O viver em uma hora
Abri os olhos como se tivesse despertado de um terrível pesadelo, mas não era apenas isso. Nele havia o algo misterioso que faz nossas mentes diferenciarem as ilusões da realidade. Ele é real, e o mundo irá acabar daqui à uma hora. Sentei-me no sofá sem esboçar nenhuma outra expressão facial além daquela que busca não acreditar naquilo que sua mente acabará de descobrir: o mundo irá acabar em menos de uma hora a partir de agora.
Levei minhas mãos à cabeça, talvez uma tentativa de não fazê-la explodir, talvez uma tentativa desnecessária, pois os pensamentos começam a se atropelar de tal forma que não consigo concluir nenhum deles. Meus pais? Meus amigos? Meus projetos? Droga! Nem ao menos tive tempo de ter uma família, ter uma esposa. Não! Preciso fazer alguma coisa. Mas o que? Não importa, preciso fazer alguma coisa.
Contar a alguém? Ninguém acreditará na minha verdade, e mesmo se acreditassem, não há nada que possa ser feito para evitar este fim. Ele virá, algo programou minha mente a não acreditar em outro destino. Que outra coisa eu faria? Fazer aquilo que sempre desejei? Construir uma família, aprender a atirar, criar um universo de RPG, gerenciar um projeto que ajude o mundo. Nada disto pode ser feito em menos de uma hora.
Não é que eu deseje apenas coisas trabalhosas, mas tento mantê-las em prioridade na minha mente. Existe uma ou outra coisa que possa ser realizada a curto prazo com os devidos recursos ou a devida sorte, mas estas eu apenas espero acontecer, e quando acontecem, as aprecio adequadamente. São coisas simples: um bom lugar, uma boa comida, disputas amigáveis e competitivas, filmes, músicas, pessoas.
Mas nenhum destes prazeres mundanos parecem ter sentido agora, nem mesmo o beijo de uma agradável mulher. O mundo irá acabar, merda! Olhei a minha volta, apenas minha sala, com o televisor, sofá, computador, varanda, tapete pendurado na parede. Este tapete me custou uma nota e é incrivelmente bonito e confortável. Tirei-o da parede e o puis no chão, deitei-me nele. Sei que isto não faz o menor sentido, e todo meu prazer se converte em dor ao lembrar que o mundo vai acabar. Preciso fazer alguma outra coisa, vou buscar isto em outro lugar.
Levantei-me pra ir à rua e logo cheguei a ela. Toda aquela vida pulsava de forma tão harmoniosa, seguindo todas as leis e condutas sociais construídas através dos milênios de desenvolvimento tecnológicas. O direito a expressão, a liberdade, a igualdade, tudo se desenvolvendo junto com a imprensa, a eletricidade, a computação. Ao mesmo tempo tudo tão caótico na cabeça destas pessoas, cercadas por seus problemas, desafios, qualidades, construções, prazeres, dilemas, defeitos, conhecimentos, amores, medos. Cada uma delas se esforçando para fazer o melhor que sua realidade a permite e se adequando ao fluxo da vida.
Eu perdi as forças das pernas e sentei no chão da calçada num rápido movimento sem jeito. Meus olhos já lacrimejavam ao perceber a interrupção do desenvolvimento coletivo e individual da sociedade. Nada restará! Todo e qualquer esforço se perderá completamente. Isto certamente é o pior de todos os cenários humanos, pois mesmo aqueles que morrem na pior das circunstâncias deixavam algum legado para a sociedade, alguma prova de sua existência no universo. Foi inevitável deixar algumas gotas de lágrima cair dos meus olhos.
Em volta observei as pessoas seguindo pela calçada. Elas percebiam minha situação e pareciam querer ajudar, mas o estilo de vida atarefado destas pessoas as fazia não ter disposição para ajudar um desconhecido. Sei disto pois já passei por esta situação, vendo as pessoas com problemas mas estando ocupado de mais melhorando minha vida que já poderia ser considerada boa. Agora nada do que foi construído por mim poderá ser usado para diminuir este sofrimento, logo ele que sempre me fora útil para mostrar onde eu deveria melhorar para evitá-lo, mas neste caso, de que adianta sofrer tanto? Nada mudará o final.
Levantei-me novamente, enxuguei as lágrimas, limpei a mente. Não há muito o que fazer, vou apenas andar. Peguei a chave do carro e comecei a dirigir pela cidade. Desviei minha atenção da pista e verifiquei no celular que já havia passado quinze minutos desde que o fim me foi revelado. Ao voltar minha atenção para pista novamente, percebi uma mulher com o mesmo olhar desesperado que o meu há alguns minutos atrás. Parei o carro imediatamente provocando o susto e as buzinas de muitos motoristas, desci e fui em direção a ela.
- Você está bem?
É bonita o suficiente para eu me apaixonar caso descubra que ela é uma boa pessoa. Ela balançou a cabeça como quem tenta afastar alguns pensamentos, ou pô-los no lugar.
- Não sei... Não há como saber, ou o que fazer.
Demorou alguns instantes para perceber o que eu fizera por ela, foi quando ela tomou a iniciativa do diálogo.
- Quem é você? Porque quer saber sobre mim?
Os carros ainda buzinam, preciso saber se o fim também foi relevado a ela.
- Te foi revelado algo hoje que mudou sua vida?
- Sim.
- O fim?
- A você também?
- A mim também. Isto é confuso, não? Suba no carro, vamos conversar.
Ela aceitou meu convite imediatamente. Ao entrar no carro, não mais me sentia solitário por ser o único a ter percebido o fim. Sentia que agora estava conectado a alguém neste evento tão extraordinário, e imagino que ela também sentia isto.
Um pouco após ter dado partida no carro, começa o nosso diálogo.
- Então você também sente o fim?
- Sim. Estava em casa quando ele me foi revelado. Foi algo absurdamente estranho, solitário, desesperador. Demorei pra processar e me acostumar a esta nova realidade.
Ela deu um longo suspiro.
- Ainda estou tentando me acostumar, mas se quer saber, não sei se vale o esforço já que nos restam apenas uns quarenta minutos. Descobri enquanto estava atendendo uma cliente lá na loja de roupas em que trabalho. Foi algo que invadiu minha cabeça e eu apenas sentei e chorei. A atenção de todos voltou-se a mim, ofereceram-me água e perguntaram o que era, se havia algo que podia ser feito. Foi assim que eu percebi que apenas eu senti isso, foi quando eu me senti tão sozinha... Saí de lá e tava indo pra casa, quando você chegou.
- Não temos muito o que fazer agora, não é?
- Tudo mudou, embora tudo pareça igual. Realmente não temos mais nossas obrigações, mas eu desejo ir à praia pela última vez, e terminar meu dia lá.
- Porque deseja isso?
- É um desejo meu voltar lá desde muito tempo, mas o emprego e os estudos me impediam. Pra mim não existe lugar melhor que a praia, vivi muitas emoções boas lá durante a infância, e é um lugar incrível para se estar em contato com a natureza.
Entendi seus sentimentos. Eu, por exemplo, me tornei programador graças às boas lembranças e ao clima mágico em torno da matemática e da lógica que meu pai criou pra mim. Dizia que tudo poderia ser traduzido em números e em propriedades lógicas, só não especificou o quão trabalhoso isto era, porém, as boas lembranças e um futuro satisfatório me fizeram continuar nos estudos. Já estava satisfeito quanto ao modo e a qualidade da minha sobrevivência, faltava-me agora uma família. Imagino que esta mulher, embora não pareça tão diferente de algumas outras que eu já conheci, tenha algo que a faça semelhante a mim, o que talvez explique o fim ter se revelado apenas a nós dois entre muitos. Se ele não tivesse tão próximo, acredito que ela se tornaria uma boa mãe para meus filhos, e uma boa mulher para mim.
- Tudo bem, vamos à praia.
- Você faria isto por mim?
Ela está muito surpresa e seu semblante demonstrou alguma animação que, de algum modo, mesmo naquele momento, foi irradiante.
- Sim. Como já disse, não tenho muito o que fazer deste restinho de vida, e seu desejo é bom a ponto de também se tornar o meu.
- Isto me deixa muito feliz. Mas lembro que a viagem durava pelo menos quarenta minutos.
- É verdade, deixe-me pensar um pouco.
Qualquer que seja minha escolha, precisarei de dinheiro.
- Vamos ao banco aqui perto fazer uma retirada enquanto eu penso em algo.
- Tudo bem.
Ela aceitou enquanto pedia permissão para ver meus CDs, concordei, e a viagem até o banco foi preenchida com comentários sobre as músicas e as lembranças que elas traziam. Não demorou mais que cinco minutos, tenho sorte de morar numa capital bem organizada, o que também me permitiu dirigir em alta velocidade. Ao chegar no banco, fui direto ao gerente explicar a retirada da alta quantia de dinheiro.
- Tá vendo aquela moça?
- Sim.
- Quero fazer a surpresa mais incrível da vida dela, vou pedi-la em casamento. Quero fazer uma retirada alta de dinheiro para isto.
O gerente se surpreendeu. Conhecia-me das minhas visitas para a manutenção das economias da minha pequena e inovadora empresa de softwares e jogos. Sempre tivera uma imagem de que eu fosse consciente do uso do meu dinheiro, e permitiu que eu retirasse apenas o meu fundo pessoal de economias sem maior burocracia, o que era o suficiente para o que eu planejei.
Estávamos eu e ela indo em direção ao aeroporto. É fácil perceber que ela está com um olhar curioso quanto ao nosso destino. Logo surgiram as perguntas, contudo, para trazê-la a empolgação da surpresa e evitar a frustração de expectativas não atendidas caso eu não conseguisse, preferi manter segredo. Já no interior do aeroporto, sugeri que ela se sentasse enquanto ia em busca da surpresa.
- Olá, você é piloto de helicóptero, certo?
- Sim senhor. Sei bem como dirigir estas belezinhas. E você, quem é?
Falou enquanto dava uma tapinha no helicóptero ao lado.
- Muito bem. Sou alguém que precisa desta sua habilidade com urgência.
Mostrei a ele a pequena fortuna que foi retirada do banco e estava em minha mala.
- Hooow, então é algo sério, hein?
- Muitíssimo. Não tenho muito tempo, mas te dou metade disto agora e metade disto quando chegarmos ao destino final, que fica certa de 40 minutos a carro daqui.
- Vamos partir agora, senhor?
Ele não pensou duas vezes. Quaisquer que fossem as punições por fazer uma decolagem não autorizada como aquela seriam facilmente remediadas por aquela quantia de dinheiro. Acenei positivamente com a cabeça e fui buscar minha companheira, que estava sentada e veio em minha direção ao me ver.
- Estou ansiosa.
- Vamos.
Puxei-a pela mão e ela se surpreendeu com o helicóptero e a ventania que empurrava seu corpo para trás. Sentamos, entreguei parte do dinheiro a ele, informei o destino através do GPS, equipamos os protetores auriculares e começamos a viagem. A previsão de chegada ao destino era dez minutos, já que o helicóptero não enfrenta as mesmas resistências que o carro, como trânsito ou desvios e curvas que alongam o caminho. Nossa viagem foi fantástica. Era assustador pensar que não há nada além do piso e das paredes do helicóptero para evitar uma queda fatal, mas não ao ponto de tirar a sensação prazerosa de ver tudo do alto. Devido à empolgação, suponho, ela segurou firme a minha mão e não a soltou durante toda viagem. Aquele definitivamente não era um momento para ter pensamentos ruins. Apenas apreciei.
O piloto encontrou um morro relativamente plano de pedras e resolveu pousar ali, que era bem próximo a faixa de areia da praia. Paguei o prometido e desembarcamos do avião, eu e ela. A descida até a praia foi algo bastante divertido, pois tivemos que escalar e pular várias pedras, o que aumentou ainda mais nossa intimidade corporal porque tive muitas vezes que pegar em suas mãos e cintura. Ao chegar à faixa praieira, sentamos um ao lado do outro apreciamos o cenário. Fim de tarde, sol se pondo e colorindo algumas nuvens densas com um vermelho alaranjado que fazia contraste ao azulado do céu. A brisa balançando os vários coqueiros que produziam um som que se misturava com os das ondas.
Ficamos alguns instantes em silêncio, apreciando a beleza daquele lugar. Eu já estava pensando em algo para falar e assim evitar os pensamentos ruins, até que ela me perguntou.
- Eu estudo e trabalho com moda, e você, o que faz?
- Sou programador e tenho uma pequena empresa de software.
- Você está bem em forma para o estereótipo de programador, hein?
Sorrimos com esta constatação curiosa.
- Obrigado, tento manter uma vida equilibrada.
- Sabe, eu escolhi a moda porque imaginei que através dela eu poderia ajudar as pessoas a se explorarem e descobrirem que podem ser melhores que imaginam, principalmente aquelas que tem coragem o suficiente, ou nada a perder, para mudarem e experimentar coisas novas. Mas existem muitas pressões da minha empresa para fazer as pessoas se sentirem bem apenas com o que é mais caro. Eu não concordo com isto, mas ela é mais forte que eu, e se eu não o fizer, perco meu emprego.
Ela se levantou, ainda estava com seu uniforme de trabalho.
- Não quero morrer com esta roupa que representa aquela empresa.
Ela se despiu de sua blusa e calça e jogou as peças ao vento, ficando apenas de calcinha e sutiã, ambas rendadas, algo que eu não pude deixar de achar sensual. Enquanto ela via suas roupas se distanciando com vento, levantei e peguei em suas mãos para obter sua atenção.
- Você é uma mulher incrível.
- Obrigada.
Respondeu-me olhando diretamente nos olhos e segurando minhas mãos com firmeza. Não resisti a este contato, peguei-a pela cintura, colei seu corpo ao meu e a beijei. Não demorou muito para que eu me despisse e jogasse as roupas ao vento também, deitamos no chão. Entreguei-me completamente a ela, tanto em corpo quanto em pensamento, e o frio da brisa praieira não era mais problema.
O sol se pôs pela última vez.
Por: Leandro de andrade Moura
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