segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Tradutores de humanidade


     Tudo antes do nascimento de um ser humano assim como tudo depois da sua morte pode ser convergido em eternidade. Sendo assim, qual o significado do ínfimo sopro de existência que é um ser humano? Seria nenhum, se não fôssemos capazes de conceber a humanidade. Embora a humanidade também seja um ínfimo ponto de existência na eternidade, para o ser humano, ela é eterna, afinal, todo ele nasce e morre dentro da humanidade. Porém, diferente do ser humano, que é um vazio em busca do seu próprio preenchimento, a humanidade satisfaz a si mesma com sua própria existência.

    Ora, como não assumir que todo ser humano deve preencher seu vazio com humanidade? Pois o que de melhor haveria para o ser humano que se preencher de uma satisfação que em si mesma é satisfeita? No entanto, é notável que nem todo ser humano consegue encontrar a humanidade. Preenche-se da transformação, da estabilidade, do poder, do desejo, de tarefas, de fartura, de buscas enganosas, de bondade ou de malícia, mas não de humanidade.  O que seria então humanidade, se todas estas coisas são necessárias à vida, mas, em si, não possuem humanidade?

    Observemos como, durante o viver humano, as transformações estão presentes. Transforma-se a tecnologia, o comportamento, os conceitos, de modo que tudo parece novo a cada geração que se passa. Contudo, para a humanidade, todas estas transformações são contempladas por sua própria existência, afinal, quem transforma é o ser humano, que por sua vez está imerso na humanidade. Portanto, as transformações que o humano impõe na sua existência nada significam para humanidade, mas o que significam estas transformações em si?

    Para responder a esta pergunta, pensemos, porém, no significado da existência da humanidade. Assumimos que ela é tangível ao ser humano e que, por outro lado, as transformações efetuadas pelo ser humano não teriam efeito sobre ela. Assim sendo, porque não conceber a humanidade como algo imutável? Afinal, se o direto uso da humanidade é feita pelo ser humano, mas ele em si não consegue transformá-la, o que mais conseguiria? Portanto, a humanidade para o ser humano é imutável assim como a existência para humanidade também o é.

    Embora não tenhamos respondido exatamente o que é a humanidade, descobrimos uma característica sua. Ao unir esta característica com a constatação anterior de que o ser humano deve se preencher dela para satisfazer seu vazio, é possível concluir que as transformações efetuadas por cada ser humano durante sua existência nada mais é que traduzir a humanidade para seu tempo histórico. Ou seja, a humanidade é algo que deve ser trazido para realidade através da busca humana, por cada ser humano, adaptando-a aos comportamentos, à geografia e às tecnologias, aos conceitos específicos daquele tempo que ele existe.

     Ou seja: a humanidade pode estar em tudo aquilo buscado ou produzido pelo ser humano, desde que esta busca ou produção tenha como motivação trazer a humanidade para a existência. Desta forma, coisas que antes eram vazias, como descrito anteriormente, tornam-se cheias de satisfação, e nisto está incluso o próprio ser humano. Quando uma sociedade não está preocupada em traduzir a humanidade para seu tempo histórico, ela fatalmente decairá em sofrimento ou, no máximo, manterá a humanidade herdada. No entanto, quando o contrário acontece, ela viverá uma ascensão de grande satisfação em sua existência.

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