Bem vindos. Hoje iremos analisar a processo familiar de acordo com o processo de continuação. O conceito de continuidade surgiu através da observação da evolução, que tudo é continuidade de alguma coisa, adaptando-se de acordo com as necessidades e capacidades. Sendo assim, o interesse desta postagem será analisar a estrutura familiar de acordo com os preceitos da evolução, olhando através das gerações. Também utilizaremos as noções de forças sexuais, aonde o feminino e masculino são forças opostas e complementares que precisam de recursos e tempo para atingir seu ápice funcional. Afinal, a geração de vida passa pela negociação destas forças quando falamos em seres sexuados. Sendo assim, vamos dar inicio a postagem.
A família tradicional inicia-se com um homem e uma mulher, exercendo as funções de masculino e feminino, respectivamente. Tradicionalmente o masculino gasta a maioria dos seus recursos para manter contatos e ferramentas de produção. Ele adotou esta posição graças às características corporais que os hormônios masculinos atribuem ao homem, como mais agressividade e força, e no processo familiar ele entra como aquele que provém à maioria dos recursos. Já o feminino, por sua vez, acumula os recursos para si, embelezando-se para servir de recompensa para o masculino, como também utiliza sua força para trabalhos mais específicos, próprios de quem cuida do lar e das crias. A recompensa dela está contida nela mesma, mas ela precisa dos recursos providos pelo masculino para alcança-la.
Imaginemos que esta é uma família sem grandes inovações, que precisam competir na sociedade para prover e administrar os recursos. Dito isto, assumiremos que o casal teve condições de ter dois filhos, um menino e uma menina, de modo a dar prosseguimento ao processo de continuidade. O menino irá assumir o papel do pai, e a menina o papel da mãe, ambos vão se casar com filhos de outra família, de modo a dar variedade ao convívio familiar, mas, para nosso estudo, esta outra família será do mesmo tamanho, de modo a manter o número de pessoas no mundo constante. Assumimos também que não há acidentes. Estas hipóteses são importantes por causa da característica hereditária dos recursos familiares, que são parte importante da continuidade das características de uma família.
O menino, por precisar assumir o papel do pai em um futuro um pouco distante, começa a acompanhá-lo por tudo quanto é canto para aprender e desenvolver relações com os outros meninos, que acompanham e serão substitutos de seus pais em seus respectivos trabalhos, assim como desenvolver relações confiança, conhecimentos e contatos necessários ao trabalho. As meninas, em contrapartida, ficam em casa, para aprender seu trabalho específico de dona do lar, assim como aprender a como administrar bem os recursos para embelezar-se. É interessante perceber que neste exemplo, o feminino e o masculino são copiados com pouca variação, afinal, estamos num cenário de mundo estável, sem grandes mudanças tecnologias ou de paradigma social.
Durante a adolescência, inicia-se a fase de reprodução. Ambos os filhos do casal precisam utilizar parte do seu tempo para conhecer novos parceiros e dar inicio ao processo de formação de uma nova família. É preciso notar as diferenças de comportamento que o exercício tradicional das forças sexuais implica a cada gênero adolescente: o masculino tenderá a correr atrás, porque ele quer a recompensa. O feminino tenderá a esperar, por ela ser a recompensa. O masculino desenvolve formas de ataque pra conquistar o feminino, enquanto que o feminino precisará desenvolver formas de defesa para a integridade dos seus recursos manterem-se sólidos para serem quebradas apenas por um masculino forte e que tenha reais intenções de manter família com ela.
Este processo tradicional de reprodução foi atingido após várias e várias gerações de testes e de transição de conhecimento. Ele se baseia tanto na força do masculino de conseguir conquistar o feminino, através de seus conhecimentos de competição aprendidos por seu pai e direcionados pra menina certa através dos conhecimentos de feminilidade da mãe, quanto na força do feminino de defender seu acumulo de recursos, recebido do seu pai e formatado por sua mãe, para esperar o masculino que realmente queira formar família com ela. É uma espécie de negociação, que testa a força e a integridade dos recursos do parceiro que se pretende formar a família, para então dar prosseguimento ao processo de continuidade. O masculino que não conseguir atacar e o feminino que não conseguir se defender é deixado de lado neste processo, se reproduzindo tardiamente ou mesmo não conseguindo se reproduzir, ficando para “titia”, como dizem popularmente.
No nosso mundo hipotético, aonde cada casal tem apenas dois filhos, este comportamento de não conseguir se reproduzir significaria uma constante baixa na quantidade populacional, de modo que em algum momento a população seria reduzida a zero. Ou, caso forcemos que cada pessoa encontre seu par, teríamos uma situação de castas sociais. Isto porque, a cada geração, os casais irão se dividir em dois: os que tiveram sucesso em reproduzir-se, de modo que o masculino conseguiu atacar e o feminino defender tempo o suficiente para que eles desenvolvam um processo de formação familiar firme, e os que falharam, de modo que ou o masculino não conseguiu atacar, ou o feminino não conseguiu se defender. A falha na reprodução também significa uma falha na produção. Um pai ou mãe que falha não tem condições de ensinar sucesso ao filho ou filha, de modo que quem teve sucesso vai tender a continuar tendo através das gerações. É desta forma que duas castas irão surgir: aquelas que continuam o sucesso e aquelas que continuam o fracasso.
Obviamente, a realidade é bem mais complexa e rica de mecanismos. Porém, ainda dentro desta realidade, podemos explorar mais alguns conceitos. Para esta exploração, adicionaremos a possibilidade de “acidente”, que pode ser tanto negativo, de modo a incapacitar um pai ou mãe de transitar seu conhecimento com sucesso para seu filho ou filha, ou positivo, de modo a dar uma vantagem de ataque e de defesa para o filho ou filha, independente do conhecimento e recursos já estabelecidos. Como há a possibilidade de acidentes, é preciso também aumentar a taxa de reprodução para a população se manter constante, pois haverá pessoas que não vão conseguir se reproduzir, por serem fruto de algum acidente, e outras que irão reproduzir até por demais para compensar.
Com a adição dos acidentes, fica um pouco mais fácil imaginar como um processo de continuidade pode ser interrompido ou incrementado de maneira misteriosa e, às vezes, desequilibrada. Imaginemos uma família que por várias gerações tenha sucesso. Por um acidente, contudo, aquela família de sucesso experimenta a falta de capacidade de transmitir o sucesso aos seus filhos, como um pai ou mãe morto por exemplo. Metade do conhecimento, recursos e valores que faziam aquela família ir bem deixam de ser transmitidos, e os filhos vão experimentar a difícil tarefa de competirem sem esta metade. Podem conseguir ou não, tudo depende do tamanho do dano que aquele acidente representa. Ou, por outro lado, uma família fracassada pode experimentar um acidente benigno, de modo a dar vantagens de reprodução a ela. Neste ponto, é preciso que ela aproveite a chance para adaptar seu estilo de vida para aproveitar bem esta oportunidade.
Adicionaremos agora a violência. Com a adição deste recurso, cada indivíduo terá de ter mais algumas características: a sua capacidade de violentar, a sua capacidade de defender-se, e o quanto ele acredita no que ele faz a ponto de aguentar o sofrimento. Caso ele chegue ao máximo de sofrimento que ele consegue aguentar, inicia-se um processo de revolução da continuidade: não há modelo fixo para resolver. A pessoa pode decidir matar alguém, matar a si próprio, fugir de casa e não voltar, aceitar casar-se com a primeira pessoa que aparecer, dentre tantas e tantas outras possibilidades. Todas elas, contudo, altera abruptamente o processo de continuidade que estava sendo estabelecido por aquela família. Com a adição da violência, é também preciso pensar nas possibilidades de roubo, de mentira, de agressão física, etc. Vamos agora analisar alguns casos de continuação de uma família através com a adição da violência.
Sabemos que, no modelo tradicional, o pai é o responsável por prover recursos para a família. A mãe, por administrar e cuidar do lar. Com a adição da violência, a mãe pode mentir, o pai pode bater. Os filhos podem ser violentados por outras pessoas, de modo a se voltarem contra seus pais. Por exemplo: um filho ou filha encontra um modo de vida que parece ser mais fácil que o do seu pai ou mãe, mas estes, por saber a violência que há no mundo, tentam, a qualquer custo, desestimular que seu filho ou filha vá por esse caminho. Muitas vezes essa tentativa passa pelo crivo da violência física. A questão que a violência física desestimula até certo ponto, mas se o filho ou filha realmente acreditarem naquilo, esta violência não os impedirá. Uma tragédia, portanto, pode acontecer, pois sempre é possível agredir um pouco mais e não existe nenhum mecanismo de aviso de parada a agressão.
A violência física pode ser o suficiente para desestimular a aquela pessoa que deseja fugir de algum determinado processo de continuidade a prosseguir ao ponto de dar tempo o suficiente dela perceber que, aquele caminho que parecia mais fácil, na verdade, era algum tipo de armadilha, como roubo. No entanto, pode ocorrer que aquele sentimento de vida mais fácil seja realmente verdadeiro, afinal, existe os “acidentes” positivos, como anteriormente já mencionado. É preciso que haja bastante equilíbrio por parte dos responsáveis pelo processo de continuação para que a violência seja bem aplicada. De preferência, que não haja violência física, mas sim muita negociação e, no máximo, privação de relacionamento, que, por si só, já deveria ser uma violência forte o suficiente para fazer qualquer pessoa relacionada ao processo de continuidade repensar no seu caminho, caso este processo seja realmente saudável.
Por exemplo: se um filho ou filha decidir ir por determinado caminho e o pai ou mãe decidir privar-se de relacionar-se com ele, após tentar todos os mecanismos de negociação possível, essa próxima geração estará deixando de receber uma boa parte dos recursos e grande parte dos conhecimentos e valores que seus familiares podem dar a eles. Isto abre espaço para um processo de renovação ou de recuperação. Se a privação de relacionamento não funcionar, é porque aquele que está se privando do relacionamento tem pouco ou nenhum efeito sobre a vida daquela pessoa, então é preciso repensar sobre a função deste relacionamento em si, sobre as possibilidades de readequação e atuar de forma diferente, para fazer diferente se assim desejar ou buscar relacionar-se com quem sente a diferença com a relação.
No começo do texto atribuímos a função masculina ao homem e a feminina a mulher, justamente pelas características físicas de cada um, que permite que eles desempenhem uma função maximizada em determinados papeis. Porém, com o avanço da sociedade, surgiram trabalhos que se utiliza pouca força física, assim como, através dos métodos anticoncepcionais, parte da “integridade” feminina, de ser capaz de esperar pelo parceiro certo para então iniciar os procedimentos de reprodução, passa a ser redundante. Desta forma, a função tradicional do feminino e masculino perde suas características de fixação, e estas características passam a flutuar através de abstrações de comportamento mais modernas. Deste modo, um homem, heterossexual, pode exercer o papel tradicional da característica feminina, enquanto que uma mulher, também heterossexual, pode exercer o papel tradicional da característica masculina. Desta forma, a própria definição de masculino e feminino se abstrai para, simplesmente, forças opostas e complementares cuja negociação gera vida.
Com esta incrível quantidade de elementos que podem variar o processo de continuação, e ainda com a abstração das forças sexuais explicadas no parágrafo anterior, como lidar com tanta variação de comportamento? Esta é uma pergunta muito importante, pois é muito fácil as pessoas se esquecerem de que o mais importante da vida é encontrar meios de continuar vivendo. Há muitos que negam o processo de continuação por tão confuso que ele se tornou, ao não desejarem ter filhos. Há outros que querem cristalizar o processo de continuação no modelo tradicional, e outros que querem quebrar completamente tudo o que possa parecer com tal modelo. Há, inclusive, os que resolvem se suicidar, ou quebrar completamente qualquer lógica de continuação através da prostituição ou do roubo.
Ora, é preciso que cada um de nós pense que continuação somos, como fomos gerados, como nossos pais foram gerados, e o que vamos passar para as próximas gerações. O que acreditamos ser, de modo a aguentar o sofrimento e prosseguir. Cada ação é atrelada a um valor e a um recurso, e, quando pensamos nesta ação ao infinito, é que entendemos o que ela significa para o processo de continuidade, é quando vamos saber se realmente acreditamos e queremos dar continuidade ao que somos. Ou, caso não, remodelar-se, buscar ser diferente, recuperar-se, transformar-se, abrir-se ao novo. Deixar que acidentes aconteçam na vida, se agarrar aos bons e consertar os ruins, e assim reconstruir a continuação com respeito à vida. Abraço a todos.
PS: Existem dois exercícios o autor deste texto gostaria que o leitor fizesse.
O primeiro se refere na afirmação, "mas ela[feminino] precisa dos recursos providos pelo masculino para alcança-la[a recompensa contida no próprio feminino]". Que masculino é este que provem os recursos? Acaso pode haver, a depender do modelo, o feminino e o masculino dentro de um mesmo corpo?
O segundo se refere ao modelo básico de continuidade familiar, aonde cada casal tem dois filhos, um menino e uma menina. Como seria a política de habitação entre as gerações?