Se toda violência for uma oposição de forças, há a força de quem deseja relacionar e há a força de quem deseja privar-se do relacionamento. Se aquele que não quer se relacionar for forte o suficiente para, através de sua privação, mudar a outra pessoa, então a violência foi forte o suficiente para alcançar seu objetivo. Caso contrário, cabe à própria pessoa repensar sobre sua relação com seu alvo de violência, pois talvez ela viva num mundo de ilusões, cabendo então sua própria readaptação a realidade. Afinal, toda iteração humana se dá através de relações, e se uma relação não vale nada para outra pessoa, por que se relacionar com ela?
Quaisquer outras formas de violência alteram outras áreas, que não o ser no seu sentido mais puro. Por exemplo, violência física degrada diretamente as funções vitais do ser. Privação econômica tem efeito parecido, principalmente se essa privação for ao nível de corte na manutenção do corpo que vive, contudo, em algumas ocasiões, a privação de relacionamento também implica numa privação econômica. Qualquer sistema social devidamente evoluído tem seus próprios mecanismos de adaptação, sendo estes os meios pelos quais aquele que deseja a mudança pode alcançá-lo, não precisando, portanto, recorrer à violência. Em uma sociedade parcialmente evoluída, a violência das leis já é algo grave o suficiente. Portanto, qual outra violência existirá, senão a privação do relacionamento?
Um homem na cadeia sofre a maior violência que ele pode sofrer, afinal. Preso, tendo comida e bebida, mas sendo privado do seu relacionamento com outros seres humanos e mesmo com a própria liberdade. Este castigo pode ser o suficiente para levar alguns homens à loucura, e para que tal não aconteça, é mesmo permitido que eles se relacionam entre eles mesmo dentro da cadeia. No entanto, há aqueles ainda que, mesmo dentro da própria cadeia, não entendem o suficiente sua realidade para alterá-la pelos devidos meios legais, fazendo-o ir ao que se chama de “solitária”. Algumas semanas na solitária e é possível ver um ser humano indo à loucura.
Acredito que qualquer sociedade que clame por outro tipo de violência que não a privação de relacionamento não está devidamente adaptada ao ser enquanto aquele que atua e se relaciona, não ao que é físico. Afinal, é possível matar fisicamente um ladrão, um mentiroso, um estuprador ou qualquer outro tipo de humano não socialmente aceito, mas não é possível matar aquilo que forma seu ser senão através de outras formas de se relacionar. A sociedade que criou um ladrão, que foi morto fisicamente, continuará criando novos ladrões se achar que apenas a morte física é o suficiente, e continuará matando se não alterar fundamentalmente o que ela é e seu comportamento.
Para matar realmente o ladrão, o mentiroso, o estuprador ou quem quer que seja, é preciso desenvolver formas de lidar com a vontade maldosa daqueles que a desenvolvem antes delas serem capazes de se materializar. Através da prevenção, com a psicologia e com uma sociedade justa, através da defesa, com mecanismos capazes de filtrar os agentes que desejam fazer o mal a um menor número, com o ataque, buscando formas de usar o que se tem para identificar quem atua, e com inovação, desenvolvendo novas formas de prevenção, defesa ou ataque, utilizando a experiência de quem, inclusive, cometeu tais crimes. Tudo isto apenas para garantir que aquele que erre receba sua punição: a privação de se relacionar-se com os outros.

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