domingo, 7 de fevereiro de 2016

Sistemas de classificação e a objetificação do ser humano

Durante meus estudos independentes de psicologia, surgiu-me a necessidade de classificar os seres humanos. Este ser humano é alto, aquele é baixo. Este humano é pobre, aquele é rico. Este é inteligente, aquele burro. Este humano está acima da média, aquele abaixo. Classificações como estas são comuns quando se desenvolve sistemas de classificação para estudos da realidade. Afinal, um físico precisa saber se está lidando com um objeto líquido ou sólido em seu sistema para fazer suas previsões.

Contudo, observo algo interessante quando comunico as pessoas meu sistema de classificação dos seres humanos. As pessoas apresentam certa aversão ao sistema de classificação. A alegação mais significante era a de que o ser humano é muito mais do que qualquer classificação pode exprimir, cada ser humano é único. Esse tipo de afirmação me causava certa estranheza, já que quando observados um objeto e determinamos se ele é sólido ou líquido, a argumentação de que “cada objeto é único” também pode ser aplicada, já que cada objeto tem seu arranjo único de átomos tal como o ser humano, mas ninguém sente aversão a este tipo de classificação.

Então surge o mistério de explicar o que causa a aversão nas pessoas quanto a classificação dos seres humanos. E aqui vemos claramente o poder da mente humana, com sua capacidade de fazer associações implícitas que, com muita dificuldade pelo menos pra mim, podem ser traduzidas com alguma precisão para a linguagem humana. Neste caso, explico esse fenômeno psicológico como a “aversão da objetificação ao ser humano”. Segue a explicação.

Quando se tenta objetificar o ser humano através de classificações, excluí-se o maior atributo de todo ser humano: estar vivo. Isto porque um ser humano é vivo, mas um objeto é morto. Um objeto é o que é e assim o será até que algo ou alguém o mude, mas não uma pessoa. O poder de transformação está dentro dela, e quando um agente externo a classifica como “rica ou pobre, inteligente ou burra, acima ou abaixo da média”, este agente simplesmente está ignorando este poder e transformando-a em algo morto. E isto explica a aversão apresentada à classificação de seres humanos, já que é comum ao ser humano não se sentir a vontade diante da morte. O mesmo não acontece à classificação de coisas que já são objetos, como o exemplo do estudo físico citado anteriormente.

Sinto-me satisfeito diante desta definição deste fenômeno, tanto pela demonstração de poder de associação implícita da mente humana como também por ela me sugerir um modo de evitar essa associação e continuar meus estudos. O próximo questionamento a ser feito é: supondo que se consiga desenvolver um sistema de classificação de ser humano que consiga respeitar que o ser humano seja vivo, porque desenvolver isto? E é aqui que entra as implicações sobre o estudo da realidade.

Porque nos preocupamos em classificar um objeto em seu estado líquido ou sólido? Ora, para melhorar nossa capacidade de observação e comunicação. Classificar em si não diz muita sobre a realidade, mas a argumentação feita através de objetos definidos através da classificação diz. Por exemplo: “isto é líquido” não diz muita coisa sobre o objeto, mas “todo objeto líquido adquire a forma do seu recipiente” diz. O mesmo se aplica aos seres humanos. Classificamos pra aumentar nossa capacidade de comunicação e observação. Não é um erro classificar, mas sim achar que a classificação mortifica alguma coisa. A classificação é viva, pois ela depende de um ser vivo, neste caso o ser humano, para validá-la ou não. Afinal, quem torna a frase “todo objeto liquido adquire a forma de seu recipiente” verdadeira senão um ser vivo?

No final precisamos acreditar em nós, na nossa capacidade de observar, comunicar e de ser vivos. É preciso classificar a realidade para poder tomar decisões, aprender, ensinar, prever, adotar todos os benefícios que uma realidade bem classificada possa oferecer aos seres vivos que se preocupam em classificá-la, como resolver problemas e viver melhor. Claro que todo sistema de classificação tem sua distância da realidade, e essa distância deve ser conhecida e respeitada, mas isto não invalida os benefícios do estudo. Por exemplo, é dito que todo líquido adquire a forma de seu recipiente, mas não é dito o quão veloz ele faz isto.

Todo ser vivo deve ser livre para aceitar, rejeitar ou aperfeiçoar quaisquer sistemas que lhe é oferecido, assim como criar o seu próprio de modo a comunicar melhor à realidade que ele observa. Portanto, usemos essa liberdade com sabedoria, para aprendemos a resolver nossos problemas e encontrar os caminhos para a vida. Com isto em mente é que eu irei continuar com meus estudos do ser humano, sabendo que nenhuma classificação terá poder para definir exatamente o que um ser humano é, mas entendendo que é preciso ter alguma coisa, mesmo que imprecisa, para tirar minhas conclusões, organizar o que sinto e observo e conseguir desenvolver formas de prever e tomar decisões com base em algo mais estruturado que apenas a sensação.

Nenhum comentário: