Não tão sem sentido assim
(Caçadores de chuva)
(Caçadores de chuva)
Guilherme estava sentado na sua cadeira, olhando para a tela do seu monitor e pensando no seu novo projeto, mais uma vez. Ele já estava cansado dessa vida de rotina, onde resumia-se em, fazer projetos de acordo com os objetivos estabelecidos pela empresa nos dias de semana, e nos finais de semana, ficar em casa, lendo algum livro, escutando alguma musica ou navegando na internet. Ele queria mudar de vida, já estava pensando sobre isso, mas não sabia como.
A ultima vez que se sentiu empolgado com alguma coisa foi quando entrou na empresa, ele levava seus trabalhos no tom de desafio e isso o empolgava, mas tal desafio se tornou também rotineiro e por isso não trazia mais empolgação. Ele queria fazer algo novo e diferente na sua vida, algo imprevisível, diferente do seu trabalho, algo que o permitisse sair totalmente da rotina e do futuro que ele estava vendo em si mesmo, ao pensar que aquela situação rotineira poderia se estender até os restos dos seus dias.
E enquanto ele olhava para a tela do seu monitor, pensando na situação em que sua vida estava e em como não queria continuar assim, ouviu o som da chuva batendo na janela e algo na mesma chamou a atenção de sua visão, que ao olhar por ela, viu pessoas correndo da chuva procurando abrigo. Aquela cena o fez lembrar-se de quando era criança e de como era divertido correr na chuva, sem direção alguma, sem ter nenhuma preocupação ou pensamento, simplesmente se divertir, pular, brincar, rir e se entregar as emoções.
Levantou-se completamente animado com a idéia e motivado por aquela sensação que experimentou quando criança, olhou pela janela e pensou, vou fazer igual ao que eu fiz quando eu era criança, vestiu uma camisa e foi correndo em direção a porta, a qual abriu com tanta empolgação que quase se esqueceu de fechar, e esqueceu de trancar. Foi em direção ao elevador, apertou o botão várias vezes, olhou o marcador e viu que o elevador estava distante, pensou ele, só são quatro andares mesmo, e então saio disparado descendo as escadas, correu até a portaria, abriu a porta e lá estava ele, na chuva.
Ele mal pôde conter sua alegria, então começou a gritar e pular, as pessoas achavam estranho, pensou que ele tinha ganho na loteria ou semelhante, mas ele não percebeu os olhares, andou pulando por alguns quarteirões, ele não pôde expressar com palavras a ótima sensação que era a água batendo em seu rosto, o gostinho da água que tocava em seus lábios e a o friozinho bom que sentia em seu corpo enquanto corria, sentia-se incrivelmente feliz naquele momento.
E aquele momento passou, assim como sua empolgação, e ele começava a pensar na bes-teira que fizera. Resolveu voltar pra casa, ele estava resmungando enquanto andava e ainda estava chovendo forte. Subindo no elevador, olhou a si próprio no espelho que havia lá, estava todo molhando, ele não pensava em outra coisa além daquilo ter sido a coisa mais louca e sem sentido que fez em sua vida e a maior perca de tempo, pois aquilo não o ajudaria aparentemente em nada.
Chegou a sua casa, notou que se esqueceu de trancar a porta por toda a empolgação, e aquilo só ajudou a firmar sua opinião de que o que tinha feito não tinha sentido algum. En-trou no chuveiro, tomou um banho rápido, pôs suas roupas e resolveu voltar ao trabalho, e lá estava ele, sentado na sua cadeira, olhando para a tela do seu monitor e pensando no seu novo projeto, mais uma vez. E enquanto olhava para tela do monitor, teve pequenos flash-backs de toda sua empolgação e dos momentos de prazer que teve enquanto corria na chuva e pensou, não foi tão ruim assim.
Por: Leandro de Andrade Moura
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