quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Impureza e linguagem religiosa e a produção de consenso

 Introdução:
    Olá a todos. Hoje vou escrever um pouco sobre algumas peculiaridades sobre a forma como eu vejo as linguagens religiosas. Escrevo com um certo cansaço, pois atualmente estou num processo bastante quanto à questão profissional. Estou terminando uma faculdade de tecnologia, mas não consigo me enxergar trabalhando na área, embora eu esteja consigo terminar todas as cadeiras da faculdade. Acredito que isto tenha mais haver com a falta de capacidade de projetar uma identidade. De qualquer forma, creio que o próprio tempo se encarregará de resolver isto, bastando a mim ter equilíbrio suficiente para passar por isto. Portanto, todo este processo me deixa cansado até para escrever sobre minhas ideias referentes a filosofia. Mas, aproveitando um dia desocupado, vamos escrever, ressaltando porém que boa parte da experiência que eu estou usando para produzir estes textos advém do Cristianismo e sua história, porém, acredito que eles são generalizáveis.

Impureza:
    Acredito ser possível afirmar que é comum em linguagens religiosas haver a figura do “impuro”. Ou seja: são elementos, práticas, símbolos, objetos, cuja propriedade é tirar a pureza daquilo com o qual eles entram em contato. Pureza neste contexto acaba tendo um valor implícito, pois uma vez que algo é puro significa que todo o seu ser é bom, enquanto que algo impuro significa que embora aquele ser tente demonstrar somente sua bondade, há algo de mal nele. Em outras palavras, em uma sociedade é comum que as pessoas busquem demonstrar sua melhor face, enquanto que a melhor face de alguém pura representa ela toda, e é boa, a melhor face de alguém impura representa apenas parte dela, sendo a outra face, portanto, oculta e má. Assim entende-se o porquê da pureza ser valorizada em algumas culturas e também o porquê de buscar-se não misturar-se com coisas impuras.

    Entendido isto, podemos passar então para a análise do impuro. Imaginemos que existe alguma comida que, uma vez que se coma, a pessoa passe mal. Numa dada sociedade onde existe esta comida, não se sabe o porquê ela provoca este mal, só se sabe que ela faz mal. Sabe-se isto através da experimentação. Portanto, é provável que as autoridades religiosas dessa sociedade ou comidade taxará esta comida como impura. No entanto, este exemplo da comida é muito simples, pois a ciência trouxe para nós capacidade o suficiente não somente para entender o motivo desta “impureza” como também para modificá-la, se necessário, fazendo com que aquele alimento que fazia mal deixe de fazer mal. Isto seria uma espécie de processo de purificação caso alguém daquele tempo tivesse descoberto isto por acaso. Contudo, este mesmo princípio observado na comida também pode ser vista em coisas mais complexas, inclusive no comportamento.

    Quando a impureza está no plano da matéria, como, por exemplo, este da alimentação, é fácil para a ciência desvendar o porquê isto fazia mal e propor como melhorar. No entanto, é preciso lembrar que a linguagem religiosa muitas vezes é usada para construir a identidade de uma comunidade e, sendo assim, a própria linguagem religiosa é quem determina algumas funções comportamentais. Ora, como então entender o que é impuro para determinada linguagem religiosa se esta impureza está relacionada com o comportamento? Para tanto, é preciso entender o próprio espírito desta comunidade para entender o porquê ela considera determinado comportamento impuro, ou seja, maléficos para os seus membros. Ouso dizer, no entanto, que isto pode ser impossível para o método científico, pois envolve um profundo processo de relacionamento e mesmo de identificação para ser possível.

    Por fim, é necessário ressaltar que é possível encontrar este princípio da impureza em toda comunidade humana. Porém, modernamente, este termo entrou em desuso, então as pessoas simplesmente entendem comportamentos impuros como “ruins” ou “não desejáveis”, mas não conseguem construir um pensamento sistemático e objetivo para definir o porquê assim o são. Em outras palavras, a impureza existe na linguagem não dita, no conjunto de comportamentos que as pessoas eticamente sabem que é errado, mas não existe nenhuma sistematização da comunidade para oficializar aquilo como não eticamente desejável. Provavelmente isto ocorre porque se existisse, uma linguagem religiosa começaria a ser produzida e estas comunidades são construídas eticamente já para evitar a linguagem religiosa por traumas do passado. Então eles ficam neste limbo do contraditório.

Linguagem religiosa e a produção de consenso:
    Uma comunidade religiosa existe através do consenso. Seus membros concordam com o que a autoridade religiosa diz. Naturalmente, é possível imaginar que em todo consenso possa existir algum grau de dissenso, mas este dissenso nasce da diferença aleatória que cada indivíduo e tem entre si e não é o suficiente para se organizar e ir contra a verdade produzida por aquela linguagem religiosa. Também, a tendência é quanto mais tempo se passe numa comunidade religiosa, maior seja a concordância entre as partes, já que os elementos aleatórios que separam as partes se tornam cada vez menos importantes através do tempo. Esta mesma relação pode ser vista sob o ponto de vista das escrituras.

    Uma vez que um documento é escrito, há um processo de acomodação para saber se este documento será ou não aprovado pela comunidade. Isto pode demorar algumas gerações, inclusive. Porém, uma vez aprovado e o consenso assumir este documento como verdadeiro, ele fará parte da identidade da comunidade. Assim, as próximas gerações passaram a conhecê-lo como elemento normalizador da sua linguagem religiosa. Estou falando deste processo pois ele lembra-me bastante uma tecnologia chamada blockchain. Trata-se da principal tecnologia hoje em dia usada para produzir moedas virtuais e consiste de uma série de protocolos de tal modo que, uma vez que uma “verdade”, que neste contexto é uma transição econômica, seja consolidado pela rede blockchain, ou seja, por todos aqueles que colaboram na verificação se uma transição foi verdadeira, então isto nunca mais sairá da rede.

    Também é possível que aconteça alguma coisa na realidade daquele grupo que faça com que o dissenso, antes aleatório, torne-se ordenado. Neste caso, provavelmente pode ocorrer uma cisão neste grupo, fazendo existir duas correntes religiosas vindas do mesmo tronco comum. Neste caso, uma das correntes pode descobrir falsa ou simplesmente não suportar o peso da realidade, ou então pode ser que, de fato, dali surjam duas vertentes que podem se reconhecer como irmãs de fé ou podem seguir caminhos durante o tempo. No entanto, é necessário ressaltar que haverá um tronco em comum entre as duas, a menos que uma delas decida abandonar aquela tradição. Neste caso, também estará abandonado parte da sua identidade. O mesmo vale para edição: qualquer alteração no tronco comum também significa uma alteração de identidade. Por isto é tão sério adulterar qualquer texto religioso: ao se fazer isto, está se adulterando o artefato normalizador da linguagem religiosa de um povo.

Encerramento:
    Com encerro mais um texto. Hoje eu também estava pensando em escrever sobre a importância da filosofia para a formação do estado. No entanto, acho por bem encerrar esta postagem por aqui, pois estes dois temas têm a ver com religião. Numa próxima postagem abordo essa questão. Também estive pensando em escrever um texto sobre o ato do voto. Ultimamente tenho achado bem confuso votar. Quais critérios são bons ou ruins? Está tudo uma confusão e nossas autoridades parecem achar tudo isto normal. A sensação que eu tenho é que nosso país está perdendo sua capacidade de se comunicar, e com isto de produzir qualquer tipo de consenso que nos leve a algum lugar. Enfim, amigos, um abraço a todos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O povo de dois reinos e o reino de Deus

    Era uma vez uma região com um povo dividido em dois reinos. Estes reinos, pouco a pouco, começaram a odiar um ao outro e muitas brigas começaram a ocorrer. Certo dia este povo resolveu fazer o seguinte acordo: cada reino vai treinar um guerreiro seu e, em certo momento da vida destes guerreiros, eles iriam duela até a morte, e o perdedor teria seu reino escravizado pelo reino do vencedor. Isto deve acontecer a cada geração, mas o reino escravizado deve ter o direito de treinar seu próprio guerreiro. Assim, ambos começaram a treinar seus guerreiros desde crianças, para que eles tornam-se o mais fortes possíveis. Desde criança estas crianças entendiam que suas vidas só tinha um único propósito: vencer este duelo. Assim, o dia do grande duelo chegou e um dos guerreiros foi vitorioso em relação ao outro.

    Esta tradição perdurou algumas gerações até que as pessoas começaram a indagar: por que um duelo até a morte? Isto é bárbaro! Que o duelo não seja até a morte. Então assim foi feito. No entanto, algo curioso aconteceu: os guerreiros, após a derrota, não aguentavam uma vida sem propósito e em um patamar inferior de existência, a de um escravizado. Portanto, seja entregando-se aos vícios ou diretamente, suicidavam-se. Após algumas gerações, estes suicídios entristeceram a Deus. Então ele interveio surgindo para um dos perdedores e disse: a partir de hoje você não é mais derrotado, pois servirá a mim, e isto lhe trará a honra necessária para viver. Então este guerreiro, a partir de então serviu a Deus, e começou a falar do nome de Deus para o seu reino. Geração após geração este reino continuava a perder, mas eles convenciam-se mais da existência de Deus, até que um dia, um dos guerreiros venceu e bradou: esta vitória será em honra de Deus.

    Agora o outro reino passava a ser escravizado. Este reino, que ainda não conhecia a Deus, se viu escravizado por pessoas que proclamavam o seu nome. Logo perguntavam-se: o que é Deus? Mas a partir de seus primeiros guerreiros derrotados, Deus revelou-se a eles. Agora aquele outro reino começava a entender de qual Deus estava sendo falado pelo outro reino, que os escravizava. Assim ambos os reinos batalhavam em nome de Deus, mas desejando escravizar ao outro. Uns venciam, outros perdiam. Mas não havia mais suicídios. Um dia Deus falou a todos: escutem-me, acabem com este ódio, acabem com este desejo de escravizar ao outro. Sejam livres. Porém, a única fonte de alegria que aquele povo conhecia era escravizar o outro. Portanto, não deram ouvidos a Deus e continuaram com sua tradição.

    Entristecido com isto, Deus, novamente, interveio. Desta vez, porém, falou a todo povo: vocês que alegram-se em escravizar ao outro, abandonem isto alegrem-se em tornar-se meus escravos, pois em mim vocês encontrarão liberdade. Mas, a vocês que desejam continuar alegrando-se na escravização do outro, eu decido que cada um de vocês receberão leis a seguir. A cada geração descerei para julgá-los e o reino que menos seguir minhas leis se tornará escravo do outro. Portanto, está acabada esta tradição de eleição de guerreiros para o duelo. Assim a história seguiu: alguns preferindo continuar no seu reino para tornar-se escravizador, mas aceitando quando Deus os julgava a serem escravizados e outros preferindo se desvincular do seu próprio reino para submeter-se a Deus.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Buscando um herdeiro

Durante sua vida, um homem produziu uma grande fortuna. Estando perto da morte, ele não queria que esta fortuna se perdesse. Ele teve dois filhos, porém um deles morreu e o outro lidava com a vida de maneira superficial. Ao que sobrou, ele deu apenas a superfície da sua fortuna. Preocupado, falou: Oh Deus! O que farei com esta grande fortuna? Não quero que ela se perca, mas não tenho a quem delegá-la. Então Deus disse: vá até a cidade e busque por um órfão, mas não qualquer um. Busque aquele que me busca e que não se satisfaz até me encontrar. Então o homem foi a cidade em busca dos órfãos. Lá anunciou: escutem, sou enviado por Deus para saciar aqueles que o buscam. Quem tiver o vazio em seus corações apresentem-se a mim, pois eu irei saciá-los. Logo muitos homens ajuntaram-se e a cada deles este homem deu uma pequena porção da sua fortuna, que para eles já era muito. Então os homens pararam de olhar para aquele que deu e começaram a olhar para a fortuna. Alguns a guardaram satisfeitos, outros pensavam em como obter mais e outros logo começaram a usufruí-las. No entanto, um deles indagou: você é mesmo enviado de Deus? Pois se for, responda-me, o que farei com esta fortuna? Isto aqui não saciará minha alma, pois o que busco de verdade é o Deus da vida. Foi assim que aquele que buscava um herdeiro o encontrou.

sábado, 10 de outubro de 2020

Exortação político-religiosa

A relação entre igreja e política partidária é uma das coisas mais prostituídas que há atualmente. A igreja deve ser mantida pela graça, pelo espírito santo, que se revela à nós através da leitura da bíblia, enquanto que o estado deve ser mantido através do monopólio da violência garantida pela constituição federal. Uma coisa é completamente contrária à outra. Misturá-las é uma promiscuidade que certamente envergonha o verdadeiro evangelho. É bem mais digno andar entre aqueles que, não conhecendo a Deus, buscam fazer o bem, embora falhem, que andar entre aqueles que, conhecendo a Deus, cedem ao desejo pecaminoso de suas almas pela segurança garantida pelo estado. Esta segurança, que deveria ser provida por Deus, enfraquece a fé e faz com que os templos se tornem obras humanas. Logo, para eles, a obra não será mais a do espírito, e sim das suas próprias mãos, recaindo em um sistema religioso, no mal sentido da palavra, de recompensas e punições, que não oferece salvação, mas sim uma prisão. Se o povo não tem mais onde se salvar, o que fará? Este é o início do fim, pois nada do que é de Deus se sustenta através da vontade pecaminosa da humanidade. Mas sabemos que Cristo renasceu e que sua vitória é certa, que a salvação está nele, e não nas palavras dos líderes religiosos. Alegremo-nos, portanto, nas aflições, e vivamos o verdadeiro evangelho.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna

Capítulo 1:
Introdução ao livro. Alguns princípios de observação para relação instituição comunidade foram instaladas. A primeira e a segunda dizem, respectivamente, que tanto a instituição influencia a comunidade quanto a comunidade influencia a instituição, no sentido que a primeira define os atores, regras, poderes, personagens da segunda e a segunda, através das suas escolhas, definem o contexto social que permite ou não a existência da primeira. Depois, foi discutido as formas como a instituição modifica a comunidade. Três formas foram destacadas: a constitucionalista, ou projeto institucional, que enfatiza o poder do projeto institucional como forma de moldar uma comunidade. A segunda é os fatores socioeconômicos como principias moldadores, vindo da tradição de Aristóteles, em que o bem estar social e econômico são predominantes. O terceiro, o sociocultural como principais moldadores, vindo da tradição de Platão, em que os governos variam de acordo com a disposição de seus cidadãos. Por fim, anunciou-se os métodos de investigação e as áreas da Itália que serão destacadas para o estudo.

Capítulo 2:
Criar uma nova instituição não significa criar um novo governo. Como se diz na França, "Vinho velho em garrafa nova". O processo de regionalização na Itália iniciou-se, mas precisa demonstrar sua consolidação. No começo, havia uma forte polarização política entre os partidos e eleitores, mas o processo de implementar políticas regionais fez com que partes opostas tivessem que governar juntas, o que diminuiu o índice de polarização. O norte, que tinha uma tradição mais de esquerda, conseguiu se adaptar melhor ao governo regional que o sul, com tradição mais de direita. Isto é constatado pelas pesquisas, que diz que os cidadãos acham o governo regional melhor que o central, embora rejeite a ambos, e que o sul é menos entusiasmada com o governo regional que o norte, embora ainda queira que ele funcione. É nítido, no entanto, que os governos regionais conseguiram ganhar força e autonomia, segundo conceitos mostrados no livro.

Capítulo 3:
No capítulo 3 são introduzidos alguns indicadores de eficiência governamental. Além disto, investiga-se várias causas do porquê os governos do norte apresentam desempenho superior aos do sul. Entre diversas hipóteses testadas, a mais promissora é que o povo do norte tem um espírito cívico mais acentuado que o sul. Hipóteses como educação ou consenso demonstraram não ter muita relevância na eficiência do governo. Vários parágrafos são utilizados para explicar o que é uma comunidade cívica e quais evidências levam a considerar que o norte apresenta tal caracterização. Estas evidências vão desde perfil de votação, à participação em atividades associativas e consumo de informações sobre o local. O sul, por outro lado, demonstrou evidências de ter relações clientelistas. Isto é, as pessoas associam-se verticalmente e com interesses próprios em relações mais pessoais do que institucionais.

Capítulo 4:
Neste capítulo o autor se dedica a definir o que é uma comunidade cívica. Após, começa a verificar no Norte da Itália os elementos que permitem demonstrar que existe indícios de formação de comunidades cívicas na Itália. Também demonstra que outros fatores que possivelmente poderiam colaborar para uma boa democracia, como educação, riqueza ou consenso político não são de fato significantes para este objetivo, acentuando que o fator predominante para a explicação dos bons governos é a comunidade cívica. À grosso modo, uma comunidade cívica é aquela em que seus cidadãos prezam pelas instituições como forma de apoio mútuo em contraste com o pensamento clientelista, onde as relações são construídas em torno do ganho pessoal. Além disso, também foi verificado que, embora sejam cívicas, a comunidade não deixa de ser politizada e que também o clientelismo consegue subsistir em meio a instituições formais como a democracia.

Capítulo 5:
É notório a diferença cultural entre o norte e o sul. Para explicar isto, este capítulo mergulha na história medieval da Itália. Nela, descobre-se que o sul da Itália foi reinada por um dos mais modernos estados monárquicos da época, altamente verticalizado, enquanto que o norte organizou-se em comunidades independentes e mais horizontais, pois havia uma cultura dos semelhantes se ajudarem. A partir daí, nota-se que o sul havia chegado no seu limite de crescimento, enquanto que o norte encontrava caminhos para crescer mais e mais, até a chegada das pestes na Europa, assim como outras instabilidades, que fizeram o norte fragmentar-se enquanto que o sul resistia, embora tendo a influência de outros países. Porém, a ética cívica do norte sobreviveu à isto e, após a unificação e democratização da Itália, o norte conseguiu ascender rapidamente enquanto que o sul, que também manteve suas relações servis e agora chamadas de clientelistas, teve dificuldades em construir governos eficientes. É preciso salientar que, embora não seja possível afirmar que apenas uma comunidade cívica seja suficiente para construir uma boa economia, é a experiência Italiana afirma que a comunidade cívica é um fator muito forte para tanto e que uma boa economia não implica em uma comunidade cívica.

Capítulo 6:
Entendido as origens da diferenciação entre norte e sul, este capítulo dedica-se a compreender o porquê tais diferenças persistem. Para isso, utilizou-se da teoria de jogos, principalmente do dilema do prisioneiro, para demonstrar que a solução ótima de um grupo em que não haja confiança prévia é desertar. Também utilizou a formulação de estado de Hobbies para afirmar que o estado é uma solução subótima à deserção do dilema do prisioneiro, pois ele age como uma terceira parte que evita a deserção. No entanto, também o estado se torna inconfiável neste cenário. Assim, a solução ótima é a comunidade cívica, onde cria-se o que foi chamado de "capital social", que é a capacidade que as pessoas tem de confiarem umas nas outras que irão cumprir os contratos sociais estabelecidos. Por outro lado, culturas que não hajam espaço para a produção de capital social tendem a não construí-lo e, portanto, a desconfiança é continuada. Assim, compreende-se que o norte conseguiu alcançar este estágio de capital social e se estabilizar nesta solução ótima enquanto que o sul não conseguiu e se estabilizou na solução subótima. Por fim, o autor lembrou que, através da introdução de um novo regime político, foi possível alterar o perfil das pessoas e, portanto, há esperança, mas que, provavelmente, também é preciso que haja uma mudança de dentro para fora para que a melhor solução para a democracia seja atingida.

domingo, 4 de outubro de 2020

Polarização e virtualização da jornada do herói

Introdução:
    Boa tarde a todos. Na última postagem eu trouxe uma importante incorporação a minha filosofia, que é a jornada do herói. Através disto tenho condições de falar de maneira genérica certos conceitos que, de outro modo, eu não conseguia expressar com exatidão. Um deles é adoração, o qual pretendo escrever um pouco mais na próxima postagem, mas também a jornada do herói permite fazer outras análises como no campo da política, por exemplo. Hoje trago dois importantes conceitos observados por mim, que é a polarização e a virtualização da jornada do herói. Provavelmente a academia já consiga identificar estes dois conceitos e expressá-los de outra maneira, ou mesmo através da jornada do herói. No entanto, por não conhecer e por querer deixar esses conceitos registrados no meu blog, vou escrever sobre eles. Para quem quiser acessar a última postagem, o link encontra-se no fim deste texto. No mais, estou lendo um livro interessante sobre o processo de democracia na Itália. Vamos ao primeiro conceito.

Polarização da jornada do herói
    Todo indivíduo, de alguma forma, relaciona-se com uma jornada do herói. Para aqueles que já não possuem a recompensa, eles são convidados a iniciar sua jornada em busca dela, já outros a recebem por herança. Porém, embora seja falado da jornada do herói de uma maneira abstrata, isto precisa encontrar um meio de materializar-se. A depender do que cada indivíduo constrói dentro de si, ele pode encontrar diferentes formas de materializar o mundo especial. Assim, alguns podem encontrar seu mundo especial de uma forma absolutamente particular e única, outros podem encontrá-la de maneira particular, mas que se repetem várias vezes na sociedade ou, ainda, outros podem encontrá-la de maneira coletiva. Quando um mundo especial é construído de maneira coletiva é que eu chamo de um “polo” da jornada do herói. Estas polaridades não necessariamente precisam ser duais, ou seja, se há um polo norte, há outro sul, se há um positivo, há outro negativo, mas também não é incomum que seja. É possível também que dois polos se destaquem e recrutem os demais para um determinado fim.

    Isto significa que um conjunto de indivíduos acessam um mundo especial no qual eles precisam completar uma missão de maneira coletiva e, para isto, eles utilizam técnicas coletivas para alcançar este fim. Muitas vezes este polo aponta para algum indivíduo em específico como aquele que vai completar a tarefa, e todos os outros indivíduos que participam indiretamente desta jornada estão para auxiliar este indivíduo principal a completar a sua tarefa, embora cada um deles, de maneira particular, terá que fazer sua própria jornada para alcançar este fim. Ou seja: não é que os indivíduos não precisem fazer a jornada, mas a recompensa que eles conquistam é utilizada por outro, na jornada do outro, para atingir um objetivo maior que irá ser a recompensa de todo aquele grupo. De certa forma, este líder também projeta valores e aspirações que cada indivíduo utiliza na sua própria jornada como forma de buscar a sua recompensa, e isto costuma ser o critério inconsciente que faz o centro deste polo ser este líder. Isto é muito visível em movimentos políticos que tem como principal técnica de coesão o populismo.

Virtualização da jornada do herói:
    A virtualização, por sua vez, é quando se constrói um ambiente virtual que simule uma jornada do herói para que quem estiver neste ambiente possa viver a jornada sem precisar arriscar-se de maneira real. Um bom exemplo disto são os videogames, no entanto, não se limita ai, pois livros, filmes ou músicas também podem ser considerados dispositivos de virtualização da jornada. Embora uma pessoa não viva a jornada de maneira real, a experiência que ela obtém no mundo virtual pode ser aproveitável numa futura jornada real. É como se houvesse uma pessoa mais velha ensinando a uma mais nova os perigos do mundo, e, portanto, este processo de virtualizar a jornada do herói não é algo dos nossos tempos. Porém, com o avanço da tecnologia das mídias, estamos alcançando níveis de virtualização que podem ser prejudiciais à sociedade, uma vez que se transforma este processo num produto a ser consumido e não numa pedagogia a amadurecer aquele por quem passa. Afinal, numa pedagogia, aplica-se virtualizações cada vez mais próxima da realidade, até que o aluno esteja pronto para superar o mestre e enfrentar a própria realidade.

    Algo interessante a ser observado é que o próprio processo de criar virtualizações pode ser, em si, uma jornada. Quando, por exemplo, um autor precisa sair do seu mundo comum, que é cotidiano, porém insatisfatório, para embarcar no mundo especial de construir uma história, onde ele passa por muitos dramas, pensamentos de desistir, busca amigos para ajudá-lo a completar a tarefa e as pessoas do mundo comum pode não entender o porquê ele está se desgastando tanto, para então ter uma narrativa concluída e impactante para sua comunidade, então este autor passou pelas etapas da própria jornada. Isto é, inclusive, abordado no livro de Vloger. Portanto, é possível observar casos heroicos na própria indústria do entretenimento, o que, de certa forma, mesmo essa indústria tendo como principal interesse o lucro, ela precisa da matéria-prima para contar algo de verdadeiro para as pessoas, do contrário as pessoas não se interessariam. Essa matéria-prima é possivelmente a recompensa da jornada heroica de alguém ou de um grupo de pessoas.

Conclusão:
    Como foi falado na postagem anterior, se uma pessoa é chamada para determinada jornada do herói, é porque há algo ali para ser aprendido. Assim, tanto no processo de virtualização quanto no processo de polarização, há um conjunto de valores ali para ser aprendido por uma ou mais pessoas, para que, através desse aprendizado, eles se tornem pessoas melhores para a sociedade. No entanto, como falado também na postagem anterior, nem toda jornada do herói é saudável. Aqui é possível ressaltar que tanto a polarização quanto a virtualização tornam-se nocivas à sociedade quando elas tornam as pessoas distantes da realidade, seja por estarem lutando contra um outro polo de maneira autodestrutiva. Quanto a este último tópico, também pretendo escrever um dia, pois ai entra a questão do sagrado. Enfim, amigos, com isto termino mais esta postagem. Abraços a todos.

https://barnabasspenser.blogspot.com/2020/09/a-incorporacao-da-jornada-do-heroi.html

domingo, 13 de setembro de 2020

A incorporação da jornada do herói à visão dos organismos sociais

Introdução:
    Olá a todos. Hoje venho para uma postagem que venho pensando faz algum tempo, mas estive esperando terminar a leitura de uns capítulos de um livro para iniciá-la. Trata-se da incorporação da jornada do herói à visão dos organismos sociais. Para mim, isto é muito importante, pois encontrei na jornada do herói os elementos necessários para fechar uma lacuna que havia na visão dos organismos sociais, que é a questão do indivíduo. Explicando melhor, a visão iniciou-se através de um olhar macro, onde busca-se enxergar as grandes estruturas de uma sociedade, o que elas produzem, como elas se relacionam e funcionam. Por isso, sempre tive uma grande dificuldade em explicar o indivíduo, resumindo-o a aquele fazer parte de um ou mais desses organismos. Através da jornada do herói, é possível trazer uma abordagem mais completa sobre o indivíduo, desejável para completar essa visão filosófica que busco construir.

A jornada do herói:
    Trata-se de uma metalinguagem que busca estruturar as formas como as narrativas mitológicas são estruturadas para, assim, poder extrair o máximo de informações e ensinamentos delas. Desta forma, pode servir como ferramenta para auxiliar quem busca construir ou compreender narrativas, seja para si mesmo como também para a sociedade. Iniciou-se com Joseph Campbell, que rascunhou algumas etapas nas quais a maioria das narrativas tendem a passar, mas aqui estou trabalhando com uma simplificação trazida por Christopher Vogler. Para mim, em especial, a jornada do herói tipifica as fases de evolução que cada indivíduo tende a passar em busca de si mesmo baseando-se na observação de centenas de anos e histórias. No entanto, é preciso ressaltar que eu não trato a jornada do herói como uma estrutura que mapeia de maneira precisa e definitiva o desenvolvimento humano. Portanto, trata-se apenas de uma referência que tem bastante relevância e significância para mim, pois pode ser observada até mesmo nas mitologias.

   Explicando um pouco da jornada do herói em si: ela é composta, segundo o que é definido por Vogler, por dose estágios, sendo cinco do primeiro ato, quatro do segundo e três do terceiro. Os estágios são os seguintes: 1) Mundo comum, 2) Chamado à aventura, 3) Recusa do Chamado, 4) Encontro com o mentor, 5) Travessia do primeiro limiar, 6) Testes, aliados, inimigos, 7) Aproximação da caverna oculta, 8) Provação, 9) Recompensa (Apanhando a espada), 10) Caminho de volta, 11) Ressurreição,12) Retorno com o Elixir. De um modo geral, entendo que essa estrutura narra a forma como um indivíduo saí do seu mundo comum para embarcar numa aventura no “mundo especial”. Lá, ele passará por desafios tão grandes ao ponto de arriscar sua vida. Se conseguir passar vivo por estes desafios, conquistará um prêmio. Então ele poderá retornar como seu prêmio para o mundo comum e isto fará este um lugar melhor. Existem muitas formas de interpretar esta estrutura, podendo ser ela literal, metafórica, espiritual, uma mistura destas coisas, todas elas sendo igualmente válidas. Também não necessariamente encontra-se todos os elementos nesta ordem ou presentes.

Incorporação à visão dos organismos sociais:
    No segundo texto foi dado três exemplos de importantes organismos sociais para a atualidade. Um deles era a religião, cuja principal produção é a adoração. Lá também foi explicado que adoração é tudo aquilo que traz paz interna, satisfação. Em outro texto, há a generalização de que adoração é qualquer coisa que tem finalidade em si mesma. Portanto, observa-se a definição de adoração, que é a produção da religião, é definido apenas abstratamente. Assim surge a pergunta: o que é algo adorável? Respondo: adorável é a recompensa da jornada do herói. Portanto, é esta pergunta e esta resposta incorporação da jornada do herói à visão dos organismos sociais. É perceptível, no entanto, que a resposta continua sendo a nível abstrato. Uma resposta concreta disto seria um sistema de crenças e percepções específico, deixando de lado todas as demais, e assim se perderia a generalização desejada neste conceito. No entanto, é preciso explicar melhor o seguinte: o objetivo desta ser um critério para classificar o que é adorável ou não. Até porque isto é possível, já que a jornada pode ser subjetiva, assim como a recompensa. Seu objetivo, no entanto, é fornecer uma fonte de informação genérica para aqueles que desejam investigar melhor o que pode ser adorável e buscar sua própria percepção do porquê disto.

A importância da incorporação:
    Para entender a importância desta incorporação, serão ressaltadas duas coisas que foram ditas no resumo da jornada: a primeira é que o herói precisa pôr em risco sua própria vida; a segunda é que o herói retornará, se sobreviver, com sua recompensa para mundo comum, e isto tornará o mundo comum um lugar melhor. Esta segunda parte indica claramente que todo herói traz algo que beneficia os organismos de alguma maneira. Uma nova tecnologia, uma nova identidade, uma forma correta de proceder na sociedade. Sempre há um aprendizado na jornada do herói ou algo concreto que é aproveitado por todos. Portanto, esta é a fonte da inovação dos organismos sociais. Em períodos em que algum organismo social esteja falindo, são atitudes heroicas que podem trazer sobrevida ou mesmo iniciar um novo organismo social de modo que os indivíduos consigam seguir seu curso. A primeira parte indica que isto sempre será uma atividade arriscada. Este risco, na jornada, é de morte, mas essa morte pode ser interpretada de diversas maneiras, mas sempre significa algo muito custoso para o indivíduo que inicia a jornada de busca pela renovação.

Recompensa como herança:
    É possível pensar que há indivíduos que passem a vida sem precisar fazer algo muito arriscado para conseguir seu objeto de adoração. Em outras palavras, eles não precisam passar pela jornada para ter a recompensa. Ou, se precisam passar por alguma jornada, os riscos são menores. Ou seja: em vez de arriscar a própria vida, literalmente, arrisca-se uma posição de prestígio na sociedade ou algo equivalente. É possível argumentar que todo ser humano necessita passar pela jornada do herói para alcançar sua recompensa. Suponho não ser possível afirmar nem que sim e nem que não sobre isto. No entanto, acredito ser claro que seres humanos possuem mecanismos de heranças, de diversos tipos. Portanto, a afirmação de que a recompensa pode ser transmitida como herança parece ser aceitável e é mesmo reafirmada por um ou outro texto sagrado e até mesmo pelos sistemas jurídicos.

Recompensa como beneficiadora do mundo comum:

    Para compreender bem esta afirmação, é preciso lembrar que estamos falando não de uma recompensa qualquer, mas de uma recompensa digna de ser considerada como algo adorável, para então ser institucionalizada e tornar-se um organismo social ou encontrar alguma outra maneira de romper a barreira do indivíduo. É possível que haja recompensas que beneficiem somente o indivíduo e, portanto, não ao mundo comum. No entanto, não considero saudável nomear tais recompensas como heroicas e sugiro, portanto, classificá-las como psicóticas ou neuróticas. Isto porque ela é somente aplicável à aquele indivíduo em específico, com aquela neurose ou psicose em específico. É possível também que um conjunto de pessoas se reúnam em torno de alguma recompensa que não faça bem ao mundo comum, mas somente a elas. Neste caso, o mundo comum buscará meios de rejeitar esta recompensa, rejeitando-as também, por consequência. Ironicamente, pode existir recompensas que faça bem ao mundo comum, mas ele, ainda sim, rejeitá-la. Aqui é exemplo onde observa-se os riscos da jornada do herói.

Cristianismo e jornada do herói:

    Como já foi dito em outro texto, construo a visão dos organismos sociais genérica o suficiente para se adequar a outras religiões, mas específica o suficiente para conter o cristianismo. Portanto, este paragrafo faz parte deste contexto um pouco mais pessoal, e não necessariamente possa ser do interesse de quem deseja conhecer a jornada do herói ou a visão dos organismos sociais. Quando iniciei meus estudos logo surgiu-me a pergunta: qual a relação entre o cristianismo e a jornada do herói? A resposta ficou clara logo que eu percebi que a recompensa da jornada do herói nem sempre pode ser saudável. Isto implica na seguinte pergunta: o que faz um recompensa e sua jornada serem saudáveis ou não? Logo me veio duas coisas: a primeira é o compreender sua recompensa a segunda é ele estar satisfeito com ela. A jornada do herói está ai para ser trilhada por todo aquele que está insatisfeito. Portanto, é escolha de cada um segui-la ou não. Porém, o que dizer das pessoas que satisfazem com suas neuroses ou psicoses?

    Naturalmente é possível recomendar-lhes um psicólogo. No entanto, nós, cristãos, acreditamos que conhecer a bíblia e a Cristo pode fazer com que o indivíduo tenha uma consciência mais expandida e, portanto, maior capacidade de percepção que aquele que não conhece. Afinal, basta ler a bíblia para se ter relatos de toda a fragilidade ou horror que o ser humano pode alcançar, mas também dos exemplos heroicos de fé que alguns personagens bíblicos têm. Isto tudo também colabora para que tenhamos um grau de satisfação mais sofisticado para a recompensa, não aceitando, portanto, as neuroses ou psicoses, mas buscando, através da graça de Cristo, até que alcancemos uma recompensa verdadeiramente heroica. Assim sendo, ser cristão não nos isenta de termos nossa própria jornada, nossa própria cruz, de buscarmos no “mundo especial”, que para o cristianismo é o visualizamos através da inspiração de Deus, a recompensa para dar a este mundo comum, pecador, um pouco mais de evidências da bondade de Deus e auxiliá-lo na espera pela volta de Cristo. Ainda, o sacrifício de Cristo nos protege de qualquer tipo de pensamento não saudável, pois é através da graça que faremos a jornada, e se não conseguirmos, mas estarmos de consciência limpa de que fizemos o que foi possível dentro de nossos limites enquanto pecadores, então não há condenação, estamos salvos.

Conclusão:
    Ler sobre a jornada do herói foi bastante enriquecedor. Também sinto-me bastante gratificado por ter preenchido esta lacuna que havia na visão dos organismos sociais, além de registrar a relação entre a lenda do herói com o cristianismo. Aqui notei duas correções oportunas que posso fazer futuramente na visão, a primeira é que indivíduos não precisam ser organismos sociais, a segunda é que eu dei duas definições de adoração, mas nesse texto consegui fazer meio que uma arrumação nisso. Mas, talvez, um dia eu vá precisar organizar isso com mais seriedade. No mais, continuo seguindo minha vida. Estagiando, na faculdade, na igreja. Deixo abaixo os links nos quais eu cito sobre adoração. Abraço a todos e até a próxima postagem.

http://devirsocial.blogspot.com/2018/08/analise-das-autoridades-segundo.html
https://barnabasspenser.blogspot.com/2020/08/a-hierarquia-da-adoracao.html