág 65: há um abuso de linguagem. Se arsênio é definido como algo que é venenoso, uma vez ele não sendo, ele deixa de ser arsênio. Aqui entra-se no dilema da identidade.

Pág 66: "A ideia de uma verdade isenta de preconceitos foi obviamente tomada emprestada da ciência, onde ela reinava suprema". Para mim, o método científico, em si, não pode ser considerado preconceituoso. No entanto, o é as escolhas humanas sobre como usar o método científico e a forma de divulgá-lo. A exemplo: prq investir tanto dinheiro na indústria eletrônica? Porque é dela que vem os maiores lucros. Mas há de ser dela que virá o maior desenvolvimento humano, em outro sentido que não o do consumo?

Pág 68: Uma introdução ao que futuramente eu poderei usar: axioma da revelação

Pág 69: "Os axiomas devem ser julgados pelos sistemas que produzem" parece-me uma visão utilitarista da questão axiomática. Como atribuir juízo de valor a um axioma? Com outros axiomas, naturalmente. Para mim tal avaliação é desnecessária.

Pág 76: Ora, se nem todo arsênio pode ser venenoso, porque as propriedades da natureza precisam ser como Deus determinou? E deus não programar de outra maneira, à seu tempo? Então quer dizer que o autor se satisfaz com a constante da natureza se esta for provida por Deus, e somente por isto. Parece-me estranho.

Pág 76: o autor fala sobre verdade, mas não especifica o que é verdade. Será que isto é um conhecimento comum para a academia filosófica? Ademais, suponho que o autor deva ser capaz de construir sua própria definição de verdade para esclarecer seus leitores.

Pág 82: "Sustentamos que a bíblia expressa a mente de Deus", ora, sustenta-se através de uma revelação. Tal qual os liberais sustentam, pelo o que eu entendi, que a bíblia é apenas um documento histórico e interpretativo da presença de Deus na terra. Como, portanto, impor uma revelação sobre outra? Através da argumentação? Através da lógica? Através da violência? A axioma da revelação parece ser ela mesma não revelativa, mas impositiva.

Pág 89: primeira menção do autor sobre governo civil como obrigação bíblica. Ele coloca isto no mesmo pacote que "adoração pública e ministração aos enfermos e desafortunados". Há de se salientar que o autor usou a palavra "dever" para adoração. No sentido de obrigação ou no sentido de suposição?

Pág 90: O autor afirma que o raciocínio lógico é importante para compreender a queda do homem e a ressurreição de Cristo. É importante, mas não suficiente, eu reiteraria.

Pág 93: O autor afirma que da analogia não é possível reter nenhum tipo de conhecimento. No entanto, parece-me um ponto criticável. Alguma informação traz uma analogia. Não uma informação objetiva, metodológica, mas sugestiva, poética. Nos corações de quem tem a revelação de Deus, uma analogia pode refletir perfeitamente acerca de Deus. Nos corações de quem não tem a revelação de Deus, uma analogia pode nada informar. Parece-me que o autor quer construir um sistema axiomático lógico e poderoso afirmando a existência de Deus, no entanto, assumindo que as axiomas são auto-evidentes e seu desenrolar é não contraditório. Isto parece-me uma ilusão.

Pág 106: o autor parece resumir seu argumento: o único axioma do cristianismo é que a bíblia é a palavra de Deus. Mas ainda sim me parece simplista. Da palavra de Deus pode-se derivar inúmeras interpretações. A questão revelacional é mais complexa do que parece enunciar o autor.

Pág 108: o autor admite que, embora a revelação não seja completa, ela é ampla. De tal modo, sendo ampla, e não completa, ela é ampla e não completa da mesma maneira para todos?

Pág 112: o autor começa a bater na história. Segundo ele, conhecimento histórico é impossível. Aliás, qualquer tipo de conhecimento que não venha da bíblia é impossível. Pois bem, ainda não definiu o que é conhecimento. O que significa esse tipo de afirmação? Qual o propósito para tal questionamento? Imagino que elevar o conhecimento bíblico acima de todos os outros. No entanto, estaria ele ignorando o valor dos outros conhecimentos ou seja lá o que for que ele queira chamar o que seja esses outros? Acaso o conhecimento de história não surge efeito para este mundo? Pergunta-se a um historiador e a todos aqueles que fazem uso da história para tomar decisões na sua vida o que eles acham acerca disto. O autor certamente pode afirmar: estas decisões, baseadas em história, são piores que as decisões baseadas nos conhecimentos bíblicos. Afirmo ao autor: as decisões médicas serão melhores embasadas em que? O autor, nisto tudo, parece-me querer sair do ciclo corrompido deste mundo. Ou, de outra forma, lavá-lo, pondo literalmente no centro do nosso mundo material Cristo. Receio que isto não é possível. Qualquer linguagem transforma-se em estado, que é matéria, e decaí. Cristo é espírito, vivo, pessoal e revelacional. Ainda nesta página, o autor afirma que algum conhecimento é possível. Parece-me que eu perdi alguma coisa na leitura. Erro meu. Pelo o que eu entendi, conhecimentos a posteriori são dados pela revelação. Ou seja, botânica e história russa tem haver com o axioma da revelação, pois dele vem todo o conhecimento. Mas enquanto que o conhecimento primário, o da revelação, seja contido na bíblia, os demais são derivados por dedução. Acredito que a explicação seja esta. A próxima palestra parece responder a essas questões.

Pág 116: o autor conclui que a epistemologia da revelação exclui outras formas epistemológicos, como empirismo, positivismo e instrumentalismo. Isto parece ser adequado, pois o autor tbm adverte que esta epistemologia não traz a onisciência, ou seja, não é capaz de responder tudo. No entanto, parece dizer que as filosofias seculares não são capazes de responder nada. Ainda, diz que ela será capaz de dar base para importantes questões intelectuais a ver.

Pág 117: o autor cita outro autor, que classifica os conhecimentos do universo em quinze. Isto aqui já me parece uma epistemologia auxiliar para o postulado da revelação. Porque devo aceitar essa forma em específico? Ainda, o autor comete a audácia de aceitar que existe uma ordem de complexidade. Como ele define complexidade? É preciso analisar o autor de origem para entender tais questões, provavelmente. Mas este penduricalho não me parece agradável.

Pág 118: ele comenta que as quinze ciências irredutíveis são estabelecidas de forma empírica, e que podem haver mais. Ora, como ele está usando o empirismo como auxílio da epistemologia da revelação?

Pág 121: o autor ataca a classificação ontológica na base, no conceito se tempo. Pois o autor afirma que organizou as ciências irredutíveis por tempo-cosmico, mas isto é de difícil definição. Uma correção: aqui está uma ontologia que define 15 campos epistemológicos.

Pág 124: toda essa discussão parece-me improdutiva pois ela não leva em consideração a questão a relação entre organismos sociais através dos conceitos. Ora, se um considerar estar se comunicando com um organismo social com tais características e outro, com outras características, as conclusões podem ser diferentes. Ademais, essa discussão inteira parece improdutiva pois é possível somente afirmar que o tempo é uma revelação, uma axioma, um fato autoevidente a todo organismo que reside nesta realidade. Não sei porque o autor está perdendo tempo nisto. A descobrir.

Pág 126: o autor citado pelo autor fala muito sobre o tempo. A intenção é criar duas formas de tempo, sendo a supratemporal o local aonde coisas como a Gênesis existiu. O autor acha isso absurdo, pois se for o caso, torna-se impossível saber onde ocorreu o que na bíblia. Se no tempo histórico ou no tempo supratemporal.

Pág 131: como assim historiadores usarem o axioma da revelação? Parece que o autor quer que a história seja tal como a bíblia, dando sentido aos seus eventos. Parece-me absurdo pois isto não é papel da história. É papel bíblico prq ela faz isso no sentido religioso. Dar um sentido pra história é fazer uma escolha e escolher é um ato arbitrário. Não entendo o que o autor quer dizer.

Pág 134: para o autor, o conhecimento da história parece não fazer sentido e não ter importância, dado que o axioma da revelação revela a todos que a história que importa é a que revelou a Cristo. Esta é a conclusão que faço da leitura. Não sei se correta. Ainda nesta página, autor afirma que a revelação da Bíblia certamente é a favor de uns esquemas políticos e averso a outros. Deste modo eu pergunto: segundo a revelação de quem? Isto não estaria a depender daqueles que lerem a bíblia terem tal revelação? Já adianto: qualquer que seja o sistema que a bíblia diz ser correto segundo esse autor, se ele falar em violência, ele está errado. Se existe um modo certo de se governar através de Cristo a política humana, este modo deve ser autosacrificial e não ao sacrifício do outro. Em outras palavras, este poder deve vir sem o uso da violência. Pelo menos não a violência no outro. Talvez consenso? Lembrando que na pág 130 o autor coloca os comunistas chineses como algo repudiável. Anteriormente ele tbm já fez isto.

Pág 135: o autor não faz diferença entre monarquia ou democracia, pra ele toda forma de governo é uns indivíduos coagindo outros indivíduos. Isto está de acordo com a teoria de estado moderno aonde diz que o estado exerce o monopólio da violência legal. Que direito o governo tem, o autor pergunta. Parece óbvia a resposta que é o direito constituído por constituição. Se pra ele não faz diferença entre democracia ou monarquia, porque ele reclama da China e não fala mal do seu próprio estado?

Pág 136: o autor faz menção a uma configuração de mistura entre estado e religião, no qual fez um estado exilar ou executar todos que não aderirem a sua religião oficial. Ainda o autor utiliza-se da doutrina da depravação total para justificar a incapacidade humana de empreender governos. Isto parece-me um erro, pois as autoridades foram constituídas por Deus. Como ele sabe se um governo não foi instituído através da graça, e, portanto, plenamente capaz de operar segundo a boa, perfeita e agradável vontade de Deus?

Pág 136: o autor chama um juiz da suprema corte de fascista. Cita uma frase que fala sobre soberano. Em que contexto isto foi citado? Parece-me ser algo tirado de contexto. De fato, o estado é soberano, mas a soberania é construída através de processos democráticos. Ademais, aquele que não concordar, que se rebele contra a soberania do estado e arque com as consequências, tal como Cristo fez. A atitude de Cristo em entregar-se ao estado, para mim, demonstra que quem era soberano sobre ele era ele mesmo, já que a forma do estado impor sua soberania é através da punição. Cristo, por outro lado, demonstrou sua soberania através do  sacrifício, do amor, do sacrifício amoroso, e não rebelou-se a punir o estado em uma guerra com violência. Do contrário, se igualaria a ele

Pág 137: o argumento do consentimento dos governados parece-me razoável. De fato, antes da constituição de qualquer estado, há um abstrato em que qualquer coisa pode acontecer, inclusive a violência. A partir da constituição deste estado, então opera o estado, um acordo social transmitido através de hereditariedade geográfica, e aquele que desejar rebelar-se deve arcar com as consequências.

Pág 138: o autor afirma que existe uma teoria básica de governo derivada das escrituras. A descobrir.

Pág 139: o autor quer mesmo que importarmos leis de outros tempos-historicos diretamente para o nosso? A menção ao rei Acabe parece ser uma menção contra o imposto. Também falou-se sobre o comunismo. Tão ligeiramente que não dá nem para notar. O autor sabe o que é comunismo? E como rebate-o? Não está explícito, visto que até a teoria comunista é extensa e diversa. Ele parece estar batendo em espantalhos. No mais, já conheci um comunista cristão. Pode haver mais. A depender da revelação. Lembrei-me de outro, Flávio Dino. Acaso o autor vai dizer que a revelação deles é errada ou que não leram a bíblia? Ou se leram, a entenderam errado? Ou são, por assim dizer, mal caráter mesmo, já que o autor claramente classifica o comunismo como mau?

Pág 140: é interessante a observação do autor sobre ser o pai quem deve ajudar o filho e não vice-versa. Mas, de modo geral, pareceu ser um argumento contra a previdência social. Acaso o autor esquece-se que está lidando com uma massa de não cristãos? Muitos deles abandonam os pais ao asilo. Parece-me ser conclusões complicadas a serem generalizadas a nível de estado, embora perfeitamente boas para serem usadas a nível individual. Também, fala sobre a não perseguição dos cristãos. Ora, prq não estender isso a não perseguição de qualquer crença religiosa? Parece ser uma questão óbvia também, inclusive endossada pela própria história.

Pág 140: Platão era comunista? Isto parece ser uma anacronismo. Não existia conceito de comunismo naquela época. Não sei o que o autor quis dizer com isto. O autor fala que o direito individual é uma exigência. Como ele faz questão dessa exigência? Parece que as coisas não mudaram muito desde o tempo do autor até hoje, a exceção de que a China passará dos EUA economicamente. Não me parece que o direito individual e a propriedade privada esteja tão em risco assim. No mais, a ver.

Pág 141: para o autor, totalitarismo e anarquia parecem ser males piores. Ou seja, ele não é anarquista. Só não ficou bem respondido como agir em casos de governos quererem infligir aquilo que a revelação revela ao autor sobre como deve ser o estado.

Pág 144: o autor afirma que a escritura dá a base moral e muitos conselhos para edificar o homem ao passo que a filosofia secular não. Isto me parece meio estranho, uma vez que é possível ver filósofos ou outras religiões trazendo doutrinas morais. No entanto, segundo a revelação, apenas a cristã é verdadeira. O resto é incompleta ou errada. Mas o autor parece forçar a barra nessa argumentação. Eu diria que a única força capaz de tornar o homem moral e justo é a graça de Deus vindo pela revelação de Cristo, não tendo haver com o sistema ético ensinado na bíblia. Final, ética é uma coisa relativa a cultura e ao tempo histórico, segundo meu entendimento. O que não é dependente disto é a revelação de Cristo. A graça de Deus quem forma que tipo de sociedade temos ou não, de modo que a bíblia sempre tem a nos ensinar.

Pág 146: o autor parece entrar na discussão de minigraça ou supergraça. Ainda nesta página, o autor afirma que a axioma da revelação salva vários campos do conhecimento do cetisimo infernal. O que os salva é a presença de Jesus nesses campos.

Pág 149: o autor começa a bater no tipo de religião que é não-doutrinal e não-intelectual. Isto me parece estranho, uma vez que tanto a doutrina quanto o intelecto dependem da revelação. Ora, o problema então não é do intelecto e da doutrina, mas dá revelação que as pessoas tem de Cristo. Acaso essas pessoas não lêem a bíblia? Suponho que sim, mas ainda sim elas tem uma revelação não-doutrinaria e não-intelectual acerca de Cristo. O que o autor pode fazer além de reclamar e dizer que é errado? Que seja a palavra do autor o poder do espírito santo para o convencimento. No entanto, creio que isto acontece prq a igreja ainda não está preparada para ter uma doutrina capaz de lidar com nosso tempo histórico. Ainda não tem, pois pelo o que percebi esse texto deve ter uns 40 anos. Portanto, a forma como Cristo encontra para alcançar as pessoas é esta. E que assim seja, pois seu nome é adorado e seu amor é levado as pessoas. Não há mal nisso, desde que não paremos de buscar de nos aprofundar mais e mais nos conhecimentos do senhor para que sejamos capazes de trazer respostas através da graça de Deus.

Pág 150: para mim a bíblia é incompleta, e a revelação a completa. E a depender da revelação, a forma de completa-la vai ser diferente, o que explica as diferentes denominações e doutrinas. Porém, numa coisa concordo com o autor: a bíblia nunca deve ser alterada, pois ela é fonte da identidade do povo, e ninguém deste povo tem legitimidade para alterar a identidade do povo. Assim, embora a bíblia possa ser incompleta, ou inconsistente, para alguns, não há como cogitar na correção da Bíblia. Em outras palavras, ela é infalível, embora seja incompleta. Por infalível, quero dizer que não contém falhas, pois o destino de toda falha é ser consertada.

Pág 154: eu trocaria facilmente por: a revelação de Cristo... Se criamos uma nação munida tão somente pela axioma da revelação, essa nação poderá até ser suficiente e satisfeita, mas em nada será capaz de impactar o mundo secular. Não concordo que seja necessário criar um sistema de verdade alternativo ao deste mundo, e rejeitar este mundo. Conciliar contradições através da revelação é o que podemos fazer. Converter o que é secular aos olhos de Deus também. Temos este poder. Portanto, Clark é rejeitado por ser extremista e isolacionista, segundo o que eu percebi. Não é possível pedir que o mundo esqueça sua identidade para ascender ao cristianismo por nossa própria força, mas tão somente na volta de Cristo. Enquanto isso não acontece, que sejamos o sal e a luz do mundo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Efeitos da adoração

    Imaginem um esqueitista executando uma manobra: naquele momento todos os sentidos do seu corpo estão focados naquele momento. Não há pensamento, há apenas um fluxo de entrada e saída que talvez fará com que ele consiga executar uma nova manobra desejada. Ao alcançar este feito, um sentimento de satisfação o acometerá. Ele alcançou um novo degrau em seu esporte.

   Neste momento, quando o ser humano consegue sair de si em um processo de relacionamento com alguma outra coisa ou alguém, é quando deparamo-nos com um verdadeiro processo de relação. Afinal, aquele algo com o qual ele está se relacionando está trazendo informações novas para ele, as quais ele deve estar atento e responder corretamente, para então alcançar algo desejado.

   Deus criou o ser humano para relacionar-se com ele. A cada dia Deus descia ao Éden para ter relação com o ser humano. Para Deus, esta relação significa amor. Para o homem, além de amor, também era um amadurecimento cada vez mais profundo em toda sabedoria que Deus tinha a dar. Afinal, Deus sempre tem coisas novas a ensinar. Um degrau por dia, assim desejava Deus para que o ser humano reinasse em paz no Éden.

   Mas o pecado do humano foi não querer relacionar-se. Pelo contrário, quis fazer tudo por sua própria conta, através de fórmulas milagrosas oferecidas pela serpente, rápido e fácil. Descobriu, no entanto, que aquilo que desejara não é o que traria felicidade. Reinou sobre um mundo caído, mas sem a capacidade de relacionar-se com Deus. Uma vida vazia em que os desejos descontrolados os faziam pecar. Reis e sacerdotes, todos corruptos. Os profetas, mortos.

   Chegou então o cordeiro, o leão, que verdadeiramente se relacionou com Deus, pois era Deus, para então nos dar acesso a este relacionamento com Deus através do auxílio do seu santo nome e espírito. Hoje vivemos o Éden aqui na terra. Hoje vivemos a oportunidade de nos relacionar um pouco a cada dia, para que não pequemos, mas para que Deus nos ensine algo e demonstre seu amor por nós, através de nós, a todos aqueles que ainda estão perdidos.

   Ao não confiar em Deus pecamos, buscando nossa própria solução. Ao confiar em Deus o adoramos e assim todos os nossos sentidos estão focados naquilo que ele tem para nos ensinar através do relacionamento. Hora ele pedirá para que esperemos, hora ele pedirá que avancemos. Tudo suportaremos e realizaremos de acordo com sua graça, que nos trouxe seu próprio filho, Jesus Cristo, para nos ensinar acerca desse amor.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Resumo: Projeto nacional: o dever da esperança, por Ciro Gomes.

Ciro Gomes livro Projeto Nacional Dever da Esperança

Este é um resumo bem informal, feito para uns amigos, que resolvi compartilhar aqui para posterioridade. É apenas um ponto de vista pessoal do que foi lido, pode conter erros, imprecisões, etc. A introdução do livro se dá por um lembrete de que ele foi escrito às vésperas de uma pandemia, e toda analise que se faz nele se torna crítica por causa deste fator. O prefácio é escrito por Mangabeira Uber, que anuncia que Ciro é um intelectual que dedicou a vida para conhecer novo povo e também que não podemos brincar, pois o desenvolvimento do nosso estado-nação é o único caminho real de emancipação do nosso povo. Em seguida, Ciro introduz uma análise histórica acerca do Brasil. Revelou que o Brasil já teve um projeto de país, liderado por Getúlio Vargas e seguido por outros nomes, como Juscelino Kubitschek, mas que foi interrompido pelas forças armadas. Não que as forças armadas não deram continuidade ao projeto de país, mas o fez através de financiamento externo ao invés de fazer as reformas para dar a estrutura econômica necessária para nosso país. Isto significou, portanto, um desenvolvimento sim, mas com sérios problemas sociais e uma dívida em dólar. Esta dívida, devido à mudança de política dos EUA, quando ele aumentou a taxa de juros, fez quebrar vários países latino-americanos, Brasil incluso. Foi neste período que começou a hiperinflação.

Ciro relata que sua geração venceu todas: conseguiram redemocratizar o país, conseguiram vencer a hiperinflação. No entanto, Ciro alerta: a hiperinflação brasileira não é somente uma doença da moeda, é um projeto de poder, pois perdurou 30 anos, algo não visto em outro lugar do mundo, pois conseguiu estabelecer um esquema que suga o poder de compra da maioria pobre brasileira enquanto corrige a poupança daqueles que conseguiam acumular dinheiro no banco. Ou seja: foi um mecanismo de transferência de capital, dos mais pobres para os mais ricos. Isto foi vencido, porém, foi preciso abrir mão de algumas coisas para estabilizar o país. Queimou-se reserva internacional e também fixou-se uma taxa de juros exorbitante, que devia ser temporada, mas acabou não sendo, pois a elite podre brasileira encontrou nisto o mecanismo de transferência de capital que tivera perdido anteriormente com o fim da hiperinflação. Foi demonstrado que o Brasil é um dos dez países mais desiguais do mundo, e a depender do método de avaliação, o primeiro. Ainda, essa desigualdade só piora nos governos Temer e Bolsonaro e será ainda mais agravada pela pandemia.

Isto fez o Ciro decepcionar-se com o partido que ele ajudou a criar, também fez ele sair do governo. O fez até perder a esperança na vida pública, seguindo a carreira privada e acadêmica temporariamente. Nisto tudo ele aponta o PT que, ao entrar no poder, ao invés de buscar as reformas reestruturantes necessárias para acabar com as desigualdades do país e permitir o crescimento de uma indústria forte, acabou por escolher o caminho mais fácil de negociar com o capital e continuar financiando o rentismo. O resultado disto foi que o grande capital e os pobres sentiram alívio, mas a classe média foi onerada. Por fim: o PT cooptou os líderes políticos da maioria dos partidos sociais, o que desestruturou toda a luta social durante 16 anos, e por isto o povo se tornou incapaz de organizar em torno de interesses maiores que não o próprio. Isto foi um processo despolitização promovido pelo PT enquanto estava no poder para não precisar lidar com as contradições das suas atitudes. Ciro relata isto com tristeza, e afirma nisto a nossa falta de capacidade de lidar com o bolsonarismo.

O bolsonarismo, por sua vez, continua o processo de sabotar quaisquer reformas necessárias para corrigir a grave situação do Brasil. Pelo contrário, a pretexto do neoliberalismo de goela do Paulo Guedes, que pouco conhece do Brasil e demonstra não saber o que está fazendo nesta pandemia, sendo o real uma das grandes moedas com maior desvalorização no mundo, vende nossas empresas estatais estratégicas à pretexto que de que a iniciativa privada é melhor em tudo o que faz. Esquece-se, porém, de princípios importantes como o do mercado para que isto seja verdadeiro, e, portanto, coloca pontos estratégicos da infraestrutura brasileira na mão de desconhecidos. Um exemplo disto é que o EUA não permitiu que uma das suas grandes empresas privadas de tecnologia fosse vendida para China enquanto que o Brasil permite vender a Embraer, que tem muito investimento do governo, seja vendida para o EUA. A Embraer é uma pérola nacional, pois conseguiu desenvolver boas tecnologias com pouca coisa e se destaca no mundo da aviação. Toda tecnologia seria transferida para o EUA, neste caso.

Ele então anuncia o projeto de país dele. Trata-se de baratear tudo quanto possível através do trabalho e da inteligência do povo brasileiro, enquanto buscamos aprimorar o que de melhor nós temos, e ainda buscando uma presença soberana no equilíbrio de poderes nacional, dando uma grande atenção às forças armadas. Falou-se, portanto, de 4 grandes setores: o médico, o do petro-quimico, o de defesa e o agronegócio. Também citou da necessidade de incentivar a inovação e reestruturar a construção civil. Por fim, deu sua opinião sobre as necessárias reformas tributária, educacional, previdenciária e política, demonstrando através de exemplos, dados e estudos que suas propostas são praticáveis no que há de mais moderno no mundo. Citou a necessidade do nosso povo compreender que nosso estado não é grande em áreas chaves, como saúde e educação, como os liberaróides anunciam com orgulho, mas que possuí um enorme peso na sustentação do rentismo. Também citou a necessidade de re-espiritualizarmos nosso povo, ou transformar nossos valores culturais, de um consumismo fútil e insustentável para a existência do planeta para um processo de consumo e produção responsável, que não somente se preocupa com o ato de consumo, mas com o ato político e ecológico do consumo.
 
A importância de cada setor é explicada: o médico, pois 80% dos medicamentos comprados pelo Brasil são importados que já possuem patente vencida. Isto significa que uma equipe de engenharia reversa poderia conseguir produzir no Brasil tais medicamentos, diminuindo a necessidade e a dependência do externo e valorizando nosso povo. A petro-químico: a Petrobrás é uma grande expoente tecnológica no mundo e, no entanto, vendemos petróleo para comprar seus refinados. Isto é um absurdo quando há refinarias brasileiras paradas podendo fazer este trabalho. O da defesa: é inconcebível que tecnologias chaves para defesa nacional estejam na mão de outros países. Nosso país precisa ter capacidade de dizer não para potências externas, e para isto é preciso se defender. Isto é um princípio de soberania. Lembrou dos casos de espionagem americana ao Brasil denunciados por Snowden e Julian Assange. E, por fim, o agronegócio: é o único destaque do Brasil atualmente, no entanto, está sofrendo. É preciso um forte investimento no estado orientado à fortalecer o que já é forte, pois grande parte dos insumos do agronegócio ainda hoje são importados e o governo Bolsonaro parece fazer pouco caso do agronegócio brasileiro quando faz acordos com o trumpismo puramente baseado em subserviência.

Durante todo o livro Ciro demonstra que ele não conhece estas coisas somente da boca pra fora, mas sim por uma busca profunda por respostas. Também mostra que dedicou sua vida à vida pública, e que por isto tem moral para falar sobre o que precisa ser feito. Demonstra resultados positivos nas diversas oportunidades que ele teve de agir como executor, os excelentes índices de saúde, educação e finanças públicas de Sobral. Também agradece a todos aqueles do campo acadêmico que o ajudaram a construir seu pensamento e também agradece aos seus pais, servidores públicos de baixo-clero, mas que o ensinaram a amar o país e a entender o quão revolucionário é um estado bem desenvolvido, a sua esposa, filhos, etc. Por fim reflete: se ele quisesse ser presidente do Brasil, como um dos governadores mais jovens, como aquele que ajudou o plano real, dentre diversos outros feitos políticos, ele certamente já teria o feito, porém, recusa-se, pois deseja somente ser presidente do Brasil quando o país estiver pronto para fazer as reformas necessárias para encontrar seu caminho de soberania e de processo civilizatório que será capaz de dar exemplo ao mundo e, quando isto chegar, estará pronto para dar sua vida para tanto.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Impureza e linguagem religiosa e a produção de consenso

 Introdução:
    Olá a todos. Hoje vou escrever um pouco sobre algumas peculiaridades sobre a forma como eu vejo as linguagens religiosas. Escrevo com um certo cansaço, pois atualmente estou num processo bastante quanto à questão profissional. Estou terminando uma faculdade de tecnologia, mas não consigo me enxergar trabalhando na área, embora eu esteja consigo terminar todas as cadeiras da faculdade. Acredito que isto tenha mais haver com a falta de capacidade de projetar uma identidade. De qualquer forma, creio que o próprio tempo se encarregará de resolver isto, bastando a mim ter equilíbrio suficiente para passar por isto. Portanto, todo este processo me deixa cansado até para escrever sobre minhas ideias referentes a filosofia. Mas, aproveitando um dia desocupado, vamos escrever, ressaltando porém que boa parte da experiência que eu estou usando para produzir estes textos advém do Cristianismo e sua história, porém, acredito que eles são generalizáveis.

Impureza:
    Acredito ser possível afirmar que é comum em linguagens religiosas haver a figura do “impuro”. Ou seja: são elementos, práticas, símbolos, objetos, cuja propriedade é tirar a pureza daquilo com o qual eles entram em contato. Pureza neste contexto acaba tendo um valor implícito, pois uma vez que algo é puro significa que todo o seu ser é bom, enquanto que algo impuro significa que embora aquele ser tente demonstrar somente sua bondade, há algo de mal nele. Em outras palavras, em uma sociedade é comum que as pessoas busquem demonstrar sua melhor face, enquanto que a melhor face de alguém pura representa ela toda, e é boa, a melhor face de alguém impura representa apenas parte dela, sendo a outra face, portanto, oculta e má. Assim entende-se o porquê da pureza ser valorizada em algumas culturas e também o porquê de buscar-se não misturar-se com coisas impuras.

    Entendido isto, podemos passar então para a análise do impuro. Imaginemos que existe alguma comida que, uma vez que se coma, a pessoa passe mal. Numa dada sociedade onde existe esta comida, não se sabe o porquê ela provoca este mal, só se sabe que ela faz mal. Sabe-se isto através da experimentação. Portanto, é provável que as autoridades religiosas dessa sociedade ou comidade taxará esta comida como impura. No entanto, este exemplo da comida é muito simples, pois a ciência trouxe para nós capacidade o suficiente não somente para entender o motivo desta “impureza” como também para modificá-la, se necessário, fazendo com que aquele alimento que fazia mal deixe de fazer mal. Isto seria uma espécie de processo de purificação caso alguém daquele tempo tivesse descoberto isto por acaso. Contudo, este mesmo princípio observado na comida também pode ser vista em coisas mais complexas, inclusive no comportamento.

    Quando a impureza está no plano da matéria, como, por exemplo, este da alimentação, é fácil para a ciência desvendar o porquê isto fazia mal e propor como melhorar. No entanto, é preciso lembrar que a linguagem religiosa muitas vezes é usada para construir a identidade de uma comunidade e, sendo assim, a própria linguagem religiosa é quem determina algumas funções comportamentais. Ora, como então entender o que é impuro para determinada linguagem religiosa se esta impureza está relacionada com o comportamento? Para tanto, é preciso entender o próprio espírito desta comunidade para entender o porquê ela considera determinado comportamento impuro, ou seja, maléficos para os seus membros. Ouso dizer, no entanto, que isto pode ser impossível para o método científico, pois envolve um profundo processo de relacionamento e mesmo de identificação para ser possível.

    Por fim, é necessário ressaltar que é possível encontrar este princípio da impureza em toda comunidade humana. Porém, modernamente, este termo entrou em desuso, então as pessoas simplesmente entendem comportamentos impuros como “ruins” ou “não desejáveis”, mas não conseguem construir um pensamento sistemático e objetivo para definir o porquê assim o são. Em outras palavras, a impureza existe na linguagem não dita, no conjunto de comportamentos que as pessoas eticamente sabem que é errado, mas não existe nenhuma sistematização da comunidade para oficializar aquilo como não eticamente desejável. Provavelmente isto ocorre porque se existisse, uma linguagem religiosa começaria a ser produzida e estas comunidades são construídas eticamente já para evitar a linguagem religiosa por traumas do passado. Então eles ficam neste limbo do contraditório.

Linguagem religiosa e a produção de consenso:
    Uma comunidade religiosa existe através do consenso. Seus membros concordam com o que a autoridade religiosa diz. Naturalmente, é possível imaginar que em todo consenso possa existir algum grau de dissenso, mas este dissenso nasce da diferença aleatória que cada indivíduo e tem entre si e não é o suficiente para se organizar e ir contra a verdade produzida por aquela linguagem religiosa. Também, a tendência é quanto mais tempo se passe numa comunidade religiosa, maior seja a concordância entre as partes, já que os elementos aleatórios que separam as partes se tornam cada vez menos importantes através do tempo. Esta mesma relação pode ser vista sob o ponto de vista das escrituras.

    Uma vez que um documento é escrito, há um processo de acomodação para saber se este documento será ou não aprovado pela comunidade. Isto pode demorar algumas gerações, inclusive. Porém, uma vez aprovado e o consenso assumir este documento como verdadeiro, ele fará parte da identidade da comunidade. Assim, as próximas gerações passaram a conhecê-lo como elemento normalizador da sua linguagem religiosa. Estou falando deste processo pois ele lembra-me bastante uma tecnologia chamada blockchain. Trata-se da principal tecnologia hoje em dia usada para produzir moedas virtuais e consiste de uma série de protocolos de tal modo que, uma vez que uma “verdade”, que neste contexto é uma transição econômica, seja consolidado pela rede blockchain, ou seja, por todos aqueles que colaboram na verificação se uma transição foi verdadeira, então isto nunca mais sairá da rede.

    Também é possível que aconteça alguma coisa na realidade daquele grupo que faça com que o dissenso, antes aleatório, torne-se ordenado. Neste caso, provavelmente pode ocorrer uma cisão neste grupo, fazendo existir duas correntes religiosas vindas do mesmo tronco comum. Neste caso, uma das correntes pode descobrir falsa ou simplesmente não suportar o peso da realidade, ou então pode ser que, de fato, dali surjam duas vertentes que podem se reconhecer como irmãs de fé ou podem seguir caminhos durante o tempo. No entanto, é necessário ressaltar que haverá um tronco em comum entre as duas, a menos que uma delas decida abandonar aquela tradição. Neste caso, também estará abandonado parte da sua identidade. O mesmo vale para edição: qualquer alteração no tronco comum também significa uma alteração de identidade. Por isto é tão sério adulterar qualquer texto religioso: ao se fazer isto, está se adulterando o artefato normalizador da linguagem religiosa de um povo.

Encerramento:
    Com encerro mais um texto. Hoje eu também estava pensando em escrever sobre a importância da filosofia para a formação do estado. No entanto, acho por bem encerrar esta postagem por aqui, pois estes dois temas têm a ver com religião. Numa próxima postagem abordo essa questão. Também estive pensando em escrever um texto sobre o ato do voto. Ultimamente tenho achado bem confuso votar. Quais critérios são bons ou ruins? Está tudo uma confusão e nossas autoridades parecem achar tudo isto normal. A sensação que eu tenho é que nosso país está perdendo sua capacidade de se comunicar, e com isto de produzir qualquer tipo de consenso que nos leve a algum lugar. Enfim, amigos, um abraço a todos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O povo de dois reinos e o reino de Deus

    Era uma vez uma região com um povo dividido em dois reinos. Estes reinos, pouco a pouco, começaram a odiar um ao outro e muitas brigas começaram a ocorrer. Certo dia este povo resolveu fazer o seguinte acordo: cada reino vai treinar um guerreiro seu e, em certo momento da vida destes guerreiros, eles iriam duela até a morte, e o perdedor teria seu reino escravizado pelo reino do vencedor. Isto deve acontecer a cada geração, mas o reino escravizado deve ter o direito de treinar seu próprio guerreiro. Assim, ambos começaram a treinar seus guerreiros desde crianças, para que eles tornam-se o mais fortes possíveis. Desde criança estas crianças entendiam que suas vidas só tinha um único propósito: vencer este duelo. Assim, o dia do grande duelo chegou e um dos guerreiros foi vitorioso em relação ao outro.

    Esta tradição perdurou algumas gerações até que as pessoas começaram a indagar: por que um duelo até a morte? Isto é bárbaro! Que o duelo não seja até a morte. Então assim foi feito. No entanto, algo curioso aconteceu: os guerreiros, após a derrota, não aguentavam uma vida sem propósito e em um patamar inferior de existência, a de um escravizado. Portanto, seja entregando-se aos vícios ou diretamente, suicidavam-se. Após algumas gerações, estes suicídios entristeceram a Deus. Então ele interveio surgindo para um dos perdedores e disse: a partir de hoje você não é mais derrotado, pois servirá a mim, e isto lhe trará a honra necessária para viver. Então este guerreiro, a partir de então serviu a Deus, e começou a falar do nome de Deus para o seu reino. Geração após geração este reino continuava a perder, mas eles convenciam-se mais da existência de Deus, até que um dia, um dos guerreiros venceu e bradou: esta vitória será em honra de Deus.

    Agora o outro reino passava a ser escravizado. Este reino, que ainda não conhecia a Deus, se viu escravizado por pessoas que proclamavam o seu nome. Logo perguntavam-se: o que é Deus? Mas a partir de seus primeiros guerreiros derrotados, Deus revelou-se a eles. Agora aquele outro reino começava a entender de qual Deus estava sendo falado pelo outro reino, que os escravizava. Assim ambos os reinos batalhavam em nome de Deus, mas desejando escravizar ao outro. Uns venciam, outros perdiam. Mas não havia mais suicídios. Um dia Deus falou a todos: escutem-me, acabem com este ódio, acabem com este desejo de escravizar ao outro. Sejam livres. Porém, a única fonte de alegria que aquele povo conhecia era escravizar o outro. Portanto, não deram ouvidos a Deus e continuaram com sua tradição.

    Entristecido com isto, Deus, novamente, interveio. Desta vez, porém, falou a todo povo: vocês que alegram-se em escravizar ao outro, abandonem isto alegrem-se em tornar-se meus escravos, pois em mim vocês encontrarão liberdade. Mas, a vocês que desejam continuar alegrando-se na escravização do outro, eu decido que cada um de vocês receberão leis a seguir. A cada geração descerei para julgá-los e o reino que menos seguir minhas leis se tornará escravo do outro. Portanto, está acabada esta tradição de eleição de guerreiros para o duelo. Assim a história seguiu: alguns preferindo continuar no seu reino para tornar-se escravizador, mas aceitando quando Deus os julgava a serem escravizados e outros preferindo se desvincular do seu próprio reino para submeter-se a Deus.