Introdução:
Olá a todos. Meu objetivo sempre foi
conseguir manter uma rotina equilibrada, porém, por desequilíbrios
anteriores maiores que eu, tomei decisões ruins, e matriculei-me em
cinco cadeiras pesadas na faculdade. O resultado disto é que este último
mês foi bastante peculiar, pois eu encontrei-me numa situação que eu
muito temia, que era a de não ter tempo para nada. No entanto,
tranquilizou-me saber que isto não necessariamente foi uma escolha
consciente. Foi um acidente, na verdade. Isto, no entanto, me inspirou a
pensar bastante na solidão, pois eu aproveitei para voluntariamente
acentuar um processo de isolamento que sempre me acompanhou. Com isto,
escrevo algumas reflexões sobre o tema, que eu quero amadurecer tanto
quanto possível.
Desejo e solidão:
Neste blog, em alguma postagem, já devo ter escrito acerca do conceito
de desejo. Vai ser alguma mais ou menos equivalente com esta que
apresentarei agora e, a partir da qual, construirei minha linha de
raciocínio: desejo é a escolha de uma possibilidade dentro de um campo
de possibilidades. Encontrei este conceito em alguma corrente de
psicologia ou filosofia por ai, creio que em Foucault, e gosto por sua
simplicidade e por sua força. Neste sentido, desejamos, e quando a
escolha é concretizada, provavelmente nos sentimo-nos realizados,
através de reações químicas. Duas coisas são notórias neste conceito; a
primeira é a escolha: o porquê escolhe-se o que escolhe? A segunda é o
campo de possibilidades: o porquê o campo das possibilidades define-se
como tal?
Neste primeiro questionamento, noto que fatores
internos motivaram-me a escolher a solidão, o isolamento. Portanto,
busquei desestimular os impulsos das escolhas que me levariam ao
envolvimento. O desestimulo é feito através de cadeias de pensamento que
levam a entender que determinada escolha é infrutífera, não produzindo
efeitos maiores que ela mesma, desnecessária. Ao mesmo tempo, busquei
estimular os impulsos que me levassem à solidão, entendendo que, no meu
contexto, este é o caminho correto que me levará aos meus desejos de
longo prazo. Naturalmente, estou fazendo comigo mesmo um acordo em que
eu substituo o curto prazo pelo longo prazo, sendo necessário, para
tanto, uma dose de fé e autossacrifício, pois não existem mecanismos que
garantam que os desejos de longo prazo sejam satisfeitos. Se não forem,
isto é um problema que eu resolverei lá, no futuro. No agora faço o
melhor que eu posso e, assim, sigo neste processo de isolamento.
Portanto, este é o cenário: meu campo de escolhas levam-me a desejar
coisas que posso fazer sozinho. Estudar, entreter-me, trabalhar,
alimentar-me. Ao realizar estas coisas, sinto-me realizado, permito-me
relaxar, descansar. Assim continuo neste ciclo, buscando desestimular
todos os impulsos que me levem ao outro por qualquer outro motivo que
não aspectos objetivos relacionados às escolhas que me levam ao
isolamento. Posso cometer algumas falhas neste processo, mas estou
razoavelmente bem-sucedido e estável, creio eu. Portanto, o
questionamento que eu faço é: se estou obtendo uma estabilidade que me
permita avançar em um processo isolado, quais as consequências de
assumir este posicionamento de vida? Faço esta pergunta porque eu sei
que a vida em comunidade é necessária, e parece que minha vida em
comunidade restringe-se essencialmente ao que é necessário. Isto, no
entanto, não me parece uma vida em comunidade, pois não há nenhum desejo
em comum além do básico.
Universo dos campos de escolhas:
Para aprofundar um pouco mais nesta afirmação de vida em comunidade
ser necessária, é necessário, para mim, entender o universo dos campos
das escolhas. Este universo é, afinal, a própria realidade em comum de
um grupo de pessoas, que afetam-nas e moldam a realidade delas de
maneira semelhante, fazendo com que o campo de possibilidade delas
tenham pontos em comuns - talvez eu deva encontrar melhor nomenclatura
-. Por exemplo: numa cidade há alguns times de futebol. Portanto, o
universo nesta cidade para se torcer pelos times de futebol são estes
times. Há outras opções, como a de não torcer ou da torcer por um time
imaginário. As possibilidades continuam sendo infinitas, porém, elas são
reestruturadas para contemplar a existência daquele fator naquela
realidade. Assim, é possível perceber com maior probabilidade que os
indivíduos daquela comunidade torcem para o time A, B ou C que fazem
parte do conjunto de times daquela realidade, mas com menos
probabilidade que eles torçam para o time D, de uma outra comunidade, ou
pelo time E, inventado por alguém como parte de alguma obra ficcional.
Portanto, torcer por um time é um ato coletivo, porque existe um fator
que está moldando os vários campos de escolhas para aquela escolha.
Assim, a vitória do time constituirá na realização do desejo de muitas
pessoas. Também, a derrota deste time constituirá na frustração das
mesmas, já que as expectativas não são alcançadas e não há justificativa
para a recompensa química. Entender isto é importante para entender
quando eu digo que eu estou rumo ao isolamento, pois quero dizer que
estou me afastando desta realidade em comum e indo para uma realidade em
particular, ligando-me à realidade comum apenas fins de sustentação,
através do trabalho, do estudo. De alguma forma, também considero esta
realidade para qual estou caminhando um pouco perdidas, explico:
os elementos que utilizo para me entreter são, geralmente, coisas
produzidas pela sociedade em uma realidade muito distante da minha, seja
pelo espaço – geralmente Norte-Americana ou Europeia - como pelo tempo –
geralmente antigas, com dois ou três anos de atraso, pelo menos -, à
exemplo, filmes ou jogos de videogame. Portanto, estou sempre me
relacionado com objetos de desejo que já foram relevantes algum dia e
hoje são apenas vestígios. Isto, para mim, faz com que eu me relacione
com uma realidade distante da minha não tão diferente de uma realidade inventada.
Consequências do isolamento:
Uma das consequências já foi dita imediatamente no paragrafo anterior.
Ela, entretanto, não é a que eu considero como mais importante. Diria
até mesmo que ela é apenas um sintoma. A principal consequência do
isolamento é a falta de capacidade de lidar com a realidade comum da
comunidade. Isto traz algumas consequências. A primeira delas é que o
desligamento da realidade comum da comunidade faz com que o indivíduo
que está desligado se torne mais susceptível à mudanças bruscas da
realidade. Por exemplo, se o indivíduo se liga o mínimo possível com
alguma comunidade, e de repente há alguma mudança sociopolítica nesta
comunidade, ele provavelmente terá um tempo de reação muito maior para
responder adequadamente a isto, de modo que sua própria ligação,
pequena, pode se interrompida ou sofrer graves danos, o que mudará toda a
estrutura de vida isolada que ele tem. A segunda é que se o indivíduo,
por algum motivo, quiser ligar-se à sua comunidade, sofrerá bastante,
porque o campo de possibilidades à qual ele está habituado será
completamente diferente do campo de possibilidades daquela comunidade.
Quanto à primeira possibilidade, não preocupo-me tanto, pois já vivemos
numa sociedade individualista e estou atento à política, de alguma
forma. A segunda, no entanto, é uma preocupação minha.
Explico: parte dos meus projetos de longo prazo envolve, de um jeito ou
outro, reintegração à alguma comunidade. Não entendo como saudável
viver uma vida separado, porque entendo que a situação política e
cultural do nosso país está desmoronando e aceitar viver isolado é dizer
que não se importa com isto. Na verdade, eu me importo, e busco
compreender qual o problema está ocorrendo no nosso país, talvez até no
mundo, para que seja possível construir uma cultura ou política que
volte a trazer desenvolvimento e harmonia para nosso povo. Parte deste
problema, creio eu, é o individualismo. Porém, encontrar modos de não
ser individualista é extremamente complicado. Afinal, envolve fatores da
realidade que estão para além do nosso controle enquanto indivíduos.
Talvez seja algo que o próprio espírito da realidade, algo que eu já
citei no meu texto de filosofia dos organismos sociais, se encarregue de
fazer. Creio que já estamos chegando ao fim do individualismo, porém,
não sei o que virá a seguir. De uma forma ou outra, estou buscando
descobrir, pois posso fazer parte desse processo. Se eu não conseguir
fazer, paciência. Sei que estou em paz comigo mesmo pois busco, na graça
de Deus, forças para continuar.
Encerramento:
Estou me sentindo de férias, ainda que falte uma cadeira para finalizar
o período. Passando em todas, o que creio que vai acontecer, estarei
livre das eletivas, faltando apenas trabalho de graduação, projetão e
estágio para finalizar a faculdade. Durante todo este período que passei
sem escrever, senti falta. Talvez escrever faça parte da minha
identidade e eu tive a oportunidade de reconhecer isto neste período.
Porém, continuo buscando estudar e entrar em contato com filosofia,
teologia, mesmo que de maneira muito menos frequente que outrora já fui,
mas sei que tudo o que eu escrevo, de alguma forma, não é novidade. No
máximo, talvez eu consiga arrumar uma forma diferente de dizer algo que
já foi dito. Mesmo assim, continuo, talvez na esperança de conseguir
encontrar a forma certa de dizer o que já foi dito, mas também como um
exercício para mim mesmo de dizer. Com esta breve reflexão, despeço-me.
Abraço à todos.
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