Olá amigos. Hoje escrevo com pouca motivação. Parece-me que o objetivo principal desse blog, que era simplesmente ser um acervo de pensamentos, tem se tornado fraco, pois eu ultimamente estou sentindo a necessidade de outros objetivos para escrever. No entanto, cá estou hoje fazendo um esforço para escrever acerca de algo que há tempos venho pensando: hierarquia da adoração. Sei que este assunto pode ser meio complicado, mas vou adicioná-lo, pois ele é uma consequência direta do meu conceito de adoração que eu adoto na minha filosofia da visão dos organismos sociais. Portanto, hoje dedicarei algum tempo para formalizar um pouco melhor o sentido de adoração e sua hierarquia na visão dos organismos sociais, bem como vou fazer alguns comentários adicionais aplicados ao contexto cristão.
Adoração:
Adoração é qualquer coisa cuja finalidade é si mesma. Esta definição tem uma consequência direta: é necessário ter seres humanos para dar sentido de finalidade. Portanto, adoração assim definido é algo que está diretamente ligado ao contexto humano, podendo tomar uma grande incontável quantidade de formas, podendo ser apresentada de maneira objetiva ou subjetiva, intencional ou inconsciente. Assim sendo, por exemplo, é possível que o comer se torne um ato de adoração, quando a alimentação não se restringe ao propósito dela ao corpo, mas o saborear a comida torna-se o objetivo final. Idem para andar em um carro luxuoso, por exemplo, ou exercer as diversas formas de artes.
Aplicar este conceito ao contexto cristão pode ser problemático para algumas doutrinas. No entanto, facilita-se quando assume-se a premissa de que todo ser humano nasce pecador. Isto significa que sua adoração está voltada à matéria, ele não teve o despertar espiritual para ser capaz de a Deus. Portanto, a história de amadurecimento espiritual do ser humano é a trajetória do adorar à matéria para o adorar ao espírito, que, para os cristãos, é Deus. Assim faz sentido falar de outras adorações, e em específico uma hierarquia de adorações, pois o ser humano, enquanto matéria, sempre terá a tendência de adorar a matéria, portanto, independente do quão maturo espiritualmente ele seja, ainda sim ele adorará a matéria de alguma maneira. Isto só mudará quando ele deixar de ser matéria e passar a ser espírito, então sua própria natureza mudará e ele se tornará completamente capaz de adorar a Deus.
Porém, é preciso deixar claro que, embora seja a tendência humana adorar a matéria, ainda sim isto é pecado. Porém, para mim, isto não é problema, pois Cristo sabe que somos pecadores, e, portanto, sua graça nos alcança. Quando aceitamos a Cristo, ascendemos ao seu reino, mas também cremos em seu nome como salvador e, portanto, sentaremos no trono do Pai quando deixarmos a matéria. Isto claramente está de acordo com o que foi dito acima. Naturalmente, o quanto cada ser humano puder fazer para não pecar e amadurecer, através da graça do espírito santo, o seu espírito para adorar cada vez menos às coisas materiais e cada vez mais as coisas espirituais é escolha dele fazer. Deus tem seu justo julgamento sobre todas as coisas.
Hierarquia das adorações:
A medida que existem várias formas de adoração, existem várias formas de organizá-las. Meu intuito ao falar sobre a “hierarquia das adorações” é trazer à consciência algo que já ocorre naturalmente, e talvez com o objetivo de tentar melhorar este processo e torná mais eficaz seu funcionamento e sua comunicação. Ora, se adoração é a finalidade em si mesmo, categorizar adorações por sua finalidade parece-me não ter propósito, a menos que seja no contexto religioso para classificar o que é pecado ou não. Porém, quando observa-se o contexto em que aquela adoração é produzida, daí então é possível categorizá-las de alguma maneira.
Segundo minhas observações, há algumas adorações importantes à serem mencionadas: as adorações relacionadas ao corpo, a descoberta dos sentidos. As adorações relacionadas à origem, como as festas tradicionais. As adorações relacionadas ao poder, ao status quo. As adorações relacionadas aos conhecimentos da matéria, os que detém os métodos do conhecer. As adorações relacionadas à religião, a religação com o eterno. Estas são algumas categorias que eu penso agora por cabeça, mas a importância dessa categorização, neste momento, não está em si na categoria, mas para trazer a tona a seguinte consciência: a depender da posição do indivíduo na sociedade, ele tenderá a adorar mais ou menos a alguma coisa.
Isto quer dizer que, se por exemplo, o indivíduo estiver numa posição em que seu trabalho esteja relacionado, por exemplo, a produzir sensações aos sentidos, como um cozinheiro, ou um músico, sua adoração estará na muito mais próxima dos sentidos do que uma pessoa que trabalha, por exemplo, com o desenvolvimento do conhecimento humano nas academias científicas. No entanto, há de se observar que as adorações podem se entrelaçar, quando, por exemplo, através de uma comida regional, um cozinheiro ao mesmo tempo em que está adorando ao sabor também está adorando à origem da sua terra.
Neste caso, aonde está a adoração: no sabor? Na origem? Não se sabe, o que se sabe é que o ato de saborear aquela comida é uma adoração, pois a comida está servido para além do seu objetivo fisiológico, que é nutrir. Isto leva a outra consequência: ou algo serve para adorar, ou algo serve para dar condições do ser humano adorar. Afinal, o que significa o ato da alimentação, se este ato não for um ato de adoração? Este ato significará que o ser humano está se alimentando para ter energia e assim adorar. O mesmo relaciona-se ao trabalho, ao transportar-se, à qualquer outra coisa.
No contexto cristão, isto significa que pode ser mais fácil para uma pessoa que vive no contexto de igreja ter uma vida de adoração a Deus, pois ela está no centro social desta atividade. No entanto, como sabemos que, para uma pessoa ser salva, basta que ela creia que Jesus é o salvador, significa que mesmo aquela que está longe do núcleo de adoração a Deus, por ter de adorar a outras coisas por causa do seu contexto social, ainda sim ela é salva. Cabe a ela encontrar, para seu próprio amadurecimento e através da ajuda do espírito santo, uma forma de converter aquela adoração a uma adoração a Deus, ou exercer aquela atividade não como um ato de adoração, mas como um ato de existência.
Aqui vai um lembrete: mesmo que externamente uma pessoa aparente adorar a Deus, este ato pode ser, na verdade, apenas algo que a leve para sua verdadeira adoração. Exemplo: uma pessoa que se curva para Deus, mas seu objetivo é conquistar fiéis para ganhar poder, sua verdadeira adoração.
Encerramento:
Meu objetivo ao criar um conceito de adoração tão genérico foi conseguir lidar com as religiões também de uma maneira genérica, mas conseguindo trazer as especificações necessárias para conseguir contemplar de maneira bastante precisa o cristianismo. Penso que essa conceituação pode ser importante no futuro também para que haja algum tipo de combate contra as práticas de aculturação que algumas lideranças tendem a fazer. Ou seja: para implementar o cristianismo, é preciso tirar as raízes culturais de um povo. Para mim isto não é nada razoável. Espero que um dia as religiões consigam conversar de maneira bastante tranquila entendendo a questão da hierarquia, sabendo que, no núcleo de toda religião está a busca a Deus. Afinal, imagino que seja certo o encontro de tipologias de Cristo em outras religiões. Em breve também pretendo escrever sobre dois conceitos que eu tenho visto como importantes: “a virtualização da jornada do herói” e “a polarização da jornada do herói”. Neste caso, vale até mesmo pensar em como a jornada do herói pode se encaixar com minha visão sobre os organismos sociais. Esta pode ser uma tarefa difícil, mas que talvez amadureça bastante uma coisa ou outra. Por fim, agradeço aos que chegaram aqui. Até a próxima postagem.