quinta-feira, 29 de abril de 2021

Campo de desejos e isolamento

 Introdução:
    Olá a todos. Meu objetivo sempre foi conseguir manter uma rotina equilibrada, porém, por desequilíbrios anteriores maiores que eu, tomei decisões ruins, e matriculei-me em cinco cadeiras pesadas na faculdade. O resultado disto é que este último mês foi bastante peculiar, pois eu encontrei-me numa situação que eu muito temia, que era a de não ter tempo para nada. No entanto, tranquilizou-me saber que isto não necessariamente foi uma escolha consciente. Foi um acidente, na verdade. Isto, no entanto, me inspirou a pensar bastante na solidão, pois eu aproveitei para voluntariamente acentuar um processo de isolamento que sempre me acompanhou. Com isto, escrevo algumas reflexões sobre o tema, que eu quero amadurecer tanto quanto possível.



Desejo e solidão:
    Neste blog, em alguma postagem, já devo ter escrito acerca do conceito de desejo. Vai ser alguma mais ou menos equivalente com esta que apresentarei agora e, a partir da qual, construirei minha linha de raciocínio: desejo é a escolha de uma possibilidade dentro de um campo de possibilidades. Encontrei este conceito em alguma corrente de psicologia ou filosofia por ai, creio que em Foucault, e gosto por sua simplicidade e por sua força. Neste sentido, desejamos, e quando a escolha é concretizada, provavelmente nos sentimo-nos realizados, através de reações químicas. Duas coisas são notórias neste conceito; a primeira é a escolha: o porquê escolhe-se o que escolhe? A segunda é o campo de possibilidades: o porquê o campo das possibilidades define-se como tal?

    Neste primeiro questionamento, noto que fatores internos motivaram-me a escolher a solidão, o isolamento. Portanto, busquei desestimular os impulsos das escolhas que me levariam ao envolvimento. O desestimulo é feito através de cadeias de pensamento que levam a entender que determinada escolha é infrutífera, não produzindo efeitos maiores que ela mesma, desnecessária. Ao mesmo tempo, busquei estimular os impulsos que me levassem à solidão, entendendo que, no meu contexto, este é o caminho correto que me levará aos meus desejos de longo prazo. Naturalmente, estou fazendo comigo mesmo um acordo em que eu substituo o curto prazo pelo longo prazo, sendo necessário, para tanto, uma dose de fé e autossacrifício, pois não existem mecanismos que garantam que os desejos de longo prazo sejam satisfeitos. Se não forem, isto é um problema que eu resolverei lá, no futuro. No agora faço o melhor que eu posso e, assim, sigo neste processo de isolamento.

    Portanto, este é o cenário: meu campo de escolhas levam-me a desejar coisas que posso fazer sozinho. Estudar, entreter-me, trabalhar, alimentar-me. Ao realizar estas coisas, sinto-me realizado, permito-me relaxar, descansar. Assim continuo neste ciclo, buscando desestimular todos os impulsos que me levem ao outro por qualquer outro motivo que não aspectos objetivos relacionados às escolhas que me levam ao isolamento. Posso cometer algumas falhas neste processo, mas estou razoavelmente bem-sucedido e estável, creio eu. Portanto, o questionamento que eu faço é: se estou obtendo uma estabilidade que me permita avançar em um processo isolado, quais as consequências de assumir este posicionamento de vida? Faço esta pergunta porque eu sei que a vida em comunidade é necessária, e parece que minha vida em comunidade restringe-se essencialmente ao que é necessário. Isto, no entanto, não me parece uma vida em comunidade, pois não há nenhum desejo em comum além do básico.

Universo dos campos de escolhas:
    Para aprofundar um pouco mais nesta afirmação de vida em comunidade ser necessária, é necessário, para mim, entender o universo dos campos das escolhas. Este universo é, afinal, a própria realidade em comum de um grupo de pessoas, que afetam-nas e moldam a realidade delas de maneira semelhante, fazendo com que o campo de possibilidade delas tenham pontos em comuns - talvez eu deva encontrar melhor nomenclatura -. Por exemplo: numa cidade há alguns times de futebol. Portanto, o universo nesta cidade para se torcer pelos times de futebol são estes times. Há outras opções, como a de não torcer ou da torcer por um time imaginário. As possibilidades continuam sendo infinitas, porém, elas são reestruturadas para contemplar a existência daquele fator naquela realidade. Assim, é possível perceber com maior probabilidade que os indivíduos daquela comunidade torcem para o time A, B ou C que fazem parte do conjunto de times daquela realidade, mas com menos probabilidade que eles torçam para o time D, de uma outra comunidade, ou pelo time E, inventado por alguém como parte de alguma obra ficcional.

    Portanto, torcer por um time é um ato coletivo, porque existe um fator que está moldando os vários campos de escolhas para aquela escolha. Assim, a vitória do time constituirá na realização do desejo de muitas pessoas. Também, a derrota deste time constituirá na frustração das mesmas, já que as expectativas não são alcançadas e não há justificativa para a recompensa química. Entender isto é importante para entender quando eu digo que eu estou rumo ao isolamento, pois quero dizer que estou me afastando desta realidade em comum e indo para uma realidade em particular, ligando-me à realidade comum apenas fins de sustentação, através do trabalho, do estudo. De alguma forma, também considero esta realidade para qual estou caminhando um pouco perdidas, explico: os elementos que utilizo para me entreter são, geralmente, coisas produzidas pela sociedade em uma realidade muito distante da minha, seja pelo espaço – geralmente Norte-Americana ou Europeia - como pelo tempo – geralmente antigas, com dois ou três anos de atraso, pelo menos -, à exemplo, filmes ou jogos de videogame. Portanto, estou sempre me relacionado com objetos de desejo que já foram relevantes algum dia e hoje são apenas vestígios. Isto, para mim, faz com que eu me relacione com uma realidade distante da minha não tão diferente de uma realidade inventada.

Consequências do isolamento:
    Uma das consequências já foi dita imediatamente no paragrafo anterior. Ela, entretanto, não é a que eu considero como mais importante. Diria até mesmo que ela é apenas um sintoma. A principal consequência do isolamento é a falta de capacidade de lidar com a realidade comum da comunidade. Isto traz algumas consequências. A primeira delas é que o desligamento da realidade comum da comunidade faz com que o indivíduo que está desligado se torne mais susceptível à mudanças bruscas da realidade. Por exemplo, se o indivíduo se liga o mínimo possível com alguma comunidade, e de repente há alguma mudança sociopolítica nesta comunidade, ele provavelmente terá um tempo de reação muito maior para responder adequadamente a isto, de modo que sua própria ligação, pequena, pode se interrompida ou sofrer graves danos, o que mudará toda a estrutura de vida isolada que ele tem. A segunda é que se o indivíduo, por algum motivo, quiser ligar-se à sua comunidade, sofrerá bastante, porque o campo de possibilidades à qual ele está habituado será completamente diferente do campo de possibilidades daquela comunidade. Quanto à primeira possibilidade, não preocupo-me tanto, pois já vivemos numa sociedade individualista e estou atento à política, de alguma forma. A segunda, no entanto, é uma preocupação minha.

    Explico: parte dos meus projetos de longo prazo envolve, de um jeito ou outro, reintegração à alguma comunidade. Não entendo como saudável viver uma vida separado, porque entendo que a situação política e cultural do nosso país está desmoronando e aceitar viver isolado é dizer que não se importa com isto. Na verdade, eu me importo, e busco compreender qual o problema está ocorrendo no nosso país, talvez até no mundo, para que seja possível construir uma cultura ou política que volte a trazer desenvolvimento e harmonia para nosso povo. Parte deste problema, creio eu, é o individualismo. Porém, encontrar modos de não ser individualista é extremamente complicado. Afinal, envolve fatores da realidade que estão para além do nosso controle enquanto indivíduos. Talvez seja algo que o próprio espírito da realidade, algo que eu já citei no meu texto de filosofia dos organismos sociais, se encarregue de fazer. Creio que já estamos chegando ao fim do individualismo, porém, não sei o que virá a seguir. De uma forma ou outra, estou buscando descobrir, pois posso fazer parte desse processo. Se eu não conseguir fazer, paciência. Sei que estou em paz comigo mesmo pois busco, na graça de Deus, forças para continuar.

Encerramento:
    Estou me sentindo de férias, ainda que falte uma cadeira para finalizar o período. Passando em todas, o que creio que vai acontecer, estarei livre das eletivas, faltando apenas trabalho de graduação, projetão e estágio para finalizar a faculdade. Durante todo este período que passei sem escrever, senti falta. Talvez escrever faça parte da minha identidade e eu tive a oportunidade de reconhecer isto neste período. Porém, continuo buscando estudar e entrar em contato com filosofia, teologia, mesmo que de maneira muito menos frequente que outrora já fui, mas sei que tudo o que eu escrevo, de alguma forma, não é novidade. No máximo, talvez eu consiga arrumar uma forma diferente de dizer algo que já foi dito. Mesmo assim, continuo, talvez na esperança de conseguir encontrar a forma certa de dizer o que já foi dito, mas também como um exercício para mim mesmo de dizer. Com esta breve reflexão, despeço-me. Abraço à todos.

Nenhum comentário: