Introdução:
Olá amigos. Realmente faz um bom tempo que eu não escrevo, inclusive está quase acabando o mês. Não estou só distanciado de escrever, mas também das minhas teorias. Estou vivendo um pouco mais o lado prático da coisa agora, aprendendo a jogar league of legends e terminando de assistir algumas séries ou de fazer coisas que antes eu queria. Mas isto não significa que eu tenha abandonado o pensamento em si. Continuo observando as coisas e tenho sentido comportamentos interessantes durante a competição no LOL. Acredito que isto me enrique muito como pessoa, e também ajuda a aprofundar minhas teorias acerta do ser. Pretendo escrever sobre isso hoje e publicar um novo conto que eu fiz inspirado nas minhas idéias sobre desejo, vontade e manipulação do instinto através do raciocínio. Alias, se um dia eu realmente for publicar um livro, botarei alguns contos. Antes, gostaria de relatar que, por me concentrar demais em competição e por falta dos devidos investimentos, acabei abandonando meu programa de exercícios físicos. Próximo ano, com a chegada dos resultados do vestibular, eu terei o que é preciso para voltar a fazê-los. Agora, vamos à postagem.
Reflexões acerca do ego e minhas experiências:
O título dessa postagem é o parecido com o desse vídeo (link aqui), que foi passado por meu amigo dias atrás mas que só agora fui ver. Por coincidência, tenho tido experiências nos jogos que me iriam me motivar a falar sobre esse assunto, o ego. Nunca dei importância as teorias psicológicas consolidadas na academia científica por sempre pensar que o conhecimento devia vir a partir do momento que eu tivesse capacidade de percebê-lo ao meu redor, e parece que isto está acontecendo agora com o Ego. Pela primeira vez em muito tempo, eu senti meu ego batendo forte durante alguma ocasião, e essa ocasião foi durante as competições no League of Legends.
Sempre relatei aos meus amigos, e acredito que tenha algum registro disso aqui no blog, de que a psicologia evolutiva esmaga o ser. Na verdade ela esmaga o ego, porque põe o humano frente-a-frente com o que ele realmente é, com a verdade. Embora seja complicado definir o que seja verdade por causa dos sistemas humanos, que são um tanto mais complexos, eu geralmente assumo, desde aquela época, que verdade é a relação entre fator-resultado. Ou seja, quando eu aplicava verdade em psicologia, buscava saber quais fatores fez o humano se tornar o que é, não simplesmente assumia que o tal pessoa é como é porque é. Isso me deu um distanciamento dos sentimentos, tanto bons quanto ruins, porque eu apenas via uma relação de fator-resultado, nada além disso. Contudo, o ego é algo que vai um pouco além do fator-resultado, porque ele é a expectativa do fator-resultado que deseja ser alcançada independente da realidade. De certo modo, abandonar a expectativa de fator-resultado é abandonar o ego, já que a expectativa pode ser traduzida em desejo, foi isto o que eu acabei fazendo durante algum tempo.
Foi interessante notá-lo com força durante os jogos de LOL. Aconteceu da seguinte forma: eu ainda estou em processo de aprendizagem, portanto, ainda cometo muitos erros por falta de noção de tempo e posicionamento. Contudo, eu não jogo sozinho e com outras pessoas. Essas pessoas querem vencer, elas querem muito isso porque o tempo e esforço delas estão sendo investidos na partida. Elas querem se sentir bem com o gosto da vitória e da conquista. Porém, elas vêem a sensação essa sensação sendo perdida por causa de outra pessoa, e isso causa raiva nelas. É quando ocorrem os xingamentos a pessoa, e não ao fator-resultado, ou seja: é quando ocorrem os xingamentos ao ego. Eu tinha consciência do meu timing errado, bem como do posicionamento errado, e já estava trabalhando em melhorá-los. Já estava buscando formas. Mas a questão é que o ataque é a pessoa, não ao método. Ignora-se tudo o que a pessoa está trabalhando e ela simplesmente é chamada de “lixo” por cometer alguns erros.
Percebam então que se inicia uma disputa de egos. O ego de quem joga bem desenvolve uma expectativa de que vai ganhar o jogo, porque ele se esforçou e buscou as melhores formas de jogar e alcançar esse objetivo. Contudo, quando ele se depara com algum fator que o fará perder, algo que ele não deseja, ele sente raiva, e por impulso da raiva deseja destruir aquilo que o faz perder. O método que ele utiliza para destruir nesse caso é a agressão moral, que deseja atacar diretamente o ego da pessoa que ta fazendo o time perder. A pessoa que está perdendo e tem seu ego atacado moralmente busca se defender, porque ela sente que todas as habilidades que ela já adquiriu no jogo, que a fazem ser boa também, estão sendo ignoradas. Ela busca se defender atacando também o ego da pessoa que está ganhando, como acusar que só errou porque ele errou também, ou buscando algum defeito que não esteja sobre o domínio do seu ego para justificar os erros, como velocidade de conexão lenta, seleção de campeão ruim, time adversário muito forte contra aquele campeão, ou alguma coisa do tipo. Obviamente não existem apenas esses desfeches no conflito de egos, mas são os mais comuns. É possível notar que durante todo esse conflito o objeto final era um só: alcançar o que se deseja. Nesse caso era se sentir um bom jogador, não um jogador ruim.
Nenhum momento houve uma discussão baseada em fator-resultado durante o conflito entre os egos. Ou seja, em nenhum momento ambos os jogadores buscaram analisar o que estava fazendo quem ganhar, ganhar, ou quem perder, perder. Houve apenas acusações do que poderia ter sido feito no mundo de expectativas criado pelo ego de cada uma das pessoas. Uma fica dizendo que a outra poderia ter jogado melhor no que ela acha que poderia ter sido feito e não em consideração sobre o porquê aquela pessoa não fez aquilo. Quando leva, simplesmente assume que ele não fez porque é ruim, mas não busca realmente entender a relação entre fator-resultado que gera aquilo que ela deseja. O ego simplesmente assume que já sabe, porque fez algo parecido em algum momento mesmo sem saber como. Podemos perceber, inclusive, que o ego não se monta baseado no nada, mas sim num conjunto de experiências anteriores que se associam para projetá-lo naquilo que ela deseja. A idealização é alimentada quando, vez ou outra, por coincidência, o ego alcança o resultado que deseja já que ele é baseado em experiências anteriores idealizadas. Contudo, isto não é feito de modo consciente, pois a pessoa não busca entender toda a relação de fator-resultado que baseia aquilo que ela deseja.
O real problema da falta de consciência é esse: o ego se adaptar a um ambiente idealizado demais. O complicado disso é que, por exemplo, numa batalha do LOL, enquanto houver disputas de egos, não haverá o avanço da melhor maneira possível. Informações serão trocadas, mas informações imprecisas e manipuladas pela idealização do ego, tanto por parte de quem emite quanto por parte de quem recebe. A coisa não vai rolar tão eficiente quanto poderia ser, o esforço será mal empregado, sentimentos ruins vão ser invocados com mais freqüência que os bons devido a adaptação má estruturada. Um exemplo: durante uma partida de lol, o time sente que vai perder. A tristeza acontecerá por si só, porque perder não é o que eles desejam. Contudo, se junto a tristeza vier o sentimento de raiva, e esse sentimento for empregado em buscar um culpado, como o ego deseja, e não uma solução, haverá brigas e mais brigas e ninguém chegará a nenhuma conclusão. Caso contrário, um ego conscientizado iria buscar uma solução real para melhorar o desempenho do time, e o que antes seria motivo de acusações de culpa só se torna mais uma característica a ser melhorada entre tantas e tantas.
Eu busco construir um desejo consciente, desejar aquilo que eu sei que sou capaz por meio de associações ou analógicas, só falta esforço ou buscar outros modos. Neste caso, sei que sou capaz de me tornar bom no LOL, e estou me esforçando para isso. Eu quero isso porque é bom competir, deixa a mente afiada, acostuma ao esforço, aos erros e acertos. Contudo, durante uma dessas partidas, que foi a que eu me entreguei ao ego, o cara me chamou de lixo e eu resolvi revidar, embora soubesse que tanto eu não era o lixo, como ele não estava falando aquilo baseado em alguma linha de raciocínio, estava falando apenas por raiva. Revidei atacando seus erros, que é uma das formas padrões desse tipo de conflito se desenrolar. Realmente senti nessa ocasião que eu estava emitindo informações imprecisas, mas que eu tive que fazer para poder sustentar o ponto de vista forte que meu ego desejava para eu não me sentir ruim e fazer o cara se sentir ruim. Ou seja, eu me lembrava de algo mais ou menos parecido com o que eu tava falando, mas eu falava mesmo assim com firmeza pra não dar chance dele dizer que foi diferente, chegou a ser próximo da mentira. Isto não é necessariamente saudável, mas foi o que aconteceu. No final, a batalha nem tinha mais importância porque já estava perdida, o foco era a disputa de egos. Agora, pouco me lembro da partida, dos personagens ou quem foi o cara com quem discuti. Não devo ter aprendido muita coisa além da experiência de confronto em si, assim como ele.
Antes de encerrar esse tema, gostaria de fazer alguns acréscimos relacionados a ele: é um pouco difícil entender todos os fatores relacionados com um resultado. Tenho um amigo que ele se adaptou muito rápido ao LOL, mas ele já veio antes de jogos de PVP. Já outro amigo demorou bastante pra se adaptar ao LOL, esse jogou poucos jogos PVP, que são os de confronto entre os jogadores. Acredito que a experiência de outros jogos no estilo seja favorável a uma adaptação mais fácil, já que já se sabe o padrão de comportamento de jogadores, não do jogo em si, e se explora isso, como os erros. Esse amigo que se adaptou bem era bastante agressivo e se aproveitava muito dos erros dos outros jogadores, não do conhecimento da mecânica do jogo em si. Ela ser boa no jogo por ter experiências em outros jogos não invalida ela ser boa, apenas justifica. Do mesmo jeito, esse meu amigo que se adaptou lentamente ao jogo não pode ser chamado simplesmente de ruim, é fazer uma comparação entre os estilos de obter o resultado para descobrir o que um tem e o outro não, daí então se desenvolver um projeto pra alcançar isso também. O que falta nesse amigo nesse caso é agressividade, ele foca demais no estudo teórico da mecânica do jogo e cometia erros da dinâmica que acontece, mas que não se específica em teoria, como o tempo de ação, por exemplo. Esse amigo que ganhava bastante tinha um ego bastante idealizado. Quando perdia o jogo nunca era culpa dele, mas quando ganhava, era ele que tinha carregado o time para a vitória.
Conto:
Os chocolates e a existência
Eu adoro chocolates. Chocolates são muito bons. Minha casa é cheia deles. Estão em todos os cômodos. No quarto, no banheiro, na cozinha, na sala de estar. Vários tamanhos, formas, embalagens e sabores. Eles já fazem parte da decoração da minha casa. Li em uma pesquisa que neles há substâncias que estimulam os hormônios do prazer ao chegarem ao cérebro. Não sei se é por causa disto que eu os gosto tanto, mas como-os sempre que posso, sempre que quero me sentir bem. Muitas pessoas me criticam por este meu hábito. Sustentam-se no fato de que este excesso não é bom para a saúde.
No começo eu ignorava isso, mas agora já vejo as conseqüências. Engordei muito. Agora sinto dificuldades de fazer quaisquer tipos de atividade física. Pior, preocupo-me com minha saúde. Provavelmente viverei menos se continuar nesta condição. Não quero isto. Como chocolates para me sentir bem, mas para isso também preciso estar viva. Sem contar que preciso fazer outras coisas para me sentir bem. Já notei que o efeito prazeroso do chocolate passa caso seja consumido demais. Suponho que seja o mesmo mecanismo das drogas convencionais: quanto mais se usa, mais é necessário usar para que o mesmo efeito surja novamente. Está decidido, vou parar de comer chocolates, mas não posso simplesmente parar, eu já tentei. O desejo fala mais alto. Se eu depender meu bem-estar apenas deles, estou condenada.
Preciso descobrir como fazer isto para não dar errado como na ultima tentativa. Algo me fez comê-los, talvez se eu descobrir o que foi poderei mudar a causa e então a conseqüência. Comecei a comê-los por puro acidente. Um dia eu estava triste e buscando algo para me animar. Comi uns chocolates que estavam perto dali. A tristeza era por algo que eu não lembro mais, mas adotei o costume. Recorria a eles na maioria dos momentos que não estavam ao meu agrado. Logo comecei a deixar de ligar para as coisas que me deixavam tristes ou buscar coisas para acabar com o meu tédio. Substitui as atividades saudáveis, porém difíceis, por chocolate. Acho que sem perceber entrei em um ciclo vicioso e agora estou presa. Abandonei tudo o que me fazia bem e dava prazer por algo que dá prazer com facilidade, mas que não faz bem.
Estou onde estou por buscar facilidade sem pensar nas conseqüências. Agora começarei a buscar dificuldade pensando nas conseqüências, que neste caso será a saúde. Busco saúde, este é meu desejo agora. O que faço? Não é algo tão fácil. Exatamente, não é fácil, mas é saudável. Começarei por um esporte, depois uma dieta, e depois novos projetos para ocupar o tempo livre. Arte, estudos, entretenimento, algo que eu deseje a ponto de substituir o desejo que tenho por chocolates. Não será fácil descobrir isto, mas buscarei. Existem muitas coisas neste mundo, alguma delas há de despertar meu desejo mais que comer chocolates. Inclusive, já sei por qual esporte começar: futebol. Comprarei uma bola.
Quando criança, nas reuniões de família, meus tios costumavam organizar um enorme futebol para todas as crianças se entreterem. Formavam-se os times. Minhas primas jogavam muito bem, coisa pouco comum para meninas naqueles tempos. Isto, talvez, tenha motivado o meu desejo por jogar igual a elas, que de tão boas os primos faziam até questão da sua presença no time. Mas eu tinha pouca oportunidade para jogar futebol ao contrário delas. Contentei-me com minha situação e nunca tentei jogar. Acordarei este desejo. Encontrarei formas de realizá-los, afinal, não é algo impossível já que eu vi tantas pessoas fazendo. Entrarei numa escola de futebol. Aproveitarei e já iniciarei desenvolvendo um novo regime alimentar, próprio para o desenvolvimento saudável.
Como isto é difícil, tive que procurar um nutricionista. Ele me falou que terei que readequar meu paladar, pois o gosto da comida ruim é meu corpo estranhando a novidade e logo aprenderei a apreciar tais sabores. Talvez o corpo humano tenha certas tendências, como apreciar coisas doces ou gordurosas. Uma explicação para isto seria nossos antepassados terem passado muitas crises alimentar, e aqueles que comiam todo doce e gordura que encontravam sobreviviam mais. De qualquer forma, o nutricionista me garantiu que eu apreciarei os novos sabores assim que eu me acostumar com eles e perceber o quanto são uma boa opção alimentar. De certa forma, estou olhando o chocolate agora com certo receio enquanto que antigamente o olhava como algo maravilhoso. Se eu transformei algo tão bom em algo médio, existiria algum motivo para não conseguir transformar algo médio em algo bom?
Comecei a treinar futebol. Ai! Como eu sou ruim. As garotas preferem não me escolher. Eu as entendo, elas querem ganhar. É comum ouvir delas que eu não deveria estar ali, estou atrapalhando o ritmo de treino, a dinâmica de jogo. O professor me apóia e umas poucas também. Sou atenciosa, mas é a primeira vez que jogo com todas as regras e preposições táticas. É quantidade razoável de informações, algo que se torna um problema já que até dominar a bola é algo que eu não consigo fazer com facilidade. Minhas primas jogavam tão bem ainda com pouca idade. O pai delas as fazia sempre jogar futebol. Somos da mesma família, portanto, provavelmente temos condições corporais parecidas. Devo conseguir desenvolver as mesmas habilidades que elas, mas preciso treinar. É isto o que elas tinham e eu não tenho até hoje.
Cheguei em casa. Os chocolates continuam decorando os cômodos. A vontade de comê-los bate, mas não me entregarei. Encontrarei o prazer que antes eram deles nos meus novos projetos. Minha refeição é a que foi prescrita no regime. Continua ruim, mas agora menos ruim. O gosto fica na memória, e eu costumo associá-lo sempre a saúde e a satisfação da fome. É uma tentativa de tornar o processo de adaptação mais rápido. Mas os chocolates continuam me chamando. Comê-los faria sentir-me satisfeita rapidamente, mas eu não estou satisfeita agora? Tenho um projeto a fazer, um bom projeto. Sim, estou satisfeita, mas de um modo diferente. Estou satisfeita, mas não estou me sentindo bem. Estou neutra. Este estado já costuma chamar os chocolates, mas o que eu farei agora é outra coisa: treinarei futebol. Vou passar o resto do dia brincando com a bola nos tempos apropriados. Este acréscimo de intimidade com a bola fará eu me acostumar mais rápido com o treinamento lá na escola, sem contar que será um passa-tempo para eu não pensar nos chocolates.
Como me sinto estranha tentando fazer algo que minhas primas quando crianças faziam com tanta habilidade. Estou errando tudo, mesmo tendo mais idade. Existem crianças tão melhores que eu nisto, pensar nisso me desanima. Essa desanimação me dá vontade de comer chocolates. Oh... Não! Não irei. Se não for o futebol, será outro projeto com a mesma finalidade. De qualquer forma, crianças não devem nascer sabendo. Todos dizem que crianças aprendem rápido, talvez porque tudo seja novidade para elas e porque elas não têm medo de se divertir com as coisas mais bobas. Nestas diversões elas aprendem muito e sem perceber se tornam aptas a jogar futebol bem. Talvez até exista sentimento de competição enquanto criança, mas não o suficiente para que a diversão seja esquecida. Contudo, o mesmo não se aplica quando elas são estimuladas a competirem artificialmente. Não é o caso das minhas primas.
Vou me divertir. Não vou esquecer-me do objetivo, nem vou esquecer-me do treinamento, mas vou preferir passar mais tempo fazendo algo que me divirta do que passar pouco tempo fazendo algo sério e que eu não goste. Isto me fará mais saudável, e o objetivo final disto tudo é isso. Assim o fiz, passei horas tentando fazer certas brincadeiras com a bola. Equilibrá-la no meu pé foi um desafio, já estou conseguindo. Chutá-la na parede e deixá-la bater no chão apenas uma vez e dar outro chute. Fiz algumas adaptações na casa para poder fazer esse tipo de coisa. A parede ficou toda manchada, mas não é algo que me incomode. O dia passou rápido hoje, estou me sentindo satisfeita em ter equilibrado a bola no pé daquele jeito. Isto parece uma besteira, mas não duvido que isto vá me ajudar no treinamento e que logo estarei jogando futebol razoavelmente bem, o suficiente para não atrapalhar a dinâmica de jogo e me sentir parte de toda aquela emoção.
Quando acordei, antes de ir trabalhar, meu telefone toca. Era um parente anunciando algo terrível: minha mãe morreu. Foi um choque. Passei alguns instantes na cama, não acredito que isso aconteceu. Comecei a chorar. A morte, um acidente de trabalho. Minha mãe já estava em meia-idade, mas ainda duraria muito tempo. Ela trabalhava em uma indústria importante, porém, nova. Continuei chorando, não fui ao trabalho. Meu tio veio me buscar, não consigo acreditar. Sim, era verdade. Um representante da empresa veio falar comigo pedindo desculpas, acidentes como aquele nunca haviam ocorrido antes e medidas serão tomadas para que aquilo não aconteça novamente. Estava muito triste, voltei para casa. Não fui treinar, quis evitar chorar em público. Eles não podem me ajudar. Continuei chorando ao relembrar de todos os comportamentos que só eu e minha mãe tínhamos. Coisas vindas do nosso passado. Agora restam as lembranças. Meu pai e irmãos estão muito sensibilizados também, uma parte importante nossa se foi com muito ainda a viver. Não há o que fazer, continuaremos a nossa vida, voltei para casa.
A tristeza continua em mim. É algo ruim, quero que isso passe. Mas sempre volta quando eu penso que minha mãe morreu. Quero me sentir bem novamente. Os chocolates estão aqui perto, é só eu levantar e pegá-los. Sentirei prazer, me sentirei bem, embora isto me faça mal. Porque eu quero me sentir bem agora? Porque eu preciso me sentir bem agora? Não, eu não preciso. Minha mãe morreu, e isto é algo importante para mim. Eu quero sofrer. Eu quero sofrer como homenagem, eu quero sofrer como forma de eu me acostumar a um mundo sem ela. Não vou tentar apagar a morte dela com algo que faça mal, como os chocolates. Vou deixar meu instinto encontrar um caminho saudável para se acostumar com este novo mundo. Eu sei que ele irá fazer isto, pois todos os dias milhares pessoas diferentes perdem coisas preciosas para si e encontram o caminho para continuar vivendo. Só terei que ter paciência e viver meus sentimentos.
Alguns dias se passaram após o acidente. Preciso voltar a trabalhar, afinal, isto é minha sobrevivência. Os dias se passaram e as coisas foram voltando ao normal. Eu já não chorava por qualquer lembrança. Senti que poderia voltar ao futebol sem maiores problemas. Lá, algumas pessoas sentiram falta de mim, algo que eu não esperava. Um bom acidente talvez, que acabei aproveitando. Convidei-as para sair. Tornamos disto um hábito. Logo freqüentávamos filmes, escutávamos música, compreendíamos arte. Não era sempre bom. Havia briga algumas vezes, divergências, coisas do tipo. Mas com o tempo, depois de superar essas coisas e principalmente por participarmos da mesma escola, acabamos criando uma ligação forte, familiar. Numa noite dessas redescobri minha sensualidade numa boate. Isto foi algo bom também. A forma do meu corpo ainda não está plenamente dentro dos padrões sociais valorizados, mas bons homens saberão aproveitá-lo. São esses os que eu quero. Não ligo caso ele não chegue nestes padrões, afinal, não irei trabalhar com o corpo. Só preciso que ele seja saudável.
Agora estou aqui. Saudável, aprendendo nos momentos ruins, aproveitando os momentos bons, buscando coisas novas nos momentos de tédio, mas satisfeita em ambos os casos. Satisfeita em estar desenvolvendo um bom projeto de vida, satisfeita em conseguir as coisas que desejei, e de ter desejado coisas boas para mim. Não busco mais mentir sobre meus sentimentos ou maquiá-los. Busco redirecioná-los com meu raciocínio para uma boa direção, e, essencialmente, vivê-los. É interessante perceber como eu estava seguindo uma vida artificial, condicionada, aprisionada há alguns poucos elementos, destinada a deterioração. Agora estou livre para buscar o que quero, e o que eu quero é sentir a vida da melhor maneira possível. Quanto aos chocolates, eles ainda são uma bonita decoração. Vou deixá-los nesta situação por um bom tempo. Eles são uma lembrança de onde a minha falta de consciência sobre minha existência me levou: a quase não existência.
Encarramento:
Ao final de mais uma postagem, gostaria de comentar sobre o texto a cima. A idéia dele surgiu quando eu percebi que as pessoas tinham pequenos relances de desejo de algo mais fácil como forma de substituir um desejo mais difícil. Sofrer se tornou algo evitado em nossa cultura, e isso não é necessariamente saudável. Tento mostrar no texto, através da boa representatividade dos chocolates, que sofrer faz parte do processo de adaptação do desejo a coisas realmente boas, que é necessário que o instinto se acostume com elas mesmo sendo difíceis. É interessante notar como até mesmo as formas de entreternimento e de comemoração atualmente são baseadas em coisas de comusumo simples, mas que prejudicam, ao invés de coisas de consumo complicado mas que fazem bem. Exemplo: uma festa cheia de bebida ao invés de algum tipo de comemoração saudável e recreatíva ou esportiva. Até mesmo as danças se adaptaram a essa tendência, quando percebe-se que as pessoas dançam com pouco treinamento, mas com necessidade de estarem bem-vestidas. Enfim, até a próxima postagem amigos, abraços.
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