sábado, 30 de janeiro de 2021

Elucidações do conceito de filosofia na visão dos organismos sociais

Introdução:
    Olá a todos. Neste blog já escrevi três parágrafos acerca de filosofia. Um no meio ensaio filosófico dos organismos sociais e outro, em texto avulso, falando também acerca da filosofia para os organismos sociais. Ambos os textos pareceram-me complementares, entretanto, acredito que seja possível fazer alguns esclarecimentos, correções, e adicionar mais alguns detalhes. Meu objetivo, como sempre, é criar um conceito que não seja muito complicado, mas que seja preciso o suficiente. Esta precisão ainda não foi alcançada nestes três parágrafos, e também eu amadureci bastante alguns pensamentos após escutar algumas palestras de um forte filósofo cristão chamado Dooyeweerd. Embora eu não concorde com todo pensamento dele, atentou-me para a necessidade de definir um tipo específico de filosofia que não somente busca expressar uma linguagem sobre o mundo, mas também uma finalidade. Para mim, é importante diferenciar filosofias que expressam linguagem e também as filosofias que expressam finalidades, pois elas refletem em diferentes atitudes do filósofo diante da sua realidade. Segue o link dos dos textos citados acima e sigamos:
https://barnabasspenser.blogspot.com/2020/04/complemento-visao-dos-organismos.html
https://barnabasspenser.blogspot.com/2021/01/ensaio-visao-dos-organismos-sociais.html

Correção do primeiro texto: a filosofia como reflexão:
    No primeiro texto, afirmei que a filosofia é um meta-processo: a produção que ocorre sobre a produção, a linguagem que ocorre sobre a linguagem, e que todos tem autoridade para filosofar. No entanto, para mim, atualmente, não torna-se claro o que é “produção que ocorre sobre a produção”. Afinal, como determinar que o caráter da produção que ocorre sobre a produção é diferente da própria produção? A filosofia seria essa produção que ocorre sobre a produção, mas também ela é a linguagem que ocorre sobre a linguagem. Portanto, filosofia é, ao mesmo tempo, produção e linguagem e, portanto, torna esta definição imprecisa. Lembra-me, ainda, o estado, que eu defino de maneira semelhante. Isto não é por acaso: à época, eu cometi o engano de supor que a linguagem que estrutura o estado é a filosofia. Atualmente, no entanto, sei que cometi um equívoco, pois claramente a linguagem do estado, pelo menos do estado de direito, é a constituição e suas esferas jurídicas. Assim sendo, como eu defino a filosofia, de maneira mais precisa, para os organismos sociais?

Academias de filosofia:
    Como no segundo texto foi dito, o encontro do indivíduo com sua própria realidade está diretamente no seu pensar. Isto é uma clara referência à Descartes e ao seu “penso, logo existo”. Assim, a filosofia é a reflexão do indivíduo acerca da sua própria realidade. A produção do ato de filosofar é a filosofia. Portanto, a filosofia é a linguagem e a própria produção, como dito anteriormente. Isto implica também que não é possível montar organismos sociais em cima da filosofia, do ato de filosofar, reduzindo, este ato, ao ato que define o indivíduo como tal. Porém, o que significaria uma academia ou um instituto de filosofia, por exemplo? Para mim, seria um organismo social cuja função é manter determinado pensamento filosófico vivo e atuante. Assim sendo, há exercícios como: o que tal pensador diria acerca deste assunto? Há, portanto, um conjunto de pessoas que se debruçam na filosofia daquele autor para, a partir dali, inferir o que é dito. Neste sentido é que há organismos sociais cuja produção também é filosofia, mas uma filosofia acadêmica e não puramente filosofia.

Acerca do certo e errado na filosofia:
    Um conjunto de pessoas reunidas para construir, a parte de qualquer método, um conhecimento ou pensamento acerca de alguma coisa deve ter mais relevância social que um indivíduo. Portanto, se qualquer organismo social, como o estado, igreja, ou empresa, precisa refletir acerca das suas próprias atividades ou existência, uma natural fonte de consulta seria a academia de filosofia. Lá, há várias formas de pensamentos que sobreviveram ao tempo, e, portanto, são fortes, que podem dar direcionamento para um pensamento mais estruturado, mais forte. Este conceito de força é mencionado no segundo texto, pois, para mim, a filosofia não pode ser tida como certa ou errada, pois não há, dentro do campo da matéria, nenhuma referência legítima para constatar o certo ou o errado além da própria reflexão humana. O aceitável, no entanto, é que tal filosofia é errada em tal ponto do ponto sob outro ponto de vista também filosófico. Mas para mim, se qualquer filósofo usa a definição de certo ou errado em absoluto, ou em referência à verdade ou a realidade, ele mesmo comete um erro ou produz uma filosofia fraca, pois ele está se considerado como referência da reflexão ou da realidade humana.

Filosofias linguísticas e teleológicas:
    Para mim, a lógica e a matemática são campos da linguagem. Se há uma correta correspondência entre a linguagem e a produção, as conclusões feitas em cima do raciocínio da linguagem também é verdadeiro na produção. É, no entanto, necessário uma autoridade para fazer estas correspondências. A filosofia, portanto, também pode ser uma linguagem, uma forma de visualizar e comunicar o mundo. Se assim for, não deve existir, para esta filosofia, o certo e o errado, mas sim uma forma de expressar o mundo e através desta expressão, raciocinar. O raciocínio pode estar correto ou incorreto. Por outro lado, também há filosofias que expressam o certo e o errado, o bom e o ruim. Estas são as filosofias que possuem expressam uma finalidade, ou, o que eu acredito ser o termo acadêmico para isto, teleologia. Para mim, enquanto cristão, é importante esta diferenciação, pois toda filosofia como linguagem é interessante e útil, mas toda filosofia enquanto finalidade é, de algum modo, uma idolatria, como diria o Dooyeweerd. Naturalmente, é possível extrair das filosofias teleológicas uma linguagem, mas é preciso ter sabedoria ao lidar com elas para que não se cometa idolatria.

Ética e estética:
    Diferentes linguagens pode ser útil porque há produções ou raciocínios que são mais facilmente expressos ou feitos em uma linguagem que outra. Na matemática, por exemplo, algumas operações são trivialmente executadas em algumas áreas enquanto que, em outras, são necessários muitos cálculos. Neste sentido, é possível construir uma linguagem com uma intenção, e aqui intenção significa uma finalidade intermediaria, não-final. Neste caso, quando eu construo a visão dos organismos sociais, eu tenho uma intenção, que é a de construir um meio de campo comum para possamos desenvolver uma forma de enxergar a modernidade sem partir para os absolutismos, seja o do individualismo, seja o do coletivismo, ou mesmo do racionalismo ou dogmatismo. Contudo, eu não determino nenhuma finalidade última, pois, para mim, quem tem que afirmar isso são os próprios organismos sociais através das suas produções. Dito apenas o que eu acredito ser a finalidade de determinados organismos sociais, como o científico ou o religioso. Isto me leva a ver uma certa lacuna no meio pensamento, pois eu não dizer, por exemplo, o que seria uma ética ou estética de estado, embora eu saiba, como cristão, qual é a ética ou estética que eu sigo enquanto cristão. Isto, no entanto, certamente não é algo que deve ser determinado pela visão dos organismos sociais, mas sim pela cultura política da sociedade vigente. No meu caso, tenho uma certa queda pelo nacionalismo desenvolvimentista civilizatório.

Matéria, alma e espírito:
    Para o cristianismo, a finalidade da existência humana está em adorar a Deus por meio de Cristo e, portanto, qualquer outra finalidade é uma idolatria. Esta característica de finalidade é muitas vezes encontrada em estruturas religiosas, não é a toa que filosofias que possuem finalidade muitas vezes são comparadas a religiões uma vez que elas mesmas acabam tendo estrutura de religião, como a identificação de inimigo ou a necessidade da evangelização. Ora, quando a matéria reflete sobre a própria matéria, origina-se a filosofia. Neste sentido, nenhuma matéria tem um ponto de vista absoluto pois toda matéria é parte, e não todo. Também chamo esta camada de existência de alma, que são as coisas do indivíduo, aquela matéria em específico, que só ele tem acesso e o que leva a chegar a aquela conclusão, como posicionamento social, experiências de vida, aspectos biológicos e etc. Uma a alma toma consciência da sua infimidade e ascende seu pensamento ao infinito, é possível que ela se abra à revelações divinas. Neste ponto é quando a alma recebe informações do espírito, torna-se também espiritual e não apenas material.

Filosofia e teologia:
    De alguma maneira é possível argumentar que todo ser humano ascendeu ao infinito, mesmo quando for para pensar acerca da sua própria morte, que, do ponto de vista da matéria, é uma consequência que durará a eternidade, que é um tipo de infinito. Assim, afirmo que todo ser humano tem alma. Alguns usam esta alma para olhar somente para a matéria, outros para negar o espiritual, e outros buscam o espiritual. Acredito ser possível também haver construções espirituais que não são teleológicas, como algumas orientais, mas não as conheço o suficiente para ter certeza disto. Se assim o forem, imagino que elas tenham uma estrutura um pouco diferente do cristianismo e das filosofias que contém teleologia. Mas, uma vez que se recebe informações do espírito, o ser humano passa a ter um ponto de referência não mais material, mas sim espiritual e, portanto, consegue fazer afirmações acerca do certo e errado de acordo com sua revelação e isto não é um erro, mas também não é filosofia inicial, mas sim um tipo específico de filosofia, tal como a acadêmica, chamado teologia. A teologia, segundo o que eu entendi do senso comum, é o estudo sistemático acerca das revelações sagradas. Ou seja: ela busca sistematizar o que se conhece e também o que não se conhece acerca das revelações. Para a teologia cristã de uma maneira geral, a fonte comum das revelações divinas é a bíblia.

Consequências da filosofia:
    Se a produção da filosofia é a própria filosofia, qual a utilidade ou a consequência da filosofia nos organismos sociais? Para mim, sempre que um organismo social entra em contato com alguma filosofia, é possível que haja mudanças nele, pois uma nova maneira de enxergar a realidade foi produzida. Portanto, ele pode fazer alterações na sua linguagem ou na sua produção enquanto autoridade mediante a luz de alguma reflexão filosófica. Portanto, a filosofia traz consequências para os organismos sociais e, portanto, para a existência humana. Assim sendo, segundo minha opinião, o trabalho de um filósofo é fazer filosofia. Se aquela filosofia vai ter algum impacto ou não, ai já não é com ele. Contudo, provavelmente, o espírito filosófico ou alma que há dentro dele provavelmente o guiará para questões que são relevantes para seu tempo histórico, que precisam ser melhor mapeadas através de uma linguagem ou cuja as consequências precisam ser raciocinadas, para identificar possíveis contradições naquilo que as autoridades anunciam como verdade ou nas atividades dos organismos sociais.

Conclusão:
    Estou satisfeito com a construção deste texto. Elucidou melhor algumas coisas que me deixou insatisfeito nos textos anteriores, embora eu não vá mudá-los. Também, faz um tempo que eu gostaria de escrever um texto falando da relação entre filosofia como linguagem do estado, mas este texto simplesmente não saia. Hoje percebo, como já dito, que isto foi fruto de um equívoco, de uma imprecisão na minha própria linguagem. Na verdade, filosofias tem força para moldar estados, e era isto o que eu queria expressar neste texto que eu gostaria de construir. Ou seja: ela tem força para moldar, mas ela não é, em si, a linguagem do estado. Estou um pouco cansado de escrever, estou numa fase que gostaria que meu texto fosse apreciado por alguém, mas ainda não encontro quem. Quero escrever um pouco mais sobre teologia baseada na filosofia dos organismos sociais, mas vou esperar um pouco mais para fazer isto, pois também preciso cuidar de outras coisas e vai ser bom se eu conseguir algum retorno dos textos, pois sei que o que posso estar fazendo é um trabalho redundante. Com isto, amigos, me despeço. Um abraço para todos.

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