Introdução:
Durante esta semana eu escrevi algumas importantes postagens no Devir Social. Acontece que todas estas postagens, que buscam criar ferramentas para observar o indivíduo sociologicamente, também nos direcionam a refletir a relação do indivíduo com a verdade. Portanto, a postagem de hoje terá como objetivo entender um pouco melhor algumas das grandes questões da nossa sociedade à luz das ferramentas criadas no Devir Social. Quem desejar ler antes sobre quais textos que estou falando dirijam-se aos seguintes links: Linguagem dos organismos sociais, Análise das autoridades segundo a linguagem dos organismos.
Relação dos organismos com a verdade segundo a linguagem dos organismos:
O que é a verdade, segundo a linguagem dos organismos? É possível conceituar a verdade como, simplesmente, como a existência. No entanto, no contexto deste estudo, entende-se que a verdade é percebida pela forma como ela se efetiva. Isto porque existe uma produção social e uma linguagem, e se a linguagem consegue resultar na produção social, então ela é verdadeira. Do contrário, obviamente, a linguagem é falsa. Caso um organismo se estruture sobre uma linguagem falsa, ele não produz, porque a falseabilidade se dá com a não conferência da linguagem com a realidade. Este conceito de efetivação de verdade, um tanto simples, pode ser bastante intrigante quando relacionamos as diferentes formas que as autoridades dos organismos sociais são legitimadas.
A religião, por exemplo, busca construir uma linguagem que é capaz de compreender as verdades eternas sobre a realidade do ser humano. A ciência, por sua vez, a mesma coisa, no entanto, seu foco é compreender as verdades eternas sobre a realidade da matéria. A política, entretanto, busca utilizar as verdades e aplicando-as ao contexto econômico e cultural daquele tempo, objetivando seus fins eleitoreiros. Portanto, ela se preocupa muito mais com os resultados práticos, mesmo que neles haja imprecisões, manipulações ou mesmo mentiras, do que com sua a integridade à longo prazo. Se dá resultado, então, provavelmente, a política se “apodera” destas ferramentas que, naquele contexto, se mostram verdadeiras.
Portanto, cada indivíduo, que é a autoridade de menor grau de uma sociedade e, portanto, possuí uma linguagem e uma produção social, se relaciona com as diferentes verdades produzidas pelos diferentes organismos sociais, cada um a seu nível de responsabilidade e comprometimento com sua própria produção social dentro daqueles organismos. Por possuir uma produção social, cada indivíduo, também, tem sua própria relação com a verdade, sendo ele aquele que seleciona e gera pequenas mutações nas verdades que chegam até ele, sendo também o responsável pela reprodução daquilo que ele acha verdadeiro. Assim, concluí-se que é possível analisar a relação do indivíduo com as formas que ele efetiva as verdades que ele emite.
Relação do indivíduo com a verdade segundo a linguagem dos organismos:
Se o indivíduo é capaz de produzir suas próprias maneiras de efetivar as verdades, isto significa que ele é capaz de produzir uma linguagem e relacionar sua linguagem com sua produção. Obviamente, cada ser humano é capaz de associar novas informações, das diferentes fontes dos agentes, de uma maneira inovadora, de modo a ter uma produção mais eficiente. Esta produção, que é coordenada e anunciada através da linguagem, pode se reproduzir entre outros seres humanos e ter um enorme impacto nos próprios organismos sociais. Tanto é que a história está lotada por grandes seres humanos que revolucionaram a religião, a ciência e a política.
No entanto, esta interpretação nos permite ir um pouco além. Isto porque diferentes indivíduos estão em diferentes posições nos organismos sociais, de modo que a produção social e linguagem que saí deles tem diferentes impactos. Por consequência, toda a percepção de realidade deles é alterada por conta destes impactos que aquilo que é produzida causa no mundo. Em outras palavras, a depender da relação do indivíduo com o organismo, ele tem uma diferente percepção acerca da verdade. Esta é uma conclusão muito importante, pois permite que analisemos cada indivíduo e sua relação com a verdade a depender da sua relação com os organismos sociais.
Inicialmente, já é possível compreender os indivíduos que tem uma relação “determinística” ou de “livre-arbítrio” com a realidade, isto porque se forma como eles efetivam a verdade que saí deles tem algum impacto nos organismos sociais aos quais eles pertencem, eles sentem que, de fato, tiveram escolha, do contrário, eles sentem que de nada adianta tentar contra a verdade que se propagada, portanto, ou a reforça ou a ignora. Também é possível entender a relação do indivíduo com o coletivo no sentido de “é o indivíduo que faz o coletivo ou vice-versa?”. Isto também é algo relativo, uma vez que é preciso analisar o impacto do que é produzido pelo indivíduo em relação ao coletivo e vice-versa.
Verdade: eterna ou uma decisão política?
É possível perceber duas características acerca da efetivação da verdade: ela pode ser eterna ou efêmera. No entanto, se a a efetivação for efêmera, ela só tem utilidade material. Se ela for eterna, ela só tem utilidade ideal. É o ser humano que decide, afinal, quais verdades ele vai inserir na sua vida. A consequência de ser uma pessoa que busca apenas a verdade de utilidade ideal é que ela apenas irá saber como as coisas devem ser para que sejam coerentes, mas nunca vai conseguir traduzir essa verdade para seu próprio tempo histórico. A pessoa que só utiliza verdades de utilidade material vai ser muito hábil em manobrar a matéria, mas não saberá o que fazer com ela de modo a se harmonizar com os outros indivíduos.
A ciência busca a verdade eterna sobre a matéria, enquanto que a religião busca a verdade eterna sobre o ser humano. Cada uma ao seu modo são produtoras de verdade, portanto, são elas as fontes das verdades que irão alimentar os indivíduos da sociedade. Estas fontes necessariamente precisam preocupar-se em anunciar uma verdade que seja eterna, pois, do contrário, elas estão anunciando uma verdade que visa à utilidade, e uma vez que visa a utilidade ela se transforma em uma verdade política. Portanto, se estas autoridades basearem sua busca em verdades temporais, certamente correm o risco de poluir sua própria produção com princípios e método de efetivação de verdade que não pertencem a elas próprias.
Cada decisão do indivíduo tem suas consequências, tanto para bem quanto para o mal. É dele o dever de encontrar o caminho da sua própria evolução. Se o indivíduo busca usar uma mentira que funciona socialmente para alcançar seus objetivos, deve ser dele a responsabilidade de arcar com as consequências desta mentira. Sob o ponto de vista do conceito de efetivação verdade anunciado neste texto, uma mentira também é uma verdade, pois ela causa produção social. No entanto, é uma verdade de prazo limitado e com consequências incalculáveis. De um modo geral, a mentira é rejeitada pelas linguagens religiosas, podendo até mesmo ser chamada de blasfêmia. Já na linguagem científica, ela é chamada de falsidade e descredencia metodicamente a autoridade que a emite.
Naturalismo ou moralismo:
Uma consequência muito séria deste conceito de efetivação de verdade aqui anunciado e a relação do indivíduo com ele é que várias questões que antes se buscava serem absolutas se provam relativas. Em especial é preciso discutir como se construir e validar as verdades políticas, afinal, se sabe com mais clareza qual é a fonte da verdade religiosa, que são os livros sagrados, e da verdade científica, que é o método científico, mas, no entanto, as verdades políticas são uma área cinzenta. É possível entender que a fonte da verdade política é o documento de constituição de um país sobre o qual se derivam todas as leis. Este documento é uma peça natural aplicada a todos os seres humanos aplicado a um território e características especificadas. No entanto, também tem um aspecto interpretativo em si, uma vez que são leis que guiam ações de seres humanos. Portanto, como resolver esta situação?
Um dos maiores exemplos disto pode ser observado na questão “naturalismo VS positivismo” que muito se discute nas academias jurídicas. Qual é a verdadeira, afinal? Ora, segundo a interpretação deste texto, a verdade vai depender da relação do indivíduo com a sociedade e até mesmo com a própria lei. Portanto, esta é uma questão política, então é necessário que se pense em resolvê-la politicamente. No entanto, o que se vê é que apenas os mais graduados na área jurídica têm acesso a este tipo de discussão. Isto parece um absurdo, pois o poder judiciário também é um poder político, portanto, precisa ser construído politicamente e não impositivamente.
Uma alternativa seria construir um modo de fazer este tipo de questão ser resolvido democraticamente, por exemplo. Ou ainda pode ser que exista alternativas, como construir um sistema de hierarquia que seja construída sobre determinados valores e resultados. Porém, é preciso que esta fonte de produção de verdade entre na discussão política e seja resolvida também politicamente, e não simplesmente imposta pelo poder judiciário. Afinal, o poder judiciário é um poder político, e se ele estiver corrompido, como imaginar sua devida restauração sem que haja um processo político que misture as outras esferas do poder constitucional? Sei que são os outros poderes que constroem o topo do poder judiciário. No entanto, através deste texto, gostaria apenas alertar que isto é uma pauta de discussão que pode ajudar ao Brasil a diminuir esta discrepância entre o que o povo espera e o que realmente acontece na política para, portanto, ajudar no processo de validação da nossa democracia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário